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Identificação Projetiva: desdobramentos técnicos

  • 3 de mai.
  • 17 min de leitura

Atualizado: 5 de mai.

Capítulo IX do livro "Por que Klein?" (2018) com autoria de Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.



Klein observou que no início da vida já estavam presentes fortes ansiedades, como já dito. Na cronologia da vida, a primeira posição é a esquizoparanoide; mas a posição depressiva foi descrita em 1935 e 1940, e a esquizoparanoide, em 1946. Nessa ocasião, ela também descreve, pela primeira vez, outro importante conceito, a identificação projetiva, que teve vários desdobramentos e abriu um campo de investigação amplo para os estados psicóticos da mente, principalmente na obra de Herbert Rosenfeld, Hanna Segal e Bion, psicanalistas próximos a Klein na década de 1940 e 1950. A análise de pacientes psicóticos, dentro de um enquadre estritamente psicanalitico, tornou-se possível a partir desses psicanalistas ligados ao circulo kleiniano.


Spillius [1] (2012, p. 8), ao examinar os arquivos não publicados de Klein pertencentes ao Melanie Klein Trust, constata que nos anos de 1946 e 1947 a autora estava ocupada com a questão da posição esquizoparanoide e com o artigo que denominava informalmente de "meu artigo sobre cisão"; em nenhum momento nomeou "meu artigo sobre identificação projetiva", ou seja, o conceito parece ter surgido de forma inesperada.


A identificação projetiva é um dos conceitos do arcabouço teórico-clinico kleiniano que suscitou vários outros textos e discussões a partir da sua primeira formulação. Como bem destaca Rocha Barros (2014, p. 16),

"A fecundidade de um autor pode ser medida pelo número de problemáticas novas que gera depois que este desaparece. São pessoas que não apenas dão respostas fecundas, mas sobretudo criam um novo campo de indagações".

A utilidade clínica da identificação projetiva é corroborada pela pUblicação de diversos artigos e livros e de contÍnuos debates sobre o conceito, não apenas entre os psicanalistas da escola inglesa (QUINODOR 2007, 2012). Questões referentes à mudança na técnica analitica também fazem parte dos desdobramentos da identificação projetiva, que surgem dos atendimentos de M. Klein, remetendo-nos à clínica constantemente. A potencialidade deste conceito foi evidenciada pelos psicanalistas que a sucederam, principalmente aqueles do seu círculo próximo: Bion, Segal e Rosenfeld, que demonstraram a amplitude da identificação projeta tanto na dimensão teórica quanto na clínica.


Meltzer (1998, p. 33) enfatiza essa ideia, lembrando que "(...) a história dos trinta anos seguintes de pesquisas poderia ser escrita em termos da fenomenologia e das implicações desses dois conceitos seminais", quais sejam, cisão e identificação projetiva.


A identificação projetiva pode ser compreendida como uma fantasia inconsciente entre analista e analisando, podendo ter um caráter mas agressivo e expulsivo, portanto defensivo; ou um caráter mais comunicativo, sendo que os mecanismos de cisão e projeção, em intensidades diversas, estão sempre implicados. Para alcançar essa formulação, uma trajetória foi percorrida por vários teóricos e clínicos da psicanálise, entre eles Bion, todos pertencentes ao círculo kleiniano. A seguir, explicito sucintamente essa trajetória.


No texto de 1946, Klein formula a identificação projetiva como um mecanismo defensivo ante as angústias esquizoparanoides. Trata-se de uma forma específica de identificação que tem um caráter de expulsão violenta de partes do self para dentro do objeto, enfraquecendo o ego e gerando confusão e indiscriminação entre sujeito e objeto. Se a expulsão for de partes consideradas más, haverá intensificação da persecutoriedade em relação ao objeto. Se o que predominar for a projeção de partes boas, isso tanto pode tornar as relações de objeto mais amorosas - favorecendo a introjeção do bom objeto e gerando integração - quanto um enfraquecimento do ego, caso a projeção das partes boas seja excessiva. Ou seja, quando a projeção de partes boas é demasiada, a mãe (e posteriormente outras pessoas) pode tornar-se o ideal do ego, favorecendo relações de dependência extrema e um empobrecimento do ego, pois os aspectos bons são todos atribuídos a um outro e não podem ser assimilados pelo ego [2].


Klein (1946/1996b) considera que

"Os processos de excisão de partes do self e sua projeção para dentro dos objetos são, assim, de importância vital para o desenvolvimento normal, bem como para as relações de objetos anormais".

Na primeira aparição explícita do conceito - pois este vinha sendo inferido e germinado em textos anteriores, Klein ja considera o aspecto normal e vital da identificação projetiva, algo que foi enfatizado mais tarde por Bion (1959/2013b e 1962/2013c).


Em 1952, em "Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê", Klein faz uma breve observação sobre a complementaridade dos processos de identificação projetiva e introjetiva, O ego torna-se indiscernivel do objeto, há um amálgama projetivo e introjetivo do ego e do objeto (BARANGER, 1981).


No texto "Sobre a identificação" (1955), Klein, entre outras questões, comenta o aspecto não patológico da identificação projetiva, aproximando-o do conceito de empatia. Relata os aspectos funcionais da cisão: se esta ocorre sob o predomínio do objeto bom, as partes clivadas do ego e do objeto podem ser recuperadas e aproximadas. Diferente da cisão sob o predomínio do objeto mau, no qual há fragmentação e dispersão do objeto e do ego, e, neste caso, pode tratar-se de partes perdidas e não recuperáveis em um processo de esvaziamento do ego (BARANGER, 1981).


No texto de 1957, "Inveja e gratidão", Klein postula que a inveja é o representante princeps da pulsão de morte. Esta, sendo excessiva, intensifica as angústias esquizoparanoides que terão como principal mecanismo de defesa a identificação projetiva, na sua versão expulsiva e violenta. Descreve que a partir de uma identificação projetiva maciça há grande confusão entre self e objeto, e há também enfraquecimento considerável do ego e comprometimento grave das relações objetais.


A postulação de Klein (1946, 1952, 1955 e 1957) sobre a identificação projetiva pavimentou o caminho para que Bion evidenciasse a complexidade do conceito e suas vastas aplicações clínicas. O aspecto patológico da identificação projetiva predominou nos textos kleinianos ou, talvez possamos considerar, prevaleceu em muitos de seus leitores e comentadores. Entretanto, passou a ser compreendida por outro ângulo no trabalho de Bion: sobressai o aspecto de comunicação não verbal de estados mentais.


Bion (1959/1991b) relata no artigo "Ataques ao elo de ligação" que existe um grau normal de identificação projetiva, e que, associada a esta, a identificação introjetiva constitui a base sobre a qual repousa o desenvolvimento normal, o que Klein já havia sutilmente assinalado. Nesse artigo, Bion faz vários relatos clínicos, em um deles; descreve que o paciente cindia seus temores e os depositava no analista, para que na mente do analista esses temores pudessem ser transformados, tornados toleráveis e reintrojetados na mente do paciente. Há, nessa situação, uma oportunidade para o paciente viver pela primeira vez uma experiência emocional de contenção de suas próprias angústias; oportunidade esta que, muito provavelmente, foi anteriormente negada por uma mãe mentalmente indisponível para comportar e conter as angústias de seu bebê:

A gratidão pela oportunidade coexiste ao lado da hostilidade ao analista como alguém que não compreenderá e recusará ao paciente o uso do único método de comunicação através do qual ele sente que pode fazer-se compreender. Assim, o elo de ligação entre pacente e analista, ou entre o bebê e o seio, é o mecanismo de identificação projetiva (BION, 1999/1991b, p. 105).

A identificação projetiva é compreendida como uma ligação, com um aspecto comunicativo, sendo que as qualidades psíquicas (no que diz respeito a conter as angústias do bebê e do paciente) da mente da mãe e do analista são consideradas. É uma compreensão que expande o conceito postulado por Klein. O aspecto normal, já presente no texto kleiniano, é enfatizado. Bion ressalta a função de comunicação de estados mentais, e considera as condições psíquicas do receptor da identificação projetiva. A identificação projetiva passa a ser compreendida como um elo de ligação primordial entre bebê e mãe, e entre analista e paciente. O elo de ligação, no texto de 1959, diz respeito à capacidade da mãe e do analista de conter as identificações projetivas e modificá-las.


Bion (1959/1991b, p. 106) escreve:

"A identificação projetiva (do analisando) lhe possibilita investigar seus próprios sentimentos dentro de uma personalidade forte (do analista) o suficiente para contê-los".

Bion considera tanto os aspectos ambientais, como os provenientes da agressão e da inveja primária. A origem da perturbação é dupla, tanto endógena quanto exógena, sendo que essas se iniciam com a própria vida. Ou seja, um bebê pode vir a ter seus ataques fantasiados ao seio mitigados pela capacidade da mãe em contê-los e transformá-los, ou não, nas situações em que essa essa capacidade da mãe é insuficiente ou ausente.


No artigo de 1957, "Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não psicótica", Bion relata que mesmo no paciente no qual predominam mecanismos psicóticos, também podemos encontrar situações em que o paciente funciona neuroticamente. Em pacientes não psicóticos, por sua vez, podemos nos deparar com momentos de funcionamento psicótico. Na identificação projetiva na qual predominam os aspectos agressivos e expulsivos, prevalece um funcionamento psicótico. Na identificação projetiva na qual sobressaem os aspectos comunicativos estamos diante de um funcionamento não psicótico. O grau de violência da projeção, e a cisão extremada são referências para identificarmes um funcionamento psicótico ou borderline. São diferentes intensidades da identificação projetiva, sendo que mesmo na personalidade psicótica ainda há um aspecto comunicativo, e na personalidade não psicótica também há a cisão e a projeção, porém amenas.


Bion (1962) escreve no artigo "Uma teoria do pensar" que a atividade que conhecemos como "o pensar" foi em sua origem um procedimento para descarregar a psique do incremento de estímulos, e que esse mecanismo foi denominado por Klein de identificação projetiva. A identificacão projetiva é uma fantasia onipotente, na qual partes indesejáveis do psiquismo são dissociadas e colocadas no objeto. Bion comenta que a identificação projetiva excessiva se deve a dois fatores: uma falta de continência do analista para acolher momentaneamente partes cindidas do analisando, ou, por parte do paciente, uma intensa negação da realidade. As qualidades psíquicas da mente do analista se evidenciam como um fator fundamental - a capacidade de continência do analista - e retrospectivamente, da mãe como primeiro objeto. Em outros termos, o analista precisa ter condições psíquicas para tolerar ser o depositário das partes indesejadas ou valorosas do analisando, ser continente para as angústias do paciente.


A identificação projetiva compreendida por Bion é, também, uma atividade básica da mente humana para comunicar emoções, e passa a ser considerada à origem do pensar. Além de esse autor ressaltar o aspecto de comunicação humana fundamental, aloca o conceito no campo da intersubjetividade. Se no texto kleiniano a identificação projetiva reflete predominantemente os aspectos do mundo interno, do intrapsiquico, em Bion o conceito passa a pertencer, de forma mais evidente, ao campo interpessoal.


Identificação projetiva, empatia e contratransferência


Em 1959, Klein [3] afirmou, em "Nosso mundo adulto e suas raízes na infância", que a empatia seria uma forma benigna da identificação projetiva, que envolve o "colocar-se no lugar do outro", diferindo das formas patológicas da identificação projetiva, nas quais acontece uma perturbação maior nas fronteiras entre o eu e o outro, e maior confusão das identidades.


Podemos agora considerar a importância da atitude empática nos Seminários Clinicos sobre Técnica de Melanie Klein, publicados recentemente e comentados por John Steiner (2017).


Desde o princípio da atividade clínica de Klein, e de modo insistente nos seus seminários clínicos, a questão da empatia liga-se a uma preocupação sempre presente: a de captar o ponto de máxima ansiedade do paciente:


"(...) a ansiedade é um material explosivo que precisa ser administrado em pequenas quantidades e com muito cuidado" (KLEIN, 1936/2017, p. 16).

Afirma, ainda, nesses seminários clínicos transcorridos em 1936, na Sociedade Psicanalítica de Londres:


(...) Entretanto, a arte da interpretação é apenas uma parte de nosso trabalho. Precisamos ter em mente que uma outra parte muito essencial é dar plena atenção às associações do paciente, para permitir que ele expresse seus sentimentos e pensamentos de forma plena; prestar completa atenção a isto, a compreender plenamente as defesas, e ficarmos interessados em seu ego da mesma forma que em seu incconsciente (...) Precisamos manter um equilíbrio entre a necessidade do paciente de produzir seu material, de expressar seus sentimentos e dar corda plena a esta necessidade (...) (KLEIN, 1936/2017, p. 15).

Temos neste trecho uma descrição muito viva da atitude empatica do analista, necessária para lidar com o "material explosivo" da ansiedade que precisa ser administrado em pequenas quantidades e com muito cuidado. É a própria ansiedade em sua aparição máxima, em sua qualidade mais arcaica que demanda a empatia.


Por outro lado, desde muito cedo, Klein percebeu a necessidade que as crianças tinham de projetar impulsos agressivos de voracidade e expressavam um intenso desejo de controlar as próprias emoções e as emoções temidas, que podiam surgir de repente, das outras pessoas. Um exemplo disso aparece no caso de Gerard "que propôs que mandássemos um tigre de brinquedo para o quarto ao lado, para executar os desejos agressivos dele para com o pai (...) Esta parte primitiva de sua personalidade estava, neste caso, representada pelo tigre" (KLEIN, 1927, p. 172).


A parte primitiva da personalidade, que se manifesta por meio de pulsões orais, anais, uretrais e fálicas, está ligada a fantasias de apoderar-se do que é bom e satisfatório e de eliminar o que é mau e frustrante em um dinamismo que reflete os processos mais elementares de alimentar-se e evacuar. E também abrange o desejo de atravessar as fronteiras entre o eu e o outro e o desejo de conhecer o interior do corpo e da mente alheia. Ora, a fantasia inconsciente subjacente à identificação projetiva corresponde, justamente, à crença de que é possível atravessar essas fronteiras e livrar-se da própria agressividade através da projeção. Ao mesmo tempo, esses movimentos servem para comunicar a existência dessa dimensão assustadora ao analista e pedir que ele faça alguma coisa com aquilo que é da ordem do insuportável: é um grito de socorro. O caso Gerard foi atendido por Klein, ainda na década de vinte, antecipando o que fol posteriormente teorizado.


Mais tarde, no texto de 1946 sobre os mecanismos esquizoides, Klein introduziu o termo "identificação projetiva", como já dito, para a tendência a livrar-se de tudo o que é agressivo e assustador. Desde cedo, percebeu então que os pacientes mais graves empregavam a defesa de forma "excessiva" ou "maciça", ao passo que em outros pacientes a identificação projetiva parecia não corresponder a uma crença tão onipotente de que poderiam se livrar de sua agressividade, controlando a realidade psíquica, a própria e a alheia. Também a atitude de acolhimento do ambiente permitia que algumas crenças desse tipo fossem transformadas, levando os pacientes a readmitir em si os aspectos projetados e cindidos.


Bion (1962) assinala que a expressão "identificação projetiva excessiva", frequente nos textos de Klein, deve ser entendida menos como descrição da frequência com que é empregada e mais com relação à qualidade onipotente e delirante da crença que está subjacente a ela. Se o paciente acredita ter o poder mágico de controlar a sua realidade psíquica, está mais aprisionado a uma ilusão e pode usar o mecanismo de identificação projetiva de maneira excessiva, para recusar tudo que o desestabiliza. Por exemplo, a situação de estar separado de suas fontes de nutrição, ou para não admitir suas necessidades e suas dependências, para negar a própria inveja e o ressentimento. É, enfim, um mecanismo primitivo que tenta aniquilar toda e qualquer situação de desamparo, e a própria realidade psíquica, quanto aos seus aspectos violentos e assustadores.


As identificações projetivas mais patológicas são aquelas em que hà uma forte recusa dessas duras realidades, pois são experienciadas como inaceitáveis; tornando dificil o desprendimento da crença onipotente de ter se livrado "dessa abominável realidade psíquica". Todo esse processo leva a uma maior distorção da percepção do mundo externo e interno; no entanto, recusar essas realidades traz alívio imediato.


Nas identificações projetivas, com caráter mais comunicativo, o paciente pode experienciar a identificação projetiva como se esta fosse um fenômeno transicional, que serve de ponte para um momento seguinte, no qual, depois de negados, os impulsos podem ser readmitidos, recuperando uma parte significativa da pulsionalidade e das identificações perdidas. Podemos pensar em um jogo do faz de conta, como se o paciente dissesse:

"Toma lá este meu pedaço e faz de conta que é seu, por algum tempo, depois me devolve".

Quanto maior for a aspiração a controlar de forma onipotente a realidade psíquica e permanecer em um estado de fusão com o objeto, maior será a angústia e o medo, e mais aprisionante será o mecanismo. Quanto mais a projeção de aspectos da realidade psíquica do paciente no analista (ou na mãe, nos primeiros tempos) puder ser acolhida e contida pelo ambiente, maior será a sua entrada no campo do simbólico e o seu poder de tornar-se um jogo e uma comunicação.


Ao postular os mecanismos de projeção e introjeção, especialmente o mecanismo de identificação projetiva, Melanie Klein não ignorava a presença de diferentes estados de indiferenciação entre sujeito e objeto, na constituição psíquica e no processo analítico. Uma das conquistas do amadurecimento é, justamente, atingir níveis cada vez mais sofisticados de separação entre o eu e o outro, embora se reconheça que isso convive com momentos e estados de relativa indiferenciação, em ciclos sucessivos.


Creio que momentos de indiferenciação podem ser vividos como fenômenos transicionais, quando encontram acolhimento do ambiente, e podem entrar no campo da metáfora através do brincar, do senso de humor, da brincadeira de faz de conta e das infinitas formas de continência e simbolização que a cultura oferece. Seguindo a inspiração de Winnicott (1971), podemos pensar nos momentos de indiferenciação e de identificação projetiva comunicativa, que são acolhidos por empatia, como ondas que formam ciclos, que se alternam, até alcançarem momentos de maior diferenciação, ou seja, um processo de transicionalidade.


Em 1959, Bion publica sua teoria sobre os "ataques aos vínculos" baseando-se no trabalho com um paciente que nunca parecia ter tido, antes do encontro analitico, a oportunidade de endereçar suas identificações diferenciação, ou seja, um processo de transicionalidade. projetivas a um ambiente suficientemente acolhedor.

(...) Havia sessões que me levavam a supor que o paciente sentia que havia um objeto que lhe negava o uso de identificação projetiva. (...) há elementos que indicam que o paciente sentia que eu recusava o ingresso a partes de sua personalidade que ele desejava depositar em mim; (...) Quando o paciente esforçava-se por se livrar dos temores de morte, sentidos como demasiados poderosos para que sua personalidade os contivesse, ele excendia seus temores e os colocava dentro de mim, com a ideia de que, se lhes fosse permitido repousar ali por tempo suficiente, minha psique os modificaria, podendo então ser reintrojetados sem perigo (BION, 1959/1991, p. 103-104).

Bion levanta a seguinte hipótese: será que a mãe deste paciente sentiu uma grande impaciência diante das angústias do bebê, e se perguntou o que será que esta criança tem? E, portanto, não conseguiu oferecer continência às angústias do bebê. Escreve o autor:

Do ponto do vista do bebê, ela deveria ter recebido dentro de si, e, desta forma, experimentado o medo de que a criança estivesse morrendo. Era esse medo que a criança não poderia conter, e que se esforçava por excindir, juntamente com a parte da personalidade na qual se encontrava o mesmo, projetando-o para dentro da mãe. Uma mãe compreensiva é capaz de experimentar a sensação de pavor com a qual esse bebê se esforçava por lidar via identificação projetiva - e, ainda assim, manter uma visão equilibrada. Esse paciente tivera de lidar com uma mãe que não conseguia tolerar a vivência de tais sentimentos e que reagia ora negando-lhes o ingresso, ora tornando-se presa da ansiedade que resultava da introjeção dos sentimentos do bebê (BION, 1959/1991, p.104).

Rêverie é uma função materna, e também uma função analítica, que designa um estado de abertura a receber as emoções e as projeções que surgem do bebê e/ou do paciente. Bion considera que é necessário receber, conter e elaborar as identificações projetivas do paciente através de um trabalho de transformação que capta as impressões sensoriais e todas as comunicações pré-verbais - os chamados elementos-beta - convertendo-os em elementos-alfa, que são aptos a entrar em um processo de metabolização e podem chegar a ser verbalizados. A experiência de rêverie do analista oferece um grande alívio ao paciente e revela a capacidade empática do analista para sintonizar-se com os aspectos ainda não simbolizados do paciente.


A capacidade empática do analista favorece que o paciente adquira também uma qualidade empática ao que é enigmático e incômodo, contribuindo para a constituição de sua função-alfa e do aparelho psíquico. Bion considera que o analisando adquire qualidades psíquicas a partir do partilhar das qualidades psíquicas da mente do analista. Para Bion, o medo que o analista sente dos próprios sentimentos é um obstáculo à compreensão das comunicações do paciente, impedindo que se estabeleça a empatia.


Nesta perspectiva, o aspecto central da empatia analítica seria a existência de um analista capaz da rêverie, que se constrói por meio de identificações projetivas entre ele e o paciente, de forma que ambos possam compreender o que se passa no campo da experiência emocional da sessão analitica. A empatia seria uma forma benigna da identificação projetiva, "um colocar-se no lugar do outro", ou ainda, usar a capacidade de perceber-se a si mesmo, implantando-a no outro, para intuir, de forma metafórica, o que se passa com ele.


Um discípulo de Bion, Grotstein (1985), considera que, através das interpretações, o analista convida o paciente a experimentar empatia por sua própria condição de desamparo e de seus aspectos cindidos e recusados. Ressalta, de forma muito apaixonada, a necessidade de todas as pessoas, especialmente dos pacientes, de compartilhar suas experiências mais arcaicas, utilizando para isso a identificação projetiva de forma comunicativa e empática:


De que outro modo um paciente angustiado pode saber que o analista o compreende, a não ser fazendo-o sofrer aquelas vivências que ele próprio não tem palavras para expressar? (...) Todos nós projetamos e no fundo desejamos que o outro conheça a experiência que não conseguimos comunicar e da qual não podemos nos aliviar até estarmos convencidos de que o outro nos compreende. E não podemos nos convencer que o outro nos compreende até não estarmos convencidos que o outro contém agora concretamente nossa experiência (GROTSTEIN, 1985, p. 578-92).

Inspiradas em Grotstein, podemos afirmar que o uso empático da identificação projetiva depende, no fundo, de quem a recebe e de sua capacidade de rêverie. Quanto maior a empatia e a capacidade metafórica do analista, assim como também a sua capacidade de separar-se afetos para conhecê-los, maior será a sua capacidade de transformar as identificações projetivas do paciente em comunicações que poderão enriquecer a ambos. A partir de Bion, e outros de seus sucessores, como Grotstein, Bollas, Ogden e Ferro, esse mecanismo de defesa foi compreendido na sua dimensão intersubjetiva, como já dito. A maior parte dos kleinianos da atualidade considera que as identificações projetivas dos pacientes devem ser contidas e elaboradas pelo analista para que possam ser devolvidas a eles de forma que favoreça o processo de elaboração.


Na verdade, a descrição da identificação projetiva en Klein seguia a sua tendência a compreender o psiquismo e seus mecanismos com ênfase na dimensão intrapsíquica. Da mesma forma que Freud, ela sempre se manteve cética quanto ao uso da contratransferência para a compreensão do paciente.


Segundo Etchegoven e Minuchin (2014), Klein nos brindou com principal instrumento para compreender a contratransferência - a identificação projetiva, ou seja, ela abre o campo para a concepção de contratransferência, mesmo não reconhecendo isso, e se opondo, contundentemente, às ideias de Heimann.


Paula Heimann, nos anos 1950, propôs-se a fazer um uso mais amplo da contratransferência. Em seu livro A sombra do objeto, Bollas (1987/1992) nos lembra que até aquele momento, 1950, pressupunha-se que quem falava em análise era o paciente, do ponto de vista de seu discurso consciente ou inconsciente. Ora, sem deixar de escutar as associações livres do paciente, Paula Heimann decidiu abrir a sua escuta a uma infinidade de vozes subjetivas, provenientes de diferentes estratos psiquicos:

"Quem está falando, aí neste momento, através desse paciente?"; "a quem ele está dirigindo a sua palavra?".
(...) Heimann percebeu que em determinado momento o analisando estava falando com a mãe, antecipando o pai, censurando, estimulando ou consolando uma criança - o self infantil da criança em plena divisão aos dois anos, na fase edipiana ou na adolescência (...) A narrativa de paciente não era escutada apenas ao se ouvir os sons dissonantes de pontuação inconsciente (...) O analista da British School iria analisar também os sujeitos que se alternavam e os outros sujeitos, implíctos na vida da transferência. (BOLLAS, 1987/1992, p. 13)

A presença simultânea de uma infinidade de sujeitos em uma única pessoa convidou o analista a implicar-se mais profundamente em trabalho de escuta, dando início, então, ao que hoje chamamos de un analista implicado.


Esta implicação - sem negar a necessária reserva (FIGUEIREDO 2009) e abstinência do analista - leva-o a ampliar a sua porosidade e a sua possibilidade de ser afetado física e emocionalmente pelo que diz o paciente; ao mesmo tempo em que convoca as suas memórias corporais mais arcaicas e a sua própria história de vida e de análise pessoal.


Trata-se do objetivo de "ouvir com o corpo inteiro" (CINTRA, 1998), de se dispor a ser usado pelo paciente como um ambiente suficientemente acústico para dar ressonância e reconhecimento ao que lhe chega. A capacidade de empatia e a qualidade da presença do analista tornaram-se, gradativamente, mais importantes e merecem que se possa pensar cada vez melhor no que significa essa qualidade de presença.


Estar verdadeiramente presente ao outro exige uma capacidade de rêverie - de sonhar o outro a partir da experiência de ter sido sonhado por alguém; decorre de uma real capacidade de ver, escutar e sentir o outro, ao mesmo tempo em que exige uma capacidade negativa (CINTRA 2016); isto é o analista precisa retirar-se de seu imaginário e da captura de seus desejos narcisicos, ao mesmo tempo em que os habita. Será possível isto?


Talvez seja um pouco ideal demais um analista que consiga ouvir a polifonia de vozes e sujeitos dentro de um único sujeito; mas o que se pode fazer são simples movimentos nesta direção. Para começar, um movimento de desprender-se de suas certezas técnicas e teóricas, e permitir que a participação do paciente corrija as interpretações e construções do analista. Talvez o mais importante seja apenas o desejo de não mais julgar, de não compreender tudo. É isto que pode favorecer a atitude analítica, aliado a um treino em escuta polifônica. São os insights conquistados, na própria análise do analista, que o tornam empático ao paciente que ele está escutando hoje.


Desde o final da década de 1950, os analistas britânicos começaram a realizar um trabalho de monitoria das identificações projetivas no campo da transferência e da contratransferência. Os pacientes descobriram que os analistas tinham uma capacidade de receber, acolher, decodificar e nomear as vivências de uma época anterior à conquista da linguagem verbal, do mundo da criança, usando suas reações contratransferenciais. E isto foi bastante revolucionário.


Com Klein, aprendemos que as angústias em seu ponto de máxima intensidade são material explosivo; elas exigem a capacidade empática do analista. E, com Bion, aprendemos que quanto mais primitiva e intensa for a emoção, maior será a necessidade de termos duas mentes para lidar com o acontecimento. Exige-se, para tanto, a presença de um analista destemido, que tenha percorrido as veredas de seu infantil e tenha sido escutado, na sua própria análise, por meio de rêverie e empatia.


NOTAS


1 Algumas ideias desenvolvidas neste tópico estão presentes no capítulo Uma reflexão conceitual entre identificação projetiva e enactment (RIBEIRO, M. F. R, 2017).


2 Segundo Hinshelwood (1992, p. 300): "Klein não utilizou o termo 'ego' de manera tão precisa quanto Freud veio a fazê-lo com o seu modelo estrutural de ego, id e superego e com frequência intercambiou-o com self".


3 Algumas das ideias deste item estão presentes no texto "Empatia, identificação projetiva e rêverie: escutar o inaudível na clínica do trauma" (CINTRA, 2017).

 
 
 

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