Inveja e Gratidão: alguns apontamentos
- 3 de mai.
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Atualizado: 5 de mai.
Capítulo VIII do livro "Por que Klein?" (2018) com autoria de Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.

Como vimos anteriormente, Melanie Klein (1957/1996) publicou o texto "Inveja e Gratidão", na década de 1950. Nele, destacou a forma de aparição dos impulsos destrutivos que se configuram como inveja, correspondendo ao desejo de atacar e destruir o bom objeto, aquele que é a base da saúde psíquica. Vamos então, neste capítulo, aprofundar o tema.
O objeto por excelência da inveja é o objeto doador de vida: seja a criatividade, a fecundidade, a generosidade, a plenitude. Em outras palavras, trata-se da inveja daqueles atributos que a pequena criança confere à figura materna e, mais tarde, à figura paterna. É difícil aceitar a beleza, o brilho, a presença da mãe e dos cuidadores, daqueles que são provedores ou detentores de saberes, dons ou outros bens que se almeja possuir.
O dramático é que a inveja, ao dirigir a sua destrutividade na direção do que poderia ser conquistado, impede a assimilação do bom objeto e os processos de integração psíquica. Quando ela está ausente, a introjeção do bom objeto completo e íntegro cria um núcleo gerador de pulsões de vida. Se essa introjeção falhar, o restante do desenvolvimento fica comprometido. O enraizamento no ego do objeto bom é o único meio de prevenção contra a potência destruidora da inveja.
Para Klein (1957), a inveja tem uma base constitucional - ideia que merece uma análise, pois foi um dos aspectos mal compreendidos de sua teoria. Entendemos que nossa autora não acreditava em um componente genético. Ela observou que algumas crianças recém-nascidas eram mais aptas a usar o objeto bom do que outras, mostrando-se mais resolvidas em relação à sua satisfação, com maior tolerância às frustrações e maior capacidade de experimentar a gratidão. Seriam, pois, mais bem aparelhadas para aproveitar o que o ambiente tem para lhes oferecer.
Mas o que significa estar mais bem aparelhada? É ser menos voraz, pois a voracidade torna a gratificação difícil - a sucção muito intensa contrai os capilares e o fluxo de leite é menor. Uma intolerância à frustracão leva ao ódio e ao desejo de atacar e destruir o objeto frustrador. A maior voracidade dá sempre a impressão de se ter ficado insatisfeito, o que favorece a inveja, em um ciclo que se retroalimenta de forma destrutiva, não ajudando o desenvolvimento.
Como podemos compreender que há uma potencialidade para a experiência da inveja desde o início da vida? Uma possibilidade seria considerar que a experiência do nascimento, ao promover a saída da homeostase intrauterina, produz uma perda de prazer e a comparação entre a situação atual e o registro dessa plenitude perdida. Ora, essa simples diferença, que é a condição existencial humana, dá lugar a um desejo voraz de recuperar o que foi perdido. Desejo voraz por algo inalcançável é o terreno propício à inveja.
Pensamos, então, que em vez de usar o termo "constitucional", Melanie Klein deveria ter usado o termo "estrutural". Se compararmos a situação intrauterina com o estado do bebê depois do nascimento, veremos que a plenitude e o sentimento de ser indiviso são diferentes em ambos os momentos. Nenhuma mãe será capaz de criar um sentimento de unidade comparável à unidade pré-natal - essa situação cria um diferencial de prazer intransponível. Assim, a inveja está destinada a acontecer, pois nada mais é do que o efeito de comparação entre a plenitude e o êxtase pré-natal e a situação de relativa dor e desconforto da vida após o nascimento.
Além do mais, o nascimento provoca angústias persecutórias, e para combatê-las, a fantasia cria um objeto idealizado, correspondente à plenitude da vida intrauterina, uma espécie de modelo ou paradigma da satisfação absoluta. A necessidade de idealizar, derivada do anseio universal por um estado de plenitude, seja o estado pré-natal, ou o que decorre da experiência de satisfação, faz surgir o desejo de se ver livre de toda dor e angústia persecutória (KLEIN, 1957/1996).
Existe na inveja um componente libidinal, uma nostalgia por um estado pleno de satisfação que se teve e se perdeu, mesclada com ódio, ressentimento e com a sensação de que algo se tornou para sempre inalcançável. Se o seio real não fornece aquele nível de prazer proporcionado pelo seio ideal, advém a sensação de se estar sendo lesado e o desejo de destruir o seio real. Considerando, então, que o seio real não conseguirá nunca atingir a plenitude imaginária da vida intrauterina, haverá sempre espaço para o surgimento da inveja. E o mesmo se pode afirmar a respeito dos encontros amorosos em qualquer nível, pois há sempre uma margem de desencontro entre o desejado e o conquistado.
Por isso, afirmamos que a inveja pode ser considerada constitucional; ou seja, surge da descontinuidade entre duas experiências de prazer diferentes, em cuja elaboração imaginária surge a voracidade. Esta é a estrutura original do desejo humano: insaciável. E isso faz com que a inveja exista como decorrência dessa estrutura voraz - queremos simplesmente tudo! E a realidade, mesmo quando é bastante generosa, nunca acerta a satisfazer tudo.
Na verdade, podemos dizer que a inveja participa da estrutura do desejo humano, assinalando o seu aspecto insaciável. O aspecto desmesurado da vida pulsional é o traço "mortífero" da pulsão sexual. O aspecto mais "benigno" (desse traço "mortífero") é o querer mais, que poderia conviver com a frustração e se transformar. O aspecto mais "maligno" é querer destruir e aniquilar o objeto que frustra e separar-se dele, negando a dependência.
Embora a inveja seja a expressão prototípica da pulsão de morte e de seu poder de dissolução, ela está endereçada a Eros - trata-se da força dirigida a desfazer o nó originário entre pulsões de vida e de morte, sendo seu objetivo realizar um silencioso e sinistro trabalho de dissolução dos vinculos eróticos, de modo a destruir a própria dependência das fontes de vida, de prazer e de plenitude.
O mais intolerável é a fantasia inconsciente de que o objeto idealizado tem tanto e não dá. É isso que torna a reflexão sobre a inveja interessante o fato de que, sendo a manifestação por excelência da pulsão de morte. surja do próprio ninho da pulsão de vida, da intensidade do desejo. É a inveja que visa quebrar os elos com o objeto de amor, com o objetivo de destruir Eros, de livrar-se de toda e qualquer dependência, e com isso aniquila também a capacidade de associar, necessária ao pensar. A inveja impede a formação de elos associativos necessários à construção do pensar - trata-se de um ataque aos vínculos (BION, 1959/2007). Quando há tolerância à dor e à frustração, isso sinaliza que se pode esperar mais tempo pela satisfação, que se pode manter mais viva a memória desta e um estado de gratidão: o próprio ato de pensar pode surgir na vigência da frustração tolerada, quando há esperança de que a satisfação voltará, pois é essa tolerância mesma à dor da falta e essa esperança que tornam possivel pensar, realizando as ligações associativas necessárias.
A inveja se dirige sempre ao seio bom, que é o protótipo da bondade materna, da paciência e da generosidade inexauríveis, do carinho, da compaixão, da compreensão. O objeto bom é a base da esperança e da confiança. Mas o objeto só é bom se houver capacidade de "receber", de acolher a sua "bondade".
A mãe tem a capacidade de criar uma atmosfera de confiança e de cuidados - o fluxo de leite, a presença que faz companhia, toca, estimula, brinca, faz careta, escuta, alimenta, presta atenção, põe em palavras algumas vivências, narra, ensina a conter e superar impasses, enfim, todos os trabalhos de ligação erótica que desembocam em amor, inteligencia, atividades significativas e prazer de brincar e pensar.
Segundo nossa autora, a impermanência do objeto e sua incapacidade de dar conta da insaciabilidade do desejo dão origem ao ódio e ao ressentimento englobados sob o nome de "inveja". A inveja surge porque há uma oscilação às vezes insuportável, entre o ter e o perder esse mundo de dádivas maternas - e perceber-se dependente demais. Há uma oscilação entre a falta e o excesso de estímulos decorrentes da voracidade, da frustração e dos afetos mobilizados pela situação.
O ciúme deriva da inveja, pois, por trás da aspiração à posse exclusiva do objeto de amor que o caracteriza, encontra-se o ódio de ter de depender dele, a inveja daquilo que ele pode oferecer e o desejo de exercer controle sobre ele. Podemos distinguir as seguintes nuances: a voracidade é a ânsia de sugar tudo, até deixar seco; a inveja é o desejo de estragar o objeto, depositar maldade, excrementos e partes más dentro da mãe, a fim de destruí-la, mas sobretudo destruir sua criatividade. Invejar é um ataque ao desejo e ao desejar, com o seu cortejo de tormentos, e envolve tentar fazer uma diminuição do valor do objeto, depreciando-o, até torná-lo menos desejável.
O fruir plenamente gera gratidão, sentimento que diminui a inveja e a voracidade. A gratidão é o fundamento da capacidade de apreciar e saborear os bons momentos e as qualidades que nos são oferecidos. A soma de experiencias felizes com o seio bom permite a boa introjeção desse objeto, que funciona como um núcleo de amor e proteção e que será para sempre, a fonte última da pulsão de vida do sujeito. A gratidão aprofunda a capacidade de "usar o seio bom", e este se toma cada vez melhor, quanto mais gratidão houver:
"Por meio da riqueza interna e sua reintrojeção, há um enriquecimento e aprofundamento do ego" (KLEIN 1957/1996).
A gratidão está intimamente ligada à generosidade.
Este é o núcleo de todos os valores éticos do sujeito. Ele é o fundamento da confiança do sujeito no mundo e de sua "confiabilidade" - isto é, de sua capacidade de comprometer-se com valores e práticas, de manter o compromisso ao longo do tempo. O contato com a reserva interna de confiabilidade é a base da capacidade de tolerar frustrações, sendo o que permite experimentar a gratidão. Além disso, a firme introjeção do objeto bom protege contra alterações de caráter que derivam de traços orais e anais - ambição desmesurada, rivalidade, desejo de controle e possessividade. Mesmo as tendências mais vorazes da sexualidade infantil podem ser integradas ao ego, enriquecendo-o; os problemas ocorrem quando essa integração não foi possível.
Klein (1957/1996) afirma que aqueles que não estabeleceram o bom objeto interno de maneira firme, ao se sentirem ameaçados e perseguidos, perdem completamente o contato com essa reserva interna de confiabilidade e são levados a agir de qualquer maneira, pois consideram que não tem nada a perder. Vários graus de distúrbios são possíveis, entre eles alterações de caráter que dão origem a atuações e transgressões de leis de diversos tipos; de outro lado, perdas de contato com essa reserva interior de segurança dão origem a estados agudos de angústia e desamparo - como no caso da síndrome de pânico, dos refugios autistas, das inibições e fobias de contato.
Nossa autora diferencia as cisões estruturantes das cisões fragmentadoras. A inveja resulta, justamente, da impossibilidade de preservar o objeto bom dos ataques, para que forme uma boa base egoica. As cisões patogênicas são as que criam objetos extremamente bons e maus, pois estes não são assimiláveis pelo ego, não se transformam em alimento para ele. Modelos muito idealizados permanecem dissociados - são vozes internas que ficam na órbita do ego, mas não se transformam nele, e a pessoa não consegue agir e pensar por conta própria, ficando submetida a mandados, injunções desses outros fantasmagóricos. As idealizações do objeto não se sustentam e desmoronam, ocasionando a necessidade de trocar de objeto de amor constantemente.
De fato, um jeito de não elaborar a hostilidade e a inveja do objeto primário é encontrar novos amores que podem ser idealizados e admirados, de maneira que magicamente desaparece o trabalho de lidar com as emoções negativas. As emoções negativas que aparecem simultaneamente a emoções positivas formam um conflito que não é tolerado. É preciso buscar novos amores com relação aos quais se tenha a impressão de que só existem as emoções positivas.
Quando não foi possível fruir suficientemente do seio materno, surgem as primeiras fantasias de ciúme. Nesse caso, mecanismos paranoides e esquizoides predominam, e nem a inveja nem o ciúme podem ser aliviados. Mas quando esses mecanismos dão lugar à posição depressiva, a criança aceita a perda da condição de posse absoluta da mãe e se torna mais fácil partilhá-la com outros.
O sentimento absoluto de exclusão e abandono está na origem da "figura dos pais combinados"- uma fantasia típica do complexo de Édipo precoce e ligada aos afetos de ciúme e inveja arcaicos. Trata-se de uma figuração extrema do "terceiro excluido" - ou seja, a mãe gratifica o pai por todos os meios que o amor pode imaginar, formando com ele uma figura combinada e fazendo uma aliança de poder contra a criança, que sente, com amargura, o seu abandono e o seu desamparo.
A inveja vivida na relação primária com a mãe dá lugar a outras formas de inveja, como a inveja do pênis, mencionada por Freud. Melanie Klein vai discernindo a lógica que preside toda forma de inveja. O invejoso busca a autossuficiência e recusa a dependência - quer possuir a fonte de todos os seus prazeres e sentirá inveja do seio e do pênis, que são metáforas de tudo que possa ser desejável: capacidade de oferecer prazer, dar vida, alimento, energia, amor, dinheiro, talento ou compreensão. Forma-se então a equação seio-pênis, ja que os dois órgãos simbolizam a vida, a potência, a criatividade - objetos por excelência da inveja.
As defesas contra a inveja são a onipotência, a negação e a cisão, e também a idealização e o denegrimento. Há duas maneiras contraditórias de defender-se da inveja: ou pela depreciação extrema ou pela excessiva exaltação do objeto e seus dons - são as tendências a criar deuses e demônios. A divisão extrema ocorre quando não é possível discriminar e integrar formas relativas de amor e ódio.
As formas exaltadas de cindir o objeto - na paixão, por exemplo - são consideradas delirantes. A realidade constantemente demonstra que não existem, a não ser na imaginação, formas puras de bem ou mau absolutos; assim, o objeto ideal rapidamente se transforma em perseguidor, pois é fonte de exigências muito elevadas. Toda idealização abriga em seu avesso uma inveja negada e uma destrutividade não neutralizada, mas que se encontra pronta a explodir sob a forma de de desejo de destruir. Os afetos extremos não se estabilizam, e o ódio não chega a se transformar em amor. A dinâmica do muito bom e do muito mau é movida pela pulsão de morte e por sua dinâmica, que leva sempre a uma abolicão do conflito mediante a eliminação sumária de um dos seus termos. Os assassinatos passionais são um exemplo de que a hiperexaltação do objeto de amor não conduz à sua preservação, mas sua aniquilação.
O abafamento do amor, descrito anteriormente como uma defesa maníaca durante a posição depressiva, tem suas raízes no perigo que advém dos impulsos destrutivos e da ansiedade persecutória. Há momentos mais mais psicóticos, com grande cisão entre amor e ódio, ao passo que, nos momentos neuróticos, é possível lidar com a destrutividade, reprimindo-a. Os momentos predominantemente psicóticos guardam uma dinâmica esquizoparanoide, e os momentos mais neuróticos, uma dinâmica depressiva.
A aspiração a ser criador de si mesmo e do seio materno bem com a rejeição de ter sido engendrado são o ápice da onipotência e da negação da dependência. Significam negar a própria filiação e a pertinência a uma linhagem que o antecedeu. Rebelar-se contra o instituído é ingrediente importante em toda ação criativa e original e com poder transformador, de outro lado, o que se vê na psicose é uma recusa maciça da filiação e do mundo criado pelos antepassados, com a abolição e o não reconhecimento de uma realidade compartilhada com os outros seres humanos.
Vejamos agora como esses aspectos se fazem presentes na situação analítica.
A inveja na situação analítica
Em seu fundamento último, inveja é sempre uma das fontes de vida e da criatividade. Como já dito,
"A inveja é muito poderosa no solapamento dos sentimentos de amor e gratidão, pois afeta a relação mais antiga todas, a relação com a mãe" (KLEIN, 1957/1996, p. 124.
Este último postulado de Klein, três anos antes de sua morte, gerou resistências na comunidade psicanalítica inglesa. No entanto, também abriu um vasto campo de pesquisa a respeito da reação terapêutica negativa, mobilizada por uma forte inveja da capacidade metafórica e criativa do analista.
A elaboração da inveja e do ódio é a tarefa fundamental da análise: mas do que se trata esse processo de elaboração? A partir da obra kleiniana, podemos entender como o trabalho de analisar, repetidas vezes, ansiedades e defesas ligadas à inveja. A inveja é o pior aspecto da destrutividade, pois aniquila o objeto bom interno, que é a base da saúde psíquica. O analista precisa insistir, desentocar os sentimentos de inveja mais obscuros e recônditos que remontam à vivência materna primária e recusam a vir à luz, lidar com os processos de cisão e fazê-los remontar à sua origem, para, assim, desfazê-los. Será preciso, pois, analisar a inveja nítida com relação ao analista, o que faz o paciente reviver a inveja do objeto primário.
Podem ocorrer, frequentemente, críticas destrutivas ao analista e a tudo que ele pode oferecer com suas interpretações: são pacientes incapazes de lhe expressar gratidão por qualquer dádiva. Mas, como bem o ditado popular, "Quem desdenha quer comprar...". A inveja se revela pela desvalorização do outro, como na fábula da raposa e das uvas, sendo então necessário diminuir o valor das obras e do dom dos outros. Fica clara aqui a dificuldade de valorizar o que se recebe - o sujeito volta as costas à gratificação, recusa o que lhe é oferecido. A inveja "estraga" a fruição dos bons momentos e o surgimento da gratidão que acompanha a capacidade de saborear a troca entre duas pessoas, situação que ocorre, também, entre analista e analisando.
De fato, a inveja é capaz de destruir e minar todo o trabalho do analista, transformando-o em algo completamente destituído de valor e significado. As defesas contra a inveja conduzem à indiferença e a formas cada vez mais desvitalizadas da existência, nas quais estão abafados ou ausentes o amor, o desejo, o entusiasmo e a paixão.
Nestas circunstâncias, como é possível realizar o trabalho analítico, que, segundo nossa autora, consiste em uma oscilação entre momentos de inveja e momentos de gratidão, entre outros? E como trabalhar as cisões e demais mecanismos de defesa arcaicos, tais como a onipotência, a negação, a idealização e a depreciação?
Vamos partir, então, de um exemplo para começarmos a pensar na depreciação e na defesa contra a dependência afetiva e o sentimento de inveja. Se um paciente sente que está sendo muito destrutivo, tenta diminuir a culpa e a perseguição por estar estragando seus objetos por inveja, por meio de um estado de confusão a respeito do valor deles; ou seja, o paciente pode se perguntar: será que são bons mesmo? Será que o analista é bom mesmo, ou um farsante? Se os objetos passam a não ter valor, inclusive o analista, não precisa sentir nem perseguição, nem culpa, utilizando-se então, da cisão como defesa. Algumas análises são rompidas nesses momentos de intensas reações terapêuticas negativas, exigindo uma grande habilidade por parte do analista, que precisa se deixar ser denegrido e atacado.
Nos estados mais depressivos e melancólicos, a desvalorização do objeto alterna-se com a autodepreciação do sujeito, e também de seus dons e realizações. Tudo fica destituído de importância e valor, nada vale a pena. O sentimento de impotência que o deprimido inocula no analista é a forma que encontra de destruir a potência deste, zerando-a
Estragar, desvalorizar são jeitos de evitar a inveja; o objeto desvalorizado não vai mais precisar ser invejado. Alguns pacientes criticam uma interpretação que os tinha ajudado, até não sobrar mais nada dela e, às vezes, da propria análise. Essas defesas são acionadas no escuro da inconsciência, e por serem tão violentas e radicais, não há possibilidade de serem desfeitas de maneira rápida e onipotente; ou seja, do modo como foram acionadas.
Para o analista trabalhar com essas ansiedades e defesas arcaicas, é preciso ir devagar, ter muita disponibilidade e compreensão em relação aos ataques invejosos do paciente. Pensemos: se as cisões existem para diminuir a força do objeto mau, ou, em outras palavras, existem para diminuir a força de ódios, invejas e ressentimentos muito desagradáveis, esses sentimentos não poderão desaparecer, a não ser que possam ser gradualmente integrados ao ego e aos movimentos libidinais da pulsão de vida. Embora saibamos que a integração nunca chega a ser completa; a cisão é o movimento oposto, que permite uma eliminação radical, abrupa e absoluta. O que podemos depreender daí?
De um lado, a cisão e as outras defesas esquizoides são processos defensivos radicais, que produzem um resultado imediato, de acordo com a pressa e a voracidade dos pacientes que funcionam na posição esquizoparanoide e desejam uma solução imediata de seus conflitos. Ocorre, na verdade, abolição do conflito, pois a cisão visa à completa eliminação de um dos polos do conflito. Passar de uma cisão para um processo de integração envolve um grande trabalho de paciência. O analista busca então modificar o funcionamento desse ego arcaico que não tolera dor, desprazer e presença de conflito e ambivalência.
Outro aspecto importante: a inveja decorre de uma predominância de sadismo oral e anal, sendo também parte do trabalho do analista diminuir esse dinamismo, através da criação de um ambiente amistoso, lúdico e tolerante para com as emoções negativas, de modo a favorecer a sua Integração com a libido. É preciso diminuir a persecutoriedade, os medos, analisar as fantasias paranoicas para permitir níveis maiores de integração de amor e ódio. Quando o ódio e o amor ficam muito dissociados do ego, o paciente pode encobrir a inveja e a destrutividade que sente contra o analista através de uma idealização defensiva.
A necessidade de idealizar, negar e abafar as emoções decorre de uma incapacidade do ego de suportar a tensão dos afetos ambivalentes, das dúvidas, das hesitações. O paciente aciona, então, um mecanismo de defesa rápido e radical, como a cisão, que produz um empobrecimento do ego. Diante disto, o analista vai convidar o paciente ao dinamismo contrário, de enriquecer-se, mostrando que os afetos e as emoções negativas que quer eliminar vão lhe fazer falta, e se essas emoções desaparecerem, vão empobrecê-lo psiquicamente. Na verdade, é preciso aumentar confiança do paciente nos seus aspectos libidinais e amorosos, que irão contrabalançar e integrar-se às emoções negativas [2].
O leitor pode perguntar: como o analista se torna esse objeto bom que favorece o dinamismo de integração e crescimento? Fundamentalmente, precisamos desenvolver uma boa compreensão do estado do paciente, que cinde e perde o acesso às suas emoções. A hostilidade distanciada é o seu modo de evitar correr qualquer risco e qualquer perigo no contato com o outro, o que poderá gerar apego, dependência e sentimentos de rejeição. Assim, os processos de cisão impedem que o paciente entre em contato consigo mesmo, levando-o a ficar alienado e distante. Partes consideráveis de sua personalidade não estão acessíveis para ele mesmo, por isso, nada faz sentido - ele ouve o analista, mas não se sente tocado, nem afetado. Não se sente presente, nem sendo uma pessoa real. A interpretação precisa favorecer o contato do paciente consigo mesmo e com sua dor de viver, aí sim poderá propiciar a chegada de uma emoção forte. Em algumas situações de análise, pode surgir uma intensa vontade de chorar, quase uma irrupção de algo que estava sob forte contenção.
O analista pode, com sua atenção, sondar as ansiedades do paciente que surgem da sensação de risco e perigo no contato com ele, e assim, tocar delicadamente nessas questões, desenvolvendo um ambiente confiável e de aceitação dos medos e das singularidades do paciente. Trata-se de criar condições para o restabelecimento do contato afetivo e da experiência de uma intimidade que não intimida e nem ameaça, mas transmite segurança, por meio da presença atenta, viva e implicada do analista.
O trabalho fundamental da análise é o de ampliar a capacidade do ego de suportar e lidar com o impacto do Id e das pulsões que originam desamparo, ansiedade, dor, persecutoriedade e culpa. O analista realiza um trabalho de aceitação, compreensão e transformação das pulsões junto com o paciente, aumentando a sua confiança na capacidade de suportar e lidar com o seu Id, como força bruta e cega, mas que pode ser transformada em força criativa.
Em análise devemos caminhar lenta e gradativanerde em direção ao doloroso insight referente às divisões do self do paciente. Isso significa que os lados destrutivos são repetinamente cindidos e recuperados, até que se efetive uma maior integração. Como resultado o sentimento de responsabilidade torna-se mais forte, e a culpa e a depressão são mais plenamente vivenciados. Quando isso acontece, o ego é fortalecido, a onipotência dos impulsos destrutivos fica diminuída juntamente com a inveja e é liberada a capacidade de amor e gratidão que estivera abafada no decurso dos processos de cisão (KLEIN, 1957/1996, p. 257).
Fortalecer o ego é integrar e assimilar nele os impulsos do Id. O ego frágil é o que tem necessidade de dissociar de si esses impulsos, seja através da repressão (Freud) ou da cisão (Klein). Não se trata de submeter o Id à força adaptativa do ego, mas de enriquecer o ego, integrando nele a pulsionalidade do Id, o que resulta em uma libertação das potências afetivas, com ampliação da capacidade de amar, reparar, agradecer. Para isso, é preciso recuperar, assumindo as potências destrutivas, em especial a inveja, que tanto atacam as possibilidades de boas experiendas, de satisfação. A análise deve proporcionar um ambiente de máxima tolerância para com a vida pulsional, favorecendo assim sua integração ao ego.
A assimilação ao ego marca o momento em que as dádivas parentais podem ser, de fato, apropriadas e usadas pelo ego. Para que isso aconteça, é necessária uma discriminação precoce entre uma experiência boa e outra má, acompanhada de diversos processos de síntese e integração entre ambas, e com a assimilação dessas experiências ao ego, que se apropria, então, de sua herança parental e pode tornar-se relativamente autônomo.
O insight ganho no processo de introjeção torna possivel ao paciente, no decurso da análise, reconhecer que existem partes de seu self potencialmente perigosas. Mas quando o amor pode ser suficientimente reunido ao ódio e à inveja que estavam cindidos, essas emoções tornam-se toleráveis e diminuem porque são mitigadas pelo amor (KLEIN 1957/1996, p. 265).
Quando há perturbações na capacidade de trabalhar, criar e viver o prazer, é possível levantar a hipótese de o estrago estar sendo causado pelo silencioso trabalho da inveja. Quando a inveja inconsciente é muito grande, o superego sussurra a ideia de que não vale a pena tentar reparar os estragos nem criar obras taxadas de medíocres, levando o indivíduo a ficar paralisado. Em vez da culpa se tornar uma força propulsora de reparações, vira ansiedade persecutória e exigência de punição. Como reverter esse ciclo vicioso originado pela diminuição de si?
Assim como as repetidas experiências felizes de ser nutrido e amado são fundamentais na infância para o estabelecimento seguro do objeto bom, também durante uma análise experiências repetidas da eficácia e verdade das interpretações dadas levam a que o analista - e retrospectivamente o objeto originário - sejam erigidos como figuras boas (KLEIN, 1957/1996, p. 265)
Nossa autora considera que o profundo sentimento de segurança pode ser obtido por meio do contato com a mãe, ou mediante uma análise no contato com o analista, e isso decorre da introjeção de um objeto inteiro e não danificado, o que só é possível quando a cisão permitiu a discriminação entre o bom e o mau. Para trabalhar em análise os estados de fragmentação, é preciso deixar emergir as memórias em sentimento; isto é as memórias mais antigas, anteriores à verbalização, de modo a se criar uma nova atitude com relação às mais antigas frustrações, diminuindo assim, o sentimento de humilhação. Cria-se uma nova capacidade de fruição do objeto, pois a inveja impede de usá-lo como fonte de prazer.
O trabalho do analista visa ampliar a capacidade do ego de esperar. Aceitando estados desconfortáveis como etapas de um processo, o paciente vai gradualmente abrigando seus impulsos por um tempo maior, o que permite escolher caminhos de transformação mais lentos e dolorosos, em vez de acionar prontamente a cisão e demais mecanismos radicais dedefesa.
O analista visa dissolver as fantasias inconscientes típicas da inveja, associadas ao sadismo oral, anal e uretral. As fantasias mais primitivas são aquelas de extrair da mãe tudo o que ela tem de bom e, por outro lado, livrar-se, expulsando para dentro do corpo materno tudo aquilo que deseja eliminar, pois tem uma conotação negativa. Tais fantasias, em geral, ocorrem em uma época em que a criança tem um ego primitivo, ainda não tem recursos para pensar em palavras, mas sente necessidade de evacuar o seu desconforto para dentro do corpo da mãe, ao mesmo tempo em que, vorazmente, o esvazia de seus bons conteúdos. O percurso da análise, que intenciona atingir as primeiras experiências e as lembranças em sentimentos (memory in feelings, escreve Klein), permite a entrada de tais vivências primitivas em um campo de sentidos e palavras; dessa forma, o paciente adquire uma nova posição diante de suas ansiedades arcaicas.
A introjeção do analista como um objeto bom cria um dinamismo de integrações. Diminuem as identificações projetivas e certas lembranças agradáveis, antes soterradas, são resgatadas. A voracidade e a inveja perdem poder; há mitigação do ódio pelo amor e o ego se fortalece integrando as emoções negativas; o paciente passa a sentir gratidão, culpa e responsabilidade.
Será preciso diminuir o medo que o paciente sente de suas dimensões experienciadas como inimigas, e aumentar a sua confiança nas reparadoras e construtivas, e em sua capacidade de amar. As emoções negativas tornam-se menos ameaçadoras se puderem ser integradas ao amor, pois o risco de ser dominado por seus aspectos destruidores diminui, assim como a dor na análise. O paciente pode recuperar então a iniciativa de pensar seus pensamentos impensáveis, e cresce a sua criatividade, que tem o poder de transformar aquilo que parecia tão ameaçador e insuportável em algo viável [3].
Meltzer diz que os pacientes nos procuram para se livrar das dores psíquicas, e o que a análise oferece é o desenvolvimento de um continente mais efetivo, consistente e amplo para contê-las. De acordo com essa compreensão, vamos então transformando, significando, narrando e reparando as dores inevitáveis da vida, por meio de processos criativos e estéticos.
NOTAS
1 Para um aprofundamento, cf. o texto "Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não psicótica", de Bion (1957/2007).
2 O filme DivertidaMente, analisado no capítulo II deste livro, é um bom exemplo desses processos.
3 Nos conceitos daqueles que sucederam a Klein, Winnicott e Bion, o analista precisa desenvolver as qualidades da mãe ambiente, segundo Winnicott - ou seja, capacidade para oferecer holding e handling. Segundo Bion, o analista deve oferecer continência e rêverie, para acolher as identificações projetivas.



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