Sonhando futuros: o analista como guardião do porvir - uma perspectiva bollasiana
- 29 de abr.
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Atualizado: há 5 dias
Este texto é um capítulo do livro “Por que Bollas?” (2024) da Editora Zagodoni, organizado por Elisa Cintra. O capítulo (cap. 8) foi escrito por Marina Ribeiro [1] e Fátima Flórido César [2].

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar. Eduardo Galeano (1994, p. 310).
Somos todos dotados de "futuros" - potenciais do nosso verdadeiro self - que podemos ou não perceber ao longo do tempo. Christopher Bollas (2021, p. 16)
Uma das marcas mais fundamentais da condição humana é sermos no tempo. Desde os inícios há um entrelaçamento entre existência e tempo: o que fomos/o que aconteceu, o que somos/o que está acontecendo, o que seremos/o que irá acontecer. Ser e acontecimento estão entrelaçados.
No entanto, o trauma congela o tempo e o sujeito se extravia da sua marca de humanidade na medida em que perde a historicidade: deixa de ter passado e, principalmente, de ter futuro, fica aprisionado em um eterno presente. O sonhar permite que nos preparemos e nos projetemos para o futuro: condição para o devir. Mas se o sonhar fica obstruído pelas condições traumáticas, sejam elas individuais ou coletivas; a esperança e o futuro, os quais se conduzem em comunhão, esfumaçam-se em espaços existenciais de vazio e paralisia.
O analista é alguém que convida para o futuro. Pois tudo começa pelo futuro, este convoca nossa presença na vida promovendo transformação. Consideramos como fundamental na função analítica o ser testemunha de uma possibilidade de um futuro, ainda que incerto, o terapeuta se disponibilizando como portador da esperança. O futuro estará aberto se oferecermos nossa presença no caminhar com o paciente, compartilhando da comunidade de destino e de desamparo, assim como da experiência de sonharmos conjuntamente. O futuro é a abertura para o infinito, para o incomensurável das possibilidades, do que está por vir. A marca da saúde é viver no inédito: no que ainda não aconteceu [3].
A função analítica passa por temporalizar o paciente traumatizado, pois tudo está "achatado" em uma condição estéril de bidimensionalidade. O analista, com a sua face voltada para o futuro, trabalha conjuntamente com o paciente na recuperação de sua tridimensionalidade do espaço psíquico.
Ao finalizar seu prefácio para a edição de 2021 do livro Forças do destino, Bollas afirma: "Somos todos dotados de futuros - potenciais do nosso verdadeiro self [4] - que podemos ou não perceber ao longo do tempo" (p. 26). E, adiante, completa:
Por meio das relações de sujeito, típicas de uma análise, a receptividade do analista à forma idiomática do analisando pode liberar o verdadeiro self dessa pessoa para a realização de futuros até então não vivenciados, desconhecidos. (p. 26).
Este capítulo objetiva a reflexão sobre a ideia de futuros no pensamento bollasiano, e para isso precisaremos integrar conceitos próprios do autor, tais como pulsão do destino, idioma [5] e self verdadeiro, entremeando-os de modo tal que possamos apresentar como parte essencial do processo analítico auxiliar o paciente a realizar futuros segundo seu idioma e seu verdadeiro self.
Em entrevista à revista Percurso (1998, p. 138), Bollas afirma que é contra toda forma de kleinianismo, winnicottianismo, lacanismo, exceto contra o freudismo. Reconhecemos, a partir desse comentário e considerando o conjunto dos seus textos, que ele é um autor transmatricial [6], que preza por sua liberdade de pensamento, ou seja, seu idioma pessoal como psicanalista é realizado em seus textos.
Fernando Cembranelli (2021), em sua apresentação, nesse mesmo livro, Forças do destino, aponta que Bollas se situa na intersecção do pensamento de Winnicott e Bion, ao articular a problemática do "ser" à das "transformações". Bollas discorre sobre a necessidade de saber e a força de vir a ser, ou seja, ele transita pelo que foi denominado por Thomas Ogden (2020) de uma psicanálise epistemológica (saber) e uma psicanálise ontológica (ser) [7].
A reflexão bollasiana sobre futuros se concentra no capítulo "Pulsão de destino", do livro Forças do destino. Pulsão de destino se refere a um forte desejo do verdadeiro self, relacionada à força que o verdadeiro self tem para realizar/elaborar seu potencial; tal self sendo a presença singular de cada um, o que cada um tem de próprio: o idioma.
A pulsão de destino é, portanto, aquela força iminente ao idioma (que se expressa através da escolha e do uso particular dos objetos), ao impulsionar o sujeito para o alcance de seu potencial pessoal.
Antes de abordarmos como Bollas discorre sobre futuros no livro acima mencionado, voltemo-nos ao seu primeiro livro A sombra do objeto, no qual, na noção de objeto transformacional, já está subjacente o princípio transformacional e de futuro. Em outras palavras, a mãe é experienciada como um objeto transformacional com seus cuidados que possibilitam transformações internas, externas e o sonhar futuros.
A medida que a mãe oferece cuidados a partir de seu idioma, oferecendo objetos que atraem o interesse do bebê e lhe dão prazer, ela dá forma ao idioma da criança. Isso gera, no decorrer de nossa vida, o desejo de reencontrar tal experiência inaugural: o contato com o mundo sendo guiado pelo ressoar de nosso idioma com elementos do idioma materno, estabelecendo assim uma relação subjetiva com os objetos. Desde a primeiríssima infância e, no decorrer da vida, procuramos objetos que deem expressão e articulem nosso idioma.
O primeiro conhecimento do idioma pessoal se dá na relação com a mãe de maneira mais existencial e menos representativa. A mãe é vivenciada como um processo, e não tanto como um objeto, favorecendo, dessa forma, transformações no self do filho. Essa primeira experiência subjetiva do infante com um objeto é definida por Bollas como objeto transformacional: este é identificado pelo bebê quando ele vivencia as transformações do self.
No prefácio de Decio Gurfinkel à nova edição de A sombra do objeto, este relata:
A busca pelo objeto transformacional se torna um leitmotiv de toda a nossa vida. Se, por um lado, guardamos em nós a memória de nossas experiências transformacionais primordiais na forma de uma "lembrança do ego pré-verbal", é no tempo futuro que depositamos a esperança persistente de reencontrá-lo. As experiências estéticas de encontro com um objeto que despertam ressonâncias pessoais profundas - tais como uma fusão misteriosa com o objeto, um sentimento de sagrado, etc. - são momentos especiais em que tal reencontro se dá; mas para além de um reencontro nostálgico com o objeto perdido, trata-se de uma nova abertura, ou seja, trata-se da esperança de viver uma nova transformação significativa. (2015, p. 19)
Compartilhamos das ideias de Gurfinkel, em especial quando este alerta que a busca do objeto transformacional não é um enlace com o nostálgico, com o antes perdido, mas um anseio pelo futuro e pela transformação. Se a psicanálise era identificada como um movimento para o passado, há que, nesses tempos em que fazemos releituras e expansões dos conceitos de transferência e contratransferência, abrir espaço para o futuro, aquele que traz a esperança a ele atrelada. Aqui ressaltamos o encontro com o objeto, tanto o primário quanto aquele que encontramos nos futuros com suas fundamentais possibilidades de elaboração crescente do idioma pessoal que, nesse sentido, vai direcionando para a apropriação da força do verdadeiro self no sentido de realização do potencial da personalidade.
Continuando com Gurfinkel, comentando o texto de Bollas:
"A busca do objeto transformacional é uma busca infinita por algo no futuro que reside no passado" (2015, p. 75). Buscamos continuamen-te um encontro estético que prometa metamorfosear o self, nos diz Bollas. Mas creio que também buscamos transformar, à medida que nos sentimos transformados. Depois de ser, fazer, dizia Winnicott, a partir de Bollas, poderíamos acrescentar: depois de ser transformado, transformar. (2015, p. 35)
Aqui é enfatizado que a busca do objeto transformacional é uma busca por transformar o self; mas Gurfinkel aponta para outra perspectiva: também ansiamos por transformar, assim como somos transformados e, dessa maneira, seremos brindados pela face luminosa do outro. Nada encontraríamos de mais eloquente para adentrarmos na reflexão sobre os futuros.
A diferença entre fado e destino
As noções de fado e destino apresentadas no capítulo "Pulsão de destino", no livro Forças do destino (2015), remetem-nos ao que está paralisado, em contrapartida ao que se desdobra em movimento, novidade e, em suma, a elaboração do que Bollas define como self pessoal. Temos como função auxiliar o pensamento do porvir sem a rigidez dos designios, abrindo clareiras de futuros, pequenas que sejam, na tentativa de descongelar o tempo enrijecido.
Após o século XVII, ocorre uma diferenciação entre os dois termos, quando então destino ganha um significado mais positivo, relacionado ao curso que é um potencial na vida de alguém: uma pessoa pode realizar seu próprio destino se for determinada, se for agressiva o suficiente. Segundo Bollas, a ideia de fado que deriva do latim fatum, relacionado a oráculo e profecia - relaciona-se à cultura agrária, quando as pessoas dependiam de elementos externos a elas, das estações e do tempo.
Destino, por sua vez, deriva do latim destinare - que significa segurar, tornar firme - está mais relacionado a ações do que a palavras. Já fado é anunciado por meio das palavras de alguém, como, por exemplo, o fado de Édipo é revelado pelo oráculo de Delfos.
Quando recebemos uma pessoa com sintomas limitantes e sofrimentos de toda ordem, podemos dizer que ela está fadada, sem futuro e privada de perspectivas, de caminhos para além do labirinto, no qual o fatídico ameaça e predomina. O sintoma sendo como uma espécie de oráculo: "decifra-o, revela-o através de associações e a descoberta de seu significado latente, e a pessoa pode se libertar da maldição engendrada por seu desconhecimento" (Bollas, 2021, p. 59). Mas, na medida em que Bollas nos adverte que, lado a lado com o fado, encontra-se um destino, que é somente um potencial, dá-se algo mais próximo do movimento para o futuro através do uso do objeto (a transferência) do que de uma investigação reveladora. Acenam-se, assim, no horizonte possibilidades de futuros e esperança.
No fado, domina-se a sensação de uma pessoa que não se apropriou de seu self verdadeiro, que não foi encontrado e, portanto, não pode ser transformado em experiência. É importante destacar que a pessoa fadada não vivenciou a realidade como favorável, daí não podendo realizar seu idioma. Bollas associa, portanto, o sentido de fado ao conceito de falso self e ao viver reativo segundo a concepção winnicottiana.
Podemos pensar que no tempo dos começos, se o individuo foi exposto a uma realidade traumatizante, a consequência pode ser a impossibilidade de movimento e futuros: o presente sem porvir, os repertórios anímicos restritos a adoecimentos aprisionantes, Calejados por experiências fatídicas, corre-se o risco de uma imobilização capaz de roubar os futuros e do vir a ser do individuo. Assiste-se desse modo à restrição da liberdade inconsciente e da criatividade psíquica.
Referindo-se à pessoa aprisionada a um oráculo fatídico, Nettleton (2018, p. 46) afirma que se pode experimentar um luto inconsciente por seus potenciais selves e um sentimento de impotência em reação à condução de sua própria vida, na medida em que o passado retoma na forma de "ecos opressivos", fazendo com que o futuro pareça sem esperança.
Remetemo-nos ao fado atingindo o indivíduo, pois na medida em que o futuro o assombra com névoas fatídicas, corre-se o risco de que se entrelacem o não futuro na biografia do indivíduo com as ameaças que os percalços da vida podem vir a se impor.
Continuemos com Bollas (2021, p. 70) para maior compreensão do sentido do "fado":
Uma pessoa que se sente fadada pode imaginar futuros que carreguem o peso do desespero, Em vez de sentir a energia da pulsão de destino e de "possuir" futuros que a nutrem no presente que servem criativamente para explorar caminhos para um percurso em potencial (através do uso de objetos), a pessoa fadada apenas projeta o oracular. Um vislumbre de futuro, uma visão do fado, ecoa apenas a voz materna, a paterna ou do contexto sociocultural que oprime o self. Não há, portanto, nenhum desejo de evocar futuros, visto que o individuo não deseja despertar memórias dolorosas. Na verdade, podemos falar de repressão dos futuros, da mesma forma como falamos da repressão das memórias. Se eles contêm muito sofrimento, os futuros são tão sujeitos a ser reprimidos quanto as lembranças dolorosas.
Destino e futuros
Em contraposição, retomemos a noção de destino, este que tem sentido de trajetória na vida de um indivíduo para a realização de seu potencial único, de seu idioma pessoal. Ampliemos a noção de destino relacionando-o ao que nos promete de progressão e trajetória: ao descongelamento do tempo morto, próprio do tempo melancólico da imobilidade.
A função vitalizadora do analista se apresenta assim no resgate do paciente de sua imersão no fatídico, um trabalho na contramão das condições desalentadoras da pessoa fadada, a que se refere Bollas (2021) na citação acima. Escutando as memórias, abrem-se caminhos para o "desmanchar" da repressão dos futuros, não há como oferecermos garantia, mas sim nossa "companhia viva", de modo a convidar ao imaginar de futuros, "sem o peso do desespero".
Propomos nos referirmos a uma função vitalizadora do analista que se encaminha no sentido de resgatar o paciente das vozes passa das dos objetos primários que se vinculam ao silêncio de desertos sem oásis, ou de distantes oásis, precisamos cuidar para que as dores do paciente não se colem de modo indissolúvel à situação vivenciada de susto e desamparo. São esses os casos em que predominam condições psiquicas de porosidade extrema, onde não há fronteiras entre o eu e o outro, entre o interno e o externo. Até onde ir quando se ouvem chamados agoniados? Como manter fronteiras capazes de mobilidade: portas e janelas que ora se abrem ora se fecham? Uma posição absoluta é sempre aprisionante: presente morto ou passado que só chama para o lembrar-se, sem espaço libertário para o esquecimento.
Para sabermos o quanto o verdadeiro self está evoluindo, precisamos investigar se o sujeito está realizando seu destino, e isso pode ser possivel a partir da própria relação na transferência-contratransferência e em parte na consideração de sua história de vida. Existe um anseio de expressar o idioma do verdadeiro self, vinculado à realização do destino; ou seja, este estará relacionado a partes do self que não foram cindidas, permanecendo dentro do indivíduo e dando a ele a sensação de inteireza. Assim supomos, e, como afirma Bollas (2021), identificamos sinais de que o paciente está no caminho certo; ou seja, "cumprindo" seu destino segundo seu idioma e self verdadeiro. Isso dependerá dos cuidados da mãe, segundo a concepção winnicottiana. O que seria isso? Um cuidado suficientemente bom, que possibilita o bebê, a criança e depois o adulto a terem um senso de estarem criando sua própria vida (vinculado à evolução do self verdadeiro do sujeito). Destaca-se aqui a provisão materna de ilusão de criatividade unida à pulsão de destino, esta constituindo "um sentido interno de evolução através do espaço e do tempo" (Bollas, 2021, p. 60). No dizer de Bollas:
Um senso de destino, então, seria um sentimento de que a pessoa está realizando alguns dos termos de seu idioma interior através de objetos familiares, sociais, culturais e intelectuais. Acredito que esse senso de destino é o curso natural do verdadeiro self por meio de muitos tipos de relações objetais e que a pulsão de destino emerge, se o faz, da experiência infantil da facilitação, promovida pela mãe, do movimento do verdadeiro self.
Para Bollas (2021), uma das tarefas da análise é possibilitar que o paciente entre em contato com seu próprio destino, através da articulação crescente de seu self verdadeiro por meio de objetos diversos. É fundamental sua afirmação de que o processo analitico se refere mais à elaboração do idioma, em vez de somente da desconstrução dos processos mentais e do fado dos objetos internos. Aqui somos remetidos à importância dada à celebração do analisando pelo analista, estando este atento à chegada das representações do verdadeiro self, possibilitando desse modo uma função fundamental de ligação entre o mundo interno e o mundo real.
No capítulo "A celebração do analisando pelo psicanalista", do livro Forças do destino, Bollas (2021) nos aproxima tanto do que é tal celebração quanto do propiciar da facilitação do estabelecimento e elaboração do idioma: "O psicanalista celebra o verdadeiro self por meio de sua resposta afetiva à sua presença!" (2021, p. 114). Isto exclui a voz neutra e dá lugar a voz que se exprime como portadora de sentimentos. Da mesma forma que ele confronta o paciente, assim o diz, também usa seus sentimentos para celebrar a pessoa, ficando atento a suas aptidões egoicas.
Voltando a Gurfinkel (2015) em seu prefacio ao livro Sombra do objeto, fazemos uso de suas eloquentes palavras: "Trata-se, neste caso, menos da sombra do objeto, e mais da luz que dele irradia e que é usada por nós como alimento vital" (p. 34). Na tradição das relações de objeto, Bollas celebra também o encontro eu-outro como fonte principal de transformação e de promessa de futuros.
Quando a pessoa sente que está evoluindo em sua personalidade, é visitada por uma sensação de estar de posse do encaminhar de sua existência, o que dá uma base para a projeção sobre si mesmo no futuro: "Qualquer pessoa que vive em parte do verdadeiro self projetará possibilidades idiomáticas para o futuro, e denominarei tais projeções de futuros" (Bollas, 2021, p. 68, grifos nossos).
Quem está de posse de seu senso de destino tem mais condição de projetar futuros; para isso é necessário, segundo Bollas, certa "inexorabilidade" - a destruição criativa do presente e do passado enquanto condição de busca de futuros. Tal inexorabilidade faz parte, afirma Bollas, da pulsão do destino: "Existe um desejo de investir em futuros que, para o verdadeiro self, são espaços potenciais ainda não imediatamente disponíveis" (2021, p. 69).
A pessoa que vive de posse do sentido interior de destino - e isso é fundamental- será, no dizer de Bollas, levada intuitivamente à escolha de objetos que expressem o idioma pessoal e, com isso, terá objetos imaginários (futuros) que são perspectivas de uso potencial. Adiante no texto completa que os objetos do presente estão impregnados de futuro e, se a pessoa tiver um senso de destino, escolherá objetos que facilitem o acesso ao tão promissor futuro.
Pensemos numa criança que escreve desde cedo poesias num pequeno diário, estas pueris (porque são infantis) exprimem o sentido mais profundo de seu destino, fiéis ao idioma de seu verdadeiro self.
Ela então poderá vir a cursar Letras ou a escrever livros quando adulta, ou seja, uma realização do seu idioma pessoal.
Bollas exemplifica na direção contrária a sentir a energia de uma pulsão de destino e de "sonhar" futuros, quando uma criança perde um dos pais. Eis um exemplo de perda de futuro, a qual impede o uso do objeto parental, que estaria ligado à articulação do verdadeiro self. A criança perde assim uma parte do idioma dela que só poderia ser elaborado através do uso daquele pai ou de algum aspecto deste e que, pela falta parental, deixa de estar disponível. Perdem-se assim os futuros como também a pulsão de destino que impulsionaria o verdadeiro self ao ser e ao relacionar-se. Uma criança ou adolescente que perde futuros, completa Bollas, carrega um pesar: a perda de selves potenciais do que poderia ter sido e agora não poderá ser. Talvez em uma análise isso possa ser retomado, na medida em que o processo de apropriação do futuro ficou impossibilitado devido à morte de um dos pais; o analista podendo auxiliar no desbloqueio na direção do reaver do futuro.
Retomemos a importância que Bollas dá à escolha dos objetos: dependemos deles para a expansão do idioma e do liberar do self em expansão. O principio transformador sempre presente: "E, vez ou outra, seremos realmente transformados pela misteriosa conjunção de nosso idioma com um objeto, encontrando-se os dois no momento exato" (2021, p. 76, grifos nossos).
A saúde estará relacionada ao elaborar crescente e continuo do idioma pelo self verdadeiro, sendo a realização de uma vida inteira o trabalho da pulsão de destino a partir dos objetos culturais que geramos e que constituem nossas realizações pessoais. Se o analista puder ser o objeto do verdadeiro self do paciente, viabilizará gradativamente muitas das realizações do paciente, com o destino deste sendo parcialmente realizado (2021, p. 77).
Um convite aos futuros
Finalizamos com a afirmação de Bollas de que é parte essencial do trabalho analitico transformar o fado em destino e auxiliar o paciente a se apropriar dos futuros na direção das transformações, internas e externas; no sentido da articulação progressiva de seu verdadeiro self por meio de objetos, incluindo o próprio analista, a partir do uso do objeto. Em outras palavras, o analisando usa as qualidades da personalidade do analista.
Portanto, a função vitalizadora do analista (Cesar, Ribeiro, Figueiredo, 2023) poderá se apresentar através do convite aos futuros e ao resgate, por que não, da utopia? Entendendo utopia como escreve Figueiredo (2003, p. 160):
A utopia, por seu turno, será encarada como uma tendência básica à antecipação, uma abertura e uma disponibilidade para o futuro independentemente de qualquer projeto politico social determinado, embora, sem dúvida, comportando a esperança de uma vida melhor. Embora o futuro esteja aí implicado, não se trata de uma vivência ou fantasia de tempo futuro, mas de uma abertura para ele, sobre a qual uma vivència temporal pode de fato se assentar, contudo, sem ela se confundir.
A utopia serve como um convite aos futuros para continuarmos a realizar o nosso idioma pessoal.
NOTAS
1 Fátima Flórido César é psicanalista, possui pós-doutorado pela PUCSP (2018) e é pós-doutorando pelo IPUSP (2024). Autora de diversos livros, sendo os mais recentes: Do povo ao nevoeiro. Psicanálise de casos difíceis (Blucher, 2019); e Chuva n´alma. A função vitalizadora do analista (Blucher, 2023).
2 Marina F. R. Ribeiro é psicanalista, professora associada do IPUSP, professora e orientadora de mestrado e doutorado no Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica do IPUSP; coordenadora do LipSic (Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea). Autora e organizadora de vários livros e artigos publicados em revistas nacionais e internacionais.
3 Segundo Bion (1967), o que importa é a sessão de amanhã, o desconhecido, aquilo que ainda não foi sonhado, compreensões do processo analítico que se sustentam no arcabouço teórico e clínico bioniano.
4 Bollas parte do conceito de verdadeiro self de Winnicott, mas dele difere: para este último, o verdadeiro self designa o gesto espontâneo, entretanto com um teor de fragilidade e precisando de defesa (o falso self); protegendo-o em seu potencial de vida e criatividade. O verdadeiro self de Bollas se remete a algo mais robusto, nosso idioma possuindo um sentido afirmativo, um impulso para existir, não precisando de proteção. Enquanto o verdadeiro self de Winnicott precisa ser protegido, para Bollas ele busca ativamente a interação com o mundo externo através de uma integração criativa.
5 O conceito de idioma é central no pensamento de Bollas. Sarah Nettleton (2018) afirma: Bollas sustenta que cada indivíduo nasce com um núcleo essencial do self: um correlato psíquico da impressão digital humana. Ele descreve isso da seguinte maneira: "Temos dentro de nós o senso de um núcleo que dá origem à nossa estética particular de ser. Temos uma noção de agência do self, de algo que é irredutível e nos determina" (p. 29). Para se referir a este cerne do self, ele usa a palavra idioma. "Como a nossa impressão digital física, nós nascemos com ela como parte da nossa identidade" (p. 39/40).
6 Bollas é um teórico contemporâneo que aborda a psicanálise a partir de diferentes matrizes, articulando contribuições freudianas, kleinianas, bionianas e winnicottianas. Situa-se, portanto, em um campo transmatricial (Figueiredo; Junior, 2018), ou seja, articula diferentes matrizes de pensamento psicanalítico.
7 A psicanálise epistemológica está relacionada ao conhecimento e à compreensão, ou seja ao campo das representações e diferenciações, têm Freud e Klein como principais autores; já a psicanálise ontológica tem Bion e Winnicott como referências, é relativa ao ser e ao tornar-se - campo do não representado e do indiferenciado.
8 Complementando aqui a nocão de pulsão de destino... "é aquela força iminente ao idioma do sujeito em seu impulso para atingir seu potencial de elaboração pessoal. Através de objetos mentais e reais, este idioma procura se articular por meio dos "encadeamentos" da experiência" (Bollas, 2021, p. 60).
9 Chuva n'alma. A função vitalizadora do analista (Cesar, Ribeiro e Figueiredo, 2023).
REFERÊNCIAS
BION, W. R. (1967). Notas sobre memória e desejo. In: As obras completas de W. R. Bion (v. 6, p. 203-210). Londres: Karnac, 2014.
BOLLAS, C. Pulsional impiedoso e receptividade materna. Entrevista à revista Percurso. Número 20, 1998.
BOLLAS, C. Forças do destino, Psicanálise e idioma humano. (Trad. Liracio Jr.). São Paulo: Escuta, 2021.
BOLLAS, C. A sombra do objeto. Psicanálise do conhecido não pensado. (Trad. Fátima Marques). São Paulo: Escuta, 2015.
CESAR, FF; RIBEIRO, MFR; FIGUEIREDO, LLC. Chuva n'alma. A função vitalizadora do analista. São Paulo: Blucher, 2023.
FIGUEIREDO. L.C. O paciente sem esperança e a recusa da utopia. In: Psicanálise, Elementos para a clínica contemporanea. São Paulo: Escuta, 2003.
GALEANO, E. Livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM Editores, 1991.
NETTLETON, S. A metapsicologia de Christopher Bollas. (Trad, Liracio Jr.) São Paulo: Escuta, 2018.
OGDEN. T. H. A psicanálise ontológica. O que você quer ser quando crescer? Revista Brasileira de Psicanálise, v. 54, n. 1, p. 23-46, 2020.



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