As Palavras Aladas [1] de Ogden
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Capítulo 11 do livro "Por que Ogden?" (2023), com a autoria de Fátima Florido César [2], Marina F. R. Ribeiro [3].

(...) a linguagem não é apenas uma cesta na qual as ideias são transportadas: a maneira pela qual a linguagem é usada para expressar uma ideia é inseparável do conteúdo da ideia [4]. (Ogden, 2016a)
(...) Porque a maneira de reduzir o isolado que somos dentro de nós mesmos, rodeados de distâncias e lembranças, é botando enchimento nas palavras. É botando apelidos, contando lorotas. É, enfim, através das vadias palavras, ir alargando os nossos limites. (Manoel de Barros, 1985)
Este capítulo tem como objetivo discorrer sobre o pensamento de Thomas Ogden no que se refere à compreensão das ideias de vitalidade e de desvitalização no processo analítico, mas, primordialmente, sobre a importância da linguagem do analista; do que aqui chamamos de palavras aladas. Introduzimos um primeiro sentido para tais palavras com asas: a imprecisão e a incerteza instaladas no que várias vezes nomeamos de palavras aladas possibilitam que seja mantido o vivo do fenômeno, com rasgos e deslizes, ou seja, a experiência do encontro analítico. Palavras e silêncios vivificadores ao liberar as amarras do seio de tudo saber. O verbo que voa e escapa e que apenas na recusa das certezas sustenta a experiência viva. As vadias palavras que o dizer poético de Manoel de Barros, só estas, que promovem invenções e escapam da gramática, são capazes, sejam lorotas e apelidos, de alargar os nossos limites. Alargar nossos limites nos serve como tradução em poiesis do que Ogden com muito apreço ressalta como o objetivo da análise: auxiliar o paciente a tornar-se o mais "plenamente humano". A vitalidade é parte desse horizonte: ampliar a capacidade de sentir-se vivo. Transitaremos pelo tornar-se vivo e humano e o discorrer da linguagem, não qualquer uma, mas uma determinada, as palavras aladas que pretendemos apresentar de tal modo que possibilite o alcance desse horizonte, ou poderíamos dizer no plural: horizontes do humano.
Antes que nos dediquemos diretamente ao tema proposto, é interessante destacar, a partir da introdução do livro de Ogden, Leituras criativas (2014), como ele se apropria das ideias e das leituras que faz de outros autores da psicanálise, ou mesmo de qualquer leitura. Sua leitura é uma experiência: ele escreve o que vive ao lê-los. Neste livro em particular, ele propõe uma leitura criativa de obras importantes de Freud, Fairbairn, Isaacs, Winnicott, Loewald, Searles e Bion.
Ogden afirma que a leitura criativa constitui uma experiência em que se faz algo ativamente com o texto, "tornando-o (o texto) nosso, interpretando de modo a acrescentar-lhe algo que não estava ali antes de eu ler" (p. 22). Um pouco mais adiante, ele acrescenta que quando lê, tenta ser tomado pela obra do escritor: ao ler um texto de Melanie Klein, torna-se kleiniano. Do mesmo modo, ao realizar uma releitura do Medo do colapso de Winnicott (1994/1963), como apresentaremos também neste capítulo, ele se apresenta winnicottiano e, a partir desse lugar, desenvolve suas próprias ideias sobre o texto mencionado.
Ogden fez uma leitura criativa de conceitos seminais das obras de vários psicanalistas, ele aconselha que o leitor decida a quem dar crédito por suas inferências:
Ainda que as palavras sobre a página permaneçam as mesmas, o que muda, quando faço uma leitura criativa bem-sucedida, são os significados das palavras e das sentenças, significados que aguardavam o momento de serem descobertos, mas que até então jamais encontraram um leitor que os descobrisse, que fosse modificado por eles, e que mudasse esses significados possíveis no processo de descobri-los (Ogden, 2014, p. 32).Fica-nos como proposta a leitura e a escrita como experiência. Ao escrevermos esse texto, apostamos que a nossa escrita tenha transcorrido de modo criativo: que tenhamos nos apropriado, ao nosso modo, de Ogden, como este o fez com vários autores seminais da psicanálise. Esperamos que nosso leitor igualmente se disponibilize a uma leitura criativa, e que seja vivida como uma experiência.
A linguagem psicanalítica viva de Thomas Ogden
Quando eu morder
A palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
(Da calma e do silêncio, Conceição Evaristo, 2008)
Retomamos à importância que Thomas Ogden dá ao sentimento de vitalidade e desvitalização na transferência-contratransferência, considerando-o como a medida mais importante do que ocorre no decorrer da sessão analítica e ao seu destaque e apreço pela centralidade da linguagem no processo terapêutico: da vitalidade das palavras e na vitalidade em palavras. Nomeamos as palavras com tal potência, dentro do estilo clínico de Ogden, de palavras aladas. Já no início do livro Reverie e interpretação, anuncia-se a adequação da escolha do termo "aladas":
As palavras e frases, bem como as pessoas, deve-se facultar certa imprecisão. Não pretendo sugerir que palavras, frases (e seres humanos) possam significar (ou ser) qualquer coisa que queiramos que elas signifiquem (ou que sejam). Ao contrário, chamo a atenção para o efeito asfixiante sobre a imaginação ocasionada por nossos esforços de definir, especificar, com precisão cada vez maior, o que queremos dizer (quem nós somos). A imaginação depende de um jogo de possibilidades. No melhor dos casos, neste volume, palavras e frases só estarão frouxamente "fixas à página". (Ogden, 2013a, p. 21)Tal frouxidão fala de palavras com asas - aladas - e para adentrarmos em seu pensamento sobre a linguagem, faremos uso dos seguintes textos: Sobre o uso da linguagem (2013b), How I talk with my patients (2022/2018) On language and truth in psychoanalysis (2022/2016), On talking-as-dreaming (2007), estão, também presentes, referências do livro Reverie e interpretação, de onde partiremos a fim de articularmos à palavra viva a análise viva -o vértice presente em torno do qual, como dissemos acima, se encaminha o processo analítico.
Quando foi a última vez que analista e paciente sentiram a análise com vida? É com essa pergunta que Ogden inicia o capitulo "Analisando formas de vitalidade e desvitalização" do livro Reverie e interpretação (2013c). O autor destaca a necessidade de liberdade criativa e espontaneidade, de modo a responder ao analisando a partir de suas próprias experiências. Análise viva e linguagem viva possibilitam a vitalização do paciente - na verdade, da dupla analítica - constituindo contraponto à linguagem morta, a um encontro analítico plastificado por dogmas ou paralisias do par. Uma análise viva requer que o analista esteja livre para experimentar, abandonando o caminho estagnado das formas prescritas: uma variedade de tentativas deve ocorrer, movidas pela curiosidade que une os participantes na perspectiva ativa e móvel de se exercitar. A abertura para o inédito garante o que Ogden destaca como manutenção do experimento, quando os caminhos são imprevisíveis, cambiantes, e a monotonia não tem lugar. Devemos, pois, evitar as paralisias e a condução para lugar nenhum, quando, de modo extremamente estéril, o conhecimento é transmitido do analista para o paciente.
Mas o que constitui uma análise viva? Como encaminhar o processo analítico nessa direção? De que modo estaremos aptos a acompanhar os movimentos de vitalidade e desvitalização acontecendo na sessão? Estas são questões cruciais que nos fazem despertar ética e tecnicamente para a maneira de lidarmos com períodos de "banho-maria", "água morna", extravios da vitalidade necessária; buscando encaminhar o encontro para o que Ogden assinala como principal objetivo terapêutico:
Acredito que cada forma de psicopatologia representa um tipo específico de limitação da capacidade pessoal de estar plenamente vivo como ser humano. Deste ponto de vista, o objetivo da análise vai muito além da resolução de conflitos intrapsíquicos, da diminuição da sintomatologia, do aumento da subjetividade reflexiva e autocompreensão e do aumento do sentimento da competência pessoal. Ainda que se sentir vivo esteja intimamente entremeado com cada uma das capacidades acima mencionadas, a experiência de se sentir vivo e uma capacidade superior às outras e deve ser considerada como um aspecto da experiência analítica em si mesma. (Ogden, 2013c, p. 39)Auxiliar o paciente na ampliação de sua experiência de se sentir vivo (considerando que alguns sequer alcançam tal capacidade) constitui, assim, o principal horizonte da análise, não desconsiderando as outras conquistas. Complementando de modo singular tal objetivo, Ogden destaca o trabalho do par analítico para ajudar o paciente a tornar-se mais humano do que ele tem sido até então:
"é a exigencia da espécie humana, tão básica quanto a necessidade de alimento e de ar" (Ogden, 2013a, p. 31) - e vai além da sobrevivência. Estar vivo liga-se, portanto, a tornar-se humano, o que é bem diferente de simplesmente sobreviver.
A capacidade de estar vivo comporta, portanto, a possibilidade da experiência dos vários modos de estar no mundo e de acessar as várias facetas de nosso ser, alegrias e tristezas; inclusive saber submergir e emergir de naufrágios. É o que nos conduz ao pertencimento à espécie humana: ligamos aqui o sentir-se vivo com o experimentar o mais amplamente possível as emoções humanas. Ogden ressalta, entretanto, que faz parte de toda humanidade a incapacidade de sermos plenamente humanos; desesperados, fazemos "silenciosos pactos" (Ogden, 2013a, p. 32) na maior parte, inconscientes - que seriam soluções patológicas. Deixamos assim, em grande medida, de nos tornarmos humanos, podendo mergulhar no inumano - substituindo a vida por modos de existir nem humanos nem vivos. Modos plásticos de viver: eis o cerne da psicopatologia pensada pelo autor, assim compreendemos. O resultado não é vida, mas imitação da vida e da experiência humana:
"uma forma de autolimitação inconsciente da capacidade de vivenciar estar vivo como ser humano" (Ogden, 2013a, p. 33).Reconhecemos em Ogden a importância fundamental que este atribui à linguagem como caminho para a apreensão e transmissão do sentido da vitalidade no cenário analítico. Sugerimos que o analista deve lutar ativamente com a linguagem no empenho de criar ideias e frases e voz própria para pronunciá-las. A luta para transmitir a própria experiência com palavras, e com voz própria, é grande parte do que constitui estar vivo na relação analítica (Ogden, 2013b, p. 202). Para que a análise se configure como um acontecimento humano, é preciso que tanto nós quanto nossos analisandos façamos uso da palavra simples e viva - aquela que emerge a partir de nossa própria voz, não sendo determinada pelos dogmas, prescrições analíticas, filiação a técnicas ou escolas.
Mas reconhecemos, assim como Ogden, que não é fácil falar com simplicidade, com uma voz que soe espontânea, humana, não "terapêutica" (Ogden, 2013a, p. 28), de modo que possamos abarcar os inúmeros modos de sentir e ser, transitando entre altos e baixos da emoção humana, chegando até a beirar precipícios.
Mas o que constitui uma comunicação viva? Entendemos que se trata de habitar um campo de imprecisões, de não fixidez de significados (como nos referimos no início), de movimento constante, de modo que a palavra se apresente diferentemente no decorrer dos encontros, mostrando-se, a cada momento, nova, cambiante, tal qual a vida. Assim devem transcorrer os encontros terapêuticos, libertos de paralisia e facilitados por uma linguagem de incertezas sempre mutável. Só assim podemos habitar um lugar de lucidez, sempre precária, lusco-fusco entretanto, capaz de constituir oferta de possível abrigo fértil na precariedade do existir; paradoxalmente no que não se fecha nem se conclui, no que se sabe pouco. De modo contrário, a linguagem estagnada, vinculada à ideologia de escolas analíticas, perde sua principal tarefa, que é transmitir o sentido da experiência humana viva, sobressaindo a falta de vitalidade. No dizer de Ogden:
A linguagem analítica ideológica já não está mais viva, porque decide desde o início a resposta às perguntas que já são conhecidas pelo analista e a função da linguagem reduziu-se a demonstrar esse conhecimento para o analisando. (Ogden, 2013b, p. 198)Nesse tipo de fala teórica interpretativa, falta a imaginação do analista, que perdeu sua capacidade de pensamento original, delegando sua mente e seu uso de linguagem a outro (real ou imaginário), frequentemente sem perceber:
"Esse tipo de comunicação, de tão assustadora, pode levar o analisando a esconder do analista o reconhecimento de que em certo sentido esse perdeu sua mente" (Ogden, 2013b, p. 199). O autor contrapõe, portanto, à palavra viva, a linguagem morta, a retórica terapêutica seca:
"A fala do analista deve ser criação de uma pessoa viva. A fala humana viva é tão difícil de adquirir na linguagem falada do analista quanto na prosa ou no verso escrito" (Ogden, 2013a, p. 28-29).Estamos cada vez mais adentrando o pensamento de Ogden sobre a importância da linguagem como meio de trazer a vitalidade ao encontro analista-analisando: o acontecimento de uma experiência humana assim como o contato com a verdade emocional:
"A linguagem não é um pacote em que se embrulham as comunicações, mas o meio pelo qual se traz a vivência à vida no processo de ser dita ou escrita" (Ogden, 2013b, p. 183).É preciso, pois, a salvaguarda da imprecisão de não dar respostas pré-fabricadas, não chegar ao significado exato, não saber demais. Estamos no campo do humano, do que está em constante movimento - nós, seres inexatos e imprecisos. Para acessar essa experiência de natureza instável, faz-se necessário o desenvolvimento de uma linguagem que a revele, que a traga para a vida:
O discurso analitico exige do par o desenvolvimento de uma linguagem metafórica adequada à criação de sons e significados que reflitam como é pensar, sentir, e vivenciar fisicamente (em resumo, estar vivo enquanto ente humano na sua capacidade máxima) em um dado momento. (Ogden, 2013b, p. 189)O analista, quando cria afirmações metafóricas que constituam interpretações, não deve ser invasivo no intuito de demonstrar destreza com as palavras. Em suma, devemos desenvolver a capacidade de "criar sentimentos por meio das palavras, no lugar de exibir sentimentos por palavras" (Ogden, 2013b, p. 189). Fica claro que o acontecer no setting analítico, em termos de vitalidade e desvitalização, exige que nos esquivemos da palavra árida, "desmetaforizada", explicativa, causalista, investindo em palavras irrigadoras capazes de criar e captar a experiência humana, que possibilitem o emergir de uma ampla gama de emoções: isto é vitalidade/vitalização.
Portanto, assim como Ogden, entendemos que a linguagem tem importância central na psicanálise; principalmente se temos como objetivo "ajudar o analisando a efetuar mudança psíquica que lhe permita ser mais plenamente humano" (Ogden, 2013b, p. 195), descrevendo inclusive os medos mais urgentes (a dor psíquica) que o impedem de experimentar o encontro.
Reconhecemos a estreita ligação entre vitalização e vitalidade à linguagem viva, à manutenção da capacidade imaginativa do analista e de sua mente própria, à criação da própria fala e da própria voz, criação esta vista por Ogden (2013b, p. 202) como um "ato de liberdade". Linguagem morta, estereotipada, a fala sendo emitida apenas através de lugares-comuns: é assim que as interpretações perdem a vitalidade, "pré-embaladas enviadas a ninguém em especial por ninguém em especial" (Ogden, 2013b, p. 199).
Assim como falamos de "imitação da vida", assistimos aqui à "imitação da análise" (Ogden, 2013b, p. 201). Uma análise encapada, plastificada, que prioriza a certeza e o conhecimento em oposição ao provisório, ao sentido instável, ou seja, paralisia e fixidez em oposição ao movimento, à mudança, ao que surpreende. Não podemos nos esquecer, pois, de que a fala com cada paciente é única: diferentes tons de voz, afinações, volume, cadências, sintaxe, escolha de palavras ganham ressonância na sala de análise.
Conversa verdadeira e íntima caminham pari passu: "E tal conversa é uma criação que somente esse paciente e esse analista (o analista que estou me tornando na análise) poderia trazer à vida dessa maneira particular" (Ogden, 2016b, p. 3). O uso de linguagem metafórica e poética, em oposição a uma linguagem decodificadora, traz à vida emoções ainda não experienciadas, ou seja, cria um elemento novo entre analista e analisando, ampliando, dessa forma, a área de intimidade da dupla analítica. Os grifos do autor apontam para o ineditismo de cada conversa analítica. Se a análise não acontece para esse paciente em particular, ela se torna genérica e impessoal para ambos os participantes. Esse modo especial de a dupla se encontrar é condição de manutenção de vitalidade no setting analítico; caso contrário, o tédio e a aridez podem dominar o cenário.
O que fazemos com as pessoas que nos procuram para a análise?
Ogden (2016a) lança esta questão e responde: cada paciente traz para a análise a sensação de que em um importante sentido "morreu" na infância, ou em uma fase posterior, e espera que o analista o auxilie a restaurar "sua vida não vivida". Também Winnicott adverte que a fonte da morte psíquica é uma série de eventos ocorridos na infância, que envolveram "agonias primitivas" (Winnicott, 1994/1963, p. 72), as quais o paciente não pode suportar. Ameaçado por tais vivências de terror, o "paciente se ausenta de sua vida", protegendo-se assim de um colapso psíquico e de uma psicose. Paradoxalmente, quando os eventos aterradores não podem ser experimentados, acabam por gerar um estado psíquico tal que uma "vida não vivida" persiste.
Ogden (2016a) destaca que todos nós temos aspectos não vividos de nossa vida que foram muito dolorosos de serem experimentados. O "não vivido" permanece como formas de limitações em nossa personalidade. O autor ressalta que estamos sempre envolvidos no trabalho inconsciente de sonhar acordados ou dormindo - sozinhos ou com os outros - com o objetivo de integrar os aspectos não vividas de nossa vida. Tais ideias nos interessam na medida em que nos colocam como tarefa analítica o desenvolvimento de uma linguagem viva que possibilite o trabalho de restauração da vida não vivida do paciente.
No texto O medo do colapso e a vida não vivida, Ogden (2016a) estabelece uma fértil interlocução com o texto de Winnicott, intitulado O medo do colpaso (1994/1963) destacando que é próprio do existir humano, como já foi dito acima, a persistência de porções da vida que ainda não foram vividas e que clamam por integração com o fim de o individuo completar-se - de vir a ser o que é. Fazendo sua própria interpretação do conceito de breakdown de Winnicott, Ogden (2016a) refere-se a ruptura do vínculo mãe-bebê, sendo este lançado em uma condição extrema de desamparo e ameaçado de não existência. Adverte, entretanto, que não se trata de um surto psicótico, pois a psicose constitui uma defesa contra a experiência de ruptura. Quando isolado de sua mãe, o bebê lança mão da defesa psicótica de desintegração, como recurso paradoxal para livrar-se da agonia que surge por não conseguir se organizar, produzindo então um estado de autoaniquilamento. Como não tinha constituição psíquica suficiente para experimentar a quebra do vínculo mãe-bebê que ocorreu na infância, o individuo vive com medo de um colapso que já aconteceu, mas que não experimentou.
Ogden (2016a) amplia o pensamento de Winnicott, supondo que o que mobiliza o paciente para encontrar a fonte do medo do breakdown é o sentimento de que partes dele estão em falta e que precisa encontrá-las para tornar-se inteiro: o que resta de sua vida é principalmente uma vida não vivida. Aqui, reconhecemos o que Ogden destaca como uma das mais importantes tarefas da análise: o indivíduo, não tendo experimentado partes do que aconteceu na primeira infância, clama por reivindicar essas partes, de modo a completar-se por meio da integração do máximo possível de sua vida não vivida (não experienciada). Esta é uma necessidade universal - a necessidade de ter a oportunidade tornar-se a pessoa com o potencial de ser, que lhe é próprio. Devemos ressaltar que a hipótese de Winnicott (1994/1963) é a de que o medo do breakdown é um medo de um colapso que já aconteceu, mas não foi experimentado. Ampliando esse pensamento, Ogden (2016a) destaca todos nós passamos, em diferentes graus, por breakdowns relevantes no vinculo mãe-bebê e nos defendemos deles através da ativação de organizações defensivas psicóticas.
Retornamos aqui à importância da capacidade de estar vivo e, a partir desta ideia, da necessidade de o analista auxiliar o analisando sentir-se mais plenamente vivo através da integração de aspectos da vida não vivida; sendo central o uso da linguagem de modo vivo, de tal forma a favorecermos os processos de vitalização. Permanecer vivo em nossas experiências constitui a base para o começo de um existir pleno. Entretanto, todos nós em alguns momentos perdemos tal capacidade, tornando-nos incapazes de sentir que estamos vivos dentro de nós ou para o mundo que nos cerca. Limitações (da capacidade de sentir alegria, de amar um ou todos os nossos filhos, de sermos generosos, de perdoarmos alguém) constituem aspectos de nossa vida não vivida e se referem ao que não pudemos ou continuamos incapazes de experienciar. A busca do não vivido é condição universal: o retomar as partes perdidas de nós mesmos. Assim, o objetivo da análise, responde Ogden (2016a), é ajudar o paciente a viver sua vida não vivida na transferência-contratransferência.
Porém, sentir-se vivo pode ser demasiadamente dolorido para pacientes com formas agudas de medo de um breakdown, pois isto aponta para o quanto de sua vida não puderam viver: a vida lhes foi tirada, o que gera extrema dor. Aqui, voltamos a ressaltar a importância da palavra viva para auxiliar o paciente a viver sua vida não vivida: esta sempre dentro de uma dimensão em que o experimento e a criatividade psíquica se apresentem de modo não estático. Auxiliar o paciente a viver sua vida não vivida, sendo como foi dito o objetivo da análise entrelaça-se com o uso da linguagem; desde que esta se estruture de modo tal que favoreça o contato com a verdade, propiciando que a palavra alcance o paciente.
Mas em que consiste uma linguagem viva?
Não gosto de palavra acostumada.
(Manoel de Barros, 1996)
Portanto, encaminhamo-nos para a questão: que linguagem é capaz de alcançar o paciente de modo a auxiliá-lo a vir a ser o que ele é? Continuemos na compreensão do que seja palavra viva, a que pode auxiliar o paciente a recuperar partes de sua vida não vivida, palavra alada com potência para conduzir aquele a tornar-se o mais plenamente humano; com mais atenção ao como falar do que o que falar.
Para isto, apresentaremos o texto How I talk with my patients [5], que é iniciado pelo autor com a seguinte comunicação:
Talves as questões clínicas mais importantes, aquelas mais dificats para mim como um psicanalista praticante, são aquelas que não estão tanto relacionadas com o que eu digo aos meus pacientes, mas sim com como falo com os meus pacientes. Em outras palavras, meu foco ao longo dos anos mudou do o que en quero dizer para como eu quero dizer. Claro, os dois são inseparáveis, mas neste artigo eu coloco ênfase no último. Vou discutir problemas e possibilidades gerados pelo reconhecimento de que nós nunca podemos saber da experiência do paciente; a impossibilidade de generalizar sobre como falamos com os pacientes dado que cabe ao analista reinventar a psicanálise com cada paciente; a abordagem do analista ao medo do paciente de mudança psíquica; a maneira como "fora de si" do analista, seus mal entendidos e declarações incorretas podem promover a expressão criativa por parte de ambos paciente e analista; e as maneiras pelas quais descrever a experiência, como em oposição a explicá-la, promove melhor o discurso que aborda o nível inconsciente do que está ocorrendo na análise. (Ogden, 2022/2018, p. 57, destaque do autor)
O texto procura, portanto, lançar luz sobre o uso das palavras, assim como na necessidade de nos calarmos, de modo tal que alcancemos o paciente, lembrando da importância de evitar o uso da linguagem que convida o paciente a se envolver predominantemente no pensamento do processo secundário consciente, quando dimensões inconscientes do pensamento é que são solicitadas. Para tanto, ele propõe que utilizemos mais a descrição em oposição à explicação, a fim de facilitar o processo analítico. Da mesma forma, a certeza por parte do analista impossibilita tanto o processo analitico quanto o potencial do paciente para o crescimento psíquico.
Assim como o processo primário é inseparável do processo secundário, igualmente estão ligados o que dizer com o como dizer, entretanto, a ênfase será dada neste último, que o autor nomeia de "fora de si" do analista, seus mal-entendidos. Ele também enfatiza que, no encontro analítico, descrever a experiência em oposição a explicá-la facilita a aproximação do que ocorre no inconsciente. A forma como falamos com o paciente ganha prevalência em relação ao que queremos dizer, ressalta Ogden (2022/2018). É enfatizado, portanto, que, no encontro analitico, descrever a experiência em oposição à explicação facilita a aproximação do que ocorre no inconsciente. O pensamento paradoxal continua quando ele afirma que:
Assim, ao falar com pacientes, minha própria experiência é incomunicável; a experiência do paciente, inacessível: eu nunca poderei conhecer a experiência do paciente. Palavras e expressões físicas estão muito aquém de comunicar a experiência de vida do paciente ou a minha própria. Apesar disso, o paciente e eu podemos ser capazes de comunicar alguma coisa parecida com nossas experiências vividas pela reapresentação da experiência. Isso pode envolver o uso de uma linguagem que é particular para cada um de nós e para o evento emocional que está ocorrendo, por exemplo, por meio de metáfora, ironia, hipérbole, ritmo, rima, sagacidade, gíria, sintaxe e assim por diante, bem como de expressões corporais como mudanças no tom de fala, volume, andamento e qualidade do contato visual. (Ogden. 2022/2018, p. 58)
De fato, nesta perspectiva, reconhecemos de imediato algo muito distante de palavras e atos plastificados, uma multiplicidade de formas e possibilidades de comunicação-palavras e atos com asas, no sentido de trocas na direção da liberdade inconsciente e da ampliação do tornar-se humano. A brecha entre as mentes, como o autor nomeia, ou a divisão entre a subjetividade do paciente e a do analista, não é para ser superada, pois
(...) é um espaço no qual uma dialética de separação e intimidade pode dar origem à expressão criativa. A oportunidade de imaginar criativamente as experiências do outro não aconteceria se a comunicação individual fosse possível. (Ogden, 2022/2018, p. 58)
Outro paradoxo é assinalado: as partes deixadas de fora das comunicações abrem um espaço em que podemos ser capazes de preencher a lacuna entre nós mesmos e os outros. Ogden alerta-nos que, não sendo possível conhecer a experiência de nossos pacientes, tudo vai depender do que está acontecendo naquele momento entre os pares da dupla analítica. Compreendendo melhor como a brecha entre as mentes não precisa ser superada, acompanhemos o autor:
Essa divisão entre a subjetividade do paciente e a minha própria não é um impedimento a ser superado; é um espaço no qual uma dialética de separação e intimidade pode dar origem à expressão criativa. No cenário analítico, se a comunicação da experiência individual fosse de alguma forma possível, o paciente e eu seríamos privados da necessidade/oportunidade de criativamente imaginar as experiências do outro. Paradoxalmente, as partes que estão faltando, as partes deixadas de fora de nossas comunicações abrem um espaço no qual podemos ser capazes, de alguma forma, de preencher a lacuna entre nós e os outros. A experiência do paciente de ser criativo no ato da comunicação é uma parte essencial do processo de seu "sonhar-se mais completamente na existência", vindo a ser de uma forma que é exclusivamente sua. (Ogden, 2022/2018, p. 58)A impossibilidade de conhecer a experiência de outra pessoa conduz a formas importantes como Ogden conversa com seus pacientes: sugere evitarmos nomear o que eles estão sentindo, limitando-os a dizer o que estamos pensando e sentindo. Assim ele esclarece.
Quando falo com um paciente sobre o que sinto que está acontecendo emocionalmente na sessão, posso dizer algo como: "Enquanto você estava falando [ou durante o silêncio], esta sala parecia um lugar muito vazio [ou lugar tranquilo, ou lugar confuso, e assim por diante]". Em expressando assim, deixo em aberto a questão de quem está sentindo o vazio (ou outros sentimentos). Foi o paciente, ou eu, ou algo que nós dois temos inconscientemente criados juntos? (o "campo analítico" [Civitarese 2008, 2016; Ferro 2005, 2011) ou o "terceiro analítico" [Ogden, 1994]). Quase sempre são todos os três - o paciente e eu como indivíduos separados, e nossas cocriações inconscientes. (Ogden, 2022/2018, p. 58-59)Fazer perguntas como "Por que você faltou ontem?", por exemplo, direciona o paciente a conversar de modo superficial, consciente, em termos de causa e efeito, ou seja, de acordo com o processo secundário. Quando se percebe fazendo esse tipo de pergunta, Ogden interroga-se sobre o que pode estar acontecendo em termos inconscientes que pode estar assustando-o. A certeza também vai interferir negativamente no processo analítico quando os pais são responsabilizados - tanto pelo paciente quanto pelo analista - pela situação emocional atual do paciente. Embora este possa ter sido gravemente negligenciado, Ogden ressalta a importância de não focarmos o seu adoecimento ligando-o à culpa dos pais. Se assim procedermos, corremos o risco de roubar dele a possibilidade de experimentar a sua vida de modo mais complexo e humano, podendo inclusive incluir uma compreensão do senso de responsabilidade pelo sofrimento vivido na infância.
Então, em vez de pensar em uma técnica derivada de ideias ligadas a escolas particulares do pensamento analítico, ancorada em um sentimento de certeza, Ogden pensa em estilo clínico como uma criação própria, um processo vivo que se origina a partir da experiência e da personalidade do analista. Vamos assim delineando a função vitalizadora do analista baseada em sua pessoalidade, aberta à imprecisão e à incerteza como fonte de criatividade. Em vez de usarmos o termo técnica, pensemos no desenvolvimento de um estilo clínico, como sugere Ogden:
Penso em 'estilo analítico' como uma criação pessoal própria que é vagamente baseada na existência de principios da prática analitica, mas o mais importante é um processo vivo que tem suas origens na personalidade e experiência do analista (Ogden 2022/2018, p. 59).Mais uma vez, ressaltamos aqui a simplicidade necessária na comunicação, enraizada em veios ricos de complexidade. Estamos nos referindo a descrições sucintas de estados de sentimentos. No entanto, lançamos um paradoxo: o simples é igualmente prenhe de riqueza e requer trabalho psíquico da dupla, para que, a partir da fala, surjam aberturas para a expansão psíquica, não apenas do paciente, mas também do analista. O erudito pode vir a flertar com a arrogância, que leva à destruição e à ruptura do vinculo. A arrogância impossibilita encontro. Eis um exemplo de descrição dado por Ogden (2022/2018): se um paciente chega na sessão apavorado, antigamente ele poderia perguntar: "O que te apavora?". Em uma experiência recente na qual o paciente compartilhou o seu receio de vir vê-lo, ele disse: "Claro que você está" - uma descrição exatamente como ela é, uma forma de acolher suas fantasias em vez de apresentar tranquilização ou razões lógicas próprias do processo secundário. Acolher a densidade da experiência emocional requer que estejamos abertos aos nossos próprios recursos anímicos, uma densidade que vem sob a forma de leveza, palavras com asas. No exemplo acima, os bastidores (o pensamento mais esticado de Ogden, nem por isso dissociado de um flanar pela comunicação mútua inconsciente entre paciente e analista); ou seja, o que vem em parênteses ("o que você está sentindo agora parece apenas natural"), ganhou breves palavras de alcance: "Claro que você está". Destacando assim a importância da simplicidade e humildade:
Eu também descobri que uma mudança da explicação para a descrição facilita o processo analítico, libertando o paciente e a mim da necessidade de compreender. "Meramente" descrevendo, em oposição a "descobrir as causas" para o que está acontecendo, reflete meu senso de humildade diante de tudo o que é "humanamente compreensível ou humanamente incompreensível" na vida de meus pacientes e na vida da análise. (Ogden, 2022/2018, p. 61)
É muito interessante a afirmativa do autor de que "nós falamos com um desejo simultâneo de ser compreendido e de ser mal-entendido, e que ouvimos os outros tanto com o desejo de compreender e de não compreender" (Ogden, 2022/2018, p. 69). O desejo de não ser compreendido vai ao encontro da necessidade de manter uma faceta do eu que permanece isolada, como diz Winnicott (1979/1963). Ogden diz que o desejo de ser compreendido carrega um desejo para o fechamento. Por outro lado, o desejo de ser mal compreendido carrega o desejo de sonhar consigo mesmo e não ser visto pelo analista. Assim afirma o psicanalista: "Respeitar a necessidade de autodescoberta do paciente coloca uma demanda sobre mim para não 'saber muito' (Winnicott, 1979/1963, p. 172)". Aqui também nos encantamos com o dizer de Ogden (2022/2018):
O trabalho de compreensão acarreta o perigo de "matar" uma experiência que estava viva em uma sessão analítica. Uma vez que uma experiência tenha sido "compreendida", ela é morta. Uma vez que uma pessoa é "entendida", não é mais uma pessoa viva, reveladora e misteriosa. (p. 70)
Falar como se estivesse sonhando
Nesse artigo Ogden (2007) discorre sobre como encaminhar a linguagem nos casos em que o paciente é incapaz de sonhar, essa dificuldade se tornando o foco mais premente do processo terapêutico. Ele ressalta que: "A área de 'sobreposição' do sonho do paciente e do sonho do analista é o lugar onde ocorre a análise" (Winnicott, 1971, p. 59). O paciente que está sonhando se manifesta através de associações livres; já o acordado-sonhando do analista se apresenta sob a forma de devaneios.
Mas em que constitui o sonho? Acompanhemos o autor:
Eu vejo o sonho como a função psicanalítica mais importante da mente: onde há "trabalho dos sonhos" inconsciente, também há "trabalho de compreensão" inconsciente (Sandler, 1976, p. 40); onde há um "sonhador que sonha o sonho" inconsciente (Grotstein, 2000, p. 5), há também um "sonhador que compreende o sonho" inconsciente (p. 9). Se não fosse assim, apenas sonhos que são lembrados e interpretados no ambiente analítico ou em autoanálise poderiam resultar do trabalho psicológico. Poucos analistas hoje apoiariam a ideia de que apenas sonhos lembrados e interpretados facilitam o crescimento psicológico. (Ogden, 2007, p. 576)Ogden sempre ressalta que a psicanálise precisa ser reinventada com cada paciente, como um experimento, quando analista e paciente criam formas de falar próprias da dupla em determinado momento da análise.
Quando analista e paciente não conseguem sonhar juntos, Ogden lança mão de uma forma de fala que pode parecer "não analítica", porque ambos estão sonhando sobre coisas como livros, poemas, filmes, o sabor do chocolate e assim por diante:
Apesar das aparências, tem sido minha experiência que tal conversa "não analítica" muitas vezes permite que um paciente e um analista que foram incapazes de sonhar juntos comecem a poder fazê-lo. Vou me referir ao falar desse tipo como "falar-como se estivesse sonhando". Como a associação livre (e ao contrário da conversa comum), falar como sonhando tende a incluir um considerável processo primário de pensamento e o que parece ser non sequiturs (da perspectiva do pensamento do processo secundário). (Ogden, 2007, p. 575-576)Entretanto, o falar como se estivesse sonhando é distinto de uma conversa comum e demanda a participação do analista que envolve determinada forma analítica de estar com o paciente; esta tendo como objetivo ajudar o paciente a se tornar mais plenamente vivo. Vemos aqui novamente sua preocupação em circunscrever a tarefa analítica dentro do campo de auxiliar o paciente a tornar-se o mais plenamente vivo e humano, sentidos que se sobrepõem e que guiam o objetivo da clínica ogdeniana. Mas o que torna o falar como se estivesse sonhando diferente de uma conversa comum? Eis a resposta de Ogden:
O que torna o falar-como se estivesse-sonhando diferente é que o analista engajado nesta forma de conversa está continuamente observando e falando consigo mesmo sobre dois níveis inextricavelmente entrelaçados desta experiência emocional: 1) falar-como-sonhando como uma experiência do paciente surgindo no processo de sonhar sua vivida experiência emocional; e 2) o analista e o paciente pensando, e às vezes falando sobre, a experiência de compreender (tomando conhecimento) algo dos significados da situação emocional enfrentada no processo de sonhar. (Ogden, 2007, p. 576)Aqui temos o Ogden leitor de Bion, o contexto teórico do texto se baseia na transformação de Bion da concepção psicanalítica de sonhar e de não ser capaz de sonhar:
Assim como Winnicott mudou o foco da teoria analítica e prática de brincar (como uma representação simbólica do mundo interno da criança) para a experiência de jogar, Bion mudou o foco do conteúdo simbólico de pensamentos para o processo de pensar, e do significa do simbólico dos sonhos para o processo de sonhar. (Ogden, 2007, p 576-577)Esclarecendo ainda mais o sentido do sonhar para o Ogden leitor de Bion:
Para Bion (1962a), a "função alfa" (um ainda desconhecido, e talvez incognoscivel, conjunto de funções mentais) transforma "impressões sensoriais relacionadas à experiência emocional" (p. 17) brutas em elementos-alfa que podem ser ligados para formar pensamentos oníricos (dream-thoughts) carregados de afeto. Um pensamento-onírico apresenta um problema emocional com o qual o indivíduo deve lutar (Bion, 1962a, 1962b; Meltzer, 1983), fornecendo assim o impeto para o desenvolvimento da capacidade de sonhar (que é sinônimo de pensamento inconsciente). "[Sonhos-] pensamentos requerem um aparato para lidar com eles... Pensar [sonhar] tem que ser chamado à existência para lidar com [sonho-] pensamentos" (Bion, 1962b, p. 306). Na ausência de função alfa (qualquer uma da própria ou aquela fornecida por outra pessoa), não se pode sonhar e, portanto, não pode fazer uso da (fazer o trabalho psicológico inconsciente com) própria experiência emocional vivida, passada e presente. Consequentemente, uma pessoa incapaz de sonhar está presa em um, mundo imutável e sem fim do que é. (Ogden, 2007, p. 577)
A experiência impossível de ser pensada, inimaginável, pode advir de um trauma - experiência emocional insuportavelmente dolorosa - e, também, pode surgir de um "trauma intrapsíquico", ou seja, a opressão de fantasias conscientes ou inconscientes, que podem ser resultado de uma falha da mãe de sustentar o bebê e conter suas ansiedades primitivas ou também pode ter relação com uma fragilidade psíquica constitucional. Os sonhos não sonhados - a experiência inimaginável - seja ela proveniente de forças externas ou intrapsíquicas - aparece "em formas como doenças psicossomáticas, psicoses de separação, estados dis-affec-ted (McDougall, 1984), bolsões de autismo (Tustin, 1981), perversões severas (De M'Uzan, 2003) e vícios" (Ogden, 2007, p. 577)
Finalizando, Ogden escreve sobre sua concepção do processo terapêutico:
É esta concepção de sonhar e de não ser capaz de sonhar que está subjacente ao meu próprio pensamento sobre a psicanálise como um processo terapêutico. Como eu discuti anteriormente (Ogden, 2004, 2005), eu vejo a psicanálise como uma experiência na qual paciente e analista se envolvem em um experimento dentro da estrutura analítica que é projetada para criar condições nas quais o analisando (com a participação do analista) pode ser capaz de sonhar uma experiência emocional anteriormente impossível de sonhar (seus "sonhos não sonhados"). Eu vejo o falar-como-se-estivesse-sonhando como uma improvisação na forma de uma conversa vagamente estruturada (virtualmente relativa a qualquer assunto) em que o analista participa dos sonhos do paciente, sonhos não sonhados anteriormente. Ao fazer isso, o analista facilita o sonhar a si próprio do paciente mais plenamente na existência. (Ogden, 2007, p. 577)
Notas
1 A expressão "palavras aladas" é encontrada em várias passagens da Odisseia de Homero, século III e II aC, tendo inúmeras versões publicadas. Estamos usando essa expressão no sentido de palavras que "flanam", palavras com asas e que contém e revelam a verdade emocional dentro de uma situação analitica intersubjetiva. Usamos essa expressão no artigo "Palavras aladas guiando o encontro analítico" (Cesar, F. F.; Ribeiro, M.F.R.; Perrotta, C) publicado na Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, 2022. Algumas das ideias aqui apresentadas estão presentes nesse artigo, e no artigo "A função vitalizadora do analista e a palavra viva na sala de análise. Reflexões a partir de algumas ideias de Thomas Ogden". Cesar, F. F.; Ribeiro, M.F.R. Revista Ágora (PPGTP/UFRJ), v. 25, p. 18-26, 2022.
2 Doutora e pós-doutoranda pela PUCSP e pelo IPUSP. Autora dos livros Dos que moram em movel-mar: elasticidade da técinica psicanalítica, Asas presas no sótão: psicanálise dos casos intratáveis, Do povo do nevoeiro e Chuva n'alma. A função vitalizadora do analista.
3 Professora doutora do Instituto de Psicologia da USP.
4 (...) language is not just a basket in which ideas are carried: the way in which language is used to state an idea is inseparable from the content of the idea" (Ogden, 2016b, p. 8).
5 "How I talk with my patients" foi publicado em 2018 como artigo, e em 2022 como capítulo do livro Coming to life in the consulting room.
Referências
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