Do limbo ao lume: a reverie em Ogden [1]
- há 2 dias
- 23 min de leitura
Capítulo 10 do livro "Por que Ogden?" (2023), com a autoria de Ana Fátima Aguiar [2], Marina F. R. Ribeiro [3] e Pedro Hikiji Neves [4].

[...] (o) momento produtivo entre sonho e reverie, entre reverie e interpretação, entre interpretação e vivência no (e do) terceiro analítico são, para mim, o cerne daquilo que é único no sentimento de vitalidade de uma experiência analítica. (Ogden, 2013, p. 138)Thomas Ogden tem estilo próprio, tanto na literatura quanto na psicanálise contemporânea. Sua autointitulada "escrita analítica" (2010) envolve o leitor numa experiência ímpar para com as palavras, sendo possível, por meio delas, enveredar-se por ideias, sentidos, imagens, lembranças. Palavras que permitem atravessamentos paradigmáticos sem negar a originalidade de autores importantes da psicanálise clássica. O autor norte-americano apresenta um pensamento dialógico que ultrapassa as querelas estagnantes entre escolas psicanalíticas, articulando conceitos de arcabouços teóricos distintos a partir de um olhar original e criativo.
Já nas páginas inaugurais de seu livro Reverie and Interpretation: sensing something human (1997) o autor lança uma provocação: diz que palavras e frases apresentam um certo deslize, assim como pessoas. Esse comentário aponta para aquilo que o autor pretende promover por meio de seus escritos: a liberdade para deslizar entre palavras e ideias, permitindo uma certa dose de imprecisão. Ogden adverte que o esforço por definir, precisar ou fixar ideias causa um efeito asfixiante. Desse modo, sugere ao leitor deixar-se vagar por entre palavras, permitir-se passear entre termos e sentidos, a fim de formar novos arranjos a cada experiência com a leitura, para que ela soe com liberdade na mente de quem lê, em um processo de coautoria, conferindo significados que possam ser alterados e afetados a cada novo contexto.
O uso das palavras bem como sua compreensão quando as ouvimos ou lemos precisam ser vivos. Para Ogden (2013, p. 22), quando "vivas e respirando", as palavras são como acordes musicais que ressoam melodicamente, e essa ressonância deve ser captada em toda a sua extensa (e imprecisa) polifonia.
O autor ressalta ainda que algo parecido deve ocorrer com a psicanálise A escuta analítica deve transpor o ato de apenas interpretar palavras ou ideias "soltas" (que equivalem a um mero tocar/ouvir notas isoladas) e se abrir para uma composição mais amplificada, em que os acordes ganhem a tessitura de uma sinfonia.
Cada nota tocada pela dupla é imersa em um contexto emocional próprio, relativo à configuração específica daquela dinâmica transferencial-contratransferencial. Daí a ideia de que às palavras e às pessoas se deve atribuir uma certa dose de imprecisão, pois ambas são vivas e estão em constante movimento. Fixá-las e estigmatizá-las as transformaria em efígies desvitalizadas. O analista que o faz perde a capacidade de captar o humano da experiência. Por essa razão, o trabalho analítico compreenderia essa escuta "musical", atenta às notas não tocadas, às palavras não ditas, ampliando as possibilidades para que a musicalidade dos sonhos não sonhados possa alcançar e ser tocada pelo dueto analítico.
Eis, segundo o autor, o principal intuito da escrita analítica: criar uma linguagem para apreender a vitalidade humana. Dessa forma tão particular de escrever psicanaliticamente, Ogden, num diálogo fluido, alcança (e assim também nos permite fazê-lo) o humano, a experiência emocional. Respeitando a base conceitual de cada pensamento (re)criado, desliza por entre palavras, imagens, ideias e conceitos, cultivando sua própria recomendação: a imprecisão [5].
Por transitar de maneira fecunda entre arcabouços teóricos distintos, Thomas Ogden é considerado um autor transmatricial, de acordo com uma distinção proposta por Figueiredo e Coelho Jr (2018). Os autores descrevem a existência de duas grandes matrizes para a psicanálise: a freudo-kleiniana e a ferencziana. As matrizes são formas de adoecimento psíquico (e suas defesas), e para cada qual haveria uma estratégia de cura distinta. As ideias de Bion circulam predominantemente pela matriz freudo-kleiniana, e as de Winnicott, pela ferencziana. Esses pilares de desenvolvimento da história da psicanálise amparam um pensamento contemporâneo que dialoga com ambas as correntes, articulando suas ideias. Por isso o termo transmatricial [6], por manter o rigor teórico e formular novas conjecturas a partir de uma criativa tensão intertextual.
Nota-se que o pensamento ogdeniano contempla uma circulação entre o que já fora produzido e a criação de novas importantes formulações para movimento psicanalítico. Dessa maneira, o autor nos permite sentir o frescor de um encontro aprazível com uma concepção de psicanálise viva, criativa e que deve ser, segundo ele acima de tudo, interessante. Ogden diz que: "para ser interessante, uma psicanálise deve ser livre para 'exercitar-se', para modelar-se e ser modelada de qualquer jeito que os participantes tenham condições de inventar" (2013, p. 25). Logo, sobre a psicanálise que se atém ao apego teórico, ele apresenta sua crítica ao postular que:
Quando a análise está viva, ela naturalmente, por periodos de tempo, conduz-se como um experimento que saiu das margens bem traçadas da forma prescrita; é uma discussão alimentada pela curiosidade e pela variedade de tentativas; é um empreendimento que depende da troca genuína de pontos de vista e da comparação de posições. A análise que se transformou em configuração rotineira, em que o "conhecimento" é transmitido do analista para o analisando, é desinteressante, já não é mais um experimento, pois as respostas, ao menos esquematicamente, são conhecidas desde o início. (Ogden, 2010, p. 25)
E é por essa perspectiva, de que a análise precisa ser uma experiência viva, interessante e humana, que as ideias de Thomas Ogden merecem o destaque obtido no cenário psicanalítico contemporâneo. É nesse espaço analítico, livre e continente, como bem nos apresenta o autor, que a intersubjetividade se faz presente: no encontro.
A intersubjetividade ogdeniana diz respeito às tensões dialéticas do encontro analítico. Nesse sentido, as fronteiras rigidas entre as subjetividades separadas de analista e de analisando tornam-se maleáveis. A dupla analítica cria e é criada por uma dinâmica intersubjetiva, imersa numa tensão simultânea entre uma unicidade (estar-em-um) e uma -dualidade (estar separado).
À vista disso, Ogden compreende que as experiências intersubjetivas são sempre carregadas de identificações projetivas, que compõem -o mais importante material da análise. Ribeiro (2016, p. 46) explica que a identificação projetiva é compreendida por Bion como uma atividade básica da mente humana, uma comunicação fundamental, ou seja, a perspectiva bioniana aloca a identificação projetiva no campo da intersubjetividade. Além de comunicar emoções, passa a ser vista como a origem do pensar. Ogden considera a identificação projetiva como "uma dimensão de toda a intersubjetividade, às vezes como qualidade predominante da experiência, outras somente como um sutil pano de fundo" (Ogden, 1996, p. 94).
Embasado na obra bioniana, Ogden (2013, p. 38) ressalta a ideia de que o analista (como a mãe, para Bion) mantém vivos e, mais ainda, de certo modo traz à vida, tais aspectos projetados pelo analisando (e analogamente, em Bion, pelo bebê), por meio de uma continência bem-sucedida.
Dessa forma, a experiência da reverie torna-se um elemento importante para o trabalho analítico, visto que é por meio dela que a análise pode acontecer. Propomos pensar aqui a reverie como um exemplo de conceito "criado e encontrado" por Ogden, pois, ao mesmo tempo em que o autor retoma esse enigmático termo da obra bioniana, ele também o "inventa" ao confeccioná-lo com uma nova roupagem, tecida por fios entrelaçados em conceitos winnicottianos. Articulando teorias distintas, o autor circula com liberdade entre diferentes matrizes de pensamento, evitando ecletismos e mantendo a tensão dialética entre perspectivas.
O trabalho sobre o conceito de reverie em Ogden é extenso. Podemos localizar, dentre os 44 artigos [8] em que o autor cita o termo, esboços de primeiras tentativas de diálogo com o conceito em dois de seus textos, de 1988 e 1992. No entanto, nessas primeiras citações, Ogden apresenta a reverie ainda bastante próxima da sua concepção original proposta por Bion (1962) - como um estado de receptividade à experiência inconsciente no paciente, análoga à receptividade da mãe às experiências ainda não simbolizadas do bebê (Ogden, 1988). Em 1992, ele aponta para a capacidade de reverie da mãe, que pode nomear e dar forma às experiências do bebê, a partir de sua interpretação de seus estados internos.
No entanto, compreendemos que o momento mais autoral de sua nocão de reverie, em que alça voos mais distantes e criativos a partir do solo bioniano, acontece em 1994, com os textos The concept of interpretative action (1994a) e The analytic third: working with intersubjective clinical facts (1994b). Nesses textos, ele narra de forma densa e viva algumas reveries no encontro analítico, apresentando em primeira pessoa sua imersão na experiência e propondo de forma consistente um manejo possível de ser realizado a partir delas.
Esse percurso autoral e criativo ogdeniano se intensifica nos próximos textos de sua obra - podemos citar 1995, 1996 e 1997 como exemplos - nos quais avistamos o nascedouro da reverie enquanto conceito, em continuidade fluida com as ideias bionianas.
Dessa forma, podemos pensar que Ogden "encontra" em Bion um fundamento que descreve uma forma de comunicação não verbal entre mentes, na qual o analista/mãe metaboliza os elementos primitivos que recebe do analisando/bebê. Portanto, os devaneios e as sensações somáticas são criados a partir da função-alfa, responsável por processar o ainda não simbolizado do outro em si. Por outro lado, Ogden "cria", principalmente a partir de Winnicott, uma reverie recontextualizada. Não mais restrita ao cenário da primeira infância, para Ogden a própria análise se desenvolve no espaço de jogo entre as capacidades de reverie do analista e analisando (1998). Os devaneios têm origem e são contextualizados no movimento dialético que ocorre entre terapeuta e paciente.
Outro importante diálogo que Ogden tece com o conceito de reverie bioniano é a sua aproximação com a noção de sonho. Ogden resgata e recontextualiza o sonhar em Bion como um modo de processar experiências emocionais. Freud (2019/1900) funda o sonho como via de acesso ao inconsciente e aos conteúdos simbólicos que estão presentes nas imagens oníricas. No entanto, Bion aponta para a necessidade de considerar a própria capacidade de sonhar, ou seja, de criar simbolos partir da experiência vivida, como uma competência adquirida (e que pode ser perdida). O processo essencial do sonho não é seu conteúdo, mas sua "forma". Assim como Winnicott resgata em sua obra a importância do brincar em relação à brincadeira, enfatizando menos o conteúdo do que o processo em si, Bion destaca o sonhar em relação ao sonho (Figueiredo e Junior, 2018).
O essencial do sonhar, diz o "Bion de Ogden", é a possibilidade de o sujeito elaborar o que foi vivido em elementos representativos: transformar elementos-beta em alfa. Assim, o sonhar não se resume mais à atividade que fazemos enquanto dormimos, pois acontece tanto durante o sono quanto na vida desperta. Enquanto acordados, somente temos contato com essa atividade em suas "formas derivativas, por exemplo, em estados de reverie" (Ogden, 2007, p. 46). Nesse trecho, fica evidente que Ogden está traçando uma relação entre reverie, sonho e função-alfa, como processos suplementares, relacionados à metabolização das vivências no mundo pelo sujeito.
A experiência clínica envolve, em grande parte, o sonhar compartilhado. O analista deve: "sustentar por longos períodos de tempo um estado de receptividade para os sonhos não sonhados e interrompidos do paciente, enquanto eles são vividos na transferência-contratransferência" (Ogden, 2007, p. 5, tradução nossa). Seguindo essa perspectiva, poderíamos dizer que, assim como Winnicott defende a psicoterapia como duas pessoas brincando juntas (1991), Ogden poderia sustentar, seguindo Bion, que ela não passa de duas pessoas que sonham juntas.
"Sonhar os sonhos não sonhados", nesse contexto, é uma elaboração na ideia bioniana da reverie como capacidade da mãe de transformar elementos brutos de experiência vividos pelo bebê em outros que estejam dentro do campo "pensável". Uma pessoa que não consegue sonhar é incapaz de transformar suas experiências não processadas em dados encadeáveis, ou "pensamentos oníricos" [dream-thought] (Ogden, 2007, p. 47).
Em um estado de abertura, o sujeito experiencia reveries que são criadas dentro da relação que sua subjetividade estabelece com o outro. Logo, são vivenciadas por ele, mas também são produtos das tensões dialéticas entre os polos dessa interação, isto é: vividas nele/através dele. Esse aspecto relacional da reverie justifica seu uso clínico por Thomas Ogden.
Para o autor, o trabalho da análise está relacionado à experiência da vitalidade. Ele compreende que a vitalização e a desvitalização têm um papel fundamental e norteador na dialética da situação analítica, e sugere que nosso psiquismo busca incessantemente experiências em que possamos nos sentir mais plenamente humanos. A noção ogdeniana de "ser plenamente humano" pressupõe sermos capazes de experienciar a vida genuinamente, com suas dores, paixões, medos e inquietações.
A fim de esclarecer o que significa ser plenamente humano, Ogden (2013) cita uma passagem de O Fausto de Goethe (1808), na qual o protagonista faz um pacto com o demônio e, em troca de sua alma, recebe de Mefistófeles um acesso irrestrito aos prazeres proibidos e à satisfação de suas fantasias. Mas Fausto não aspirava à imortalidade, nem privilégios sobre-humanos; ao contrário, ele buscava justamente viver a experiência humana em si, mergulhado nas torrentes de um mundo e de um tempo repletos de acontecimentos.
Em analogia com a obra-prima alemã, podemos pensar que o que se faz em análise é ajudar o analisando a se tornar mais plenamente humano. Assim, Ogden prossegue trazendo uma passagem em que Fausto explica seu desejo dizendo:
(...) quero que meu ser mais profundo compartilhe o destino de toda a humanidade, que eu entenda seus altos e baixos, preencha meu coração com todas as suas alegrias e tristezas, e amplie meu ser com o deles e, como eles, sofra naufrágios também. (Goethe, 1808, p. 46, apud Ogden, 2013, p. 32)
A tarefa analítica, portanto, envolveria fundamentalmente "o esforço do par analítico para ajudar o analisando a se tornar humano em um sentido mais amplo do que o que ele conseguiu até o momento" (Ogden, 2010, p. 30). Nessa acepção, para que o analista possa desempenhar o importante trabalho de auxiliar seu analisando a tornar-se mais humano, ele precisa estar implicado na tentativa de ajudá-lo a ampliar sua gama de emoções, sensações e pensamentos, gerados a partir das relações estabelecidas, tanto no passado quanto no presente, com outros humanos, inclusive o próprio analista. A partir dessa perspectiva, Ogden sustenta a ideia de que "é nesse esforço de sermos plenamente humanos que estamos vivos enquanto analista e analisando; é nesse experimento que vive a arte da psicanálise (p. 34).
O pensamento ogdeniano transmite, portanto, a ideia de que o objetivo da análise vai muito além da resolução de conflitos intrapsíquicos ou da redução de sintomatologia. A análise favorece a experiência de estar vivo, que comporta dores psíquicas que muitas vezes tememos não suportar. O analista precisa estar disponível para ausiliar seu analisando na dificil experiência de viver enquanto humano, em toda a sua complexidade. Nota-se nas ideias de Ogden uma abertura para infinitas possibilidades, referentes às experiências vividas na sala de análise, pois, segundo ele, não há limites, seja em amplitude, complexidade, intensidade de sentimentos seja em pensamentos, para o que se pode realizar em análise, tanto para o analista quanto, também, para o analisando.
Nesse contexto, o autor postula a relevância da reverie como um desses fenômenos vividos na relação analítica, em que, através dele nos colocamos em estado de disponibilidade capaz de nos manter, enquanto analistas, receptivos para acessar os conteúdos inconscientes, ou, como diz Ogden (2010), sonhar os sonhos não sonhados do analisando.
A reverie tal como pensada na clinica é relacionada por Ogden à composição homônima de Debussy [9]. O autor acredita que a música acontece no espaço entre as notas, e, na psicanálise, o diálogo analítico ocorre entre os espaços das palavras ditas e o silêncio que ressoa entre analista e analisando. É nesse interstício que ocorrem as reveries. Segundo o autor (2013), as reveries podem ser vividas como ruminações, devaneios, sensações, percepções, fantasias e imagens que se constroem a partir do encontro intersubjetivo. Assim, é dificil discutir essa experiência coletivamente, por se tratar justamente de aspectos não só do paciente, mas do próprio analista, conteúdos estes muitas vezes desconcertantes e até mesmo constrangedores. Desse modo, o analista comumente pode enfrentar dificuldades para fazer uso dos conteúdos da reverie, pois, ainda que seja um evento intersubjetivo, com frequência está relacionada aos aspectos mais pessoais do próprio analista (Ogden, 2013).
Para Ogden, a reverie é acompanhada de elementos sensoriais e imagéticos, que se estruturam a partir do encontro intersubjetivo, e reforçam que seu uso exige do analista uma tolerância de estar à deriva, do contato com o desconhecido, do incognoscivel da experiência. O psicanalista norte-americano diz ainda que o uso da reverie requer um cuidado para que não haja precipitação e avidez para interpretações daquela experiência desorganizadora.
Ogden (2013) afirma que a experiência do devaneio raramente é "traduzível", pois quaisquer tentativas de tradução precipitada poderiam facilmente incorrer em equívoco, visto seu caráter perturbador. Para ele, a tentativa de interpretar imediatamente o conteúdo dos devaneios do analista, em geral, conduz a interpretações superficiais:
Seu uso (das reveries) requer tolerância para a experiência de estar à deriva. O fato de a "corrente" de reveries levar o analista a algum lugar que, no final das contas, possa ter algum valor para o processo analítico é uma descoberta retrospectiva que quase nunca pode ser antecipada. O estado de estar à deriva não pode ser desvendado apressadamente. O analista deve ser capaz de encerrar a sessão sentindo que a análise está em uma pausa, ou melhor, como uma virgula em uma sentença. (p. 148)
A sessão deve ser pensada a partir das emoções geradas e não propriamente do conteúdo das reveries. A tolerância ao estado de não saber nos mantém abertos, despertos e disponíveis diante da imprevisibilidade da sessão de análise e do desconcertante estado de estar à deriva. Desse modo, Ogden faz um importante apontamento:
Não saber é uma precondição para a capacidade de imaginar. A capacidade imaginativa no setting analítico é nada menos do que sagrada. A imaginação mantém aberta múltiplas possibilidades de experimentação na forma de pensar, brincar, sonhar e em todos os outros tipos de atividade criativa. (2010, p. 47)
Ainda que as reveries pareçam devaneios exclusivamente do mundo interno do analista, elas são construções intersubjetivas, pois são criadas a partir da dupla, analista e analisando. Na visão ogdeniana, a reverie abrange temas corriqueiros e mundanos, trazendo para o setting elementos da vida particular cotidiana do analista, mas que emergem da capacidade imaginativa criada no encontro analítico.
Assim, Ogden confere uma concepção dialética [10] da situação analítica, na qual analista e analisando juntos criam uma intersubjetividade inconsciente. Nesse sentido, a intersubjetividade torna-se a base e o centro da experiência emocional entre analisando e analista, permitindo então a transformação de elementos psíquicos ainda não metabolizados em elementos passíveis de serem pensados pela dupla analitica
Numa espécie de limbo, analista e analisando experimentam a turbulência, a indefinição, a dúvida. E, ainda que possa causar sensações tão inquietantes, a reverie é colocada por Ogden (2013) em uma condição análoga a uma bússula emocional, a partir da qual somos levados a experimentar uma infinidade de sensações e sentimentos, um lume que nos permite percorrer caminhos ainda não desbravados.
Desse modo, se o analista conseguir tolerar o desconcerto e fazer seu uso, a reverie, assim como uma bússula utilizada em territórios desconhecidos pode nos guiar, indicando possíveis direções, destinos (ou mesmo armadilhas) no imprevisível e exclusivo percurso criado no encontro analitico - do limbo ao lume. Portanto, ainda que essa seja uma experiência quase sempre desconcertante, vivida pelo analista como uma distração, desatenção ou falha na sua função analítica, a reverie pode ser um importante instrumento técnico na sala de análise.
A reverie criada e encontrada no e pelo terceiro analítico
A intersubjetividade é um tema central do pensamento ogdeniano. No livro Os sujeitos da psicanálise, de 1996, Thomas Ogden introduz o conceito de "terceiro analítico intersubjetivo", que se refere à interação das subjetividades do analista, do analisando e de uma terceira subjetividade, o terceiro analítico, que seria uma criação conjunta da dupla, ao mesmo tempo em que analista e analisando são criados pelo terceiro. Esse terceiro analitico (1998) configura o "espaço" - potencial - no qual a análise pode acontecer.
Ogden compreende a psicanálise como um exercício de duas pessoas que brincam e sonham juntas, inspirado por Winnicott e Bion, respectivamente. Essa área intermediária criada entre analista e analisando torna-se playground para a interação entre essas duas mentes, que interagem em estados de reverie sobrepostos (Ogden, 1997). O "sonhar compartilhado" torna a sessão viva, e indica aos dois qual o movimento emocional subjacente à interação.
A partir de uma interessante analogia inspirada no paradoxo winnicottiano de que a mãe é descoberta e encontrada pelo bebê, a reverie pode ser compreendida através da criação e do encontro pelo terceiro analítico (Ribeiro, 2018). A postulação de Winnicott de que não existe um bebê sem a mãe também pode ser pensada em termos de que analista e analisando formam uma unidade que coexiste em tensão dialética.
Assim, a reverie passa a ser, dentro da perspectiva ogdeniana, uma criação e manifestação do terceiro analítico. A reverie, como uma capacidade imaginativa da mente, implica a permeabilidade e a disponibilidade mental e emocional, à comunicação do movimento psíquico da sessão, e a partir dela o analista pode pensar seu uso e suas interpretações. Ela é uma forma de apreensão dos objetos analíticos e também uma manifestação do sonho da vigília. Para Ogden (1994/2016), a experiência intersubjetiva do terceiro analítico é captada pelas reveries durante a sessão.
Por mais que seja uma construção de extrema intimidade e inter-relação, o terceiro analítico é uma construção assimétrica [11], ética e criativa entre analista e analisando. A psicanálise se faz a cada sessão, no tempo e no espaço de cada encontro intersubjetivo, sendo o setting a moldura que favorece o enquadre de todos os elementos e conteúdos ali criados, em comum, por analista e analisando, em um campo que Ogden prefere chamar de "transferencial-contratransferencial". Campo da terceira subjetividade, que para o autor seria o termo mais adequado para elucidar os elementos inconscientes do analista na sessão, pois esses são gerados conjuntamente, numa construção inconsciente intersubjetiva do par analítico, no e pelo terceiro analítico.
Ogden sustenta que não se pode considerar transferência e contratransferência como entidades separadas, que somente existam em resposta uma à outra, mas sim, aspectos de uma totalidade intersubjetiva que são vivenciados individualmente por analista e analisando. O analista, imerso na experiência do terceiro, é capaz de compreender mais amplamente os fatos intersubjetivos que ocorrem na situação de análise. Esse entendimento requer uma atenção sensível, sofisticada e consistente por parte do analista, para que os elementos presentes no setting possam ser captados como conteúdos intersubjetivamente gerados pelo par analítico.
De acordo com o autor, cada encontro e, mais precisamente, cada instante é vivido como uma faceta distinta do complexo emaranhado de emoções que constituem o mundo interno do analisando e que tornam cada momento analítico único, pois o processo analítico envolve constantemente novas criações de eventos intersubjetivos inconscientes que nunca existiram antes na vida afetiva, para o analista ou para o analisando (2013, p. 174).
Thomas Ogden também alerta que, na análise, é necessário estarmos disponíveis para que sirvamos de objeto do experimento inconsciente do analisando, e que estejamos abertos para a possibilidade de desempenharmos diversos papeis em sua vida inconsciente. Esse estado de receptividade (berço do advento das reveries) abarca a entrega da subjetividade do analista a uma terceira subjetividade analítica, que não é nem a do analista, nem a do analisando.
Ogden (2013, p. 23) diz que "oferecer-se consistentemente assim não é pouca coisa: representa um empreendimento emocionalmente desgastante em que analista e analisando "perdem em certa medida a cabeça" (sua capacidade de pensar e criar enquanto indivíduo separado) e ressalta que é somente ao término do processo analítico que ambos "recuperam" suas mentes separadas. Todavia, reitera que essas não serão as mesmas de antes, pois as pessoas de outrora já não existem mais após um trabalho de análise ser realizado. Analista e analisando não podem ser compreendidos um sem o outro. Criam-se, sim, novas entidades psicológicas transformadas no, pelo e com o terceiro sujeito analítico.
Do "estar com" ao sonhar compartilhado
Num tom cambiante etre surpresa e espanto, Paulo [12] me interrompe: "Tive a sensação de que sonhei que você me falava exatamente isso. Que sensação estranha! Não me lembrava disso antes, mas me lembro agora...só pode ter sido em algum sonho". No hiato de tais palavras, a mente da analista divaga: "Chamemos, pois, de sonho, Paulo". Era algo que estava ali, mesmo antes de ser dito. Um pensamento sem pensador, em termos bionianos. Algo que é primeiro sonhado, depois vivido. Não eram mais os meus sonhos ou os dele. Não era possível discernir o que vinha da analista ou do analisando. Sonhávamos a dois. Sonhávamos a sessão.
Surpresa, assombro, revelação. Um devaneio, um sonho. Mas de quem? Dele, meu, nosso. Sim, um sonho sonhado por ambos. Compartilhado, sem ter sido verbalizado. Comunicação fluida, que ressoa, ainda que sem palavras. O indizível, impensável sendo ouvido, metabolizado. Enfim...captado.
A pictografia captada nesse fragmento clínico está relacionada ao que Ogden define como uma nova subjetividade criada pelas subjetividades de analista e analisando: o terceiro analítico intersubjetivo. Essa entidade dinâmica é vivida como uma experiencia em constante tensão dialética com a intersubjetividade gerada no e pelo par analitico. De acordo com Ogden, é "através da vivência (assimétrica) do terceiro analitico pelo analista e analisando que o "fluxo" do mundo objetal interno do analisando é entendido e (finalmente) simbolizado verbalmente" (2010, p. 140). O devaneio do analista é a captação de algo não dito, algo que se apresentava nas entrelinhas do discurso, e justamente no "entre" a ideia pode ser sonhada e posteriormente, pensada, por ambos.
Paulo continua: "Indicaram-me que a análise fosse feita com você...."
Súbito, embaraçado, um chacoalhar frenético e tenso com cabeça que vem imediatamente seguido por uma apressada correção: ".. quer dizer, por você".
"Com você"... duas palavras que, de maneira vibrante, ecoavam em minha mente. Surge a imagem da criança devaneada nos primeiros minutos do encontro com Paulo, a criança cuja mãe não estava presente para a primeira sessão. Então Paulo não era o pai, e sim a suposta criança? Um rascunho desorganizado de um pensamento, rarefeito e desconexo, criava-se no imaginário da analista. Pensamento disforme, não simbolizado, mas que vagava ali, naquele espaço, entre aquelas mentes...um pensamento tentando ser encontrado.
Uma criança emergia em minha mente, que ao mesmo tempo em que me confundia e me fazia evitá-la, parecia também tornar-se cada vez mais vívida, cativante, despertando em mim uma cadeia de emoções de uma afetividade curiosa e, até então, incoerente.
Nos primeiros instantes do encontro, já ali na sala de espera, enquanto Paulo se (des)ajeitava para me acompanhar, havia curiosamente, em mim, um sentimento de contemplação... Como se eu assistisse ali a um bebê tentando dar os primeiros passos, cambaleante, desatinado. Não era um bebê, nem a criança criada imageticamente. Estava comtemplando a imagem, não a de Paulo, mas sim, a da criança de Paulo.
Lá estava eu encapsulada pela intensidade inebriante daquele devaneio. Achei por bem tentar desviar-me desses pensamentos tão estranhamente convidativos e decidi voluntariamente voltar-me para Paulo, conforme aquele se apresentava concretamente à minha frente, adulto ou criança, não importava mais compreender. Era urgente apenas que eu fosse capaz de estar disponível e receptiva a um ser humano que ali estava.
No decorrer do processo analítico de Paulo, sem pressa e tolerando a não compreensão imediata das ideias e imagens ali criadas por meio das reveries, a relação analítica foi sendo experimentada como real e segura. A partir de um percurso experimentado num espaço vitalizado e continente, começa a ser possível atribuir um sentido para o desatino de Paulo ao pronunciar "com você", tão precocemente, numa relação tão inicial, ainda sem intimidade. Tantas marcas de experiências emocionais vividas e não significadas por Paulo causavam tanta dificuldade, tanta resistência de, de fato, "estar com", de entregar-se a um outro colo e poder confiar que haveria neste uma continência anteriormente frívola, do qual ele não mais escorreria líquido, disforme, mas poderia manter-se com contornos e afeto.
Mas havia algo naquele "entre" nós desde o primeiro instante. Uma abertura para uma comunicação inconsciente intersubjetiva, um estado de receptividade de minha mente que fora experimentado precocemente por Paulo, sem que esse o percebesse. Mas já havia um terceiro. Um sujeito criado por e que ao mesmo tempo criava analista e analisando. Um terceiro elemento, em tensão dialética entre as subjetividades isoladas da analista e do analisando.
E Paulo era, sim, uma criança que se apresentava a mim naquele primeiro encontro. Um infante assustado, apreensivo com o que ocorrería no encontro. Acuado e ao mesmo tempo ávido, entregando-se a ele. Acertamos a pega [13], e Paulo pôde entender que eu estava ali "com ele" e "para ele". Minha disponibilidade para o encontro fora criando uma confiança no enquadre, estabelecendo as associações que foram surgindo. Nas palavras de Ogden (2013):
A técnica analítica é guiada pela tentativa de falar ao analisando a respeito do que é, tanto para o analista quanto para o analisando, estarem um com o outro naquele momento, e isso ressalta a tentativa de descrever os medos mais urgentes que estão dando forma/restringindo a capacidade do analisando de experimentar o momento de maneira mais plenamente humana. (p. 196)
Nesse mesmo trabalho, Ogden nos apresenta uma reflexão sobre a importância de sonharmos nossa experiência emocional e afirma que sonhando nossos sonhos que nos tornamos capazes de mudar, crescer ou transformar o sofrimento. Para o autor, na intersubjetividade criada na análise, analista e analisando engajam-se no sentido de gerar condições para que ambos possam se tornar mais capazes de sonhar seus sonhos não sonhados e seus sonhos interrompidos (ou pesadelos metafóricos). Segundo o autor, essas são experiências emocionais com as quais o paciente é capaz de realizar um trabalho psicológico inconsciente mais profundo sobre si mesmo.
Entretanto, o sonhar do paciente (sua elaboração psicológica inconsciente) é interrompido em um ponto em que a capacidade para sonhar é sobrepujada pela natureza perturbadora do que está sendo sonhado. Nesse ponto, o paciente "desperta, isto é, torna-se incapaz de empreender uma elaboração psicológica inconsciente" (Ogden, 2010, p. 44).
Os sonhos sonhados pelo analisando e pelo analista no decorrer de uma análise são, ao mesmo tempo, oriundos de cada subjetividade e do terceiro analítico. Isso permite ao analista ter uma maior profundidade em relação aos conteúdos internos de seu analisando e dizer-lhe algo que seja verdadeiro para a experiência emocional (consciente e inconsciente) daquele dado momento. Trata-se, portanto, de um sonhar compartilhado, por meio do qual se pode existir mais plenamente. Assim como afirma Ogden (2010, p. 44), quando "somos capazes de sonhar nossa experiência, somos capazes de gerar uma resposta emocional a ela, aprender com ela e ser mudado por ela".
Destarte, por meio dessa relação de intimidade e confiança encontrada na experiência analítica, os conteúdos conscientes e inconscientes da mente do analisando podem ser projetados para a mente do analista (identificações projetivas), a fim de serem metabolizados. Assim ocorre a reverie, sendo experimentada por ambos, na vivência do terceiro analítico.
O autor diz: "o momento produtivo entre sonho e reverie, entre reverie e interpretação, entre interpretação e vivência no (e do) terceiro analitico é, para mim, o cerne daquilo que é único no sentimento de vitalidade de uma experiência analitica" (Ogden, 2013, p. 138). Ele afirma que aquilo que ocorre na sala de análise tem uma importante qualidade: a direcionalidade oriunda do fato de que a psicanálise é antes de mais nada, um empreendimento terapêutico com o objetivo de aumentar a capacidade do analisando de estar vivo para vivenciar ao máximo a experiência humana.
A partir dessa visão, fica claro o quão essencial se torna o espaço analítico para a experiência de ser e estar vivo. O trabalho clínico nos convoca para sermos sensíveis e disponíveis, o que possibilita a abertura de caminhos para uma vivência vitalizadora. Por meio de uma psicanálise viva e fluida, Ogden nos coloca diante de uma clínica implicada, que se estrutura a partir de uma presença e de uma escuta receptiva e humana na experiência analítica. Nela, o grande objetivo é favorecer o viver enquanto humano, processo que pressupõe uma expansão da mente de maneira criativa.
E é, portanto, na vivência do no terceiro analítico intersubjetivo, na abertura e receptividade que o analista disponibiliza para sua escuta, que a sonoridade entre as notas, os ecos entre as palavras, o indizível e o impensável podem ser sonhados. E quando se pode sonhar, pode-se viver a própria experiência emocional, aprender com ela e transformá-la.
Notas
1 Este capítulo foi produzido a partir das pesquisas que compõe as dissertações de mestrado dos autores Ana Fátima Aguiar e Pedro Hikiji Neves, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
2 Psicóloga e psicanalista. Mestranda em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Pesquisadora/colaboradora do LipSic/IPUSP-PUC-SP. Organizadora do livro Psicologia em cena: cinema, vida e subjetividade (2011).
3 Professora doutora do Instituto de Psicologia da USP.
4 Psicólogo. Mestrando no Dpto. de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP.
5 Ogden desenvolve esta ideia em seu artigo "How I talk with my patients", de 2018.
6 Também são considerados autores transmatriciais: André Green, Antonino Ferro, Anne Alvarez, Christopher Bollas e René Roussillon.
7 Para Ogden (1996), o termo intersubjetividade está relacionado também à noção de terceiro analítico (que veremos mais detidamente adiante). Este terceiro é fruto da interação das mentes de analista e analisando, produto de uma dialética criada pelas (e entre) as subjetividades de cada um destes no encontro analítico. A intersubjetividade ogdeniana seria, portanto, essa terceira subjetividade no campo gerado por ambos.
8 Esse número se refere aos resultados em inglês da busca pelo termo "reverie" na base de dados Psychoanalytic Electronic Publishing (https://pep-web.org/, recuperado em 20 de dezembro de 2022), que agrupa inúmeras publicações psicanalíticas internacionais.
9 Claude Debussy (1862-1918) foi um importante músico francês que, com seu estilo poético e impressionista, escreveu uma composição para piano chamada "Reverie", cuja melodia tranquila cria uma dinâmica musical fluida, que remete a um estado de sonho, devaneio.
10 Para Ogden (1996), dialética é "um processo no qual elementos opostos se criam, preservam e negam um ao outro, cada um em relação dinâmica e sempre mutativa com o outro. O movimento dialético tende para integrações que nunca se realizam por completo" (p. 12).
11 O termo assimetria refere-se à ética do analista na condução da análise, pois esse deve estar disposto e preparado tecnicamente para entrar em contato com o icognoscível da experiência, com estados mais regredidos da mente, ser capaz de tolerar as turbulências e o não saber e, mesmo diante disso, ser capaz de manter-se continente aos conteúdos do analisando e ter condições de fazer o trabalho analítico através dessa experiência. Ainda que haja esse caráter assimétrico, as mentes de analista e analisando na sessão funcionam simetricamente, pois ambas estão imersas nas mesmas emoções na sala de análise. Dessa forma, podemos compreender que o funcionamento mental da dupla analítica se encontra em contínua interação, e a experiência emocional vivida é um campo de observação para o analista, sendo este um importante instrumento técnico na condução de uma análise (Ribeiro, 2020, p. 134).
12 O material clínico utilizado foi extraído da experiência clínica de uma das autoras, e nele o nome do analisando, bem como outros fragmentos do caso, serão descritos a partir de uma dimensão ficcional (Tania, 2015). Ogden (2010, p. 140) sugere que "o autor analista está sempre colidindo contra uma variedade paradoxal: a experiência analítica [...] deve ser transformada em ficção (uma versão imaginativa de uma experiência em palavras), para que a verdade da experiência seja transmitida ao leitor".
13 O termo "A Pega" (César, 2019) refere-se a um fragmento clínico em que a autora discorre sobre a relação analista-analisando, na qual a analista parecia estar vivendo com o paciente algo semelhante ao que a mãe vive com o bebê na mamada inaugural, "a pega". Ela se percebe como a mãe para com seu bebê, se mobilizando a todo custo para atender seu paciente, satisfazer suas necessidades, num malabarismo afoito para alcança-lo.
Referências
BION, W. R. (1962). O aprender com a experiência. Rio de Janeiro, Imago, 1991.
COELHO JR, N. E FIGUEIREDO, L. C. Matrizes do adoecimento psíquico e estratégias de cura. São Paulo: Blucher, 2018.
FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos. L&PM Editores, 2019.
OGDEN, T. H. Os sujeitos da psicanálise (C. Berliner, Trad.). São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.
OGDEN, T. H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Trad. Daniel Bueno. Porto Alegre: Artmed , 2010.
OGDEN, T. H. Reverie e interpretação: captando algo humano, São Paulo: Escuta, 2013.
OGDEN, T. H. Reverie and interpretation: Sensing something human. Notthvale, NJ: Jason Aronson, 2018.
OGDEN, T. H. This art of psychoanalysis: Dreaming undreamt dreams and interrupted cries. Londres: Routledge, 2007.
RIBEIRO, M. F. R. Uma reflexão conceitual entre identificação projetiva e enactment. O analista implicado. Caderno de Psicanálise, n. 38. v. 35. Rio de Janeiro 2016.
RIBEIRO, M. F. R. Alguns apontamentos acerca da função psicanalítica da personalidade no campo analítico. A narrativa do analista e a do escritor. Caderno de Psicanálise (CPRJ), n. 41, v. 40, p. 169-187, Rio de Janeiro 2019.
RIBEIRO, M. F. R. Sobre reciprocidade e mutualidade no conceito de terceiro analítico de Thomas Ogden. In: KUPERMANN, D. et al. Ferenczi: Inquietações clínico-políticas, São Paulo: Zagodoni, 2020. p. 133-146
TANIS, B. A escrita, o relato clínico e suas implicações éticas na cultura informatizada. Rev Bras Psicanál [online], v.49, n.1, p. 179-192, 2015.
WINNICOTT, D. W. Playing and reality. Psychology Press, 1991.


Comentários