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Uma reflexão sobre os discursos direto, tangencial e non sequiturs de Ogden e a busca da vida não vivida. Visitação: quando as palavras vêm ao nosso encontro

  • há 2 dias
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Capítulo 12 do livro "Por que Ogden?" (2023), com a autoria de Fátima Florido César [1], Marina F. R. Ribeiro [2].



Anunciação


(...) Nele, Maria está sentada perto de uma janela e vê-se pelo volume de seu ventre que está grávida. O arcanjo, de pé ao seu lado, olha-a.

E ela, como se mal suportasse o que lhe fora anunciado como destino seu e destino para a humanidade futura através dela, Maria aperta a garganta com a mão, em surpresa e angústia.

(...) É a mais bela e cruciante verdade do mundo.

Cada ser humano recebe a anunciação: e, grávido de alma, leva a mão à garganta em susto e angústia. Como se houvesse para cada um, em algum momento da vida, a anunciação de que há uma missão a cumprir.

A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro.


(Lispector, 2018, p. 179)


Visitação: quando as palavras vêm ao nosso encontro


Iniciamos com trechos da crônica de Clarice Lispector, Anunciação, em que a escritora descreve com singeleza e poesia a visitação à Virgem Maria pelo Arcanjo Gabriel. Certamente essa pequena prosa poética apresenta com inebriante beleza o que nos captura nessa experiência de "surpresa e angústia" da Virgem. Concentrada, rezando com devoção, Maria é surpreendida pela visita do anjo anunciando o impensável: ser ela a mãe do filho de Deus. Ela acolhe a mensagem, não sem assombro, o que nos leva a associar essa vivência entre sublime e assustadora a outras tantas experiências humanas. Isso porque também somos visitados em meio a névoas de devaneio pelo que vem de outro lugar para além do que nos cabe internamente. Somos convocados, anunciados e possuídos por alguma verdade que nos visita. Quantas vezes estamos absortos, tal como a Virgem, e somos atravessados por uma canção ou um pensamento, e desse modo capturados, ganhando novo corpo, hospedando o que nos chega como visita?


A crônica de Clarice nos possibilita uma experiência estética por sua beleza e também porque a sua leitura nos oferta uma visitação, dado que a poiesis é instrumento de comunicação que surpreende e nos traz uma amplitude de sentidos, nunca absolutos.


Assistimos a palavras de afetação sensível que se dão na acontecência do encontro humano e que emergem de dimensões inconscientes: é o que aqui chamamos de visitação. São modos do ser ou palavras que nos visitam arrebatadoramente, quando então somos capturados por estados de assombro que, se nos disponibilizarmos à condição de hospitalidade (sendo hospitaleiros para que a festa da novidade possa acontecer), nos tornaremos habitados, grávidos de possibilidades infinitas.


Fazemos uso da imagem metafórica da visitação para explicitar como, através das palavras no entre da dupla analitica, emerge uma verdade emocional, tal como aparece em vários relatos clínicos de Thomas Ogden. Escolhemos inicialmente um desses relatos, que se apresentam no texto O medo do colapso e a vida não vivida (2016a) já apresentado por nós antes. Vamos destacar o vigor transformador das palavras que vão direcionando para o que o autor assinala como próprio do existir humano e do adoecimento psíquico: porções de vida que não foram vividas e que precisam ser integradas para o indivíduo vir a ser o que é. Também apresentaremos vinhetas clínicas nossas, esperando que, das entrelinhas dos relatos, sobressaiam tanto o que aqui denominamos como "visitação" quanto a busca conjunta da dupla pela vida não vivida. Buscaremos alinhavar ideias de Ogden que envolvem linguagem, verdade e vida não vivida, articulando o texto citado com o capítulo "On language and truth in psychoanalysis", do livro Coming to life in the consulting room: Toward a new analytic sensibility (Ogden, 2022/2016, tradução nossa), fazendo uso ainda de algumas ideias e citações de outros textos do autor.


Para ilustrar a dimensão de vitalidade e desvitalização no processo analítico e sua relação com o uso da linguagem (veremos adiante três formas de discursos descritos por Ogden, cuja discussão ganhará importância para o entendimento da importância da linguagem), iniciaremos com a apresentação de um caso do próprio autor [3] relatado no texto "O medo do colapso e a vida não vivida", conforme citado.


A Sra. L sofrera uma negligência grave na infância: a depressão severa de sua mãe e o abandono pelo pai aos dois anos de idade. Ela se envolvia com homens que se interessavam por ela, mas depois a abandonavam. Interessara-se por fim por um vendedor de carros e todos os dias estacionava em frente à loja, observando-o, o que representava a grande motivação de sua vida e de seus pensamentos. Ogden (2016a) relacionava o estado de desamparo da Sra L. relativo ao vendedor ao seu sentimento de abandono por ele (Ogden) no final de semana e no ao final das sessões, interrupções repudiadas com muita raiva pela paciente. As interpretações eram estereotipadas, sem vida, plastificadas. O campo analítico estava bloqueado em sua criatividade psíquica e vivacidade - a esterilidade de ambas as partes era o que existia de mais real.


Até que Ogden diz à Sra. L. que sua insistência na busca do vendedor era sua parte mais saudável - o que a conduzia era a procura de suas partes não vividas. A Sra. L se espanta com a intervenção, achando que ele estava zombando dela. Ele responde que nunca tinha falado tão sério e que ela morrera na infância pelo abandono sofrido. Ela diz que achava que Ogden havia desistido dela, atendendo-a apenas porque não sabia como sair da situação. Isto foi o que de mais verdadeiro e honesto ela dissera. Conseguir o relacionamento amoroso com uma pessoa era a parte que a mantinha viva. Correr obstinadamente atrás dos homens significava reivindicar partes de sua vida não vivida, tanto no passado quanto no presente. A luta para sentir-se vivo(a) e real era de ambos na cena analítica: foi por vivenciarem mutuamente a falta de vitalidade na análise que chegaram ao único caminho para a verdade: de que ela tinha "morrido" na infância. Esta era a verdade dolorosamente temida, entretanto, buscada e viabilizada através da troca linguageira do par.


A linguagem como visitação


Destacamos a ideia da "visitação", a partir da seguinte afirmação de Ogden, ao referir-se à sua experiência com a Sra L.: "Só então fomos capazes de encontrar palavras - embora as palavras é que vieram ao nosso encontro - para podermos expressar o que viviamos naquele momento" (2016a, p. 90). Fazemos uso dessa breve menção como exemplo claro de que quando povoamos territórios fertilizados, propiciadores do emergir de verdades emocionais, não raro somos visitados pelas palavras (elas vieram ao encontro), mais do que vamos ao encalço delas.


É possível perceber, portanto, na "visitação", como a linguagem pode potencializar-se num papel transformador, o analista alcançando e sendo alcançado pelas palavras do paciente, inclusive o que delas esparrama e o que escapa nos silêncios eloquentes ou mesmo naqueles que transmitem áridos desertos de desamparo. Thomas Ogden em vários livros e textos faz proposições sobre a linguagem e seu papel fundamental no levar adiante o que ele denomina "análise viva":


Quando a análise está viva, ela naturalmente, por periodos de tempo, conduz-se como um experimento que saiu das margens bem traçadas da forma prescrita; é uma discussão alimentada pela curiosidade e pela variedade de tentativas, é um empreendimento que depende da troca genuína de pontos de vista e da comparação de posições. A análise que se transformou em configuração rotinira em que o "conhecimento" é transmitido do analista ao analisando, é desinteressante; já não é mais um experimento, pois as respostas, ao menos esquematicamente, são conhecidas desde a inicio (Ogden, 2013a, p. 25)

Para que a análise se apresente viva, algumas questões são lançadas: quando as palavras se apresentam vitalizadoras e vitalizadas (pensando que a vitalidade e desvitalização ocorrem no entre da dupla analitica)? Qual a relação da linguagem com a verdade emocional? O que pode ser pensado como essencial no processo terapêutico? Qual a relação da linguagem com o caminho para o alcance do paciente, auxiliando-o inclusive na busca de sua vida não vivida? São questões que precisam ser constantemente lançadas para mantermos uma posição móvel, um renovar de construções, ancoradas no campo ético e técnico no contato com o paciente. A predominância dos balizadores análise viva/linguagem viva nos protegem da queda na paralisia e na perda de uma mente própria e criativa.


É fundamental o papel que Ogden dá à linguagem, relacionando-a a um vetor de vitalização, ao cerne do que se entende por psicanálise, à sua intersecção com a verdade e com a busca de aspectos da vida não vivida.


Linguagem e verdade nos textos de Thomas Ogden


A complexidade da linguagem ganha expansão e profundidade no capítulo "On language and truth in psychoanalysis" do livro Coming to life in the consulting room: Toward a new analytic sensibility (2022/2016) quando Ogden discorre sobre três modos de conversa entre analista e paciente para chegarem à verdade da experiência: discurso direto, discurso tangencial, e discurso em non sequiturs [4]. Acompanharemos as três formas de diálogo, mas primeiramente citamos um pequeno trecho que sintetiza suas ideias e dá início ao que se segue:

Psicanálise como um processo terapêutico centra muito da sua energia em ajudar o paciente a experimentar, e dar voz, a uma verdade que tem sido perturbadora para ele por grande parte de sua vida, uma verdade que ele tem sido incapaz de pensar ou sentir porque tem sido demais para suportar. A linguagem desempenha um papel fundamental para trazer à vida a verdade emocional da experiência anteriormente insuportável na sessão analitica. (2022/2016, p. 141)

Seguiremos com o texto mencionado acrescentando algumas vinhetas ilustrativas (uma de Ogden e três nossas [5]) das três formas de diálogo que possibilitam o contato com a verdade emocional.


Mas o que é a verdade? [6] A verdade é tanto buscada como temida; e o diálogo analista-paciente terá como horizonte que juntos experimentem a verdade que foi impossível de ser pensada, sentida ou colocada em palavras. A verdade na sessão inclui aspectos não vividos da vida do paciente e eventos que o paciente não foi capaz de experienciar. Depois de um percurso terapêutico em que o encontro se mantivera desvitalizado, seguido de uma mudança na direção de uma vitalização, testemunhamos que Ogden e a Sra. L chegaram juntos à verdade de que esta havia morrido na infância. Uma verdade dolorosa, mas que eles puderam vivenciar juntos.


Selecionamos essa vinheta para ilustrar como uma verdade tão dolorosa pode ser vivenciada a partir da experiência conjunta analista-paciente; com a sustentação do primeiro. Assim, articulamos a linguagem com a metáfora da visitação com a busca da verdade emocional; esta envolvendo eventos que o paciente ainda não foi capaz de experimentar, como vimos em Winnicott (1994/1963), dessa forma permanecendo no "não vivido" (Ogden, 2014).


Chegar à verdade junto com a Sra. L dependeu da maneira específica de diálogo que cabia junto daquela paciente, desse modo, também, precisamos desenvolver formas únicas de falar com cada um que atendemos, sendo assim possivel trazer à vida a verdade do que ocorre entre os participantes do par analitico. Mas como se da a comunicação da verdade? Não primariamente no declarativo, na história relatada, mas na ruptura, na disjunção da conversa:

O que tenho em mente quando me refiro às rupturas do discurso são os lugares onde há disjunção - às vezes uma falta de correspondência entre as palavras e seus significados usuais, outras vezes uma lacuna aparentemente incompreensível entre o que uma pessoa diz e como a outra responde, e outras vezes ainda numa divisão entre o sentimento ou ideia que é esperado e aquele que é realmente declarado ou está implícito. (2022/2016, p. 142)

Nessas quebras no discurso, gera-se um clima emocional, no qual os dois participantes experimentam uma sensação de estarem perdidos, mas também um sentimento de maravilha em face do desconhecido e do inédito. Analista e paciente não podem mais permanecer no que eles pensavam que sabiam, pois o anteriormente conhecido não é mais suficiente para conter vigorosamente os elementos da experiência que agora emergiram. Ogden se refere assim aos pontos de ruptura da coerência esperada do diálogo - disjunção, lacuna, brechas -, quando uma experiência de assombro se dá transmitindo uma mescla de temor e maravilha.


Retomando a epígrafe de Lispector, quando Maria, diante da anunciação de que seria mãe do filho de Deus, é assaltada por um misto de espanto e de encantamento. Podemos pensar, também neste caso, na quebra entre o estado de oração, quando Maria se encontrava recolhida, e a inesperada visita do anjo com sua inaudita fala?


Assim como Maria, que se encontrava em devoção, em estado de abertura, quando algo que antes não era sabido lhe traz o surpreendentemente imprevisível, também após a disjunção, no encontro analitico, algo novo é inaugurado. O que se conhecia antes não abarca suficiente e significantemente o que emerge de novo na experiência da dupla. Surge daí uma encruzilhada: ou o par ignora o que está acontecendo na quebra do discurso, ou se abre e se apresenta suscetível a algo da verdade do que está acontecendo. Esta segunda possibilidade poderá ser viável, na medida em que:


O setting analitico - com seu modo não estruturado de conversação; a maximização do papel da linguagem e do som por meio do uso do divã pelo paciente; o esforço para liberar analista e paciente da hegemonia do processo secundário de pensamento, e em fazendo isso, permitir que o sonho acordado (devaneio - reverie) se torne uma forma de comunicação intrassubjetiva e intersubjetiva - tudo isso junto é projetado para ajudar o par analitico a entrar em um estado de mente em que uma experiência da verdade, e a verdade da experiência, pode se desdobrar, tanto na forma do que é dito quanto no que é deixado de fora. (Ogden, 2022/2016, p. 143)

A linguagem precisa ser uma possibilitadora de abertura à verdade e a tarefa do analista deve ser de não interpor sua perspicácia, sua agilidade mental, sua capacidade de empatia entre o paciente e a interpretação.


O crítico literário Michael Wood, citado por Ogden ao se referir ao lugar do escritor em sua escrita, observa: "escrever não é estar ausente, mas tornar-se ausente; ser alguém e depois ir embora, deixando vestígios" (1994, p. 18 apud Ogden, 2010, p. 93). Ogden vê nas palavras de Wood uma excelente descrição do que os psicanalistas buscam ao fazer interpretações. Mudar o paciente seria criá-lo à sua própria imagem - em vez disso, oferecer algo que contemple alguma verdade, de modo que ele possa realizar uma elaboração consciente, pré-consciente e inconsciente: "acompanhando qualquer crescimento psicológico, dessa forma não encontramos a assinatura do analista (isto é, sua presença), nem sua ausência (que marca sua presença por sua ausência), mas vestígios dele como alguém que estava presente e se tornou ausente, deixando vestígios" (2010, p. 93). Os vestígios se referem à experiência de fazer uso do que o analista disse, fez e foi, e não a sua identificacão com ele como pessoa. Não importa saber de quem foi a ideia ou de onde ou de quem brotou a ideia que ensejou a troca linguageira, mas sim encontrar palavras que tenham uma qualidade que corresponda verdadeiramente à experiência vivida. Experiência, verdade, presença sob a forma de vestígios, comunicações vivas estão interligadas e dizem das palavras que circulam entre os pares da dupla. Não precisamos nem podemos chegar à "Verdade Absoluta"; o mais importante, segundo Ogden, é chegar "muito perto/da música que acontece" (Heaney, 1979, p. 173 apud Ogden, 2010, p. 95). São verdades relativas que "representam um esclarecimento da vida - não necessariamente um grande esclarecimento, tais como aqueles nos quais se baseiam as seitas e os cultos, mas um esteio momentâneo contra a confusão" (Frost, 1939, p. apud Ogden, 2010, p. 95). Nas vinhetas que se seguirão, buscaremos vislumbrar o uso psicológico desses esteios momentâneos realizado pelo analista em conjunto com seu paciente.


Até aqui pretendemos, seguindo Ogden, enunciar como podemos pensar a linguagem - especificamente a interpretação de um modo amplo e eloquente, auxiliado pela poiesis, pela criação. Agora, sigamos nos encaminhando para as três formas de conversa que podem se dar no processo analítico.


Antes de prosseguir para a discussão dos três modos de discurso, Ogden ressalta que, quando ele fala de paciente e analista "sonhando" juntos, estará se referindo a pensar e sentir inconscientemente a verdade de uma experiência anteriormente impensável, com a sobreposição de sonhar do paciente e analista se situando no cerne da experiência analítica. Destacamos também seu esclarecimento de que não se dão linhas divisórias firmes entre as formas de diálogo: não é possível ver claramente quando uma transita para a outra.  


As formas de diálogo que serão apresentadas permitem que o paciente experimente com o analista a verdade que havia sido impossível de ser pensada, sentida ou colocada em palavras: a verdade da sessão envolvendo eventos ainda não experimentados - como mostra o texto O medo do colapso de Winnicott e sua leitura por Ogden - eventos estes que, como já vimos, correspondem a partes não vividas da vida do paciente (Ogden, 2014).


Há inúmeras formas de discurso (ele usa os termos diálogo e conversação também em equivalência ao termo discurso), mas abordaremos três: discurso direto, discurso tangencial e non sequiturs. Cada uma com uma forma própria de estrutura de linguagem que envolve uma interação ativa entre o significado manifesto e o implícito. Não é simplesmente a ilustração de formatos diferentes de conversação; mas se trata de maneiras próprias, únicas de analista e paciente falarem um com o outro de modo a ser possível trazer à vida a verdade do que está ocorrendo entre ambos.


Discurso direto - Em que pensas?


Esse modo de diálogo consiste em frases declarativas simples ("O que você está sentindo?", "Ansiedade"), uma forma de discurso direto, com pouco uso de metáforas, imagens visuais, ironias, etc. Entretanto, esse tipo de conversação é capaz de transmitir uma forma de verdade, que pode fazer sua aparição apenas nessa forma de diálogo.


Ogden, ilustrando as trocas diretas, relata seus encontros com uma paciente, a Sra. V., que descrevia em detalhes eventos entre suas sessões (após relatar o que podia lembrar da negligência advinda de sua mãe e do isolamento em resposta à ausência do pai - toda a história que podia lembrar). Procuraremos de forma sintética descrever a experiência da dupla, buscando ilustrar como o diálogo entre os dois se deu através do discurso direto.


Após um ano de análise de cinco sessões por semana, a partir de um devaneio, Ogden começou a pedir para a Sra. V. descrever o que estava sentindo durante os inúmeros eventos que descrevera. Suas respostas e as intervenções de Ogden não eram em absoluto recebidas pela paciente. Até que um dia ela respondeu, a uma das interrogações de seu analista, que ela havia se "sentido triste". Em réplica a tal resposta, ele pergunta: "Você realmente se sentiu triste"? A resposta final da paciente foi que quando ele perguntara o que ela sentia, ela realmente não sentia nada. Ogden respondeu à paciente que o que ela havia acabado de dizer era uma das primeiras coisas verdadeiras que ela havia comunicado. A paciente respondeu que achava que sim, ao que o analista questionou, "você realmente acredita nisso?" (2022/2016, p. 145-146). Ela então respondeu que não sabia, e o som de suas palavras aparentava tristemente verdadeiro.


A partir de sua declaração de que não sentia emoção, as conversas se apresentaram mais vivas e reais: as palavras carregavam então camadas de significado, quando antes elas apresentavam um significado literal, um palavreado vazio. Nessa ocasião, ela diz "Meu pai era alguém, eu não sou ninguém", enunciando algo que ela não sabia, até que as palavras saíram de sua boca o duplo sentido da palavra "ninguém" (2022/2016, p. 146). No lugar do palavreado vazio, o discurso direto foi reativado com força de vida "quando foi dito com um sentimento que soou verdadeiro ("Eu não sei [se eu acredito no que eu disse]"), e acenou em direção a uma verdade ainda não conhecida (o que é para ela "não ser ninguém") (2022/2016, p. 146). A forma do discurso continuou a se apresentar através de frases declarativas simples, não mudando muito; o que mudou foi o aparecimento de uma fala sem adornos e a percepção de como sentimentos e ideias foram suscitados por ela.


Procuraremos agora ilustrar, com uma vinheta de Fátima Flórido [7], uma mostra de discurso direto. Também adiante daremos exemplos próprios das outras formas de conversação.


Nas sessões com a Sra. Iza, esta com idade avançada, as palavras compunham um redemoinho (de onde não saíamos do lugar) em torno de declarações sobre a necessidade de morrer, já que não queria "dar trabalho para ninguém". Repetia insistentemente que era hora de morrer e eu era sugada por essas declaracões diretas e tentada a dizer como ela dava trabalho com seu discurso de não querer dar trabalho. Era verdade que a possibilidade da morte próxima era bastante provável, mas nossas sessões rodopiavam em torno do "dar trabalho". Eu não conseguia alcançá-la, assim como algo oculto (uma verdade emocional) nos espreitava de modo vazio e aprisionante, como um afogado envolvido com seu corpo morto num redemoinho em que plantas sombrias não deixavam que fosse avistado, resgatado e velado.


Após alguns encontros seguintes a este devaneio, surgiu, no meio da sessão, como uma pálida flor, o nome de seu falecido marido. Este fora muito retraido, propenso a eventuais explosões de raiva, sentindo-se inferior a todos os homens da família, atormentando eventualmente a Sra. Iza com seus arroubos e modo adoecido de viver. Pálida flor, porque o nome emergira com delicadeza, instaurando a abertura de um clima emocional inédito. Uma onda de ternura nos envolveu e as palavras me visitaram docemente: "A senhora sente saudades dele, não?". Algo novo e vivo fizera sua aparição. "A verdade tem algo inconfundível quando a ouvimos", afirma Ogden (2010, p. 101). A Sra. Iza respondeu num modo tão verdadeiro como comovente: "Sinto muita saudade! Ele me via sentada na sala e perguntava: 'em que pensas minha Iza"? - "Em você, meu Jozélio", ela respondia. Um campo de sensibilidades compartilhadas gerou um clima fortemente emocional: uma verdade genuína e colocada em palavras se apresentou. Uma fina tristeza me tomou então, simultaneamente à verdade da saudade que talvez nenhum dos que a conheciam suspeitava. Foi um encontro vivo e real liberto do redemoinho que vinha nos aprisionando.


Discurso tangencial - A analista bacana


Neste tipo de diálogo, a metáfora é predominante: "o reino de um sentimento ou ideia ou imagem tornando-se vinculado (transferido) a outro, e ao fazê-lo, criando um novo significado no espaço que é criado entre os dois elementos que estão ligados um ao outro" (2022/2016, p. 147)": quando duas pessoas estão envolvidas no discurso tangencial, "os participantes parecem fora 'do assunto' (em ambos os sentidos da palavra) e aludem a outros assuntos, outros significados, outras pessoas" (2022/2016, p. 146).


Ogden apresenta o sentido etimológico da palavra metáfora: deriva do grego meta (através ou além) e pherein (portar ou transferir).


No discurso tangencial os significados são transferidos de um ano manifesto para outro. A metáfora cria um espaço entre as duas coisas que estão sendo comparadas, em que significados proliferam (mas não há uma tradução única). Também os sonhos aludem ao significado inconsciente, mas não são decodificação dele. Vemos que se trata de alusão, mas não de explicação ou tradução. É uma experiência visual que as palavras não são suficientes para expressar. É como se estivéssemos no território do informe. Sonhos e devaneios - e sonhamos tanto dormindo como acordados - são metáforas para pensamentos e sentimentos inconscientes. Portanto, estamos o tempo todo construindo metáforas.


Quando sonhamos transpomos o significado além da experiência visual de sonhar o sonho -para a experiência verbal de entender o sonho. Mas não podemos falar em compreensão em relacão à experiência do sonho. É um equivoco afirmar que entendemos ou conhecemos a experiência inconsciente, esta é inacessível à consciência: Ogden afirma ser mais correto dizer que às vezes somos capazes de experimentar representações metafóricas do inconsciente, "como é o caso de um poema, não há outras palavras para dizê-lo, explicá-lo, traduzi-lo, parafraseá-lo, ou algo parecido. Um poema é imutavelmente ele mesmo, assim como um sonho" (2022/2016, p. 148).


Agora, vamos ao discurso tangencial no cenário analítico. Para tanto, apresentaremos um fragmento de análise de uma adolescente, Mel, sendo atendida desde a infância. Ela chegou apresentando um mundo sombrio (nas roupas, nas músicas, chorando copiosamente, cortando-se).


Encontrei uma menina desesperada que se sentia negligenciada pelos pais, os quais negavam a gravidade de sua condição emocional e desvalorizavam a vida subjetiva. Logo um vínculo se formou, seu quadro depressivo arrefeceu, dando espaço a um estado emocional de vazio a ser preenchido pelo apego à aparência fisica, a um comportamento sexual compulsivo e a um breve uso de drogas. Fora das sessões, ligava-me quando se desesperava por motivos que ela não sabia definir. Um vínculo de grande confiança se estabeleceu, os sintomas mencionados foram sanados, entretanto nada lhe interessava além de roupas, aparência, relações sexuais frequentes, e o que mais parecia atraí-la era o olhar do parceiro. Meu olhar era valioso para ela, desde a resposta às perguntas: "estou magra? estou bonita?", até meus esforços em enxergar nela partículas de vida subjetiva com algum potencial para desabrochar.


Tenho o hábito de usar a palavra "bacana". Sempre que falo que algo é bacana, Mel acha graça, falando que não se usa mais tal palavra. Recentemente, quando ela falou isso, lembrei-me de há muitos anos quando trabalhava numa creche. Lá muitas crianças passavam o dia inteiro e eu me encantava com algumas delas. Duas me chamavam de vez em quando de mãe. Em seguida a este meu devaneio, Mel afirmou que era bacana dizer bacana e juntas rimos. Essa forma de diálogo cabia naquele momento, referia-se unicamente a nós. A fala - no caso, a palavra bacana - só pode ser utilizável por Mel porque foi dita em termos de se aplicar a ela, naquele momento, ao mesmo tempo em que se manteve verdadeira no que diz, respeito à natureza humana em geral, como ressalta Ogden ao articular o que se aproxima da verdade tanto universal como pessoal.


Qual a verdade que tangenciamos? O que emergiu da comunicação metafórica? A palavra bacana, que "não se usa mais", aponta para a diferença de gerações e para o fato de eu ter idade para ser sua mãe. Talvez eu representasse uma mãe bacana, em comparação ao abandono vivido com a mãe, dessa talvez não tão bacana. Aproximamo-nos assim de forma leve de uma verdade dolorosa.


Discurso non sequitur - "Soltar as línguas"


O discurso na forma non sequitur se apresenta como modo extremo de discurso tangencial: escapa-nos por vezes a compreensibilidade da conexão entre dois pensamentos ou sentimentos; mesmo assim, ou por isso mesmo, pensamentos e sentimentos antes não expressos podem ser comunicados. O que é incompreensível é a lacuna entre as duas declarações do ponto de vista consciente, embora até certo ponto inteligível do ponto de vista inconsciente.


A verdade psíquica expressa sob a forma do non sequitur é, portanto, apreendida inconscientemente, e nem por isso deixa de ser perturbadora para ambos. As verdades não haviam sido até então reconhecidas porque foram muito dolorosas e difíceis de serem suportadas.


Como mencionado, essa forma de comunicação, como as outras duas, nunca ocorre de forma pura. Aqui, uma aparente desconexão oculta uma conversa profundamente íntima e requer que os dois pares do discurso façam muito trabalho psicológico inconsciente, já que estão lidando com os elementos aparentemente desconexos do non sequitur. É fundamental destacar que pensamentos e sentimentos inconscientes são "inexplicáveis" na medida em que não correspondem ao processo secundário. Sob o ponto de vista do processo secundário, seriam intraduzíveis. O discurso non sequitur se destaca em relação aos outros discursos no sentido de que comunica de perto a experiência inconsciente. Seguimos com uma vinheta (de Fátima Florido) que parece expressar o discurso non sequitur no cenário analítico.


Falo de Tomás, com quem desenvolvi uma forma única de diálogo, como foram únicos os modos de conversação com a Sra. Iza e com Mel. Com ele, sou levada a me apresentar de modo espontâneo, com vivacidade, emprestando meu corpo-mente; os gestos libertos avessos ao corpo engessado, ofertando não apenas palavras, mas palavras vivas, povoadas de afeto, minha voz em diversidade de entonações, interpretações que se modulam mais como razões/epistemes criativas e menos como convite a uma compreensão intelectualizada. Experimento uma liberdade que atinge corpo, palavras, voz, entonações diversas, gestos livres, enfim, uma presença viva e de posse de minha sensibilidade e afetos. Tal modo de estar com Tomás acontece como uma coreografia brotada unicamente do encontro de nós dois.


Foi nesse clima de "soltar as línguas" - palavra-corpo-afetos-que vinhamos caminhando. Tomás parecia precisar que eu lutasse por ele (no sentido de ajudá-lo a ficar na análise); nosso início foi fundamental para que se tecesse um campo de confiabilidade e esperança: circulávamos em rodopios entre os árduos e ternos alaridos dos começos. Lampejos de fé emergiam em meio à angústia, assim como se davam momentos em que se lamentava "patinando" às voltas com repetidas queixas. Numa ocasião em que se queixava, como se caminhasse num lodo lamacento assim me veio à mente a imagem quando mais adiante uma praia poderia estar a seu alcance, me mexi na poltrona e com gestos e tom de voz vigorosos lhe disse: "Para com isso, mulher!".


Assustei-me! Fiquei muito constrangida, "língua solta". Que "destrambelhamento" fora aquele? Depois veio o pior: me "enrolei" toda, comecei a teorizar (ai! A teoria que nos abriga desabrigando), desastre total! Tomás nada falou. Terminada a sessão, continuei ligada, pensei tê-lo ferido em sua homossexualidade. Como reagiria? Voltaria?


Na sessão seguinte, nada foi falado. Na outra, no meio de algo que falávamos, Tomás ficou em silêncio, dei um tempo, o suficiente para que algo fosse gestado. Chamei-o: "O que você está pensando?",


Foi a vez de Tomás soltar a língua:


"É que quando você me chamou de mulher, gostei muito. Quando estava na faculdade, nós nos tratávamos assim: o Toni, por exemplo, era Antônia. Aqui em casa preciso tomar cuidado com os gestos, queria muito ter essa liberdade de usar o feminino ou ser chamado desse jeito". (Lembrei que ele já havia me falado que gostava de se "montar" algo dito fazia tempo e que agora entrava de novo no campo do encontro, algo que ficara na "nuvem" e que construimos juntos quando minha "língua se soltou".)


Falei: "Lembrei que você gosta de se 'montar".


"Já que estamos juntos, vou te mostrar uma coisa", me disse Tomás. Era uma foto dele como mulher, orgulhoso(a) de como assim ficava bonito(a).


Reagi com voz vibrante: "Que linda!", e seguimos comentando sobre a peruca perfeita, a maquiagem que eu gostaria de saber fazer, a boca linda e bem desenhada.


Hospitalidade e visitação


Retornamos agora à metáfora da visitação e da anunciação da Virgem Maria. Esta precisava estar em condição de hospitalidade: o corpo em posição côncava, com a desnudação da pele exposta, disponibilizando a vulnerabilidade de uma pele com a sensibilidade oferecida à caricia, mas também aberta ao ultraje e à ferida, pois recebera em surpresa e susto a missão, tamanha a entrega aos desígnios de seu Deus. Tal disposição a hospedar em seu corpo o filho de Deus sob a forma de missão foi condição para ser visitada e receber a anunciação de que - eis o impensável inusitado - embora virgem, daria à luz.


Também precisamos habitar uma ética de hospitalidade para sermos visitados, embora seja essencial lembrar que a visita do inesperado chega para o par analítico; os dois em condição de concavidade para a recepção do que Ogden denomina de disjunção. O autor de um entendimento (verdade relativa) não foi um, nem outro, e se houve um autor, foi o terceiro sujeito inconsciente da análise, que é todos e ninguém; nas palavras de Ogden:

(...) vejo a experiência de devaneio do analista como uma criação de uma intersubjetividade que eu chamo de "terceiro analítico", um terceiro sujeito da análise, que é criado pelo analista e pelo paciente de maneira conjunta, porém assimétrica. (2010, p. 102)

E esclarecendo ainda mais:


(...) vejo o terceiro analítico inconsciente do analisando e do analista como pessoas separadas, cada um com sua história pessoal, organização da personalidade, qualidades de autoconsciência, experiência corporal e assim por diante. (2010, p. 102)

(...) se houve um autor da ideia que foi comunicada numa interpretação, foi o terceiro sujeito inconsciente da análise, que é todos e ninguém; um sujeito que era tanto o paciente quanto o analista, e nenhum dos dois. (2010, p. 102)

As palavras que se manifestam através dos três discursos não são procuradas, como diz Ogden. Elas nos chegam, elas nos visitam. As três formas de diálogo podem oscilar nessa busca de viver o que ainda não foi vivido e podem remeter à verdade emocional do paciente. As quatro vinhetas apresentadas nos três tipos de conversação expandiram a verdade emocional relacionada a aspectos da vida não vivida. Muitos de nossos pacientes "morreram na infância": uma verdade dolorosa e temida, como no caso da Sra. L, de Ogden, ou de Mel (nossa vinheta). E, vinculando "a vida não vivida" aos três discursos (nenhum modo de conversa com maior intimidade do que os outros e, simultaneamente, cada um se apresentando como vértices oscilantes), reafirmamos a relação da linguagem com a verdade. Articulando a leitura de Ogden do texto winnicottiano "O medo do colapso" com a busca da verdade, entre temida e ansiada, vinculamos ainda a linguagem como meio de favorecer a integração de aspectos da vida não vivida, a busca urgente de encontrá-los para completar-se, para o indivíduo tornar-se inteiro através da integração do máximo possível de sua vida não vivida, de modo que venha a ser o que é.


Cada par analitico está engajado desde o início na tarefa de criar um caminho de falar em conjunto o que é adequado para dar expressão tanto ao temor do paciente quanto à necessidade do paciente de saber a verdade de sua experiência.


Faz parte de nossa posição, enquanto analistas, que salvaguarde-mos uma ética em que se abra mão de uma "assinatura" do processo terapêutico: estando presentes e depois ausentes, deixando "vestígios". Assim, esperamos que nossos pacientes fiquem apenas com os vestígios, desejando que, no trabalho do par, tenhamos conseguido alcançar um "esteio momentâneo contra a confusão".


Finalizando, linguagem e verdade estão entrelaçadas: a verdade que se apresenta difícil de ser experienciada no setting analitico, pois é a verdade de experiências que foram insuportáveis no passado e continuam insuportáveis e remetidas a aspectos de vida não vivida.


Vamos terminar este capítulo com as palavras aladas de Thomas Ogden:

(...) parece que o que é verdadeiro é atemporal, sem lugar e maior do que qualquer individuo e, contudo, vivo apenas por um instante e específico a um conjunto de circunstâncias que constituem aquele momento da experiência vivida por uma pessoa. Em outras palavras, em uma análise, o que é universalmente verdadeiro é também intensamente pessoal e peculiar a cada paciente e a cada analista. Uma interpretação analítica, a fim de ser utilizável pelo paciente, deve falar em termos que só poderiam se aplicar aquele paciente naquele momento e ao mesmo tempo se manterem verdadeiros à natureza humana em geral. (2010, p. 94)

A anunciação de palavras aladas deixam vestígios em nós que compõem o nosso ser a cada experiência analitica vivida e sonhada.


Notas


1 Doutora e pós-doutoranda pela PUCSP e pelo IPUSP. Autora dos livros Dos que moram em movel-mar: elasticidade da técinica psicanalítica, Asas presas no sótão: psicanálise dos casos intratáveis, Do povo do nevoeiro e Chuva n'alma. A função vitalizadora do analista.


2  Professora doutora do Instituto de Psicologia da USP.


3 Algumas ideias sobre esse caso também estão presentes no livro Do povo do nevoeiro: psicanálise dos casos dificeis. Cesar, F. F. São Paulo: Blucher, 2019.


4 Significando não sequencial, quando há uma quebra mais radical.


5 Estamos usando o plural, pois o texto é nosso, no entanto, as vinhetas são da clinica de Fátima Flórido Cesar.


6 A resposta a esta questão não é passivel de ser "fechada"; no decorrer do texto, discorreremos sobre ela.


7 A descrição da vinheta está em primeira pessoa.


Referências


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