Ogden leitor de Bion: da teoria do pensar ao pensamento intuitivo
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Capítulo V do livro "Por que Ogden?" (2023), com a autoria de Marina F. R. Ribeiro [1] e Davi Berciano Flores [2].

O que torna um artigo atemporal em qualquer disciplina é o fato de ser não apenas uma declaração original do conhecimento vigente, mas também uma memória do futuro (OGDEN, 2014, p.62).
As ideias de um indivíduo são tão valiosas quanto o uso que lhes é dado por outros (OGDEN, 2015, p. 71).
Eu tento localizar a fonte das ideias que apresento, mas é difícil para mim afirmar com segurança onde as ideias de Bion terminam e as minhas começam (OGDEN, 2003a, p. 593).
Bion é um autor considerado difícil e enigmático. Apresentar as leituras que Ogden declaradamente fez de alguns textos de Bion é um desafio considerável. Deduzir, a partir da obra de Ogden, aquilo que, ainda que não declarado formalmente, nos leva a pensar em Bion, talvez seja verdadeiramente um exercício intuitivo. Ogden (2014) apresenta-se ‘bioniano’, mas de uma forma tal que, ao mesmo tempo em que se mostra fiel às ideias do autor, não tem como objetivo expressar o “que ele realmente queria dizer”.
“Estou muito mais interessado no que esses autores sabiam, mas não sabiam que sabiam - e na riqueza que esses textos expõem sem que seus autores tivessem intenção nem compreensão consciente” (Ogden, 2014, p. 24).
De uma perspectiva predominantemente teórica, ao revisitarmos a vasta obra de Ogden, temos notícias de que o denominar "bioniano" seria reduzi-lo, bem como o faríamos se atribuíssemos o mesmo título ao próprio Bion. Revisitando os autores lidos e pensados por Ogden, Bion tem, sem dúvida, um lugar na mente pensante do autor. Mas Ogden visitou Bion em momentos diferentes de seu percurso (e visitou diferentes momentos da obra de Bion), dedicou-se aos autores lidos por Bion (dentre eles, Freud, Klein e seus contemporâneos), destrinchou a obra de contemporâneos de Bion (como Susan Isaacs, Hanna Segal e Fairbairn) e, não bastasse, também dedicou-se aos comentadores, por assim dizer mais especificamente, pós-bionianos. Ao longo de sua obra, fez com que todos conversassem em sua mente voltada predominantemente para a clínica, de modo que seria bastante arriscado decretar onde Bion está na obra de Ogden. O mais acurado talvez seja dizer que, a partir de nosso percurso teórico e clínico, há um campo que nos remete a Bion na obra de Ogden, alguns pontos mais nítidos, outros talvez nem tanto.
Um filósofo se preocupa com a compreensão e a incompreensão, mas não pode fazer o que um psicanalista pode fazer: isto é, observar e ouvir uma pessoa enquanto ela está compreendendo e enquanto ela está incompreendendo. Esta é uma das razões pelas quais não estou muito interessado em teorias psicanalíticas. Se alguém for treinado, pode procurá-las em um livro, mas a prática da análise é o único lugar onde é possível ler pessoas, não livros. É, portanto, uma pena gastar tempo que poderia ser gasto na leitura de uma pessoa, lendo um livro (BION, 1973/2014, p. 63, tradução nossa).
Levando em consideração a provocação de Bion acima, consideramos que ler um texto de Ogden implica, ao mesmo tempo, ler a teoria e ler a pessoa – "ao mesmo tempo", inclusive, é uma das insígnias de ambos os autores. O que queremos dizer com isto é que, para além das inúmeras perspectivas teóricas apresentadas em seus textos, Ogden encontrou um estilo de escrita que apresenta a teoria enquanto expressão viva de sua clínica, talvez também mobilizado por longas provocações feitas por Bion ao longo de sua obra, ao afirmar inúmeras vezes que a escrita psicanalítica naturalmente se afastava da experiência emocional da sessão analítica, esforçando-se, assim, por encontrar uma linguagem que pudesse, se bem sucedida, aproximar o leitor da experiência psicanalítica. Ogden dá movimento às "marcas pretas da página" (OGDEN, 2014, p. 22):
Tento não escrever sobre minha experiência de leitura dos trabalhos, mas escrever o que vivo ao lê-los: escrever o que consenti que esses artigos e livros fizessem comigo, o que fiz com eles, e como os reescrevi e transformei em livros e artigos de minha própria lavra (OGDEN, 2014, p. 21, grifos do autor).
Dessa forma, depreendemos das ideias que serão expostas por nós, vestígios do Bion dentro do Ogden dentro de nós, compreendendo-as como uma transformação do trabalho de Bion e ressaltando que não saberíamos dizer exatamente onde termina o raciocínio do autor lido e começa o dele, bem como corremos o bom risco de que, ao colocarmos as ideias de ambos, estejamos também incluindo nossas próprias. “Ideias não vêm etiquetadas com o nome do seu proprietário” (Ogden, 2014, p. 26) - afirmativa que denota sua liberdade inspiradora de pensamento e seu modo de ler criativamente, além de ser uma ideia extraída dos textos de Bion (1977/2015). Trata-se de uma complexa e desafiadora intertextualidade, hábito comum da escrita de ambos autores.
Tendo explicitado a complexidade do campo de reflexão que estamos nos aventurando, destacamos que a intenção é dialogar com algumas compreensões e expansões que consideramos originais na leitura de Ogden dos textos de Bion, e não apresentar a teoria de Bion a partir de Ogden [3]. Além disso, não é nosso objetivo apresentar os textos de Ogden [4], mas sim destacar aspectos criativos da sua leitura e criar um diálogo entre os autores. Estamos inspirados e sendo fiéis à proposta de Ogden: uma leitura criativa e autoral dos textos.
Da teoria do pensar ao pensamento intuitivo
Vamos começar pelo texto de Ogden que é um sobrevoo consistente, assim consideramos, sobre a obra de Bion, especificamente a teoria do pensar: Os quatro princípios do funcionamento mental a partir de Bion (2009/2019). O texto foi publicado originalmente em 2008, data que julgamos pertinente ressaltar, uma vez que observamos as expansões que ocorreram na leitura que Ogden faz do pensamento de Bion [5], eventualmente propondo um trânsito de ideias entre alguns textos.
Já no título do texto nos deparamos com a capacidade de Ogden de apresentar de forma sucinta a obra de Bion fazendo um trocadilho criativo com o texto de Freud de 1911, intitulado Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental [6], texto este que é uma referência fundamental para o pensamento de Bion.
Ogden (2019) apresenta no início do texto quatro princípios na teoria bioniana do pensar que são destrinchados ao longo da sua explanação e retomados no final, apresentação estética sofisticada, um esforço bem sucedido de articular os pontos essenciais da teoria do pensar em quatro princípios:
O pensamento é movido pela necessidade humana de conhecer a verdade – a realidade de quem somos, e o que acontece em nossa vida;
É necessária a presença de duas mentes para pensar os pensamentos mais perturbadores de uma pessoa;
A capacidade de pensar se desenvolve para que a pessoa se reconcilie com pensamentos que surgem da própria experiência emocional perturbadora;
Há na personalidade uma função especificamente psicanalítica, e sonhar é o processo principal através do qual esta função se manifesta. (OGDEN, 2019, p. 61)
Considerando o primeiro princípio, precisamos primeiramente de uma definição de Verdade, em comum para Ogden e Bion, ainda que com limitações na explanação. Trata-se de uma definição trabalhosa já para o começo deste capítulo, de modo que contamos com a paciência e intuição do leitor para apreender a noção de Verdade ao longo dos demais conceitos nas páginas que seguem.
Ogden (2014) aponta que Bion usa termos distintos para apreender algo neste sentido: "a coisa em si", "a Verdade", "Realidade", "a experiência", dentre outros (p. 151). Trata-se, de fato, de buscar palavras capazes de nomear algo que é, ao mesmo tempo, inapreensível, mas que pode se manifestar de forma efêmera. Consiste, portanto, em algo "incognoscível de modo último, mas que de fato existe, e é real" (SANDLER, 2021, p. 1210). Nas palavras de Ogden (2003a):
Parece que, paradoxalmente, o que é verdadeiro é eterno, sem local definido, e maior do que qualquer indivíduo; todavia, se mantém vivo só por um e único instante no conjunto de circunstâncias que constituem aquele momento de experiências vividas por uma pessoa. Em outras palavras, em uma análise, o que é universalmente verdadeiro é também intensamente pessoal e único a cada paciente e a cada analista. (p. 404)
Considerando o primeiro princípio, a necessidade humana de conhecer a verdade, para Bion a experiência emocional vivida é o que precisa ser sonhado, ou seja, o sonho é o pensamento inconsciente, uma forma de pensar aquilo que foi vivido. Em um texto posterior, Bion’s “Notes on memory and desire” (Ogden, 2015), o autor explicita que Freud e Bion colocam a realidade no centro da teoria do pensamento, a realidade compreendida como a verdade da experiência emocional vivida. Ogden renomeia o princípio de realidade freudiano pelo princípio de busca da verdade, e o princípio do prazer pelo princípio de medo ou evitação à verdade. Em outras palavras, a mente se alimenta, se integra e se expande, a partir do contato com a verdade, no entanto, a verdade também é evitada, em um movimento paradoxal contínuo e constitutivo do psíquico.
Na sequência da explanação sobre a necessidade humana de conhecer a verdade da experiência, Ogden (2009) retoma os textos iniciais de Bion sobre grupos, articulando-os com a teoria do pensar. Apresenta ao leitor uma instigante ideia a partir de uma citação do escritor Borges [7], na qual relatou que durante toda a vida reescreveu de diferentes formas o seu primeiro livro de poesias. Bion também estaria reescrevendo de diversas formas o seu primeiro livro, Experiências com Grupos (BION, 1961/2014). A partir dessa consideração de Ogden, podemos pensar que na obra de um autor há uma invariância [8], ou seja, algo que se conserva em meio a inúmeras transformações.
A ideia, aqui, não é de reduzir a obra de um autor a um ponto único, mas reconhecer um campo paradoxal no qual uma obra é constituída de várias formas (estilos, conceitos, contradições, revisões, evoluções) e, ao mesmo tempo, dela pode-se intuir uma essência, uma origem, um elemento estável em meio às transformações.
"Minha intenção é começar a explorar o paradoxo de que as verdades emocionais humanas são, ao mesmo tempo, universais e requintadamente idiossincráticas a cada indivíduo, e são tanto eternas como altamente específicas a um dado momento da vida". (OGDEN, 2003a, p. 394)
Para Ogden (2009) o que Bion denomina de grupo de trabalho é aquele que é capaz de pensar, o grupo de pressupostos básicos é aquele que não é capaz de pensar. Bion considera que analista e analisando formam um grupo de dois e que, além disso, a própria mente é uma grupalidade composta por diferentes partes da personalidade. Nota-se, mais uma vez, um campo em que há uma invariância e múltiplas transformações desta. Ogden não faz essa referência, mas os livros autobiográficos escritos no final da vida de Bion, Memória do Futuro (2014), são o relato dessa grupalidade interna, ou seja, os diferentes personagens que habitam o espaço mental.
Grupo de trabalho e grupo de pressupostos básicos [9] são facetas de uma única experiência, sendo que no primeiro há pensamento; no segundo há a predominância de padrões psicóticos, e justamente por isso, a intensificação das identificações projetivas. Os pressupostos básicos são modos de experienciar a realidade atravessados por diferentes temores com padrões psicóticos. (Ogden, 2009). Ogden, então, aponta que quando predominam os pressupostos básicos, manifesta-se o pensamento mágico, e quando predomina o grupo de trabalho, apresenta-se o pensamento genuíno (conceito apresentado por Ogden, 2009/2019).
Retomando o texto Os quatro princípios do funcionamento mental, Ogden descreve três ideias que estão ligadas ao primeiro princípio do funcionamento mental em Bion: o pensamento é movido pela necessidade humana de conhecer a verdade. A primeira ideia é de que a evitação do pensamento e do contato com a verdade emocional é indissociável do pensar, são facetas da mesma experiência. A segunda ideia é de que o pensar genuíno exige uma tolerância ao não saber [10].
A terceira ideia é o conceito bioniano de visão binocular, ou seja, o pensar exige uma capacidade de apreensão da realidade por diferentes vértices ou pontos de vista ao mesmo tempo. “A realidade vista de um único ponto de vista representa o fracasso do pensamento” (Ogden, 2009/2019, p. 68).
Em resumo, precisamos do que Bion se refere como 'visão binocular' (1962, p. 86) – a percepção simultânea de múltiplos pontos de vista – para articular o que queremos dizer por verdade em termos psicanalíticos. O que é verdadeiro é uma descoberta como que oposta a uma criação, e todavia, fazendo uma descoberta, alteramos o que descobrimos e, nesse sentido, criamos algo novo. (OGDEN, 2003a, p. 401)
A capacidade de apreensão da realidade por múltiplos vértices é fundamental para a compreensão de Bion sobre sanidade e insanidade. A sanidade implica nessa multiplicidade de vértices, a insanidade no apego a um ponto de vista. Ogden compreende os conceitos de Bion de forma dialética, sempre cocriados, conectados e influenciando uns aos outros: consciente/inconsciente; parte psicótica da personalidade/parte não psicótica da personalidade; grupo de pressupostos básicos/grupo de trabalho; posição esquizoparanóide [11]/posição depressiva, e assim por diante.
O segundo princípio do funcionamento mental, para Ogden, é a necessidade de duas mentes para pensar os pensamentos, ou seja, Bion concebe o pensamento como uma experiência intersubjetiva que tem sua origem na identificação projetiva [12].
Bion, em seus ensaios que se encontram reunidos em Second Thoughts (1967b/2014), particularmente em "Attacks on linking" (1959/2022) e "A theory of thinking" (1962/2014), elaborou a ideia de que os pensamentos podem destruir a capacidade para pensar. Ali, Bion apresentou a ideia de que no início (da vida e da análise) é preciso duas pessoas para pensar (OGDEN, 2004b/2010, p. 130) [13].
Grosso modo, Ogden faz referência, na citação acima, a alguns importantes desdobramentos da obra de Bion, nos quais é reconhecível que a função de ligar, conectar, ou vincular elementos mentais é obstruída ou corrompida nos estados de mente predominantemente psicóticos. Esta função de vincular é fundamental à capacidade de construção do pensamento verbal, como se dá na associação de pensamentos, na comunicação, no contato entre mentes ou, se pudermos extrapolar para uma definição mais ampla, nos processos mentais que viabilizam simbolização. Quando o ataque aos vínculos (elos de ligação) é efetivo, o conteúdo intolerável que sofreu o ataque é expulso para fora do funcionamento mental, encontrando na identificação projetiva uma solução defensiva e comunicativa [14] efetiva para alocar aquilo que era intolerável internamente – e justamente, por ser intolerável, gerou uma ruptura da continuidade dos processos de pensar. Um outro, depositário deste conteúdo, passa a ser fundamental para reconstituir os processos de ligação, vinculação e, portanto, de simbolização. Desta forma, Bion dá reconhecimento, em sua teoria, aos processos intersubjetivos de reconhecimento e elaboração destes vínculos atacados pela parte psicótica da personalidade.
O terceiro princípio refere-se ao fato de que os pensamentos são anteriores ao pensar. Pensar é algo que se impõe a partir da pressão dos pensamentos, uma inversão da lógica habitual na qual os pensamentos são produto do pensar. Ogden retoma a texto de Bion (1962), relatando que o bebê tem uma pré-concepção do seio, e que no encontro com o seio real há uma experiência que difere do seio pré-concebido, exigindo tolerância à frustração na experiência de não-seio que, dessa forma, torna-se um pensamento que impõe uma capacidade [15] de pensar, um aparelho para pensar. A mãe tem uma função importante na tolerância à frustração pela sua capacidade para reverie, para sonhar (pensamento inconsciente) as angústias do bebê.
Neste ponto já podemos encontrar um campo de fundamentos que podem criar, intuitivamente na mente do leitor, pontos de articulação. Oferecemos uma tentativa de enunciá-los: alimentar-se da verdade, enquanto um elemento presente e paradoxal resultante da experiência emocional, exige capacidade de suportar pensamentos que podem ser bastante disruptivos. Para tolerá-los, é usual serem necessárias duas mentes, de modo que os elementos intoleráveis encontrem um continente no qual possam alojar-se e, assim, desenha-se uma configuração intersubjetiva que pode propiciar capacidade para pensá-los (junto à mente da mãe ou do analista). Tanto mãe/analista, quanto bebê/analisando, encontram-se em experiências emocionais que exigem, de ambos, o exercício do pensar para tolerar a frustração em suas múltiplas manifestações.
Caso não seja possível tolerar a frustração, mesmo com a presença continente da mãe, há a evacuação da tensão por excessivas identificações projetivas, dificultando, dessa forma, a expansão do aparelho para pensar. A singularidade da leitura de Ogden do texto de Bion apresenta-se em algumas sutilezas da sua compreensão:
(...) Mas não devemos perder de vista o fato de que elementos-beta constituem nossa única conexão psicológica com a realidade. Elementos-beta podem ser pensados como "aqueles pensamentos que não parecem pensamentos, que são a alma do pensar” (Poe, 1848/1992, p. 80). Bion (1962/1967a) cria a hipótese de que a "função-alfa" (p. 6) (um conjunto de operações mentais ainda desconhecido, e provavelmente impossível de se conhecer) opera para transformar elementos-beta em elementos-alfa, que podem ser conectados para formar pensamentos-sonho. Pensamentos oníricos são a representação simbólica da experiência perturbadora que é originalmente registrada, principalmente em termos sensoriais (isto é, elementos-beta). (OGDEN, 2019, p. 74).
Surgem aqui novos conceitos: elemento-beta, elemento-alfa e função-alfa. A ideia de função já foi apresentada nas primeiras páginas de nosso texto e, portanto, talvez já seja mais apreensível. Falamos em "função de ligar", "função de vincular" e na função da mãe em sonhar as frustrações de seu bebê de modo que se tornem menos indigestas. A noção de função é, no escopo bioniano, mais uma herança de um conceito matemático, a capacidade de ligar, de criar uma imagem de um elemento de um determinado grupo, em outro grupo. A função-alfa, no caso, é a qualidade de transformar elementos-beta em elementos-alfa.
Elementos-beta são um conceito de Bion recorrido com frequência por Ogden, e consistem em impressões sensoriais em estado bruto, não-mentalizadas, associadas a experiências emocionais. Os elementos-beta "não podem ser ligados entre si" [16] e consequentemente não podem ser utilizados para pensar, sonhar ou armazenar na memória" (OGDEN, 2004a/2010 [17], p. 19). Os elementos-beta seriam a "única conexão entre a mente e nossa experiência emocional vivida no mundo da realidade externa" (OGDEN, 2004b/2010, p. 130).
A compreensão dos elementos beta como a nossa conexão com a realidade, e como pensamentos que não parecem pensamentos, mas são a alma do pensar, é a leitura criativa que Ogden faz do texto de Bion. Não parecerem pensamentos, ou não ascenderem ao patamar de elementos que possam ser sonhados, significa que os elementos-beta mantêm-se em tal nível de indiferenciação que não conferem distinção entre o estado de sono e a vida de vigília. Estas experiências unicamente sensoriais turvam a capacidade de diferenciar percepção de alucinação, realidade externa de realidade interna (OGDEN, 2010, p. 859). As manifestações correspondentes a predominâncias de elementos-beta são de sonhos não-sonhados, aspectos que escapam à capacidade de elaboração psíquica. Ogden, em sua polivalência teórica, encontra correspondências (associações, links) entre a predominância de elementos-beta e manifestações psíquicas, como por exemplo os terrores noturnos, bem como a associa a outros escopos teóricos:
Os transtornos caracterizados por este impedimento incluem os transtornos psicossomáticos e as perversões graves (de M'Uzan, 1984); encapsulação autista em sensações corporais (Tustin, 1981); estados de "des-afeto" (McDougall, 1984) nos quais os pacientes são incapazes de “ler” suas emoções e sensações corporais; e o estado esquizofrênico de "não experiência" (Ogden, 1982), no qual o paciente esquizofrênico crônico ataca sua própria capacidade de atribuir significado à experiência, tornando, assim, suas experiências emocionais intercambiáveis umas com as outras. (OGDEN, 2004a/2010, p. 21)
Uma vez havendo sucesso da capacidade de pensar estes pensamentos não-pensados, entra em campo a função-alfa (exercida tanto por uma mente continente, da mãe e do analista), quanto da própria capacidade interna mental em transformar elementos-beta em elementos-alfa. Para Ogden, "(...) elementos-alfa são elementos da experiência que podem ser ligados (linked) entre si no processo consciente e inconsciente de pensar e de sonhar (tanto enquanto estamos acordados quanto dormindo) (2004a/2010, p. 18-19).
Junto à teoria do pensar, que nasce no pensamento bioniano e ilumina o pensar inédito de Ogden, encontramos também a ideia de "continente-contido", que se aplica justamente a pensar a viva dinâmica de trânsito e transformação destes elementos no funcionamento mental, típica de um pensar conectado à experiência emocional e à concepção de verdade.
"Nas mãos de Bion, a preocupação central da psicanálise é a interação dinâmica entre, por um lado, pensamentos e sentimentos derivados da experiência emocional vivida (o contido) e, por outro, a capacidade de sonhar e pensar esses pensamentos (o continente)" (OGDEN, 2004b/2010, p. 133).
A teoria bioniana, bem como a obra de Ogden, que se oferece como continente para os elementos apresentados por Bion, desloca seu interesse para a forma como os pensamentos são construídos, as teorias dos vínculos, a dinâmica entre os objetos e elementos mentais, os usos do pensar. A própria ideia de função indica uma observação para os movimentos do pensar, as transformações que os elementos sofrem. Não se trata de discutir os elementos em si, portanto, mas a relação que existe entre eles. Do mesmo modo, não se trata de discernir em que mente um pensamento está, mas como os pensamentos estão sendo pensados dentro de uma condição intersubjetiva. Bion aponta, em diversos momentos de sua obra, que encontra equívocos em uma psicanálise que se dedica demasiadamente às estruturas anatômicas e imagens concretizadas, perdendo a dimensão dinâmica do funcionamento mental [18].
"A ideia do continente-contido trata não do que pensamos, mas de como pensamos, ou seja, como processamos a experiência vivida e o que ocorre psiquicamente quando somos incapazes de fazer um trabalho psicológico com aquela experiência". (OGDEN, 2004b/2010, p. 127-128)
Vejamos a viva e condensada conversa entre Ogden, Bion, e o poeta inglês John Keats, conectados na mente de Ogden:
O crescimento do contido se reflete na expansão da extensão e profundidade dos pensamentos e sentimentos que somos capazes de derivar de nossa experiência emocional. Esse crescimento envolve um aumento na 'penetrabilidade' (Bion, 1962a, p. 93) dos nossos pensamentos, isto é, uma tolerância "para suportar incertezas, mistérios, sem uma busca irritável por fato e razão" (Keats, 1817, citado por Bion, 1970, p. 125). Em outras palavras, o contido cresce ao tornar-se mais capaz de abarcar a plena complexidade da situação emocional da qual ele deriva. (OGDEN, 2004b/2010, p. 132)
As teorias da função-alfa e do continente-contido são compreendidas por Ogden como uma extensão do terceiro princípio do funcionamento mental: o pensar desenvolve-se para que seja possível lidar com os pensamentos. O continente é um processo:
(...) é o trabalho psicológico inconsciente do sonhar, operando em consonância com pensamentos pré-conscientes semelhantes ao sonho (reverie) e pensamento consciente do processo secundário. O termo contido refere-se a pensamentos e sentimentos que estão no processo de serem extraídos da experiência emocional vivida de uma pessoa. (OGDEN, 2009/2019, p. 74).
Considerando o terceiro princípio do funcionamento mental, o psicanalista na sessão está atento a qual é o pensamento perturbador que o paciente convoca o analista a pensar, lembrando que o contato com a verdade emocional é o alimento da mente, o que integra e expande a mente, mas é também o que a mente evita: princípio de busca da verdade e princípio de evitação da verdade. Ogden, a partir dessa leitura dos textos de Bion, conclui que
“(…) o objetivo da psicanálise é ajudar o paciente a desenvolver sua própria capacidade de pensar e sentir sua experiência” (OGDEN, 2009/2019, p. 76).
Se levarmos em conta a natureza complexa e dinâmica das experiências emocionais, e neste ponto já temos em mãos alguns conceitos que iluminam esta apreensão, como a teoria do pensar em Bion (função alfa e continente-contido), podemos então entender que a busca em análise é sempre de criar condições para que o analisando, nas palavras de Ogden (2010), possa sonhar "sonhos não-sonhados e gritos interrompidos". Podemos considerar esta ideia como uma contínua expansão mental, na qual analista e analisando estão sempre em busca de sonhos não-sonhados, pensamentos não-pensados, promovendo constante ampliação da capacidade para o trabalho inconsciente de sonhar (continente) e para encontrar pensamentos e sentimentos que surgem das experiências emocionais (contido) (Ogden, 2004b/2010, p. 133). Nas palavras do autor:
A situação analítica, embora em muitos aspectos desestruturada, também tem uma qualidade de direcionalidade que é oriunda do fato de que a psicanálise é antes de mais nada um empreendimento terapêutico com o objetivo de aumentar a capacidade do paciente de estar vivo para vivenciar ao máximo a plenitude da experiência humana. Voltar à vida emocionalmente é, a meu ver, sinônimo de tornar-se cada vez mais capaz de sonhar a própria experiência, que é sonhar-se existindo. (OGDEN, 2004a/2010, p. 24)
O quarto princípio do funcionamento mental é de que “(…) há na personalidade uma função especificamente psicanalítica, e sonhar é o processo principal através do qual essa função se manifesta” (OGDEN, 2009/2019, p. 76). Ogden coloca em destaque neste quarto princípio o que aparece no texto do Bion de forma sútil, ou seja, oferece uma amplitude a um conceito bem interessante de Bion: a função psicanalítica da personalidade, que consiste na capacidade humana de sonhar (representação, simbolização) as experiências vividas ou, em outras palavras, transformar a experiência bruta (elementos beta), em elementos alfa, elementos estes que compõem o pensamento onírico. Ogden, anos antes, no artigo On holding and containing, being and dreaming (2004b/2010), ao qual também temos nos referido nas últimas páginas, aponta que o sonhar é a manifestação quintessencial da psicanálise, entendendo que Bion entende que o humano vem equipado com o potencial de produzir trabalho psíquico consciente e inconsciente e, a partir disto, produzir crescimento psíquico (p. 128).
(...) para Bion o inconsciente é a base da função psicanalítica da personalidade, e, consequentemente, para se fazer trabalho psicanalítico é preciso tornar inconsciente o consciente - isto é, tornar a experiência consciente vivida disponível para o trabalho inconsciente do sonhar. O trabalho do sonhar para Bion é o trabalho psicológico através do qual criamos significado pessoal, simbólico e através disto nos tornamos nós mesmos. (OGDEN, 2009/2019, p. 77).
Ogden conclui o texto Os quatro princípios do funcionamento mental a partir de Bion (2009), retomando a descrição inicial dos quatro princípios, dando ao leitor a sensação de que o início e o fim do texto se conectam formando uma circularidade que oferece ao leitor um diâmetro expressivo da experiência da leitura de Ogden da teoria do pensar de Bion.
Segundo nossa compreensão, há desdobramentos do texto de 2009 no artigo de 2010, Três formas de pensar: pensamento mágico, pensamento onírico e pensamento transformador; e no texto de 2011, Lendo Susan Isaacs: para uma revisão radical da teoria do pensar. A seguir iremos comentar esses desdobramentos que não implicam em uma sequência cronológica na escrita desses três textos sobre a teoria do pensar, mas sim em conexões e desdobramentos conceituais.
No artigo de 2009, surgem as noções de pensamento genuíno e pensamento mágico, que se desdobram, segundo a nossa compreensão, em três formas de pensar no texto de 2010: pensamento mágico, pensamento onírico e pensamento transformador, sendo os dois últimos um detalhamento do que Ogden nomeia de pensamento genuíno no texto de 2009.
Julgo que as três formas de pensar que discutirei (…) coexistem e, de modo recíproco, criam, preservam e negam aspectos da experiência de pensar. Nenhuma dessas formas de pensar se encontra em estado puro. Também não há relação linear entre essas formas de pensar, tal como a “progressão” do pensamento mágico para o onírico. Antes, considero que essas formas de pensar estão em tensão dialética umas com as outras (...) Além do mais, nenhuma dessas formas de pensar é um modo único, unitário de pensar; antes, cada “forma de pensar” representa um espectro bastante amplo de maneiras de pensar. A variante específica de forma de pensar que o indivíduo pode usar está sempre em mudança e depende do nível de maturidade psicológica, do contexto emocional intrapsíquico e interpessoal do momento, dos fatores culturais e assim por diante (OGDEN, 2009/2019, p. 22).
Consideramos que Ogden compreende os conceitos por meio de tensões dialéticas, inseridas em um campo complexo e espectral [19], levando em consideração uma pletora de fenômenos em interação, como se dá também na obra de Bion, ao elencarmos, por exemplo, as noções de parte psicótica / não psicótica da personalidade, a teoria das posições, a teoria dos vínculos (K, L, H), a teoria das transformações, dentre outros. Os conceitos, de maneira geral, tanto na obra de Ogden, quanto no que podemos entender como o modelo espectral bioniano que a antecede, não se apresentam como limitantes para os modelos apresentados anteriormente, mas, ao invés disso, compõem a obra e a capacidade de observação clínica dos autores.
O pensamento mágico é um pensamento onipotente, uma evitação do contato com a verdade, uma fuga da realidade tanto externa quanto interna. Levado ao extremo, temos os pensamentos delirantes e alucinatórios, que criam uma realidade própria, na qual não é possível aprender com a experiência, pois perde-se o contato com a verdade emocional e, também, perde-se a distinção entre estar acordado e estar adormecido; diferenciação esta que é produzida constantemente na mente pela capacidade de sonhar a própria experiência [20]. No pensamento mágico estamos em área de funcionamento psicótico da mente; a realidade externa frustrante é substituída por uma realidade inventada.
O sonhar é uma atividade diuturna da mente, segundo Bion, e constitui a “nossa forma de pensar mais abrangente, penetrante e criativa” (OGDEN, 2015, p.34). Ogden retoma nesse texto uma analogia, originalmente de Bion, para a compreensão dessa atividade onírica diuturna da mente: as estrela no céu ficam obscurecidas com a luz do sol, a luz da vida de vigília, mas continuam lá. A reverie é uma forma do analista captar na sessão o pensamento onírico da vigília.
O pensamento transformador é uma forma de pensamento onírico, mas que pode provocar uma intensa mudança no modo de paciente e analista pensarem, ou seja, o que Ogden denomina de pensamento genuíno no texto de 2009, desdobra-se neste texto (2010/2016) no pensamento onírico e no pensamento transformador.
Para exemplificar o pensamento transformador, Ogden analisa criativamente uma passagem bíblica, usando-a como texto literário, uma história que atravessou séculos: diante de uma mulher adúltera prestes a ser apedrejada, Jesus fala: aquele entre vocês que não tiver pecado, atire a primeira pedra. Esse vértice de compreensão da fala de Jesus cria “um modo radicalmente diferente de ordenar a experiência - inimaginável até aquele momento” (OGDEN, 2010/2016, p.41). Dessa forma, o pensamento transformador favorece o que Bion denominou uma mudança catastrófica [21]. Retomando as palavras de Ogden, "O pensamento transformador - o pensar que altera radicalmente os termos a partir dos quais a pessoa ordena sua experiência - situa-se próximo a um extremo do espectro de graus de pensamento gerador de mudança (pensar onírico)" (p.43). Aqui é válido relembrar que Ogden utiliza, neste trecho, o termo ‘espectro de graus de pensamento’, ou seja, além da tensão dialética e do campo de complexidade já apresentados anteriormente, e que compreendem os conceitos de Bion, também podemos pensar os elementos psíquicos dentro de um espectro.
Retornando ao texto Os quatro princípios do funcionamento mental, Ogden (2009/2019) faz outra observação interessante: pressupostos básicos justificam o termo protomental de Bion, no livro Experiências em grupos, que seria um pensamento no qual ainda não há diferenciação entre atividade físicas e mentais. Consideramos que aqui temos mais uma abertura para outro texto de Ogden publicado originalmente em 2011, Lendo Susan Isaacs: para uma revisão radical da teoria do pensar (2014 [22]), no qual o autor levanta a conjectura de que o texto seminal de Isaacs sobre fantasia inconsciente antecede aspectos da teoria do pensar de Bion.
No texto Lendo Susan Isaacs, Ogden (2011;2014) postula duas eras da psicanálise, a era Freud-Klein e a era Winnicott-Bion, sendo que o texto de Isaacs sobre a fantasia inconsciente é um artigo que tem uma função transicional entre as duas eras, compreensão interessante e original.
(…) Bion não usa o termo fantasia (phantasy) para se referir às crenças inconscientes compartilhadas por um grupo, e em vez disso inventa seu próprio termo, mais expressivo, pressuposto básico. Os "pressupostos básicos” são construções da realidade atravessadas de temores, que moldam tão profundamente a experiência de grupo que seria inadequado pensar nelas como meras ideias. Elas são tão básicas que justificam o termo protomental - pensamento "onde as atividades físicas e mentais são indiferenciadas" (Bion, 1959, p. 154). (OGDEN, 2009/2019, p.63)
A fantasia inconsciente nos textos de Melanie Klein, e no texto de referência para o conceito de Susan Isaacs, é compreendida como um conceito de caráter híbrido no sentido de que são representações psíquicas de sensações corporais:
(…) fantasiar é o processo que cria significado, é a forma de ser da vida psíquica inconsciente e transforma elementos somáticos em conteúdos psíquicos. Trata-se de representar as pulsões que estão próximas das intensidades e das forças, fazendo-as entrar no campo do sentido. A fantasia inconsciente é um conceito de caráter híbrido, entre corpo e psiquismo, dentro e fora, sensação e palavra. (CINTRA e RIBEIRO, 2018, p. 66)
Na citação acima é possível antever o que Ogden (2011;2014) ‘leu’ no texto de Isaacs que estava lá como potencialidade, uma memória do futuro: que o conceito de fantasia inconsciente de Klein antecede o conceito de função alfa de Bion. Em outras palavras, a função alfa é uma função transformadora da experiência bruta (sensações) em elementos psíquicos, um pensamento inconsciente, assim como a fantasia inconsciente transforma elementos somáticos (sensações) em elementos psíquicos. Ogden (2011, 2014) escreve que fantasiar é o pensar inconsciente.
Parece-me que esse aspecto da concepção de Isaacs sobre o papel da fantasia - o de transformar experiência sensorial/corporal em elementos da “vida mental” - antecipa o conceito de função alfa de Bion (1962). A função alfa é um conjunto ainda desconhecido de operações mentais (uma forma de pensar) que transforma impressões sensoriais brutas em elementos de experiência (elementos alfa) que podem ser vinculados no processo de sonhar que, para Bion (1962), é sinônimo do pensar inconsciente. (OGDEN, 2014, p. 76) (...) …Ainda que Isaacs não dê nome a essa função transformadora, seu conceito de atividade de fantasia é semelhante, segundo creio, à função alfa de Bion, i. e., fantasiar é uma função mental (uma forma de pensar) que transforma impressões sensoriais associadas à pulsão em uma forma mental que pode ser ligada para criar significado psicológico pessoal. (OGDEN, 2014, p. 76-77)
A fantasia inconsciente está vinculada à pulsão epistemofílica de Melanie Klein, que é o impulso para conhecer, representar e simbolizar o mundo. Conecta-se com o primeiro princípio do funcionamento mental a partir de Bion (OGDEN, 2009/2019): a necessidade humana de conhecer [23] a verdade de quem somos e do que ocorre em nossas vidas.
Tendo em mente esse primeiro princípio do funcionamento mental, retomamos que a mente se alimenta da verdade, mas a verdade também é evitada pela mente, ou seja, é preciso tolerar não saber, para vir a ser verdade [24]. E, dessa forma, adentramos um texto de Ogden que é uma leitura surpreendente do texto de Bion: Intuiting the truth of what´s happening on Bion’s “Notes on memory and desire” (OGDEN, 2015).
O pensamento intuitivo: intuindo a realidade psíquica
É uma invariância nos textos de Ogden a presença de uma frase inicial que captura o leitor de uma forma arrebatadora. O mesmo se dá no início de uma sessão ou de uma primeira entrevista, momento que condensa o que se desdobrará posteriormente. Daí a razão para a escolha da segunda epígrafe deste capítulo, a qual demonstra que assim como vemos valor no surgimento de uma ideia, também devemos atribuir valor aos distintos usos dados a ela.
No segundo parágrafo Ogden já apresenta ao leitor sua conjectura: o artigo de Bion, Notas sobre memória e desejo (1967/2014), é sobre o pensamento intuitivo, ou seja, existe um pensamento que Ogden considera, a partir de sua leitura de Bion, intuitivo, e esta será a ideia desenvolvida ao longo do artigo.
Ogden relata neste texto como as inúmeras leituras deste texto de Bion ao longo dos anos não geraram compreensão, mas sim transformações em Ogden. Uma frase aparentemente simples, no entanto, comporta uma complexa teoria que tentaremos expor brevemente.
Para isso, abordaremos o texto Psicanálise epistemológica e psicanálise ontológica ou o que você quer ser quando crescer? (OGDEN, 2020). A psicanálise epistemológica está relacionada ao conhecimento e compreensão, tendo Freud e Klein como principais autores, a psicanálise ontológica, tem Bion e Winnicott como referências relativas ao ser e tornar-se. Logo no início do texto, Ogden destaca que, enquanto para Winnicott a psicanálise deixa de ser centrada no sentido simbólico do brincar e passa para a experiência de brincar, em Bion, a experiência de sonhar, considerada em todas suas formas, sobrepõe-se ao sentido simbólico dos sonhos [25].
Ogden (2020) destaca que o texto descreve o que aconteceu em seu próprio pensamento: “o enfoque mudou das relações inconscientes de objetos internos para a luta de cada um de nós por tornar-se mais pleno e as experiências mais vivas e reais” (p. 24). É fundamental a advertência de Ogden no sentido da existência de um enriquecimento mútuo entre ambas, que, na verdade, não existem de forma pura na sala de análise.
Psicanálise epistemológica e ontológica são vértices oscilantes da experiência – ou seja, obedecem à lógica espectral por não serem excludentes e sim suplementares. Assim, a cada momento da sessão, observamos o fenômeno clínico de modo a identificar qual vértice predomina. Na psicanálise ontológica, o horizonte do analista é o campo do tornar-se si mesmo – campo da ontologia, o contato com a verdade de que se é a cada momento. Na psicanálise epistemológica, o vértice do conhecimento de si predomina. Dizendo de outra forma, podemos pensar em uma contínua oscilação entre o conhecer (transformações em K) e o ser (transformações em ‘O’), no qual o analista, atento ao movimento intersubjetivo do campo analítico, pode tornar figura um dos vértices, com o outro permanecendo como fundo, e vice-versa. Trata-se, portanto, de estados de predominância entre o ontológico e o epistemológico, uma oscilação entre figura e fundo, mas sempre conectados e coexistentes, vértices oscilantes, uma experiência de visão binocular.
Bion propõe no livro Transformações (1965/2014) uma reflexão sobre a eficácia psicanalítica, e não apenas acerca das verdades do conhecimento psicanalítico. Aqui Bion retoma a questão da finalidade da interpretação na psicanálise, sustentando que o fenômeno é conhecido, mas a realidade é tornada; sendo assim, a interpretação deve ir além da ampliação do conhecimento que o paciente tem de si mesmo, deve favorecer o torna-se.
Em outras palavras, a interpretação precisa favorecer uma transformação no sentido do tornar-se si mesmo, e não apenas no sentido de um conhecimento de si, e aqui voltamos ao testemunho de Ogden (2015) ao dizer que o texto de Bion (1967/2014), Notas sobre memória e desejo, o transformou, o tornou mais o analista que ele é a cada momento, com cada paciente. Uma frase simples que comporta uma vasta complexidade teórica, a transição entre a teoria do pensar em Bion (1962) e a teoria das transformações (1965). O horizonte da psicanálise ontológica é favorecer o movimento do paciente na direção ao tornar-se si mesmo, tornar-se verdade, sendo que o pensamento intuitivo é fundamental nesse processo de contínuo vir a ser que é o existir humano.
Ogden (2015) escreve que esse ímpar e condensado texto de Bion é um marco para a psicanálise, pois propõe uma expansão do método psicanalítico: o trabalho do analista é de intuir a realidade psíquica, tornando-se um com o paciente. Vamos fazer uma analogia para aproximar o leitor dessa complexa proposição: é como se analista e paciente estivessem juntos na mesma realidade onírica, e experimentassem, cada um a partir da sua singularidade, a mesma experiência emocional, ou, dentro do pensamento de Bion, at-one-ment [26]. Memória e desejo não favorecem essa experiência inédita vivida com o analisando, pois aprisionam o analista naquilo que ele já sabe, no passado (memória), e/ou no desejo [27] (futuro), e não no tempo presente, único tempo da experiência vivida que gera um pensamento genuíno (pensamento onírico e pensamento transformador).
Dentro de sua natureza espectral, um elemento teórico naturalmente evoca um conjunto de outros conceitos, de modo que a capacidade intuitiva está diretamente ligada à concepção de Verdade, de experiência emocional, de O:
A experiência de o analista vir a conhecer o paciente é única a cada encontro analítico, e contudo é inevitavelmente moldada pelos modos particulares que o analista tem de perceber e organizar sua experiência do que está acontecendo, isto é, é a experiência vista por meio de uma lente multifacetada e sempre em transformação instruída pelas ideias e experiência psicanalíticas do analista. Como Wallace Stevens coloca, "as coisas vistas são as coisas como são vistas" (citado por Vendler, 1997, p. ix). A experiência do analista de vir a saber quem o paciente está se tornando é inseparável da experiência do paciente de vir a saber quem o analista é e está se tornando. (2010, OGDEN, p. 25)
Ogden (2015) escreve, a partir de sua leitura do texto de Bion, que um processo psicanalítico é conduzido somente no presente, e que a realidade da psicanálise é a realidade do inconsciente. O autor faz uma leitura próxima e criativa do texto de Bion:
(...) ele está dizendo que o analista deve abster-se não apenas de memória e desejo, mas também das “impressões sensoriais” e dos “objetos dos sentidos”. Ele está distinguindo emoções como depressão, ansiedade e medo das impressões sensoriais (os “complementos” físicos [p. 136]) das emoções.
O reino do inconsciente, Bion insiste veementemente, é o reino do psicanalista. Ninguém conhece o inconsciente da maneira que o psicanalista conhece, e ele deve evitar “confundi-lo” (p. 137) com o domínio consciente da experiência. O inconsciente é o reino do pensamento e do sentimento que juntos formam a realidade psíquica (verdade psicanalítica) de um indivíduo em um determinado momento. O inconsciente não é um reino de sensações físicas. A sensação física reside no domínio da experiência consciente. (OGDEN, 2015, p. 77, tradução nossa)
Ogden (2015) também escreve:
Em outras palavras, para que o psicanalista seja genuinamente analítico no modo como observa, ele deve ser capaz de renunciar a modos de percepção conscientes e sensoriais, que atraem a mente do analista para a experiência consciente e para modos de pensar (por exemplo, memória e desejo) que são temerosos/evasivos da percepção da realidade psíquica inconsciente (a verdade) do que está ocorrendo na sessão. Em vez disso, o analista deve confiar em uma forma totalmente diferente de perceber e pensar. Essa forma de pensar, que Bion chama de intuição, tem suas raízes na mente inconsciente. A receptividade às impressões sensoriais, à "consciência" e à "compreensão" são o domínio dos processos de pensamento consciente (p. 78, tradução nossa).
Retomando as ideias de Ogden (2020) sobre psicanálise epistemológica e ontológica descritas acima, podemos pensar que o analista precisa ter esses vértices oscilantes de estados mentais, epistemológico e ontológico, entre conhecer e ser, consciente e inconsciente, sendo que não há fronteiras delineadas entre um estado e outro, e, também, são estados cocriados, coexistem e se afetam mutuamente em complexas tensões dialéticas.
Esta passagem é uma espécie de anúncio de que a tarefa do analista não é a de entender ou descobrir a natureza da realidade psíquica do momento da sessão analítica; ao contrário, o trabalho do analista é intuir essa realidade psíquica inconsciente tornando-se uno com ela. Bion não define o conceito de intuição, nem oferece uma ilustração clínica dele, mas o próprio termo sugere fortemente a predominância de processos mentais inconscientes no pensamento analítico. (OGDEN, 2015, p. 79, tradução nossa)
O horizonte do psicanalista é a transformação em ‘O’, o tornar-se verdade ou a verdade que é tornada [28]. Ogden (2015) escreve que essa colocação de Bion pode gerar um tipo de misticismo, e relembra o leitor da experiência cotidiana e humana do sonhar:
Quando sonhamos - tanto quando estamos dormindo quanto quando estamos acordados (Bion, 1962) - temos a experiência de sentir (intuir) a realidade de um aspecto de nossa vida inconsciente e estamos em harmonia com ela. Sonhar, na forma como estou usando o termo, é um verbo transitivo. Ao sonhar, não estamos sonhando com algo, estamos sonhando algo, “sonhando” um aspecto de nós mesmos. Ao sonhar, estamos unos com a realidade do sonho; nós somos o sonho. Enquanto sonhamos, estamos intuindo (sonhando) um elemento de nossas vidas emocionais inconscientes e estamos unos com ele de uma forma que difere de qualquer outra experiência. Ao sonhar, somos mais reais para nós mesmos; somos mais nós mesmos (OGDEN, 2015, p. 79, tradução nossa).
A mesma lógica se aplica à dupla analítica, no exercício de sonhar os sonhos não-sonhados e interrompidos do analisando. A experiência não-sonhada manifesta-se para ambos na sala de análise. Tornar-se verdade, ou seja, viver a transformação em O, implica justamente em viver esta realidade que precede ambos, independente de qualquer ato de conhecer, perceber e apreender. (OGDEN, 2014, p. 152). Para Ogden, O é um estado de "ser-no-momento-presente" (p. 155).
O que Ogden aponta, em consonância com o pensamento bioniano, é que se há algo reconhecidamente verdadeiro em um encontro analítico, este algo é justamente a experiência emocional de cada momento de cada sessão, e esta experiência é independente das interpretações que o analista e o analisando podem fazer. Ogden arrisca-se, com originalidade, a encontrar uma invariância em diversos conceitos que apontam justamente para esta realidade inalcançável, mas intuível, que escapa sempre à possibilidade de simbolização. Assim, O, para Bion, corresponderia, grosseiramente, aos conceitos de coisa-em-si (Kant), formas ideais (Platão) e registro do Real (Lacan) (OGDEN, 2003a, p. 397).
Retomando o texto de 2015, Ogden escreve que a experiência da reverie é paradigmática da experiência de intuir a realidade psíquica, e que esta implica em uma renúncia do eu do analista, em uma hospitalidade radical, como escrevemos em outro texto [29].
(...) Por auto-renúncia, quero dizer o ato de permitir-se deixar de ser incondicionalmente si mesmo, a fim de criar um espaço psicológico no qual analista e paciente possam entrar em um estado compartilhado de intuição e estar-unos a uma realidade psíquica perturbadora que o paciente, sozinho, não consegue suportar. O analista não busca a reverie, assim como não busca a intuição. A reverie e a intuição vêm, se é que vêm, sem esforço, “espontaneamente” (OGDEN, 2015, p. 79-80).
Ogden (2015) termina a parte teórica deste texto trazendo uma última intuição de Bion, de que quando a interpretação é formulada, todo o trabalho já foi feito, isto é, quando somos capazes de formular uma interpretação a partir da representabilidade das palavras todo o trabalho inconsciente já aconteceu (o principal em uma análise), e entrou no campo do conhecimento e do já conhecido, ou seja, já se tornou passado, a experiência de at-one-ment já aconteceu.
Finalizamos essa parte retomando a necessária e contínua oscilação entre os vértices da psicanálise epistemológica e ontológica: a palavra é continente para uma experiência que já aconteceu, e, também, uma forma de realizar o vivido. Quando é dita bem, realizada com êxito, um pensamento genuíno (onírico e transformador) é o nascedouro de novas experiências em uma circularidade de ampliação da intimidade e do espaço psíquico.
A ideia fundamental sustentada ao longo da concepção de intuição, associada às transformações em O e a estar uno com a realidade emocional (at-one-ment), é de que há sempre algo real, não metafórico, que buscamos apreender. Uma vez formulada uma interpretação, ou seja, uma vez alcançada uma apreensão psíquica de um fenômeno emocional vivido na dupla analítica, espontaneamente O se remanifestará em sua incognoscibilidade. Em outros termos, a dupla analítica não deve se conceber saturada em seu exercício de pensar, no sentido de que um pensamento, ao encontrar um pensador, interromperia o processo da experiência emocional. No momento que um pensamento encontra um pensador, há evidentemente outros tantos pensamentos sem pensador para serem pensados. Nas palavras de Ogden (2003a):
Como um ponto de partida para pensar sobre o que nós queremos dizer quando falamos que uma ideia é verdadeira, retornemos à ideia de que há coisas que são verdadeiras sobre o universo (incluindo a vida emocional dos seres humanos), que preexistem e são independentes do pensamento de qualquer pensador individual. Em outras palavras, os pensadores não criam a verdade, eles a descrevem. Os pensadores, a partir dessa perspectiva, não são inventores, e sim observadores e escribas participantes (p. 399).
Consideramos este momento favorável para lembrar da analogia bioniana recorrida por Ogden, de que a vida de vigília se aproxima da experiência do céu azul, iluminado pela luz solar, encobrindo assim as estrelas que, apesar de não as vermos, sabemos que estão lá ao longo do dia. Esta passagem nos remete a uma digressão que julgamos valiosa e, arriscamos dizer, talvez estejamos aqui exercitando uma leitura onírica dos autores – a bem da verdade, não sabemos definir onde termina nossa leitura de vigília e inicia nossa leitura onírica. A luz da vida de vigília, que encobre e oferece elementos para intuir o que está para além desta percepção, nos conduziu diretamente para uma passagem de Bion (1977/2017):
(...) inspirando-me em sonhos que já tive, usaria cores como o azul do céu, o vermelho do sangue e o amarelo-ocre, a cor da terra: estas são cores primitivas, primárias, e podem nos ajudar bastante. Mas, em se tratando do tipo de coisa que chamei de elemento-beta, as coisas ficam mais difíceis: eu não saberia como descrevê-los. Talvez, provisoriamente, fosse possível falarmos numa "escuridão maciça", algo diferente da simples escuridão onde ainda encontramos uma certa quantidade de luz: no caso, seria algo sem qualquer luz, o tipo de luz que Vitor Hugo chamou de "le néant" e ao qual Shakespeare (Macbeth, V. 3) se referiu como "um conto relatado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada", ou seja, zero. (p. 42-43)
O interessante é que, ao revisitarmos o primeiro livro publicado por Ogden, Matriz da Mente (1986/2017), vemos uma discussão parecida surgir em seu texto, só que em um percurso teórico distinto. É como se, metaforicamente, estivéssemos vendo Ogden chegar, por outra estrada, à mesma cidade na qual Bion decidiu hospedar-se anos antes. Ogden, no texto, encontrava associações ao conceito de fantasia inconsciente (phantasy) em Melanie Klein, recorrendo à noção de estrutura profunda de Chomsky, bem como lembra de outros autores, como Jakobson e Saussure, todos capazes de iluminar, de suas perspectivas teóricas, a concepção de sistemas pré-existentes de percepção (que em Bion será um elemento importante de apreensão da vida psíquica, como no trecho acima, a respeito das cores primárias). Assim, Ogden (1986/2017) chega também à questão das cores:
Para começar com um exemplo clássico de sistemas inerentes de organização das percepções, a percepção humana das cores não é simplesmente uma questão de dados sensoriais passivamente recebidos e convertidos em experiência visual. As cores primárias, percebidas como agrupamentos discretamente diferenciados, são produto de um esquema preexistente pelo qual organizamos certas porções em grupos de extensão contínua de ondas de cor (Borstein, 1975). Os agrupamentos de ondas, a que chamamos de cores, são universais e arbitrários entre os humanos e são produto da forma como organizamos o espectro contínuo de ondas, onde cada onda difere da próxima por uma quantidade fixa de energia. Todos nós dividimos o espectro de forma exatamente igual (na ausência de daltonismo), devido a um esquema biológico preexistente que utilizamos para organizar nossas percepções. (p. 23-24)
Todos dividimos o espectro da mesma forma, vemos as mesmas cores, mas ainda assim cada experiência emocional vivida debaixo do mesmo céu requer o exercício de pensar e tornar-se. Curiosamente Bion e Ogden encontraram o mesmo fenômeno clínico, mas vieram por diferentes caminhos teóricos. Nas palavras de Borges, no texto de Ogden, lembrando-nos a voz de Bion:
Embora haja centenas e, certamente, milhares de metáforas a serem buscadas, todas elas podem ser remontadas a poucos modelos simples. Mas isso não deve nos preocupar, uma vez que cada metáfora é diferente: cada vez que o modelo é usado, as variações são diferentes (BORGES, 1967, p. 40 apud OGDEN, 2003a, p. 405).
Aqui temos, mais uma vez apresentada, de uma forma diferente, a concepção de que independentemente do número de teorias, modelos, metáforas para o funcionamento mental, as ideias sempre terão um uso distinto e, portanto, singular, idiossincrático. Estamos aqui, neste texto, falando de conceitos de Bion que, quando iluminados pela mente de Ogden, ganham novas nuances. A presunção de encerrar o movimento do contínuo pensar, de um contínuo tornar-se, era alvo de crítica de Bion e é de Ogden:
"(...) nada que Bion deplorasse mais nas interpretações psicanalíticas do que a alegação implícita ou explícita do analista de que a interpretação refletia as qualidades excepcionais 'de seu conhecimento, de sua experiência, de seu caráter"' (OGDEN, 2003a, p. 403).
A própria ideia de reivindicar, possessivamente, uma autoria, resulta na valorização do contido acima do continente, ou seja, de que o que foi descoberto vale mais do que o processo de pensar. Ou, de uma outra perspectiva, de que o lugar de onde veio o pensamento é mais importante do que os usos feitos deste. Acreditamos que neste ponto Ogden também tem bastante a contribuir, em consonância com o pensamento de Bion. Afinal de contas, é possível definir, na busca pela Verdade da experiência emocional, dentro da tradição da intersubjetividade, quem foi o autor que teve uma ideia? É possível dizer que alguém tem uma ideia, ou é mais pertinente, dentro da teoria do pensar, dizer que ocorreu, a alguém, uma ideia? Tentaremos responder essas perguntas metodologicamente a partir de Ogden.
Lendo pessoas, lendo livros
Retomemos, por fim, a provocação inicial que apresentamos, quando Bion aponta que o encontro analítico é lugar privilegiado para "ler pessoas, não livros", e lamenta que gastemos nosso tempo lendo livros, quando podemos ler pessoas. Neste momento, após atravessarmos algumas passagens da obra de Ogden na qual identificamos, manifesto ou latente, o pensamento de Bion, acreditamos que esta ideia pode ser iluminada de novos vértices. Bion, a nosso ver, está justamente fazendo uma provocação a uma produção de conhecimento desvitalizada, ou a uma psicanálise que prioriza os livros (epistemologia) ao invés da experiência emocional (ontologia).
Na obra de Ogden notamos um esforço, recorrente, em interpolar estes vértices, dedicando-se ontologicamente a suas leituras. Sua inspiração vem, justamente, de Bion. Logo na primeira página do capítulo Lendo Bion, do livro Leituras Criativas, diz Ogden (2014):
Talvez, o mais importante para a leitura da obra seja o estado mental com que tento chegar a ela – estado mental em que aceito plenamente o que acredito ser a visão de Bion a respeito da sua própria escrita: ele não se esforça para ser entendido, mas sim servir de catalisador para o pensamento do leitor (p. 143).
Vemos aqui o uso da teoria do pensar para o exercício da leitura, conferindo a este um valor de experiência, de ampliação do continente do leitor para suas experiências emocionais. Já ao se referir ao artigo Notes on memory and desire (BION, 1967/2014), Ogden aponta que, ao visitá-lo inúmeras vezes, em busca de decifrar o mistério do texto, descobriu que a chave de leitura para apreender o texto era justamente esta. Tratava-se de fazer algo com o texto (with it), no campo da experiência, ao invés de extrair algo do texto (of it), no campo do conhecimento (OGDEN, 2015). Ou, ainda, tratava-se de "estar em" ao invés de "falar sobre" (OGDEN, 2014). Da proposição de Bion, desdobra-se uma experiência de leitura: uma vez que incorremos no risco de recorrer a memórias e desejos, indícios sensoriais que desnorteiam a apreensão psíquica para o passado ou para o futuro, podemos incluir, aqui, o uso feito das leituras, para que não sirvam como temor à verdade, como escape da experiência emocional: "Nessa empreitada, não tento chegar ao que ele realmente "quis dizer"; antes, meu interesse é observar que tipo de uso – clínico e teórico – posso fazer das minhas próprias experiências de ler Bion (...)" (OGDEN, 2014, p. 144).
Identificamos aqui uma tradição metodológica que abrange o campo da pesquisa e do trabalho clínico, encontrada no estilo e nas proposições de Bion, e que em Ogden se apresenta revisitada, no estilo próprio do autor [30]. Ogden a denomina de "leitura transitiva", no sentido de tomar o texto como um elemento dinâmico em interação com o leitor, palavras que hão de ganhar expressão a partir da subjetividade do leitor e do momento presente da leitura. Ao observarmos o conceito de verdade emocional, temos notícias do motivo desta proposição: se a verdade é sempre transitiva, leituras também devem sê-lo. Esta proposição está em conformidade com o universo bioniano aqui apresentado, no sentido de que a experiência emocional, a Verdade, é sempre transitiva, dinâmica, e sempre um vislumbre. Neste sentido, um texto não "é" algo por si, mas manifesta-se para o leitor em uma determinada forma, apreendida por sua mente.
A própria sugestão de "como ler" o livro, típica da introdução dos livros de Bion, também é feita por Ogden (2014), indicando que a experiência de leitura não é pressuposta e que envolve a presença viva do leitor em seu ato. Não se trata de "absorver" o texto, mas de tornar-se o autor lido e ver "o mundo através dos olhos" deste (OGDEN, 2014, p. 22). Ogden (2014) propõe a nós, leitores, que transformemos a leitura em uma experiência emocional, de natureza intersubjetiva, na qual permitimos que
(...) "estranhos" (palavras e sentenças que não são nossas) entrem em nós, como também nos permitimos ser lidos por esse estrangeiro (a escrita). (...) ao ser bem lido por aquilo que se está lendo (ao usar a experiência de ler para ler a si próprio), o leitor pode sentir que está vivo para um modo de ser que sempre sentiu como parte de um aspecto essencial de si, mas que não sabia como colocar em palavras, ou como se tornar mais plenamente a pessoa que sente e se exprime desse modo (p. 22-23).
Essa concepção oferece uma liberdade de trânsito entre as ideias, coerente com a concepção de Bion de que pensamentos estão em busca de um pensador, ou seja, de que a Verdade está lá e nós buscamos nos aproximar dela com nosso aparelho de pensar. Uma vez que a leitura consiste em um encontro entre leitor e texto, em mútua afetação, estamos diante do princípio de indecidibilidade da origem [31] de um pensamento (que não está no texto ou no leitor, mas no encontro). O mesmo princípio se aplica ao encontro analítico, a partir da concepção bioniana de reverie, enquanto evolução da identificação projetiva, que consiste na impossibilidade de reconhecer onde está um pensamento: há uma dupla (ou um grupo) de trabalho, em um esforço de pensar o não-pensado. Aqui, paradoxalmente, há impossibilidade de reconhecer autorias como um ponto de origem e, ao mesmo tempo, identifica-se invariâncias nos textos que nos permitem ver muitos pensadores sobre algo em comum.
Ao considerar a questão de como as ideias de uma pessoa em relação ao que é verdadeiro influenciam as dos outros, nós habitualmente adotamos uma perspectiva diacrônica (cronológica, sequencial) a partir da qual o pensamento de uma pessoa (por exemplo, Freud) é visto como influenciando o pensamento dos contemporâneos e dos que vieram depois (por exemplo, Klein, Fairbairn, Guntrip e Bion). Apesar da aparente evidência dos méritos dessa abordagem, acredito que possa ter grande valor questionar essa concepção de autoria e de influência. (OGDEN, 2003a, p. 395)
Enquanto a lógica sequencial, cronológica, é mantida, a capacidade de pensar fica refém de uma perspectiva temporal, ao invés de permitir que as ideias conectem-se livremente. Em outros termos, há uma concepção de temporalidade que pode impedir ligações, conexões, links. A ideia de autoria pressupõe justamente que alguém vem antes e reivindica a propriedade de algo que está em trânsito, cujo marco de nascimento, de origem, é indeterminável. Tomemos como exemplo a ideia de "atividade de fantasia" de Susan Isaacs e a posterior noção de função alfa, em Bion. Ainda que o conceito de Bion tenha vindo depois, cronologicamente, a leitura viva e transitiva de Ogden permite-lhe reconhecer que a função alfa já está ali, apresentada por Isaacs com outro nome e de um outro vértice, anos antes. Nas palavras de Ogden (2003a): "Bion, acredito, sustentou visões similares sobre a questão da bidirecionalidade temporal da influência das ideias de um sobre o outro (...)". E ainda: "O futuro, para Bion, é tanto uma parte do presente como o é do passado. A sombra do futuro é lançada adiante a partir do presente, e é lançada para trás do futuro em direção ao presente – 'depende em que direção estás indo'" (p. 397):
Bem, vocês podem olhar para isto como desejarem. Digamos assim: como traços de memória. Mas estes mesmos traços de memória podem também ser considerados uma sombra que o futuro molda antes. (...) Só que isto também pode ser encarado como mostrando a sombra de um futuro que não conhecemos, não mais do que conhecemos o passado, uma sombra que ele projeta ou molda antes. A cesura [32] que nos faria acreditar, o futuro que nos faria acreditar, ou o passado que nos faria acreditar, dependendo da direção em que vocês viagem e do que vocês vêem (BION, 1976, p. 138).
Ogden neste sentido demonstra como sua mente, em suas leituras, busca uma viva conversa com os autores, produz diversas "viagens" em suas leituras e visões distintas a cada momento, daí que concordamos com Ogden ao dizer que é muito difícil de apreender em que ponto o pensamento de Bion se encerra e o seu inicia. Ao longo de seus textos, vemos múltiplos autores em diálogo, trânsitos temporais diversos (como os que propomos neste texto com os artigos de Ogden), ideias identificadas em distintos autores. O resultado disto é, simultânea e paradoxalmente, uma erudição livre, na qual há um trabalho criterioso com os conceitos (e inúmeras citações) associado a um livre trânsito entre ideias.
Nas palavras de Ogden (2003a): "Todo trabalho de escrita analítica exige um leitor que auxilie o autor a comunicar algo que seja verdadeiro, algo que o autor saiba, mas que não sabia que sabia. Ao fazer isso, o leitor se torna um co-autor silencioso do texto" (p. 396). Pares em trabalho, quer sejam autor e leitor, quer sejam analista e analisando, buscam uma Verdade sem autor, um pensamento sem pensador. Tanto para Bion, quanto para Ogden, quanto para Borges [33], a Verdade não foi inventada e não requer um pensador para criá-la (Ogden, 2003a, p. 400).
É assim que para Bion, evocado pela voz de Ogden, a psicanálise era, antes de Freud, um pensamento sem pensador (BION, 1966/2014 [34], p. 38; OGDEN, 2003a, p. 400). É dentro deste pensamento que entendemos que Ogden alçou a liberdade de debater vivamente, através de sua autoria, com uma pluralidade de autores da psicanálise. É com esta liberdade oferecida pela noção de Verdade, em Bion, que Ogden foi capaz de criar seu estilo de escrita e encontrar associações (links) entre conceitos, teóricos, poetas e fragmentos de sua própria clínica.
Ogden é um autor em busca de autores, um pensador em busca de pensadores. Ler Ogden é, sem dúvida, uma experiência transformadora.
Notas
1 Psicanalista. Professora doutora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Coordenadora do LipSic: Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea. Autora de diversos livros e artigos, dentre eles: "De mãe em filha: a transmissão da feminilidade" (2011). Coautora de: "Por que Klein?" (2018) e "Chuva n' alma. A função vitalizadora do analista" (2023). Organizadora e autora de "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos" (2023).
2 Psicanalista. Graduado em Psicologia pela PUC/SP. Mestre e doutorando em Psicologia Clínica pela USP. Especialista em psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae. Docente do curso de formação do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) de São Paulo e do curso de pós-graduação latu senso da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
3 Em função dessa complexidade, iremos explicitar alguns conceitos de Bion em notas e sugerir ao leitor interessado o dicionário de Paulo Sandler, A linguagem de Bion. Um dicionário enciclopédico de conceitos. (2005/2021).
4 Sugerimos que os leitores apreciem os textos originais de Thomas Ogden.
5 Esse artigo foi publicado originalmente em 2008 (Fort Da, 14B: 11-35); em 2009 foi republicado no livro Rediscovering Psychoanalysis. Thinking and Dreaming, Learning and Forgetting. A versão em português é de 2019, publicada no livro Diálogos psicanalíticos contemporâneos. Bion e Laplanche: do afeto ao pensamento. Usaremos nas citações a tradução de 2019.
6 Ou Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, na tradução referida na bibliografia (FREUD, 1911/1920).
7 É válido observar que Ogden evoca Jorge Luís Borges com considerável frequência em seus diálogos com a obra de Bion, justamente por ser um poeta cujas ideias iluminam a intertextualidade entre os autores.
8 Conceito da filosofia da matemática, aplicável a diversas ciências práticas, como a física, a psicanálise, a química, a teoria musical, dentre outros. A ideia de invariância consiste no reconhecimento de que algo permanece inalterado, uma marca peculiar que permite o reconhecimento de algo, independentemente das transformações que este possa sofrer. Na obra de Bion, a noção de invariância se aplica à ideia de que acessamos, por relances intuitivos, algo que transcende o tempo, o espaço e a individualidade (SANDLER, 2021, p. 474-475).
9 Os pressupostos básicos são três: de dependência, de acasalamento e de luta e fuga. Sucintamente, quando predomina o pressuposto de dependência, o grupo acredita que o líder ou um messias virá para salvar e resolver todos os problemas. O pressuposto de acasalamento tem a crença de que duas pessoas do grupo produzirão um messias, que pode ser uma ideia ou uma utopia. O pressuposto de luta e fuga tem a crença de que todos os problemas serão resolvidos por meio da luta ou da fuga do inimigo.
10 Nessa parte do texto Ogden cita a frase de Keats como elemento inspirador para Bion (1965a/2014, 1967a/2014) propor uma expansão do método psicanalítico com a insígnia "sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia", assim consideramos (Ogden não faz essa associação diretamente). Podemos aproximar o pensamento genuíno a que se refere Ogden neste texto (2009/2019) ao pensamento intuitivo que é exposto no texto de Ogden (2015) no qual ele faz uma leitura criativa do texto de Bion de 1967, Notas sobre memória e desejo.
11 Ressaltamos que, como incremento à teoria kleiniana, Ogden postulou uma posição anterior à posição esquizoparanóide, denominada posição autista-contígua (OGDEN, 1989).
12 A compreensão de Ogden da identificação projetiva será abordada no capítulo Da identificação projetiva ao conceito de terceiro analítico. Um pensamento em busca de um pensador.
13 Utilizaremos a tradução do texto "On holding and containing, being and dreaming", que consta no livro Esta arte da psicanálise (OGDEN, 2010). O texto foi originalmente publicado em 2004: OGDEN, T. H. (2004) On holding and containing, being and dreaming. International Journal of Psychoanalysis, v. 85, p. 1349-1364, 2004.
14 O entendimento da identificação projetiva como uma comunicação inconsciente, e não apenas como um mecanismo de defesa, é um incremento bioniano ao conceito de Melanie Klein.
15 Sobre o conceito de reverie ver o capítulo Do limbo ao lume: a reverie em Thomas Ogden neste livro.
16 No original, "unlinkable", ou seja, incapazes de gerar links, vínculos, ligações, ou seja, estão fora do escopo do pensar, como apresentamos acima quando nos referimos ao texto Attacks on linking (Ataque aos vínculos) (BION, 1959/2022).
17 Utilizaremos a tradução do texto "This art of psychoanalysis – Dreaming undreamt dreams and interrupted cries", que consta no livro Esta arte da psicanálise (OGDEN, 2010). O texto foi originalmente publicado em 2004: OGDEN, T. H. (2004) This art of psychoanalysis – Dreaming undreamt dreams and interrupted cries. In: International Journal of Psychoanalysis, v. 85, p. 857-77, 2004.
18 "A concepção de objeto parcial como análoga a uma estrutura anatômica, incentivada pelo emprego de imagens concretizadas como unidades de pensamento, é enganosa, pois um relacionamento com objetos parciais não ocorre apenas com estruturas anatômicas, mas com uma determinada função. Não é com anatomia, mas com fisiologia. Não é com um seio apenas, mas com nutrição, envenenamento, amar e odiar". (BION, 1959/2022, p. 146).
19 A compreensão espectral dos conceitos de Bion é enfatizada em vários textos do psicanalista brasileiro Arnaldo Chuster, contemporâneo de Thomas Ogden.
20 A barreira de contato que cria a mente consciente e inconsciente é constantemente modificada pelos elementos alfa. Se a pessoa não é capaz de sonhar/pensar a experiência emocional, ela não dorme e nem acorda, não sonha e perde o contato com a realidade compartilhada, ou seja, está em um estado psicótico da mente.
21 Termo que indica uma mudança ou perturbação súbita do estado prévio, que pode ser real ou alucinado. Trata-se de uma mudança capaz de destruir uma organização prévia e, ao mesmo tempo, indica invariância, no sentido de permitir ao observador notar que, apesar de ser um evento catastrófico, algo se conserva. Quanto maior o temor à mudança, tanto maior será o evento catastrófico, indicando resistência a reconhecer a transformação natural de um fenômeno (SANDLER, 2021, p. 90).
22 O artigo original é de 2011, a publicação em português está no livro Leituras Criativas. Ensaios sobre obras analíticas seminais, de 2014.
23 "Conhecer", na obra de Bion, é uma atividade indicada pelo vínculo K, símbolo para knowledge, que se dá por meio das emoções de amor (vínculo L – love) e ódio (vínculo H – hate). O conhecimento é possível por meio do trânsito pelas emoções ou, em outras palavras, a capacidade humana de sonhar/pensar/representar a experiência vivida.
24 A construção ‘vir a ser verdade’ é intencional, é vir a ser ‘O’, a verdade é o tornar-se, é a transformação em ser, assim compreendemos.
25 A apresentação dessas ideias sobre a psicanálise epistemológica e ontológica também está presente no artigo Palavras aladas guiando o encontro analítico (Cesar, Ribeiro, Perrotta, 2022).
26 At-one-ment, ou "estar uno a", indica uma condição de presença em um evento caracterizada como viva, verdadeira, sem contaminação por mentiras. Trata-se de uma condição para estar em contato com uma pessoa ou apreender algum evento imaterializado, de modo transitório e parcial, a partir da intuição. Não se trata de conhecer algo, já que estamos aqui de fenômenos da ordem do "ser", ao invés de "conhecer": estar-uno-a seria o equivalente a ser com, tornar-se algo (SANDLER, 2021, p. 335).
27 O desejo por ‘curar’ o paciente é algo mobilizador para quase todos os analistas; para o leitor interessado indicamos o texto de Figueiredo (2021) Ser psicanalista: um ofício meio doido.
28 A expressão ‘tornar-se verdade’ ou ‘a verdade que é tornada’, surgiu a partir deste texto.
29 No texto Reverie e intuição: captando fatos ainda não sonhados (Ribeiro, M.F.R, 2022), é abordada a interação entre reverie e intuição, e, também, a hospitalidade do analista necessária a experiência da reverie.
30 Sob a inspiração do modo de pensar a leitura e a escrita psicanalíticas proposto por Bion e aprofundado por Ogden, indicamos o texto intitulado A pesca do fragmento intersubjetivo na pesquisa psicanalítica (RIBEIRO, FLORES & RAMOS, 2022), no qual é proposta e fundamentada uma metodologia de pesquisa acadêmica fundamentada nesta perspectiva.
31 O princípio da indecibilidade da origem, apresentado originalmente pelo matemático Kurt Gödel, utilizado pela física quântica, diz respeito a uma metodologia de pesquisa dos fenômenos que abdica da ideia de uma única resposta correta para determinada observação. Trata-se de um princípio aplicado em casos em que o objeto de estudo é instável. Bion recorre a este princípio, implicitamente, ao apontar que no vínculo analítico há sempre um momento de indecibilidade sobre a origem de um fenômeno mental na dupla analítica, que por sua natureza não demonstrável, mantém-se sob indecisão (CHUSTER, 2003, p. 50).
32 Cesura, mais uma conceito do arcabouço de Bion, indica um evento que ao mesmo tempo conecta e separa outros, de modo simultâneo e paradoxal. Indica continuidade e ruptura, concomitantemente. Trata-se de um conceito de qualidade abstrata, ou seja, capaz de se aplicar aos mais diversos fenômenos mentais (SANDLER, 2021. p. 121). A noção de cesura é inspirada em uma frase de Freud: "Há muito mais continuidades entre a vida intra-uterina e a primeira infância do que a impressionante cesura do ato do nascimento nos teria feito acreditar" (FREUD, 1926, p. 162).
33 Se nas páginas seguintes houver um ou outro verso que deu certo, perdoe-me o leitor pela audácia de tê-lo escrito antes dele. Somos todos iguais; nossas mentes inconseqüentes são muito parecidas, e as circunstâncias nos influenciam de modo que há algo de acidental que faz você ser o leitor e eu o escritor – o escritor inseguro e ardente – dos meus versos [que ocasionalmente capturam algo de verdadeiro da experiência humana] (BORGES, 1923, p. 269 apud OGDEN, 2003a, p. 400).
34 (...) a psicanálise, a coisa-em-si, existia. Coube a Freud revelar sua formulação. Inversamente, uma vez formulada por Freud, resta a outros (incluindo o próprio Freud) descobrir o significado da conjunção ligada a sua formulação. É preciso postular o “pensar” sem supor que um pensador seja essencial (p. 38).
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