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Trechos Selecionados da Obra de Melanie Klein

  • 5 de mai.
  • 24 min de leitura

Capítulo XI do livro "Por que Klein?" (2018) com autoria de Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.



Este capítulo apresenta trechos da obra kleiniana que trazem seus principais conceitos. As citações estão organizadas por temas e representam, dentro dos textos aos quais pertencem, uma espécie de síntesedo conceito abordado, facilitando assim o trabalho de investigação e pesquisa [1].


A intenção é que o leitor entre em contato com a nossa autora em momentos diferentes da obra de uma forma sucinta e panorâmica.


Primeiros trabalhos de Klein: crescimento, educação e análise de crianças


As conclusões irrefutáveis trazidas pela experiência psicanalítica exigem que as crianças sejam, sempre que possível, protegidas de qualquer repressão exagerada, fonte de doenças e de um possível desenvolvimento prejudicial do caráter...
Podemos poupar a criança de uma repressão desnecessária ao libertar - sobretudo e em primeiro lugar em nós mesmos - toda a ampla esfera da sexualidade dos densos véus de segredo, falsidade e perigo tecidos por uma civilização hipócrita, sobre alicerces puramente afetivos e mal informados. (O desenvolvimento de uma criança, 1921/1996, p. 22-23)
Sou da opinião de que nenhum tipo de educação prescinde de algum auxílio analítico, pois a análise oferece uma assistência valiosa, cujos efeitos, do ponto de vista profilático, são ainda incalculáveis. (O desenvolvimento de uma criança, 1921/1996, p. 66)
Pude ainda aprender outra coisa com esse caso: as vantagens, ou mesmo a necessidade de introduzir a análise bem cedo na educação, a fim de preparar a relação com o inconsciente da criança assim que for possivel entrar em contato com o seu consciente. Assim, é provável que se possa remover facilmente as inibições ou os traços neuróticos logo que eles começam a se desenvolver. (O desenvolvimento de uma criança, 1921/1996, p. 69)
Aqui gostaria de chamar a atenção para a grande importância das inibições na brincadeira a partir desse ponto de vista. A inibição e a restrição de interesses na brincadeira levam à redução das potencialidades e interesses relacionados tanto ao aprendizado, quanto ao desenvolvimento da mente como um todo. (A análise de crianças pequenas, 1923/1996, p. 121)

Ao brincar, as crianças representam simbolicamente suas fantasias, desejos e experiências. Elas empregam então a mesma linguagem, o mesmo modo de expressão arcaico, filogeneticamente adquirido, que já conhecemos dos sonhos. (Princípios psicológicos da análise de crianças, 1926/1996, p. 159)

(...) as crianças produzem o mesmo número de associações para cada aspecto de seus jogos que os adultos produzem para os elementos de seus sonhos. Os detalhes da brincadeira apontam o caminho a ser seguido para o observador atento; ao mesmo tempo, a criança diz todo tipo de coisas a que se deve dar a devida importância enquanto associações. (Princípios psicológicos da análise de crianças, 1926/1996, p. 159)

Além desse modo de representação arcaico, as crianças empregam outro mecanismo primitivo, ou seja, substituem as palavras por ações (que são os precursores originais do pensamento): para as crianças, representar uma ação é muito importante.

(...) Se abordarmos as crianças com a técnica apropriada à análise de adultos, certamente não conseguiremos penetrar nas camadas mais profundas de sua vida mental. Contudo, são justamente essas camadas que têm uma importância central para o valor e sucesso da análise.

(..) Vejamos, por exemplo, o caso de Ruth, que enquanto era bebê passou fome durante algum tempo porque sua mãe tinha pouco leite para lhe dar. Com a idade de quatro anos e três meses, quando brincava com a pia, chamava a torneira de torneira de leite. Dizia que o leite estava escorrendo para algumas bocas (os buracos do ralo), mas que só saia um pouquinho. Esse desejo oral insaciado aparecia em inúmeros jogos e dramatizações, além de se manifestar na sua atitude como um todo. Por exemplo, ela afirmava que era pobre, so possuía um casaco e não tinha quase nada para comer o que absolutamente não correspondia à realidade. (Principios psicológicos da análise de crianças, 1926/1996, p. 160)

(...) Assim como o meio de expressão das crianças não é o mesmo que o dos adultos, a situação de análise de crianças também parece completamente diferente. No entanto, em ambos os casos ela é essencialmente a mesma. Interpretações consistentes, a solução gradual das resistências e o rastreamento persistente da transferência até as situações mais iniciais: tanto com as crianças quanto com os adultos, são estes os elementos que caracterizam a correta situação analítica. (Princípiospsicológicos da análise de crianças, 1926/1996, p. 161-162)

Se me permitem adaptar o ditado "É o espírito que constrói o corpo", gostaria de dizer que é a atitude, a convicção interna que encontra a técnica necessária. É preciso reiterar aquilo que já afirmei antes: se abordarmos a análise de crianças com a mente aberta, descobriremos maneiras de sondar até mesmo os recessos mais profundos. (Simpósio sobre análise de crianças, 1927/1996, p. 169)

Darei um passo mais adiante e afirmarei que, de acordo com a minha experiência, no caso das crianças - assim como no dos adultos - não basta estabelecer a situação analítica através de todos os meios analíticos disponíveis e evitar toda a influência educativa direta: mais do que isso, se quiser ser bem-sucedido, o analista de crianças deve ter a mesma atitude inconsciente que esperamos do analista de adultos. Ele deve estar disposto a apenas analisar a mente de seus pacientes, ao invés de tentar moldá-la ou direcioná-la. Se a ansiedade não barrar seu caminho, ele poderá aguardar calmamente o resultado adequado e, assim, esse resultado será atingido. (Simpósio sobre análise de crianças, 1927/1996, p. 194)

Epistemofilia: o desejo de saber e suas implicações


A conexão inicial entre o impulso epistemofílico e o sadismo é muito importante para todo o desenvolvimento mental. Essa pulsão, ativada pelo surgimento das tendências edipianas, volta-se de início primeiramente para o corpo da mãe, visto como o palco de todos os processos e desenvolvimentos sexuais. Nesse ponto, a criança ainda está dominada pela posição libidinal sádico-anal, que a impele ao desejo de se apropriar do conteúdo do corpo. Ela então passa a sentir forte curiosidade sobre o conteúdo desse corpo, sua aparência, etc. Assim, a pulsão epistemofílica e o desejo de se apossar do objeto estão intimamente ligados desde muito cedo e, ao mesmo tempo, associam-se ao sentimento de culpa criado a uma fase de desenvolvimento que é essencial em ambos os sexos, mas que até agora não foi muito reconhecida. Trata-se de uma identificação muito inicial com a mãe. (Estágios iniciais do conflito edipiano, 1928/1996, p. 218)

Desse modo, o simbolismo se torna a base não só de toda a fantasia e sublimação, mas também da relação do indivíduo com o mundo externo e com a realidade em geral. Já observei que o objeto do sadismo, quando este está em seu auge, assim como do desejo de conhecimento que surge na mesma época, é o corpo da mãe com seu conteúdo fantasiado. As fantasias sádicas dirigidas contra o interior desse corpo constituem a primeira e mais básica relação com o mundo externo e a realidade. O grau de sucesso com que o indivíduo consegue passar por essa fase vai determinar até que ponto ele poderá ter acesso a um mundo externo que corresponde à realidade. Podemos ver, então, que a primeira realidade da criança é totalmente fantástica; ela se vê cercada de objetos de ansiedade e, nesse sentido, os excrementos, os órgãos, os objetos, coisas animadas e inanimadas de início são igualadas umas às outras. À medida que o ego se desenvolve, uma relação verdadeira com a realidade vai se estabelecendo a partir dessa realidade irreal. Assim, o desenvolvimento do ego e a relação com a realidade dependem da capacidade do indivíduo de tolerar a pressão das primeiras situações de ansiedade, já num período muito inicial. Como de costume, é preciso um equilíbrio ideal entre os fatores envolvidos. Certa quantidade de ansiedade é a base necessária para que a formação de símbolos e a fantasia ocorram em abundância, é essencial que o ego possua a capacidade adequada de tolerar a ansiedade, a fim de elaborá-la de forma satisfatória. Desse modo, essa fase básica terá uma conclusão favorável e o desenvolvimento do ego será bem-sucedido. (A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego, 1930/1996, p. 252-253)

A técnica de análise infantil


Foram justamente as muitas diferenças entre o psiquismo infantil e o do adulto que me indicaram, desde o princípio, a maneira de chegar às associações da criança e compreender seu inconsciente. Essas características especiais da psicologia fornecem-me as bases da técnica lúdica que elaborei. A criança expressa suas fantasias, desejos e experiências de uma forma simbólica, através de jogos e brinquedos. Ao fazê-lo, utiliza os mesmos modos arcaicos e filogenéticos de expressão, a mesma linguagem com que já nos familiarizamos nos sonhos; a plena compreensão dessa inguagem só será obtida se dela nos acercarmos da maneira que Freud nos ensinou a nos acercarmos dos sonhos. O simbolismo constitui apenas uma parte dessa linguagem. Se quisermos compreender corretamente o brinquedo da criança em relação a todo o seu comportamento durante a hora da análise, não devemos contentar-nos em desvendar o significado de símbolos isolados, por mais reveladores que sejam; é preciso levar em consideração todos os mecanismos e métodos de representação empregá-los no trabalho onírico, jamais perdendo de vista a relação de cada fator isolado com a situação global. A análise infantil tem-nos demonstrado repetidas vezes quantos significados diferentes um simples brinquedo ou a simples peça de um jogo podem ter. Só chegaremos a compreender plenamente o seu significado quando conhecermos suas conexões ulteriores e a situação analitica geral dentro da qual se situam...
(...) pois brincar é o meio de expressão mais importante da criança. Ao utilizarmos essa técnica lúdica, logo descobrimos que a criança faz tantas associações aos elementos isolados de seu brinquedo quanto o adulto aos elementos isolados de seus sonhos. Cada um desses elementos lúdicos é uma indicação para o observador experimentado, já que, enquanto brinca, a criança também fala e diz toda sorte de coisas que têm o valor de associações genuínas. (A psicanálise de crianças).

Luto, a descoberta da posição depressiva e suas implicações para o desenvolvimento do Édipo


Assim, quando o sofrimento é vivido ao máximo e o desespero atinge seu auge, o indivíduo de luto vê brotar novamente seu amor pelo objeto. Ele sente com mais força que a vida continuará por dentro e por fora. que o objeto amado perdido pode ser preservado em seu interior. Nesse estágio do luto, o sofrimento pode se tornar produtivo. Sabemos que experiências dolorosas de todos os tipos às vezes estimulam as sublimações, ou até despertam novas habilidades nas pessoas, que começam a pintar, escrever ou iniciam outras atividades produtivas sob a pressão das frustrações e adversidades. Outras se tornam mais produtivas de uma maneira diferente: mais capazes de apreciar as coisas e as pessoas, mais tolerantes na sua relacão com os outros, elas se tornam mais sábias. Em meu ponto de vista, obtém-se esse enriquecimento através de processos semelhantes às etapas do luto que acabamos de estudar. Isto é, qualquer dor trazida por experiências infelizes, qualquer que seja sua natureza, tem algo em comum com o luto. Ela reativa a posição depressiva infantil: a superação de qualquer tipo de adversidade envolve um trabalho mental semelhante ao do luto. (O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos, 1940/1996, p. 403)

Agora farei um resumo dos meus conceitos a respeito dessas questões essenciais. De acordo com meu ponto de vista, o desenvolvimento sexual e emocional tanto do menino quanto da menina inclui, desde a mais tenra infância, sensações e tendências genitais, que constituem os primeiros estágios do complexo de Édipo positivo e invertido; elas são vividas sob a primazia da libido oral, e se misturam a desejos e fantasias uretrais e anais. Os estágios libidinais se sobrepõem desde os primeiros meses de vida. As tendências edipianas positivas e invertidas interagem entre si desde o início. É durante o estágio da primazia genital que a situação edipiana positiva atinge seu clímax.

A meu ver, bebês de ambos os sexos possuem desejos genitais voltados para a mãe e para o pai, e têm um conhecimento inconsciente tanto da vagina quanto do pênis. Por esses motivos, o termo "fase genital", empregado anteriormente por Freud, parece-me mais adequado do que o conceito posterior de "fase fálica".
Em ambos os sexos, o superego passa a existir durante a fase oral. Sob o domínio da vida de fantasia e de emoções conflitantes, a criança introjeta seus objetos - antes de mais nada, os pais em cada estágio de sua organização libidinal, construindo o superego a partir desses elementos.
Assim, apesar de o superego corresponder em vários aspectos às pessoas reais no mundo da criança pequena, ele possui vários componentes e características que refletem as imagens fantásticas em sua mente. Todos os fatores que exercem uma influência sobre as relações de objeto da criança participam desde o início da construção do superego.
O primeiro objeto introjetado, o seio da mãe forma a base do superego. Assim como a relação com o seio da mãe precede e influencia profundamente a relação com o pênis do pai, do mesmo modo a relação com a mãe introjetada afeta de várias maneiras todo o curso do desenvolvimento do superego. Algumas das características mais importantes do supere go - sejam de natureza amorosa e protetora, ou destrutiva e devoradora - derivam dos componentes maternos iniciais do superego.
Os primeiros sentimentos de culpa em ambos os sexos são oriundos dos desejos sádicos-orais de devorar a mãe, principalmente seus seios (Abraham). Portanto, é no início da infância que surge o sentimento de culpa. A culpa não aparece apenas quando o complexo de Édipo chega ao fim; ao contrário, ela é um dos fatores que, desde o início, moldam seu desenvolvimento e afetam seu resultado.

Freud, como já sabemos, chegou à conclusão teórica de que o pai, assim como a mãe, é objeto dos desejos libidinais do filho (cf. o conceito de Complexo de Édipo invertido). Além disso, em algumas de suas obras (entre os históricos de caso, merece destaque a "Análise de uma fobia em um menino de cinco anos", 1909), Freud levou em consideração o papel desempenhado pelo amor ao pai no conflito edipiano positivo do menino. No entanto, não deu a importância necessária ao papel crucial desses sentimentos amorosos, não só no desenvolvimento do conflito edipiano, como a sua superação. De acordo com minha experiência, a situação edipiana perde a força não só porque o menino teme a destruição do seu órgão genital pelo pai vingativo, mas também porque que é impelido por sentimentos de amor e culpa a preservar o pai como figura interna e externa.
A inveja do pênis e o complexo de castração desempenham um papel importante no desenvolvimento da menina. Contudo, eles são reforçadas pela frustração de seus desejos edipianos positivos. Apesar de num determinado estágio a menina supor que a mãe possua um pênis como atributo masculino, essa ideia não desempenha um papel tão importante em seu desenvolvimento como sugere Freud. De acordo com minha experiência, a teoria inconsciente de que a mãe contém dentro de si o pênis admirado e desejado do pai está por trás de vários dos fenômenos que Freud descreve como a relação da menina com a mãe fálica.
Os desejos orais da menina pelo pênis do pai se misturam aos seus primeiros desejos genitais de receber esse pênis. Esses desejos genitais implicam a vontade de receber filhos do pai, que também é corroborada pela equação "pênis-criança". O desejo feminino de internalizar o pênis e receber um filho do pai sempre precede o desejo de possuir o seu próprio pênis.
Apesar de concordar com Freud a respeito da proeminência do medo da perda de amor e da morte da mãe entre as ansiedades da menina, acredito que o temor de ter o corpo atacado e os objetos amados internos destruídos contribui de forma fundamental para sua principal situação de ansiedade. (O complexo de Édipo à luz das ansiedades arcaicas, 1945; p. 461-463)
Juntamente com esse desenvolvimento ocorre uma mudança de maior importância, a passagem de uma relação de objeto parcial para a relação com o objeto total. Ao dar esse passo, o ego atinge uma nova posição, que serve de base para a situação chamada de perda do objeto amado. Só quando o objeto é amado como um todo é que sua perda pode ser sentida como um todo. (Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos, 1933/1996, p. 306)

No primeiro estágio do desenvolvimento mental, todo estímulo desagradável parece estar relacionado na fantasia do bebê aos seios "hostis" que se negam, enquanto todo estímulo agradável estaria ligado aos seios "bons" que trazem gratificação. Tudo indica que existem dois círculos, um benévolo e outro vicioso, ambos calcados na interação de fatores ambientais ou externos e fatores psíquicos internos. Desse modo, qualquer quantidade ou intensidade de estímulos dolorosos, assim como o aumento da capacidade de se ajustar a eles, ajudaria a suavizar a força das fantasias de natureza aterrorizante. A diminuição das fantasias assustadoras permite por sua vez que a criança se encaminhe para uma melhor adaptação à realidade, o que por sua vez ajuda a reduzir essas fantasias.

Para que haja um desenvolvimento mental adequado, é importante que a criança caia sob influência do círculo benévolo que acabei de descrever; quando isso acontece, ela tem facilidade bem maior de formar uma imagem da mãe enquanto pessoa, essa percepção crescente da mãe como um todo implica mudanças importantes no seu desenvolvimento intelectual e emocional. (O desmame, 1936/1996, p. 333)

Sobre a posição esquizoparanoide e a identificação projetiva


Temos razões, creio eu, para supor que algumas funções que encontramos no ego mais tardio lá estão desde o início. Proeminente entre elas é a de lidar com a ansiedade. Considero que a ansiedade surge da operação da pulsão de morte dentro do organismo, é sentida como medo de aniquilamento (morte) e toma a forma de perseguição. O medo do impulso destrutivo parece ligar-se imediatamente a um objeto, ou melhor, é vivenciado como medo de um incontrolável objeto dominador (...)
A necessidade vital de lidar com a ansiedade força o ego arcaico a desenvolver mecanismos e defesas fundamentais. O impulso destrutivo é parcialmente projetado para fora (deflexão da pulsão de morte) e, acredito, prende-se ao primeiro objeto externo, o seio da mãe. (Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, 1946/1991, p. 23-24)

Em estados de frustração e ansiedade, os desejos sádico-orais e canibalescos são reforçados, e então o bebê sente ter tomado para dentro de si o mamilo e o seio em pedaços. Portanto, além da separação entre um seio bom e um seio mau na fantasia do bebê, o seio frustrador - atacado em fantasias sádico-orais - é sentido como fragmentado; e o seio gratificador - tomado para dentro sob a prevalência da libido de sucção é sentido como inteiro. Esse primeiro objeto bom interno atua como um ponto focal no ego. Ele contrabalança os processos de cisão e dispersão, é responsável pela coesão e integração e é instrumental na construção do ego. O sentimento do bebê de ter dentro de si um seio bom e inteiro pode, não obstante, ser abalado pela frustração e pela ansiedade. Como consequência, pode tornar-se difícil manter a separação entre o seio bom e o seio mau, e o bebê pode sentir que também o seio bom está despedaçado (...)

(...) É em fantasia que o bebê cinde o objeto e o self; porém, o efeito dessa fantasia é bastante real, porque leva sentimentos e relações (e, mais tande, processos de pensamento) a ficarem, de fato, isolados uns dos outros. (...)

[...] A introjeção e a projeção também são usadas desde o início da vida a serviço desse objetivo primário do ego. A projeção, tal como Freud descreveu, origina-se da deflexão da pulsão de morte para fora e, a meu ver, ajuda o ego a superar a ansiedade livrando-o de perigo e de coisas más. A introjeção do objeto bom é também usada pelo ego como uma defesa contra a ansiedade. (Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, 1946/1991, p. 25)

O objeto frustrador e perseguidor é mantido completamente separado do objeto idealizado. No entanto, o objeto mau não é apenas mantido separado do bom; sua própria existência é negada, assim como são negados toda a situação de frustração e os maus sentimentos (dor) a que a frustração dá origem. Isso se relaciona com a negação da realidade psíquica. A negação da realidade psíquica só se torna possível através de fortes sentimentos de onipotência, uma característica essencial da mentalidade arcaica. A negação onipotente da existência do objeto mau e da situação de dor é, para o inconsciente, igual à aniquilação pelo impulso destrutivo. (Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, 1946/1991, p. 26)

Muito do ódio contra partes do self é agora dirigido contra a mãe. Isso leva a uma forma particular de identificação que estabelece o protótipo de uma relação de objeto agressiva. Sugiro o termo "identificação projetiva" para esses processos. Quando a projeção é derivada principalmente do impulso do bebê de danificar ou controlar a mãe, ele a sente como um perseguidor. (...)
Os processos de excisão de partes do self e sua projeção para dentro dos objetos são, assim, de importância vital para o desenvolvimento normal, bem como para as relações de objeto anormais. (Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, 1946/1991, p. 27-28)

[...] No desenvolvimento normal, os estados de desintegração vividos pelo bebê são transitórios. A gratificação por parte do objeto bom externo, entre outros fatores, ajuda reiteradamente a transpor esses estados esquizoides. A capacidade do bebê de superar estados esquizoides temporários está em conformidade com a grande elasticidade e capacidade de recuperação da mente infantil. Estados de cisão e, portanto, de desintegração, que o ego é incapaz de superar, que ocorram com muita frequência e perdurem muito tempo devem ser considerados, a meu ver, sinal de doença esquizofrènica no bebê, alguns indícios dessa doença podem ser observados desde os primeiros meses de vida. Em pacientes adultos, estados de despersonalização e de dissociação esquizofrènica parecem ser uma regressão a esses estados infantis de desintegração. (Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, 1946/1991, p. 29)
Durante a segunda metade do primeiro ano, o bebê dá alguns passos fundamentais em direção à elaboração da posição depressiva. Entretanto, os mecanismos esquizoides ainda permanecem ativos, embora de forma modificada e em menor grau, e as situações de ansiedade arcaica são reiteradamente vivenciadas no processo de modificação. A elaboração das posições depressiva e persecutória estende-se pelos primeiros anos da infância e desempenha um papel essencial na neurose infantil. No decurso desse processo, as ansiedades vão perdendo força; os objetos tornam-se ao mesmo tempo menos idealizados e menos aterrorizantes, e o ego torna-se mais unificado. Tudo isso está interligado com a percepção crescente da realidade e com a adaptação a ela.

Se o desenvolvimento durante a posição esquizoparanoide não progrediu normalmente e o bebê não pode, por motivos internos ou externos, fazer face ao impacto das ansiedades depressivas, cria-se um circulo vicioso. Pois, se o medo persecutório e os correspondentes mecanismos esquizoides são muito fortes, o ego não é capaz de elaborar a posição depressiva. Isso força o ego a regredir para a posição esquizoparanoide e reforça os medos persecutórios e os fenômenos esquizoides mais anteriores. Fica assim estabelecida a base para várias formas de esquizofrenia na vida futura, pois, quando tal regressão ocorre, não apenas são reforçados os pontos de fixação na posição esquizoide como também há o perigo do estabelecimento de estados de desintegração maiores. Um outro resultado possível seria o fortalecimento de traços depressivos.
(...) Algumas flutuações entre a posição esquizoparanoide e a depressiva sempre ocorrem e fazem parte do desenvolvimento normal. Portanto, não se pode traçar uma divisão clara entre dois estágios do desenvolvimento, além disso, a modificação é um processo gradual e os fenômenos das duas posições permanecem por algum tempo entrelaçados e interagindo em alguma medida. (Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, 1946/1991, p. 34-35)

Essa falta de ansiedade em pacientes esquizoides é apenas aparente. Pois os mecanismos esquizoides implicam uma dispersão das emoções, inclusive da ansiedade, mas esses elementos dispersos ainda existem no paciente. Tais pacientes têm uma certa forma de ansiedade latente que é mantida em latência pelo método particular da dispersão. O sentimento de estar desintegrado, de ser incapaz de vivenciar emoções, de perder objetos, é na realidade o equivalente da ansiedade. Isso se torna mais claro quando foram realizados progressos na síntese. O grande alívio que um paciente então experimenta provém de um sentimento de que seus mundos interno e externo não só se reaproximaram como também voltaram à vida. Nesses momentos parece, em retrospecto, que quando as emoções estavam faltando, as relações eram vagas e incertas, que partes da personalidade eram sentidas como perdidas e tudo parecia morto.(Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, 1946/1991, p. 40)

Eu sugeriria que um objeto bom firmemente estabelecido, o que pressupõe um amor por ele também firmemente estabelecido, dá ao ego um sentimento de riqueza e abundância, que faculta um extravasamento de libido e a projeção de partes boas do self no mundo externo sem que surja uma sensação de esvaziamento. O ego pode, então, sentir que também é capaz de reintrojetar o amor que distribuiu, assim como internalizar o bem de outras fontes e, dessa forma, ser enriquecido por todo o processo. Em outras palavras, em tais casos existe um equilibrio entre dar e receber, entre projeção e introjeção.
Além disso, sempre que um seio não danificado é internalizado, situações de gratificação e amor, há uma influência na maneira pela qual o ego cinde e projeta. Como eu sugeri, existe uma variedade de processos de cisão (sobre os quais temos ainda muito a descobrir) cuja natureza é de grande importância para o desenvolvimento do ego. O sentimento de conter um mamilo e um seio não danificados - embora coexistindo com fantasías de um seio devorado e, portanto, em pedaços - faz com que a cisão e a projeção não sejam predominantemente relacionadas a partes fragmentadas da personalidade, e sim a partes mais coesas do self. Isso implica que o ego não é exposto a um enfraquecimento fatal por dispersão e, por essa razão, é mais capaz de desfazer repetidamente a cisão e de conseguir integração e síntese em a relação com objetos.
Inversamente, o seio internalizado com ódio e, portanto, sentido como sendo destrutivo, torna-se o protótipo de todos os objetos internos maus, leva o ego a novas cisões e torna-se o representante interno da pulsão de morte. (Sobre a identificação, 1955/1991, p. 173-174)

Sobre inveja e gratidão


Há muitos anos venho me interessando pelas fontes mais arcaicas de duas atitudes que sempre nos foram familiares: a inveja e a gratidão. Cheguei à conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso no solapamento das raízes dos sentimentos de amor e de gratidão, pois ela afeta relação mais antiga de todas, a relação com a mãe.
(...) Considero que a inveja é uma expressão sádico-oral e sádico-anal de impulsos destrutivos, em atividade desde o começo da vida, e que tem base constitucional. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 207)
A experiência tem me ensinado que a complexidade da personalidade plenamente desenvolvida só pode ser entendida se obtivermos insight sobre a mente do bebê e acompanharmos o seu desenvolvimento na vida subsequente. Isso equivale a dizer que a análise percorre o caminho que vai da vida adulta à infância e, através de estágios intermediários, retorna à vida adulta, num movimento recorrente, para frente e para trás, de acordo com a situação transferencial predominante.
Ao longo de todo meu trabalho, tenho atribuído importância fundamental à primeira relação de objeto do bebê - a relação com o seio materno e com a mãe e cheguei à conclusão de que se esse objeto originário, que é introjetado, fica enraizado no ego em relativa segurança, está assentada a base para um desenvolvimento satisfatório... Sob o predomínio dos impulsos orais, o seio é instintivamente sentido como sendo a fonte de nutrição e, portanto, num sentido mais profundo, da própria vida. Essa proximidade física e mental com o seio gratificador em certa medida restaura, se tudo corre bem, a perdida unidade pré-natal com a mãe e o sentimento de segurança que a acompanha. Isso depende em grande parte da capacidade do bebê de investir suficientemente o seio ou seu representante simbólico, a mamadeira; dessa maneira, a mãe é transformada em um objeto amado. Pode bem ser que o ter sido parte da mãe no estado pré-natal contribua para o sentimento inato do bebê de que existe fora dele algo que lhe dará tudo que necessita e deseja. O seio bom é tomado para dentro e torna-se parte do ego, e o bebê, que antes estava dentro da mãe, tem agora a mãe dentro de si. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 209-210)

Poderiamos, portanto, considerar o anseio universal pelo estado pré-natal como sendo também, em parte, uma expressão da necessidade premente de idealização. Se investigarmos esse anseio à luz da idealização, encontramos que uma de suas fontes é a forte ansiedade persecutória suscitada pelo nascimento. Poderíamos especular que essa primeira forma de ansiedade possivelmente abrange as experiências desagradáveis do bebê ainda não nascido, as quais, juntamente com o sentimento de segurança no útero, prenunciam a relação dupla com a mãe: o seio bom e o seio mau.

As circunstâncias externas desempenham um papel vital na relação com o seio. Se o nascimento foi dificil, e se, particularmente, resulta complicações como falta de oxigênio, há uma perturbação na adaptação ao mundo externo e a relação com o seio inicia-se sob condições de desvantagem. Em tais casos, a capacidade do bebê de experimentar novas fontes de gratificação é prejudicada e, em consequência, ele não pode internalizar, suficientemente, um objeto originário realmente bom. Além disso, se a criança é ou não adequadamente alimentada e cercada de cuidados maternais, se a mãe frui plenamente ou não os cuidados a criança, ou se ela é ansiosa e tem dificuldades psicológicas com a amamentação - todos esses fatores influenciam a capacidade do bebê de aceitar o leite com prazer e de internalizar o seio bom.

Um elemento de frustração por parte do seio está fadado a entrar na relação mais inicial do bebê com o seio, porque até mesmo uma situação de amamentação não pode substituir completamente a unidade pré-natal com a mãe. Além disso, o anseio do bebê por um seio inexaurível e sempre presente não se origina, absolutamente, apenas de uma ânsia por alimentos ou de desejos libidinais. Pois, mesmo nos estágios mais iniciais, a premência por obter constante evidência do amor da mãe está fundamentalmente enraizada na ansiedade. A luta entre as pulsões de vida e de morte e a resultante ameaça de aniquilamento do self e do objeto por impulsos destrutivos são fatores fundamentais na relação inicial do bebê com sua mãe. Isso porque seus desejos implicam querer que o seio, e em seguida a mãe, fizessem desaparecer esses impulsos destrutivos e a dor da ansiedade persecutória.
Concomitantemente a experiências felizes, ressentimentos inevitáveis reforçam o conflito inato entre o amor e o ódio, isto é, basicamente entre as pulsões de vida e de morte, o que resulta no sentimento de que existem um seio bom e um seio mau. Consequentemente, a vida emocional arcaica caracteriza-se por uma sensação de perda e recuperação do objeto bom. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 210-211)

Deve-se fazer uma distinção entre inveja, ciúme e voracidade. A inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável - sendo o impulso invejoso o de tirar este algo ou de estragá-lo. Alem disso, a inveja pressupõe a relação do indivíduo com uma só pessoa e remonta à mais arcaica e exclusiva relação com a mãe. O ciúme é baseado na inveja, mas envolve uma relação com, pelo menos, duas pessoas; diz respeito principalmente ao amor que o indivíduo sente como lhe sendo devido e que lhe foi tirado, ou está em perigo de sê-lo, por seu rival. Na concepção corriqueira de ciúme, um homem ou uma mulher se sente privado, por outrem, da pessoa amada.
A voracidade é uma ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo que o sujeito necessita e o que o objeto é capaz e está disposto a dar. Ao nível inconsciente, a voracidade visa, primariamente, escavar completamente, sugar até deixar seco e devorar o seio; ou seja, seu objetivo é a introjeção destrutiva, ao passo que a inveja procura não apenas despojar dessa maneira, mas também depositar maldade primordialmente excrementos maus e partes más do self dentro da mãe, acima de tudo dentro do seu seio, a fim de estragá-la e destruí-la. No sentido mais profundo, isso significa destruir a criatividade da mãe. Uma diferença essencial entre voracidade e inveja, embora nenhuma linha divisória riígida possa ser traçada, visto estarem tão estreitamente associadas, seria, então, que a voracidade está ligada principalmente à introjeção e a inveja, à projeção. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 212-213)
Encontramos essa inveja primitiva revivida na situação transferencial. Por exemplo: o analista acabou de dar uma interpretação que trouxe alívio ao paciente e que produziu uma mudança de estado de ânimo, de desespero para esperança e confiança. Com certos pacientes, ou com o mesmo paciente em outros momentos, essa interpretação proveitosa pode logo tornar-se alvo de uma crítica destrutiva. Ela, então, não é mais sentida como algo bom que ele tenha recebido e vivenciado como enriquecimento. Sua crítica pode ater-se a pontos de menor importância; a interpretação deveria ter sido dada antes; foi longa demais e perturbadora às associações do paciente; ou foi muito curta, e isso quer dizer que ele não foi suficientemente compreendido. O paciente invejoso reluta em atribuir sucesso ao trabalho do analista; e, se ele sente que o analista e o auxilio que este lhe está dando ficaram estragados e desvalorizados por sua crítica invejosa, não poderá introjetá-lo suficientemente como um objeto bom, nem aceitar suas interpretações com convicção real e assimilá-las. A convicção verdadeira como vemos frequentemente em pacientes menos invejosos, implica gratidão por uma dádiva recebida. O paciente invejoso também pode sentir que é indigno de beneficiar-se pela análise, devido à culpa pela desvalorização do auxílio dado.
Não é preciso dizer que nossos pacientes nos criticam por uma variedade de razões, às vezes justificadamente. Mas a necessidade que tem um paciente de desvalorizar o trabalho analítico que experimentou como proveitoso é expressão de inveja. Na transferência, descobrimos as raízes da inveja se as situações emocionais que encontramos em estágios anteriores forem retraçadas até o estágio primário. A crítica destrutiva é particularmente evidente em pacientes paranoides que se comprazem no prazer sádico de desmerecer o trabalho do analista, ainda que este lhes tenha proporcionado certo alívio. Nesses pacientes, a crítica invejosa é bastante aberta; noutros, pode desempenhar um papel igualmente importante, mas permanece não expressa e até mesmo inconsciente. Em minha experiência o progresso lento que fazemos em tais casos está também eladonado à inveja. Vemos que suas dúvidas e incertezas sobre o valor da análise persistem. O que acontece é que a parte hostil e invejosa de seu self é cindida pelo paciente, e ele apresenta constantemente ao analista outros aspectos que sente como mais aceitáveis. Contudo, as partes cindidas influenciam essencialmente o curso da análise, a qual, em última instância, só pode ser eficaz se conseguir integração e se lidar com o todo da personalidade. Outros pacientes tornam-se confusos para evitar serem críticos. Essa confusão não é apenas uma defesa, mas também expressão de incerteza quanto ao fato de o analista ainda permanecer como uma figura boa, ou terem, o analista e o auxilio que está dando, se tornado maus em decorrência da crítica hostil do paciente. Eu remontaria essa crítica aos sentimentos de confusão que são uma das consequências da perturbação da relação mais arcaica com o seio materno. O bebê que, devido à intensidade de mecanismos paranoides e esquizoides, e ao ímpeto da da inveja, não consegue de forma bem-sucedida dividir e manter seperados o amor e o ódio e, portanto, o objeto bom do objeto mau, está a sentir-se confuso entre o que é bom e o que é mau em outros contextos.
Desse modo, a inveja e as defesas contra ela desempenham um papel importante na reação terapêutica negativa, além dos fatores descobertos Freud e mais amplamente desenvolvidos por Joan Riviere. Pois a inveja e as atitudes a que dá origem interferem na construção gradual de objeto bom na situação transferencial. Se, no estágio mais inicial, o alimento e o objeto bom originário não puderam ser aceitos e assimilados, isso se repete na transferência e o curso da análise é prejudicado. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 215-216)

Em contraste com o bebê que, devido à sua inveja, foi incapaz de construir seguramente um objeto bom interno, uma criança com uma forte capacidade de amor e gratidão tem uma relação profundamente enraizada com um objeto bom e pode suportar, sem ficar profundamente danificada, estados temporários de inveja, ódio e ressentimento que surgem mesmo em crianças que são amadas e recebem bons cuidados maternos. Assim, quando esses estados negativos são transitórios, o objeto bom é recuperado a cada vez. Esse é um fator essencial para estabelecê-lo e para assentar as bases da estabilidade... No curso do desenvolvimento, a relação com o seio materno torna-se a base para a dedicação a pessoas, valoes e causas e, assim, é transformada certa parte do amor que era inicialmente voltado ao objeto originário. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 219)

Para tornar mais claro meu argumento, é necessário fazer alguma referência às minhas concepções sobre o ego arcaico. Acredito que ele existe desde o início da vida pós-natal, embora sob forma rudimentat e com grande falta de coesão. Já no estágio mais inicial, ele desempenha uma série de funções importantes. Pode bem ser que esse ego arcaico se assemelhe à parte inconsciente do ego postulada por Freud. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 222)
Enquanto aquelas pessoas que puderam estabelecer com relativa segurança o objeto originário são capazes de conservar amor por ele apesar de imperfeições, outras têm como características à idealização de suas relações amorosas e amizades. Essa idealização tende a desmoronar, e, então, um objeto amado tem que ser constantemente trocado por outro, pois nenhum pode preencher integralmente as expectativas. A pessoa anteriormente idealizada é muitas vezes sentida como um perseguidor (o que revela a origem da idealização como contrapartida à perseguição) e dentro dela é projetada a atitude invejosa e crítica do sujeito. É de grande importância o fato de processos semelhantes operarem no mundo interno, o qual, desse modo, passa a conter objetos especialmente perigosos. Tudo isso leva à instabilidade nos relacionamentos. (Inveja e gratidão, 1957/1991, p. 225)

NOTAS


1 Após iniciarmos o projeto de seleção de trechos a serem destacados na obra de Klein, encontramos o livro Reading Klein (2017) de Margaret e Michael Rustin, que passou a ser também uma fonte de inspiração e um reconhecimento dessa forma de apresentação da obra.

 
 
 

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