Sinfonia dos afetos: Reverie e simbolização no pensamento de Elias e Elizabeth da Rocha Barros
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Este artigo foi publicado no Jornal de Psicanálise em 2025, sob autoria de Ana Fátima Aguiar [1] e Marina F. Ribeiro [2].
Resumo: Este artigo propõe uma reflexão sobre a construção dos processos de simbolização à luz da noção de reverie, com base nas contribuições teórico-clínicas de Elias e Elizabeth da Rocha Barros. Os psicanalistas brasileiros criam o conceito de pictogramas afetivos para se referirem a imagens compostas por elementos carregados de expressividade simbólica, que evocam representações por meio do trabalho onírico. As produções dos Rocha Barros apontam para uma potência clínica da reverie como função estética e simbólica. Nosso ponto de partida será uma vinheta clínica, escrita em uma dimensão ficcional, que será articulada às ideias de um fragmento clínico publicado anteriormente por uma das autoras (Aguiar, 2025), que aborda uma cena clínica análoga, na qual sons e imagens se entrelaçam na construção intersubjetiva de sentido. Nessas experiências, podemos notar que a analista participa da transformação dos conteúdos emocionais do analisando, deslocando-os do campo do ruído ao da sinfonia.
Palavras-chave: reverie, simbolização, pictogramas afetivos, evocação, expressividade.
há devaneios tão profundos, devaneios que nos ajudam a descer tão profundamente em nós mesmos, que nos desembaraçam da nossa história. Libertam-nos do nosso nome. Devolvem-nos, essas solidões de hoje, às solidões primeiras. Essas solidões primeiras, essas solidões de criança, deixam em certas almas marcas indeléveis. Toda a vida é sensibilizada para o devaneio poético, para um devaneio que sabe o preço da solidão. (Bachelard, 1988)Chovia muito naquela tarde. Os ruídos da rua eram abafados pela vidraça embaçada. O relógio marcava cinco minutos de sessão quando ela rompe o silêncio:
– Alguém está tocando a campainha!
De fato, havia um som insistente do lado de fora do consultório, talvez da casa vizinha. O toque se repetia, dando a impressão de que não havia ninguém ali (ou, ao menos, ninguém disponível) para atender.
A partir daquele instante a imagem da campainha ressoando passou a tomar meus pensamentos. A cada toque, ela reverberava como um chamado, uma espera que evocava uma aflição por não ser atendida. Surge em minha mente uma lembrança de uma ocasião, na adolescência, na qual eu estava viajando com uma amiga. Fomos à cidade de sua avó, no sul de Minas Gerais. Estávamos de férias e à noite saímos para encontrar suas amigas que viviam naquela pequena e simpática cidade.
Em um dado momento, minha amiga e eu nos desencontramos. Procurei-a, mas foi em vão. Não conhecia quase ninguém, então achei melhor retornar para a casa de sua avó, onde seus pais e seu irmão caçula também estavam hospedados. Quando cheguei, toquei a campainha. Nenhuma resposta. Aguardei alguns minutos, pois me senti constrangida por insistir no toque. Mesmo assim o fiz, pois só queria poder entrar e me livrar daquele desconforto de estar ali, perdida e sozinha. Mesmo com minha insistência, não veio ninguém. Nenhum som de dentro, nenhum passo, nenhum sinal de que eu seria atendida.
Minha mente vagou por aqueles instantes que presumo tenham sido apenas segundos, mas que foram vividos como uma longa e intensa viagem para esse lugar, esse tempo-espaço do qual costumava me lembrar sempre com prazer, já que compõe uma parte importante de minha adolescência. Guardo ótimas lembranças daquela simpática e acolhedora cidadezinha mineira. Ainda assim, naquele momento, minha memória me transportava apenas para aquela angustiante espera, orquestrada pelo eco abafado e insistente da campainha que ressoava da casa vazia.
Eu me incomodo com esse devaneio e me encarrego de aterrissar, preciso estar de volta na cena com minha analisanda. Então retorno, e a ouço dizer, em um tom aflito:
– Semana passada, durante o plantão, fiquei ao lado de uma menina de 14 anos até ela morrer. A mãe tinha ido embora horas antes. Sentei ali, fiquei segurando a mão dela, mesmo depois que parou de respirar. Já perdi outros pacientes, mas nunca senti nada parecido. Foi devastador… não havia mais ninguém ali. Nenhuma equipe, nenhum familiar. Esperava que a campainha da uti tocasse, como costuma acontecer quando chega um visitante, mas não tocou. Não houve nenhum som, nem campainha, nem companhia. Era somente o corpo daquela menina e eu. Só eu, na verdade. Ela já nem estava mais ali.
Tantas imagens em um período tão curto de sessão: o som repetido da campainha, a chuva insistente, a solidão da jovem médica, a morte de uma menina, a lembrança da analista-adolescente desamparada, perdida. As sessões com essa analisanda costumavam ser preenchidas de histórias. Alheias, em sua maioria. Era muito difícil para ela acessar suas próprias emoções. Estava sempre escapando de si, não se ouvia. Por isso essa fala me pareceu tão impactante, por estar carregada de uma emoção genuína, profunda. Ela havia sido tocada em uma área que se mostrava, até então, inviolável, inacessível. Senti vontade de dizer algo, mas sabia que precisaria ser muito cuidadosa, pois, naquele momento, a recordação da morte trouxe luz a uma dor viva, pungente. Então lhe digo:
– O som daquela campainha nos remete ao lugar do desamparo, não é? Não ser atendida, não ser ouvida. Como se o chamado ecoasse, insistente, no vazio. A experiência que viveu com essa menina foi muito marcante, de várias formas. Era o seu desamparo entrelaçado ao dela. O chamado da morte, a ausência de vida. O silêncio daquela espera fazendo com que você pudesse ouvir o som de sua própria tristeza, suas mazelas, o sentimento de estar só.
Seus olhos encheram-se de lágrimas. Ficou em silêncio por algum tempo e então disse:
– Eu acho que nunca me senti ouvida. Nem em casa, nem na faculdade, nem no hospital. Pensava que isso não me afetava, que eu convivia bem com a autonomia que conquistei desde muito nova. Achava até vantajoso ser assim, independente. Mas talvez eu tenha sempre me sentido “do outro lado da porta”, tocando a campainha e não sendo atendida. Me sinto muito sozinha.
A imagem da campainha havia se tornado um importante elemento simbólico: do abandono, da espera, da necessidade de continência. Na densidade dos afetos que circulavam naquele espaço analítico, pude captar a sensação de impotência, a solidão, o peso de uma espera por alguém que nunca chegava.
A sessão seguiu em silêncio, um silêncio habitado por mentes que acolhiam ecos de uma memória que agora podia ser atendida. E, do lado de fora, ouvia-se o som da campainha mais uma vez, mas ele já não nos afetava como antes. Parecia que aquele “chamado” ressoava, naquele momento, de uma maneira diferente. Era como se algo ali, entre nós, tivesse tomado forma – uma experiência até então não representada e que, ao som insistente da campainha, passou a ser simbolizada, e, por mais que aquele pensamento fosse doloroso, ele ganhava um lugar para ser pensado. Podia, então, ser ouvido. Estávamos ali, juntas, escutando aquela dor.
Reverie, pictogramas afetivos e simbolização na clínica psicanalítica
Foi Wilfred R. Bion (1962/1991) quem apresentou à psicanálise, ainda que en passant, a noção de reverie, compreendida como a capacidade materna de acolher e metabolizar os elementos beta do bebê, ou seja, os fragmentos sensoriais ainda não organizados em linguagem ou pensamento. Segundo o autor:
O termo reverie pode ser aplicado a qualquer conteúdo. Eu desejo reservá-lo apenas àquele que se infunde de amor ou de ódio. Nesse sentido restrito, a reverie é o estado de mente de abertura a qualquer “objeto” oriundo do objeto amado e é, portanto, a capacidade de recepção das identificações projetivas infantis, sendo elas sentidas como boas ou más pelo bebê. Em suma, a reverie é fator da função alfa da mãe. (Bion, 1962/1991, p. 36)
No trecho acima citado, apresentado em A teoria do pensar (1962), Bion descreve a reverie como uma capacidade da mãe de acolher as identificações projetivas do bebê, metabolizá-las, para que tais elementos brutos projetados sejam, então, devolvidos ao bebê de uma forma em que possam ser pensados. Essa concepção, profundamente fecundada na analogia com a função continente da mãe, foi desdobrada ao longo das décadas, desde seu surgimento no campo psicanalítico. Com base nas ideias de Bion, diversos autores da psicanálise contemporânea vêm ampliando o termo reverie, dando-lhe o status de conceito, aproximando-o à experiência clínica, concebendo a capacidade da mente da mãe na reverie com seu bebê, correlata à experiência vivida pela dupla analítica.
Neste artigo, a experiência da reverie será pensada, conceitualmente, com base nas contribuições de Elias Mallet da Rocha Barros e Elizabeth Lima da Rocha Barros. Entre as contribuições mais originais e instigantes sobre a noção de reverie, as formulações dos Rocha Barros ganham destaque, pois os psicanalistas brasileiros a ampliam, vinculando-a à construção do campo simbólico por meio da captação de imagens: os chamados “pictogramas afetivos”. Tal conceito refere- -se às imagens compostas por elementos afetivos que abarcam diferentes significados, que assumem uma forma inicial de representações acessíveis por meio do trabalho onírico.
Quando o analista se dispõe a abrigar em si não apenas palavras, mas também imagens, sensações, ritmos e silêncios, permite-se, então, uma escuta ampliada, na qual os pictogramas se tornam veículos de sentidos, ainda por nascer. Elias e Elizabeth da Rocha Barros propõem que muitas vezes esses pictogramas que surgem na mente do analista durante a sessão são evocados por elementos incognoscíveis, e que só se tornam apreensíveis por meio da reverie. Tais imagens, quando captadas, carregam em si uma densidade afetiva pré-verbal (Rocha Barros, 2000; Rocha Barros & Rocha Barros, 2012).
Esses pictogramas seriam uma representação mental inconsciente das experiências emocionais até então não simbolizadas, e, para E. M. da Rocha Barros e E. L. da Rocha Barros (2017), a função alfa seria a responsável por construir símbolos para o pensamento onírico, alicerçando o processo do pensar. No pictograma afetivo, segundo os autores, a imagem, carregada de afeto, se configura em uma forma inicial de representação das emoções, anterior à palavra e ainda não simbolizada ou transformada em um discurso pelo analisando.
A vinheta que abre este artigo, retrata a criação dos pictogramas afetivos, imagens carregadas de afetos, que ainda não puderam ser pensados e, portanto, não se organizaram em linguagem. Nossa proposta é refletir sobre a função transformadora da reverie na clínica contemporânea, ancorada na escuta do analista como construção simbólica. O campo intersubjetivo torna-se, assim, lugar de criação, e a reverie, sua linguagem inaugural. Não se trata de decifrar o que está oculto, mas de acompanhar o nascimento do símbolo, de escutar o som que pulsa antes da palavra. De permitir que, entre ruídos, sons e silêncios, um pensamento inédito comece a ser pensado.
Segundo o casal Rocha Barros, o pictograma afetivo opera como um símbolo presentacional – um fragmento da experiência que convoca o analista a uma tarefa simbólica e, desse modo, favorece o trabalho psíquico e a criação de novos símbolos que expandem as redes afetivas inconscientes. Nesse sentido, a reverie se configura em um campo fértil no qual esses símbolos nascem, habitam o analista e, progressivamente, podem ser transformados em símbolos discursivos, compartilháveis com o analisando.
Essa distinção entre símbolos presentacionais e discursivos é central na elaboração teórica de Elias e Elizabeth da Rocha Barros. Conforme apontam os autores, inspirando-se nas ideias da filósofa Susanne Langer (1967), o símbolo presentacional comunica uma totalidade afetiva de maneira não discursiva, por meio de estruturas conotativas, imagens e formas. Já o símbolo discursivo opera por meio da linguagem verbal, nomeando e organizando o conteúdo emocional de modo mais acessível à consciência. O trabalho psicanalítico, na perspectiva proposta, reside justamente na passagem de um tipo de simbolismo a outro, não como uma tradução direta, mas como uma transmutação simbólica que respeita a complexidade dos afetos envolvidos.
Esse processo não se dá de maneira linear. O que a experiência clínica mostra é que o trabalho de simbolização exige do analista uma disponibilidade radical à experiência emocional, uma escuta que se faz porosa ao indizível, ao não-representado.
As evocações produzidas na mente do analista são maneiras, a nosso ver, de organizar os afetos através do estabelecimento de certas conexões entre eles, que não são conscientes nas vivências expressivas das fantasias, no plano da vida consciente, e que permeiam a interação que está ocorrendo na sala de análise. (Rocha Barros & Rocha Barros, 2012, p. 141)
Carregados de afetos, os ruídos e sons, internos ou externos, tornam-se metáforas de estados psíquicos que aguardam uma forma. A capacidade de reverie, nesse contexto, é uma escuta que sonha, acolhe e transforma o disforme em pensamento. E é justamente nessa passagem – do ruído à imagem, da imagem ao símbolo, do símbolo à construção de sentidos – que se dá o trabalho analítico tal como propõem os Rocha Barros.
Para os autores, tais símbolos não só representam emoções, mas também as expressam, o que denominam expressividade. Os Rocha Barros utilizam esse termo comparando-o ao fenômeno na filosofia da arte, no qual a imagem não apenas descreve ou representa as emoções, mas as expressa. Assim, a principal tarefa da expressividade é transmitir, via evocação, para a mente do outro, uma representação colorida pelas emoções. Para que os pictogramas afetivos se tornem efetivamente transformadores, é necessário que estejam impregnados de expressividade. Uma imagem é expressiva quando não apenas ilustra uma emoção, mas a transmite, a encarna, a entrega à sensibilidade do outro. No campo psicanalítico, essa expressividade não se limita à linguagem verbal, estendendo-se às imagens, aos tons de voz, aos silêncios, aos gestos e aos ritmos que atravessam a sessão.
No pictograma, o símbolo evocado encarna a emoção, transmitindo-a ao outro por vias sensíveis e conotativas (Rocha Barros & Rocha Barros, 2018). Dessa maneira, o casal de autores brasileiros afirma que a “expressividade precede a capacidade comunicativa através das palavras” (Rocha Barros & Rocha Barros, 2018, p. 20). Nesse processo, a reverie é o dispositivo clínico que torna possível a recepção dos pictogramas afetivos e a sua transformação progressiva em construções simbólicas compartilháveis.
Ao captar essas imagens em sua mente, o analista se vê atravessado por afetos que não são inteiramente seus, mas também não pertencem unicamente ao analisando. Trata-se de experiências intersubjetivas, expressas em imagens que podem se manifestar sob a forma de cenas, melodias, metáforas ou sensações corporais. A expressividade dessas imagens, segundo os autores, antecede e prepara o terreno para a possibilidade de construção de sentidos. Ela é, portanto, a via privilegiada para que o não simbolizado possa se tornar pensável.
Quando o analista acolhe a expressividade desses símbolos em sua reverie, ele se torna continente para uma experiência emocional ainda em estado bruto. É por meio dessa escuta imagética e sensível que se inicia o processo de simbolização. Os Rocha Barros (2012; 2018) ressaltam que essa abertura sensível e receptiva é o que permite à imagem captada tornar-se, posteriormente, uma representação.
Para os autores, a simbolização na clínica pode operar em três níveis distintos, que não se excluem, mas se interpenetram: o significado oculto, o significado ausente e o significado potencial (Rocha Barros, 2002, pp. 115-116). O significado oculto refere-se àquilo que está reprimido ou é ainda desconhecido no psiquismo; o ausente, àquilo que ainda não pôde ser elaborado, pois permanece cindido ou dissociado da experiência emocional; e o potencial, àquilo que emerge da interpretação como uma nova possibilidade de sentido. Esse último é especialmente importante: ele aponta para a criação de novos caminhos simbólicos que não existiam antes da experiência analítica. Segundo os autores:
as interpretações não apenas esclarecem aspectos da vida emocional, mas permitem, por serem conjecturais, a ampliação do universo observável do paciente e do campo de escrutínio, seu campo de visão, ampliando em decorrência sua capacidade (bem como a do analista) de compreender suas respostas emocionais e sua relação com o passado. (Rocha Barros & Rocha Barros, 2002, p. 119)
O trabalho do analista, nesse cenário, não é decifrar um enigma já dado, mas participar da constituição do próprio campo simbólico. Ao captar, sustentar e transformar os pictogramas afetivos que lhe atravessam, o analista oferece ao analisando a possibilidade de habitar outros modos de sentir, de pensar e de representar a si mesmo. Como afirmam os autores, é por meio da criação de novos símbolos que se amplia a capacidade de comunicação consigo mesmo e com os outros, gerando uma ampliação do mundo interno (Rocha Barros & Rocha Barros, 2018).
A tarefa clínica que se desdobra com base na reverie exige do analista não apenas sensibilidade, mas também disponibilidade imaginativa. É preciso acolher as imagens que chegam sem forma, sem palavras, e permitir que ganhem espessura simbólica. Essa ativação da imaginação, entendida não como fabulação, mas como função representacional e sensível, é, para os Rocha Barros (2018), condição essencial para que o sofrimento psíquico possa ser inscrito no campo da experiência emocional e, assim, ser transformado.
Nesse sentido, os autores destacam que, diante de experiências traumáticas, frequentemente marcadas por excesso ou ausência de representação, o psiquismo tende a se organizar de modo defensivo. A palavra perde sua vibração emocional, tornando-se rígida, literal, vazia de eco afetivo. A saída para esse impasse, segundo E. M. da Rocha Barros (2019), não está na explicação ou na decodificação, mas na reintrodução da função conotativa do símbolo, ou seja, na ampliação de sua capacidade expressiva. A interpretação, quando atravessada por essa função conotativa, não visa à verdade, mas à abertura de possibilidades para a experiência.
É esse movimento que os autores descrevem como metabolização da vida emocional: um processo de elaboração simbólica no qual diferentes níveis de significação se articulam, permitindo que as emoções deixem de ser indigestas, cindidas ou encapsuladas. Através do trabalho analítico, representações até então ocultas ou ausentes podem ser reconfiguradas como significados potenciais. Nesse percurso, a reverie funciona como matriz primeira da simbolização, oferecendo ao analista as imagens que servirão de esboço para futuras construções discursivas.
A imagem, nesse contexto, é sempre mais do que um reflexo: ela é uma via de acesso ao que ainda não pôde ser dito. E é por isso que o pictograma afetivo, em sua forma inaugural, exige hospitalidade. Só poderá se transformar em símbolo se for acolhido por uma mente capaz de lhe dar abrigo. A clínica analítica torna-se, pois, um espaço de cocriação simbólica, em que analista e analisando constroem, com base em suas reveries, uma linguagem própria. Como vimos na vinheta clínica, esse processo de transformação simbólica não se dá por meio de explicações, mas através da escuta de um som que insiste, que reverbera, que solicita continência. E que, enfim, encontra sentidos e amplia caminhos para elaboração.
Retomando o fragmento clínico que abre este artigo, o som da campainha externa havia criado imagens, evocado uma reverberação na analista e na analisanda, e seguia se desdobrando em novos pensamentos. Era como se o campo intersubjetivo, ali criado, sustentasse uma escuta que não apenas recebe palavras e as interpreta, mas sim participa da construção de sentidos. Em consonância com as ideias dos Rocha Barros, entendemos que o analista não é um decifrador de imagens, mas um organizador de afetos, um co-habitante das emoções não representadas, alguém que se deixa afetar para, então, criar junto com o analisando um espaço de construção simbólica.
Ao oferecer à analisanda uma escuta que acolhia o pictograma afetivo contido no som, foi possível instaurar ali um significado potencial – aquele que não existia antes da sessão, mas que se abriu como possibilidade com base no gesto interpretativo. O ruído se transformou em símbolo. O afeto antes indizível tornou-se imagem compartilhada. E, a partir disso, novas cenas, memórias e associações puderam emergir naquele momento, bem como nas sessões seguintes. Esse processo é compreendido pelos Rocha Barros como uma metabolização da vida emocional: uma operação simbólica que permite à mente integrar elementos antes cindidos, negados ou congelados pela dor.
A reverie, nesse modelo, oferece ao analisando, ainda que silenciosa e provisoriamente, a experiência de que seus afetos criem forma, cor, ressonância e que, portanto, possam ser pensados, sentidos e transformados. O símbolo que nasce da reverie não é uma tradução da dor, mas uma criação compartilhada com base nela. A campainha, na clínica, deixou de ser apenas um ruído naquele tempo- -espaço da sessão. Tornou-se figura, expressão de afetos, metáfora de uma espera, memória de uma dor, vestígio de uma infância e, talvez, promessa de abertura. Na potência do encontro, aquela jovem mulher já não estava mais sozinha diante da porta.
Em uma vinheta publicada anteriormente por uma das autoras (Aguiar, 2025), a escuta analítica se abre para a reverberação sensível de um tique-taque aparentemente insignificante. Tal som, inicialmente percebido como “ruído mental”, revela-se progressivamente como traço expressivo de um campo intersubjetivo em formação. Naquele fragmento clínico, a analista acolhe as imagens evocadas por sua reverie, que se estendem, de um tique-taque intrusivo a uma orquestra, na qual lá estavam, a analista e seu analisando, afinando seus instrumentos.
Quando tais imagens e pensamentos são compartilhados com o analisando, novos sons, silêncios e lembranças se entrelaçam, fazendo emergir, entre ambos, uma composição singular, marcada pela transformação do “barulho” em música. Esse fragmento mostra que a escuta porosa e a intersubjetividade do encontro analítico permitiram a cocriação de um campo emocional fértil, no qual experiências antes não simbolizadas passam a ganhar forma e, posteriormente, sentido.
Decidimos mencionar aqui essa vinheta, pois, assim como o recorte clínico apresentado no início deste artigo, ela também ilustra, precisamente, a transição entre ruído e melodia, bem como a construção simbólica envolvida nesse processo. A abertura criada pelo tique-taque se expande para outro pensamento que irrompe na mente da analista: o trecho de uma canção que fala sobre duas pessoas que estão juntas, fazendo “música”. A analista decide, então, compartilhar com o analisando, a ideia de que isso era o que eles estavam fazendo ali: afinando seus instrumentos, como em uma orquestra. A ideia de uma sinfonia (que o analisando também nomeia como “sintonia”) evoca a memória infantil, carregada de afeto, da experiência de tocar violino com seu pai. Ele também lembra da frieza da mãe e da desafinação de sua relação com ela, desde sempre. A reverie da analista, atravessada por imagens sonoras e pela evocação da musicalidade dos afetos, possibilita a emergência de sonhos compartilhados, nos quais os elementos se traduzem em símbolos que vão (re)criando memórias e se transformando em novos pensamentos.
Os pictogramas afetivos, nos termos de Elias e Elizabeth da Rocha Barros, representam o fenômeno (seja uma imagem, uma ideia, uma sensação) que sustenta a elaboração de conteúdos emocionais ainda não simbolizados. Entre lembranças, ritmos e silêncios, analista e analisando constroem juntos uma melodia em que o “barulho” ganha sentido, e a experiência emocional encontra, enfim, possibilidade de ser pensada e vivida.
Ambas as vinhetas revelam um potencial para a construção simbólica, uma experiência compartilhada que se sustenta pela forma com que a escuta analítica opera. O que se destaca é o uso da reverie como dispositivo carregado de elementos simbólicos, capaz de acolher imagens sonoras carregadas de afeto e sustentar sua transformação em linguagem psíquica. É essa escuta que costura o campo simbólico, ponto a ponto, mesmo com base em materiais aparentemente ruidosos ou dispersos.
O analista, por meio de suas interpretações, faz com que as representações mentais inconscientes de situações emocionais se tornem visíveis (no sentido imagético) e significativas. E o paciente, concomitantemente, rearticula significados de campos simbólicos distintos, abrindo novas possibilidades de experiência e criando novos significados deixados incompletos, que expandem as possibilidades de desenvolvimento emocional. (Rocha Barros, 2002, p. 111)
Ao proporem que os símbolos não nascem prontos, mas são esboçados pela imaginação expressiva da reverie, Elias e Elizabeth da Rocha Barros deslocam a ênfase da interpretação clássica para a criação compartilhada de sentidos. O símbolo presentacional, ao encontrar abrigo na mente do analista, ganha contorno. E o analisando, ao perceber-se ouvido em seus fragmentos simbólicos, passa a reconhecer em si o que antes lhe era estranho ou disforme. O símbolo não apenas representa, ele transforma: o ruído em palavra, a sensação em afeto, o silêncio em cena.
Nesse processo, o analista atua como uma espécie de artesão do simbólico, que capta fragmentos (sons, imagens, gestos) e, em vez de organizá-los de forma rígida ou conclusiva, propõe dobras, sobreposições e texturas. A clínica contemporânea, diante da complexidade das subjetividades atuais, exige essa escuta artesanal. Uma escuta que permite tempo, silêncio e afetação. Que sustenta a presença sem precisar saber de antemão o que será tecido, e que reconhece, em cada ponto de contato entre analista e analisando, a possibilidade de um novo traçado.
A continuidade simbólica, nesse sentido, se dá por reverberações, ecos, rimas emocionais que, às vezes, atravessam diferentes pacientes, tempos e contextos. É nesse entrelaçamento que a psicanálise encontra sua força criadora. Não ao propor verdades universais, mas ao acompanhar, delicadamente, o nascimento de uma linguagem singular. Uma linguagem que, por vezes, começa com uma campainha. Ou com o barulho incômodo de um tique-taque. E que, aos poucos, vai compondo sua própria melodia.
Dos ruídos à sinfonia: acordes finais
A clínica psicanalítica contemporânea nos convida, constantemente, a (re)pensar nossas formas de presença e de escuta. Diante de subjetividades fragmentadas, marcadas por experiências de vazio, de excesso sensorial ou de traumas não simbolizados, a escuta decodificadora do inconsciente reprimido mostra-se insuficiente. É nesse cenário que a reverie emerge como função clínica essencial. Mais do que um recurso do analista, ela constitui uma disposição afetiva e simbólica para acolher o que ainda não tem representação, uma escuta capaz de transformar o disforme em forma e o ruído em imagem.
Embora muitos autores tenham se dedicado à investigação do tema da reverie e dos processos de simbolização, neste artigo buscamos destacar a originalidade das formulações do casal Rocha Barros, por sua notável capacidade de articular dialeticamente a experiência clínica à apropriação reflexivo-argumentativa das concepções psicanalíticas clássicas e contemporâneas.
O psicanalista Fred Busch (2018) salienta que as produções do casal Rocha Barros sobressaem por evidenciarem a relevância das interpretações como forma de elaboração das imagens captadas pela reverie, associando-as e transmitindo-as ao analisando. Segundo o autor estadunidense, essa visão difere das proposições de Thomas Ogden e Antonino Ferro, que compreendem a reverie como transformadora por si só. Busch, em consonância com as ideias dos Rocha Barros, considera que os pictogramas afetivos devam ser transformados via processo simbólico e devolvidos ao analisando discursivamente, e acrescenta ser esta uma importante contribuição de Elias e Elizabeth da Rocha Barros ao campo psicanalítico.
No percurso deste trabalho, procuramos enfatizar que os psicanalistas brasileiros têm sublinhado que os pictogramas afetivos captados precisam ser “metabolizados” pelo analista, antes de serem interpretados e devolvidos ao analisando. Destacam que tal trabalho exige que o analista seja capaz de pensar a reverie como um fenômeno intersubjetivo, sendo ela uma importante via semiótica, que compreende processos de comunicação, expressividade, reconstrução e transformações (Rocha Barros & Rocha Barros, 2017; Rocha Barros, 2019). Por essa razão, os autores brasileiros consideram fundamental este ser um trabalho de coconstrução, que amplia a dimensão da interpretação para uma experiência intersubjetiva.
O analista, ao fazer uso da reverie, transforma o símbolo presentacional do pictograma afetivo em um simbolismo discursivo, com base em um complexo trabalho psíquico no qual a imagem evocada precisa ser desconstruída para que se construam significados. Assim, a interpretação não se reduz à ideia de nomear o que foi captado da mente do analisando, mas de expandir conexões e experiências emocionais significativas. A função interpretativa representa, portanto, o desenvolvimento de uma extensão simbolizante da experiência emocional, que possibilita novas construções e articulações de pensamentos.
A escuta das reveries exige que o analista tolere o não-saber, e que se autorize a imaginar sem se perder em devaneios. Trata-se de uma escuta implicada, que não busca antecipar sentidos nem interpretar precipitadamente. Ela opera pela conotação, não pela denotação. O que importa, nesse tipo de escuta, não é o conteúdo manifesto da fala, mas sua qualidade expressiva: o ritmo, a textura, o clima e a temperatura emocional daquilo que se comunica. E é com base nessa qualidade que o analista poderá oferecer ao analisando símbolos que organizem e ampliem sua capacidade de sentir.
Quando o analista acolhe um pictograma afetivo (como o som de uma campainha ou o incômodo de um tique-taque), ele está, na verdade, oferecendo um lugar, em si, para que algo do outro exista, mesmo antes de ser compreendido. Essa hospitalidade não é apenas técnica, mas ética: ela diz de uma disposição de escuta que afirma ao analisando que ele pode se apresentar mesmo em sua forma fragmentária. E que sua dor não precisa ser imediatamente traduzida, apenas escutada com a verdade dos afetos que se expressam e se transformam em símbolos na potência do encontro analítico. E uma imagem caminha em direção à construção de uma linguagem, capaz de alcançar o indizível e despertar o que insiste em manter-se adormecido, amortecido, asfixiado.
Nesse sentido, a reverie se apresenta como uma via privilegiada de transformação, pois permite ao analista sustentar, dentro de si, o que ainda não tem nome e que, ao sustentar, inaugure a possibilidade de expansão. Como vimos na vinheta que abre este artigo, o som insistente só se transforma em símbolo quando encontra um continente. E esse acolhimento só é possível se o analista se dispõe como presença sensível e permeável, como coautor simbólico daquilo que ali se desenha entre mentes, na costura intersubjetiva do campo criado pela dupla em meio à amplitude da polifonia de sentidos que o compõe.
Referências
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Tanis, B. (2015). A escrita, o relato clínico e suas implicações éticas na cultura informatizada. Revista Brasileira de Psicanálise, 49(1), 179-192.
Notas
1 Psicóloga, psicanalista, mestre e doutoranda em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (ip-usp), Pesquisadora/colaboradora do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea (lipsic); membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (gbpsf).
2 Psicóloga, psicanalista, professora livre-docente de graduação e pós-graduação da Universidade de São Paulo (ip-usp); coordenadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea (lipsic).





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