Em meio a belas e feras: pensando vínculos a partir da obra de Melanie Klein
- 19 de dez. de 2025
- 28 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025
Este capitulo de livro foi publicado em "Vínculos e suas interfaces psicanalíticas" da Editora Escuta, em 2025.
Autores: Bruno O. Marte [1] e Marina F. R. Ribeiro ]2].
[...] o prazer que o bebê foi capaz de vivenciar no passado, por sentir-se amado e amoroso, transfere-se mais tarde na vida não somente às suas relações com pessoas, o que é muito importante, mas também ao seu trabalho e a tudo por que ele sente que vale a pena lutar. Melanie Klein em Nosso mundo adulto e suas raízes na infância (1959).A riqueza interna deriva de ter o objeto bom sido assimilado de maneira tal que o indivíduo se torna capaz de compartilhar com outros os dons do objeto. Isso torna possível introjetar um mundo externo mais amistoso, a que se segue um sentimento de maior riqueza. Melanie Klein em Inveja e Gratidão (1957)Quando ainda estava na formação em psicanálise [1], me lembro das grandes dificuldades emocionais nos primeiros contatos com a obra de Melanie Klein. Constatava um mal-estar generalizado em mim e nos colegas de classe, o que me deixava muito incomodado, perdido e resistente a entrar em contato com as leituras. Demorei um tanto para me abrir à sua obra e, com o tempo, percebi que existem condições psíquicas e emocionais para se atingir o conhecimento. A partir de então, vivenciei sua teoria e compreendi o fato de que o conhecimento só pode ser atingido se houver um vínculo emocional razoavelmente operante consigo mesmo, o que não significa tarefa simples. O desvínculo [4] conosco não nos permite entrar em contato com o conhecimento. Essa foi a primeira lição que Melanie Klein me ensinou; depois, vieram outras tantas e, no momento, aguardo as que ainda estão por vir.
Isso nos indica que, para nos debruçarmos sobre a questão do vínculo em Melanie Klein, é necessário não apenas compreender a lógica de sua teoria sobre os primórdios da mente e as relações objetais primitivas, mas também um envolvimento emocional com a proposta paradoxal de que as ações psíquicas, permeadas por fantasias que envolvem vínculo e desvínculo, operam concomitantemente. Essa ideia nos levou a ter como ponto de partida a obra de Klein com o intuito de elucidarmos as condições intersubjetivas que propiciam a construção ou a degradação do vínculo consigo mesmo, com o outro e com o mundo.
Em sua obra, Klein explicita a força e a beleza da construção do vínculo consigo e com o outro e, ainda, expõe a intensidade do ódio e da destrutividade enquanto elementos capazes de promover deteriorações nos vínculos consigo e com os outros. Devido à originalidade de seu pensamento e à sobrevivência aos violentos ataques que sofreu em sua vida pessoal e no meio psicanalítico, dedicamos à Klein a denominação de a bela e a fera da psicanálise. Uma autora que nos inspira por alcançar os mais profundos e sublimes níveis de amor e, ao mesmo tempo, por ter a coragem de postular a existência das manifestações mais abjetas e primitivas do ódio na mente humana. Sobre sua face fera, acompanhemos Cintra e Figueiredo (2020):
Lacan a chamou de tripière inspirée, uma “açougueira” - ou, antes -, uma “tripeira inspirada”, sabendo-se que a “inspiração” tem algo a ver com a grande arte, mas também com uma certa loucura. Quanto ao termo “açougueira”, ou “tripeira”, sem dúvida a referência de Lacan é à crueza, e mesmo brutalidade, com que os conceitos kleinianos entram em contato com sua matéria, as “vísceras” da vida psíquica dos humanos, e a expõem. (CINTRA e FIGUEIREDO, 2020, p. 23)
É possível compreender tal denominação de Lacan, porém aqui, enfatizamos a importância de se atingir as vísceras psíquicas de nossos analisandos com o intuito de favorecer a integração das suas tendências destrutivas e amorosas para que um vínculo consigo seja criado e lhes possibilite exercer a responsabilidade e o respeito por si, na medida do possível.
Klein (1927) nos dá um exemplo visceral sobre esse movimento de integração no qual se evidenciam as fantasias agressivas operantes na mente da criança e a consequente emergência das tendências reparadoras:
Se em um dos seus jogos, a criança mostra um homem pequeno que luta contra outro maior e consegue vencê-lo, é comum o homem maior ser colocado numa carroça depois de morto e ser levado para um açougueiro que o corta em pedaços e o cozinha. O pequeno homem come a carne com prazer, chegando a convidar para o banquete uma senhora que às vezes representa a mãe. Ela aceita o pequeno assassino em lugar do pai. [...] A manifestação dessas tendências primitivas, entretanto, é sempre seguida de ansiedade e de atos que mostram como a criança procura oferecer compensação e reparar os danos que cometeu. Às vezes, ela tenta consertar os mesmos homens, trens e outros objetos que acabou de quebrar. (KLEIN, 1927, p. 203)
Destruição e reparação assim como vínculo e desvínculo são noções que se encontram amalgamadas na teoria de Klein; no entanto, uma das questões centrais que nos interessa é: como o analista pode contribuir para que seus analisandos construam um vínculo razoável entre a parte bela e a parte fera de suas personalidades?
Podemos começar imaginando as primeiras experiências do bebê com o mundo e suas relações nos primeiros dias de vida. O bebê “kleiniano” vive um desespero devido à operação de angústias aniquiladoras. Em busca de proteção e satisfação, o bebê é impelido a devorar o seio e essa ação se transforma, instantaneamente, em ameaça de ser devorado por um objeto devorador fantasístico que é introjetado na mente primitiva enquanto objeto mau. Trata-se da introjeção oral primitiva que Klein identifica como o início da formação do superego.
Klein (1928) indica que essas primeiras introjeções têm caráter contraditório no sentido de que, graças à operação da cisão, uma bondade excessiva (objeto idealizado) pode conviver lado a lado com uma severidade desmedida representada, fantasisticamente, por objetos maus, persecutórios e devoradores. Nesses primórdios, as boas experiências com o seio são idealizadas e se tornam ótimas e as vivências frustrantes são vividas de maneiras terroríficas e ameaçadoras. Devido à cisão, tais experiências são introjetadas como objetos internos ótimos ou péssimos - seio bom ou seio mau - que são constitutivos do superego arcaico.
A prevalência das boas experiências intersubjetivas sobre as más pode contribuir para que a cisão se enfraqueça, amenizando a expulsão hiperativa dos objetos psíquicos persecutórios via identificação projetiva. Há o início de um processo de integração e os objetos internos e externos passam a ser vistos como bons e maus ao mesmo tempo, isto é, como objetos totais. Consequentemente, se tudo correr bem, o ego assimila esses objetos superegóicos e sente-se portador das qualidades boas e más, movimento esse fundamental para uma distinção mais clara entre as realidades interna e externa.
Tal constatação, por parte do bebê, ocorre porque sente que sua agressividade não destruiu sua mãe real, o que é crucial para a introjeção do bom objeto no núcleo do ego. O bebê pode diferenciar sua mãe real de seus objetos fantasísticos e essa habilidade de unir dois objetos a fim de evidenciar as semelhanças e conservar as diferenças entre eles é a condição para a formação de símbolos.
A partir daí, o superego arcaico ameaçador se transforma em consciência moral benigna e um protótipo dessa ideia pode ser: “Eu existo e o outro também. Agora, não é apenas ele que é bom ou mau, mas eu também sou portador dessas qualidades e me sinto responsável por cuidar disso.”
Se tudo correr bem, a partir do sentimento de culpa, o bebê passa a se sensibilizar pelo ataque feito e repara tanto o objeto interno estragado quanto o mundo e sua mãe real. Reparar o objeto interno é um processo psíquico que implica a capacidade para cuidar, advinda dessa complexidade de interações.
“Eu ataquei a mamãe que amo, me sinto culpado e por isso preciso oferecer carinho, reparação e agradecê-la por não ter me abandonado e por ter cuidado de mim. Sem ela eu não conseguiria sobreviver.” Esse seria um possível protótipo de pensamento de um bebê kleiniano que está elaborando a posição depressiva e que, por isso, é capaz de sentir gratidão.
Britton (1998) nos oferece uma ilustração desse processo:
Assim, perde-se a inocência em seus dois sentidos. Já não somos mais inocentes quanto ao conhecimento e perdemos nossa inocência no sentido de tornarmo-nos capazes de culpa, porque agora sabemos que odiamos aquilo que amamos e que vemos como bom. Comemos da árvore do conhecimento do bem e do mal e, por isso, já não podemos mais viver no Éden. (BRITTON, 1998, p 58)
O vínculo consigo mesmo: condições para se tornar sujeito
A emergência da subjetividade, a criação de uma boa companhia interna, a capacidade de diálogo consigo mesmo, assim como o florescer da criatividade para manter o sentido da vida, o sentimento de confiança e esperança, o contato sensível e respeitoso consigo e com o outro são as consequências da elaboração da posição depressiva, condição imprescindível para tornar-se sujeito.
Dialogar consigo, nesse sentido, não está relacionado a uma auto referência narcísica com a finalidade de exaltação onipotente, na qual uma pessoa não tem condições psíquicas para construir espaço e tempo para conectar-se com as verdades emocionais que a habitam, mas sim envolve uma postura em que um sujeito sente prazer em estar acompanhado de si por se permitir brincar, rir consigo de si próprio, cooperar, pedir ajuda para pensar e ter iniciativa para se responsabilizar, criar e se satisfazer o quanto possível.
Pensamos que o vínculo consigo próprio e a operação da autoconsciência [5] são construções deficitárias em grande parte da humanidade em função de fatores constitucionais e/ou relativos a falhas ambientais, mas também à nossa recente capacidade de pensar enquanto espécie Neste sentido, a empatia, a possibilidade de se encantar com a beleza do mundo, os processos criativos, o contato com as infinitas nuances emocionais, a observação e apreensão dos acontecimentos e fatos a partir de vários vértices interpretativos, a tolerância ao não saber, a consideração pelo outro enquanto alteridade são capacidades e manifestações subjetivas notáveis, pois requerem constante luta e contínuo trabalho psíquico para lidar com as demandas internas (pulsões sexuais e agressivas) e externas (coerção social, violência, trabalho).
Nesse sentido, com isso, nos referimos às condições específicas para a constituição e delimitação de um ego que possa, razoavelmente, dar conta das exigências das realidades interna e externa, favorecendo o vínculo e a comunicação entre os objetos internos. É assim que o ego pode abdicar de sua condição de refém de um superego invejoso [6], cruel e/ou idealizado.
Ódio, angústias de aniquilamento e de fragmentação, sadismo, desejos assassinos, persecutoriedade, medo, inveja, destrutividade, auto-ódio, desprezo, preconceitos, rivalidade, trapaça, roubo, necessidade de punição, sexualidade perversa polimorfa atuada, masoquismo, vingança, aversão ao conhecimento, fragilidade, dependência são alguns elementos característicos que habitam o mundo psíquico do ser humano enquanto espécie. Por isso, cada pessoa é condenada, ou senão, impelida a ter a missão impossível de aprender a vincular-se razoavelmente consigo, isto é, a função de tornar-se sujeito.
Melanie Klein apontou os vários empecilhos para essa missão, pois constatou clinicamente os grandes abalos gerados pela integração psíquica que impossibilitam o processo de subjetivação. São funcionamentos que ativam intensas defesas maníacas [7] e negações com o objetivo de evitar o desprazer e o sofrimento inerentes ao fato de estar vivo e de ser dependente dos outros.
Dessa forma, atribuímos o termo sujeito para nos referirmos a um funcionamento psíquico que contempla a triangularidade [8] no sentido de haver constituído um ego circunscrito em que há o reconhecimento da alteridade, processo fundamental também para a capacidade de auto-observação. Trata-se de um ego que desenvolveu suficientemente suas funções para transformar efetivamente as exigências pulsionais e sociais. Além disso, ser sujeito está diretamente ligado à possibilidade de reconhecer a frustração, de se permitir sofrer as dores inerentes à vida e de poder transformar a culpa decorrente da própria agressividade a partir do uso do pensamento e do diálogo consigo mesmo, em responsabilidade por si mesmo e pelo outro, e, então, oferecer uma reparação criativa para o mundo, para o outro e para si.
Com isso, não nos referimos a uma posição definitiva a ser atingida, mas sim à disposição a um trabalho psíquico constante para que o vínculo consigo seja predominante. Trata-se de um movimento perpétuo de centramento e descentramento no qual um sujeito tenta, permanentemente, a partir do ato de pensar, modificar a frustração em vez de se evadir dela [9]. Dito de outra maneira, reiteramos a impossibilidade de alguém funcionar integralmente enquanto sujeito, mas enfocamos a importância da observação clínica, por parte do analista, das constantes oscilações que podem ser evidenciadas sistematicamente como: não sujeito ↔ sujeito, desvínculo ↔ vínculo, fala ↔ diálogo, ato ↔ pensamento.
“Eu não deveria ter existido”
Bela [10] chega ao nosso encontro falando sobre o seu cansaço, seu desânimo, sobre apenas ficar trancada no quarto. Fala que precisa se alimentar melhor, que seria bom sair para andar de bicicleta, mas que é muito difícil.
Complementa que gostaria de ter uma família e um negócio próprio, talvez uma sorveteria, mas sente que o tempo passa muito rápido e que ela não faz nada. Também fica se questionando sobre sua escolha profissional e revê meticulosamente suas escolhas do passado, considerando que todas deveriam ter sido diferentes.
A: Penso que você precisa ficar trancafiada em seu quarto em sessões de torturas infinitas para que você cumpra com o castigo por acreditar ser uma fracassada e um lixo de pessoa.
Fica um momento em silêncio… se emociona … chora… e diz:
Bela: Não é justo né !? Eu tenho falhas, mas também tenho qualidades, não posso fazer isso comigo, eu mereço, sim, ter uma vida!
…
Nossa, eu estava me lembrando aqui que esses dias no meu trabalho eu esbarrei sem querer num moço. Quando ele me olhou, eu senti uma tontura, um frio na barriga, uma sensação horrível e me desculpei. Ele disse que estava tudo bem.
Com o tempo eu fui me acalmando e pensei “Eu apenas esbarrei em alguém, não aconteceu nada de mais e vida que segue.”
A: A porradaria foi forte, hein!? Pode ser que a partir de agora você nunca mais se permita sair de casa para não correr o risco de esbarrar novamente em alguém.
Bela: Eu pensei nisso… pensei algo assim… Eu preciso ficar muito mais atenta a todo o momento em que eu estiver perto das pessoas e sempre me certificar sobre o espaço exato de cada um.
A: Mas de alguma maneira, depois que esbarrou nele, você tentou se proteger do castigo e pôde avaliar se precisaria, ou não, de novas sessões de tortura por conta disso.
Bela: É verdade, não tinha me dado conta de que dessa vez eu consegui me acalmar e me proteger, isso é raro.
Penso que um ponto focal do trabalho do analista é a elucidação das qualidades dos vínculos que o analisando estabelece consigo mesmo assim como, transferencialmente, com o analista. Ao fazer isso, tento observar o quanto posso contar com o ego do analisando para o trabalho analítico, ou não. Dito de outra maneira, é importante notar com que frequência e consistência as funções egóicas operam, ou senão, em que medida é o superego que age com proeminência em seu mundo interno determinando suas ações na vida. Com quem eu estou me comunicando? É a pergunta que me faço nos diferentes momentos do encontro analítico.
No começo do encontro noto a postura acusatória, depreciativa, culpabilizada e desvitalizada de Bela, ouço como se ela me dissesse: “Tá vendo só como sou um caso perdido?! Sou uma fracassada, não tenho capacidade para nada e minha vida já acabou. Eu deveria ter sido outra pessoa!”
Nesse momento, sou tomado por aflição, raiva e preciso fazer grande esforço para tentar cuidar de mim e aguardar um pensamento. A posteriori, ao escrever a sessão, percebo que poderia haver uma convocação [11], via identificação projetiva, para que eu assumisse o papel de um agente punitivo com o intuito de castigá-la por ser uma fracassada.
Estaria ela soltando suas feras que, provavelmente, esbarravam nas minhas? Imagino que seu superego arcaico buscava um conluio com a figura do analista para a imputação da tortura punitiva. Talvez isso pudesse aliviá-la.
Penso que se eu dissesse coisas concretas, sem atingir a dimensão inconsciente, a respeito do que ocorria do tipo: “Mas qual é o problema em você sair e andar de bicicleta?”, ou então: “Por que você não sai do quarto?” seria o motim para que ela se sentisse cobrada por mim e, ao mesmo tempo, aliviada, pois tal cobrança poderia ter efeito muito mais ameno do que a condição de refém do seu objeto interno torturador e assassino. Porém, deveria o analista estar comprometido em cobrar algo de seus analisandos ou, até mesmo, em aliviar alguma tensão?
Klein (1934) nos diz que, ao contrário do que se pensa, a severidade avassaladora do superego pode ser responsável pelo comportamento antissocial ou criminoso das pessoas. Nesse sentido, qualquer castigo real será mais tranquilizador em comparação aos ataques assassinos que se espera. Ataques assassinos inconscientes ao casal parental interno podem ser a matriz da persecutoriedade e do sentimento de culpa, gerando a sensação de não merecimento, autodegradação perene e definhamento da criatividade [12]. De alguma maneira, é necessário evidenciar a seguinte questão: Quem você ataca, quando se auto-ataca?
No momento da sessão não consegui pensar claramente no convite superegóico que poderia estar ocorrendo para aliviá-la a partir de uma cobrança. Ao invés de ter uma atitude de cobrança, pude dar expressão para a cena de tortura que se formava em minha mente e verbaliza-la à Bela.
Penso que o compartilhamento dessa cena evidenciou o funcionamento e o domínio de um superego assassino, torturador e depreciativo em sua mente, movimento que abriu caminho para o resgate de seu ego fragilizado da condição de refém desse superego arcaico para desenterrar um amor soterrado por si mesma. Klein (1934) nos lembra que o encontro com sentimentos amorosos, típicos do processo de integração, pode ser muito ameaçador para uma pessoa devido à emergência da culpa, ainda que essa seja uma condição para se tornar sujeito.
Nas palavras da autora:
[…] nos casos em que a função do superego for principalmente causar ansiedade, ele desperta violentos mecanismos de defesa no ego, de natureza antiética e antissocial; no entanto, logo que o sadismo da criança se reduz e o caráter do superego se modifica de tal forma que este passa a gerar menos ansiedade e mais sentimento de culpa, os mecanismos de defesa que são a base de uma atitude moral e ética são ativados. A criança passa, então, a ter mais consideração pelos seus objetos e se torna sujeita a sentimentos sociais. (KLEIN, 1934, p. 299)Entendo que Melanie Klein, ao interpretar as fantasias agressivas primitivas operantes no mundo interno de seus analisandos e também ao captar a ação dessas fantasias na relação analítica, via transferência, contribui para a construção de uma relação ética e cuidadosa da pessoa para com ela mesma, o que significa um passo fundamental para vincular-se e dialogar consigo mesmo, condições indispensáveis para a constituição da própria subjetividade.
No início da sessão, imagino que era, predominantemente, o superego arcaico que falava através de sua boca e tentava um vínculo sadomasoquista comigo enquanto analista. No entanto, após minha interpretação a respeito de sua autotortura [13], seu ego pôde aparecer mais claramente na sessão contribuindo para o afloramento da autocondolência. Parece que, ao captar e apontar suas feras, a bela pôde aparecer.
Momentos depois, ela faz uma associação à cena em que esbarrou num companheiro de trabalho e nos evidencia novamente a força disruptiva que opera em si mesma quando se encontra com uma falha; entretanto, também nos mostrou que uma manifestação egóica pôde aparecer para protegê-la das violentas acusações superegóicas e cuidar de si a partir de um diálogo consigo mesma.
Quando lhe ocorre o pensamento: Com o tempo eu fui me acalmando e pensei “Eu apenas esbarrei em alguém, não aconteceu nada de mais e vida que segue”, temos indícios de um cuidado de si que se manifestou como um diálogo interno, na medida em que o ego, naquele momento, se utilizou de sua força para fazer um contraponto às injunções advindas da face violenta do superego [14]. Trata-se de um passo fundamental para o florescimento da esperança na direção de tomar medidas para que sua vida faça sentido e não se resuma à tortura aniquilante de si. Esse movimento é o protótipo da integração psíquica e o intuito da análise é contribuir para que suas partes belas passem a não ser ofuscadas por suas feras.
Sobre esse movimento de integração, Melanie Klein (1963) nos diz:
Como sabemos, o objetivo último da psicanálise é a integração da personalidade do paciente. A conclusão de Freud de que “onde era o Id, ego será” é um indicador nessa direção. Os processos de cisão surgem nos estágios mais iniciais de desenvolvimento. Se são excessivos, fazem parte integrante de graves traços paranóides e esquizóides que podem ser a base da esquizofrenia. No desenvolvimento normal, essas tendências esquizóides e paranóides (posição esquizo-paranóide) são, em grande parte, superadas durante o período que é caracterizado pela posição depressiva e a integração desenvolve-se com êxito (MELANIE KLEIN, 1963, p.263).O processo de integração psíquica pode propiciar o uso da agressividade a favor da personalidade de uma pessoa, favorecendo o desenvolvimento de potencialidades criativas, iniciativas e ações no mundo. Nessas condições, o ódio, por estar vinculado à pulsão de vida, se transforma em ímpeto, persistência e posicionamento frente à vida. A convivência psíquica entre as mais variadas nuances afetivas - representadas pelos diferentes objetos internos - típica da integração psíquica, faz com que o sujeito vivencie recorrentemente o luto de uma visão idealizada de si mesmo e do outro. Assim, ao abrir mão da posição onipotente de ser detentor da verdade absoluta, amplia seu espaço psíquico retroalimentando constantemente a curiosidade e a busca por conhecimento.
Diálogo ou diábolo [15]? Digressões sobre a arena virtual

Como se viu, a capacidade de vínculo e de diálogo consigo e com o outro [16] não está dada a priori e depende de várias condições psíquicas inatas e também das qualidades relacionais intersubjetivas.
Ao observar a triste charge do cartunista André Dahmer [17], deparamos com a tonalidade melancólica no que diz respeito à desesperança no poder do diálogo em tempos atuais. Poderíamos radicalizar e propor a ideia de que a mente odeia o diálogo, o que não deixa de ser condizente com o arcabouço teórico-clínico kleiniano. Porém, nos perguntamos se os tempos atuais trazem novos ingredientes que estariam impedindo ou dificultando o vínculo emocional e o diálogo entre humanos? Ou, mais ainda, seria possível a aplicação das noções kleinianas de cisão, identificação projetiva, idealização, negação, defesas maníacas [18], dentre outras, para compreendermos os (des)vínculos no campo social?
Partindo do pressuposto de que existem pré-requisitos específicos para o desabrochar da subjetividade, podemos exemplificar alguns vínculos relacionais deficitários nos quais a subjetividade não pôde ser substancialmente constituída, tais como funcionamento psíquico mimético - identificações introjetivas excessivas -, relações fusionais, reativas, controladoras, sadomasoquistas e parasitárias. Esses vínculos carregam comunicações enviesadas devido ao não reconhecimento de si mesmo e do outro enquanto sujeito, isto é, trata-se de relações em que não há possibilidade e/ou interesse de ambos pensarem sobre a relação dual, portanto, são vínculos em que não impera o diálogo enquanto meio de comunicação, mas que são permeados apenas de falas.
Isso significa que consideramos o diálogo como uma característica de um estado psíquico mais integrado, em que há uma comunicação representacional mútua entre sujeitos e, ao contrário, nos referimos à fala enquanto ato evacuativo condizente a funcionamentos psíquicos menos integrados [19]. Dito de outra forma, o que se propõe é uma visão qualitativa das diversas formas de comunicação que são determinadas pelos diferentes estados psíquicos constituintes do vínculo.
Exemplificando: numa relação predominantemente esquizoparanóide, o outro pode ser sentido como um inimigo que precisa ser destruído; como um objeto idealizado, representado por um Deus salvador todo poderoso e é possível, ainda, que o próprio vínculo com outro seja negado e/ou atacado. Isso nos indica que as ansiedades esquizoparanóides destroem a qualidade da comunicação e o vínculo [20] entre duas pessoas. O diálogo não está contemplado numa relação com o inimigo na medida em que o inimigo precisa ser liquidado, do mesmo modo o diálogo não se consolida na relação com um Deus todo poderoso, uma vez que se trata de uma relação totalmente assimétrica, de subserviência.
No caso de relações em que prevalecem as ansiedades depressivas podemos constatar, por exemplo, defesas maníacas em que o outro e suas qualidades precisam ser desprezados com o intuito de minimizar os sentimentos de perda caso o vínculo entre eles se desfaça. Nesse caso, nega-se o amor para não se encontrar com a inveja, com a culpa e com a dependência do objeto. Além disso, no terreno das ansiedades depressivas, pode ocorrer um tipo de relação de controle e domínio obsessivo sobre o outro que se apresenta com um verniz de cuidado, embora esteja mais próximo a uma relação aniquiladora do outro do que efetivamente a uma postura cuidadosa.
No entanto, é importante frisar, novamente, que as oscilações psíquicas contínuas entre as posições esquizoparanoide e depressiva, bem como suas defesas específicas operantes, nos fazem compreender a impossibilidade de alguém funcionar integralmente como sujeito. Nesse sentido, o fator indicativo e determinante para o processo de subjetivação será a predominância de estados psíquicos mais ou menos integrados num determinado período.
Desse modo, destacamos a diferença da qualidade comunicativa entre um funcionamento psíquico primitivo, em que há predominância da identificação projetiva maciça, e estados mais integrados que propiciam o diálogo com comunicações simbólicas, pensamentos verbais e representativos, em que não predominam as evacuações. Isso significa que há momentos em que apenas falamos e momentos em que dialogamos. Por esse motivo, deve-se levar a sério a expressão tragicômica recorrente ao senso comum, de que “falar, até papagaio fala”.
Falas excrementícias, dominadoras, sedutoras, inibitórias, invasivas, desprezantes, triunfantes estão relacionadas a um funcionamento psíquico que se situa aquém da elaboração da posição depressiva; por outro lado, consideração, atenção, reflexão, curiosidade e respeito são atitudes que contemplam o diálogo e nos indicam um funcionamento psíquico em que a posição depressiva pôde ser elaborada. Estamos considerando; portanto, o diálogo possível a partir do predomínio da posição depressiva e voltamos à pergunta se, nos dias atuais, os estados esquizo-paranóides de mente estão predominando e impossibilitando o diálogo.
Klein (1963, p.342) nos diz que: “Uma relação satisfatória com a mãe [...] implica um contato íntimo entre o inconsciente da mãe e o da criança. Esse é o alicerce para a vivência mais completa de ser compreendido e está essencialmente vinculado ao estágio pré-genital.”
Vemos que a intimidade do contato com a mãe é a base para o sentimento de ser compreendido e, consequentemente, com a internalização dessa boa experiência - representada pelo bom objeto interno - o desenvolvimento do ego e de suas funções são favorecidos.
Seja pelo vínculo conturbado com a mãe ou devido à intensa inveja e voracidade constitucionais, existem casos em que a introjeção do bom objeto no ego é deficitária, o que prejudica ou impede a mitigação da força terrorífica dos objetos maus. Tais vivências insatisfatórias podem acarretar o horror à intimidade, pois serão marcadas pela presença de um objeto mau, o que fortalecerá processos defensivos que serão decisivos para a degradação das potencialidades psíquicas e do vínculo emocional e comunicativo com os outros. O fato de que absolutamente ninguém está livre de vivências insatisfatórias não impediu Klein de nos mostrar as consequências catastróficas de uma mente tomada de objetos maus.
Temos, então, a hipótese de que a capacidade de dialogar está diretamente ligada a funcionamentos em que as ansiedades persecutórias e/ou depressivas não estejam operando em primeiro plano e isso nos leva à ideia de que pessoas nas quais os funcionamentos psíquicos preponderantes são persecutórios, desconfiados, maníacos, triunfantes, onipotentes, idealizados têm escassas condições para estabelecer um vínculo consistente com o outro e consigo próprio.
Klein (1959) nos ajuda a esclarecer:
Vemos que uma pessoa que é incapaz de suportar uma crítica porque esta imediatamente mobiliza sua ansiedade persecutória não é apenas prisioneira do sofrimento mas tem também dificuldades na relação com outras pessoas e pode até mesmo colocar em perigo a causa pela qual está trabalhando, seja qual for o seu campo de atividades. Ela mostrará uma incapacidade de corrigir erros e aprender com os outros. (KLEIN, 1959, p. 296)Trata-se de pessoas em que predominam estados psíquicos aversivos à alteridade, o que contribui para a busca e para a construção de grupos homogêneos e idealizados com o intuito de se protegerem do mal e da ameaça que o diferente representa. É nesse sentido que o funcionamento psíquico pré-genital [21] tem como característica a tirania e/ou a submissão ao tirano, justamente porque carrega em si o horror à dualidade e, por isso mesmo, tem a necessidade de domínio ou de extermínio do outro; ora a pessoa funciona como um tirano onipotente que combaterá todo o mal, ora precisa de um objeto tirânico que a proteja de todo o mal.
Isso faz com que a identificação projetiva maciça seja um instrumento defensivo fundamental para proteger os grupos homogêneos [22] dos perigos advindos da alteridade. Dito de outro modo, a lógica defensiva é esta: a evacuação e a inoculação dos nossos excrementos psíquicos no grupo diferente fazem com que o nosso grupo se livre de todo o mal e permaneça unido e imaculado.
Esse mecanismo está de acordo com a reflexão que Freud (1921) nos oferece em Psicologia dos grupos e análise do ego, ideia que pode ser encontrada na teorização de Melanie Klein sobre o funcionamento da posição esquizoparanóide no plano intrapsíquico. Nas palavras de Freud:
[...] uma religião, mesmo que se chame a si mesma de religião do amor, tem de ser dura e inclemente para com aqueles que a ela não pertencem. Fundamentalmente, na verdade, toda religião é, dessa mesma maneira, uma religião de amor para todos aqueles a quem abrange, ao passo que a crueldade e a intolerância para com os que não lhes pertencem são naturais a todas as religiões. (FREUD, 1921, p. 110)Os efeitos advindos dessa lógica são um incremento da persecutoriedade e da paranóia, e, por isso mesmo, o grupo terá que se armar - psiquica e materialmente - cada vez mais para não se deixar misturar com o grupo diferente, pois esse será o caminho para instauração do mal avassalador.
Um aspecto ameaçador que revela uma ferida narcísica aos grupos humanos é o fato de que, cada vez mais, a humanidade, de certa maneira, está condenada à integração entre grupos, comunidades e povos e esse é um fator que pode ter, no mínimo, duas consequências principais: a perenidade da guerra ou a integração que, ao longo do tempo, pode possibilitar troca, desenvolvimento das potencialidades humanas e aprendizado de uns com os outros.
Porém, sobre a possibilidade de integração Klein (1963) nos diz:
[...] a falta de integração é extremamente dolorosa. No entanto, a integração é difícil de ser aceita. A reunião de impulsos destrutivos e amorosos - e dos aspectos bons e maus do objeto - faz surgir a ansiedade de que os sentimentos destrutivos possam dominar os sentimentos amorosos e colocar em perigo o objeto bom. (KLEIN, 1963, p. 342)Sendo assim, num grupo homogêneo, o diálogo precisa ser atacado por ser perigoso à exaltação narcísica que une o grupo. Paradoxalmente, o que mantém o vínculo entre os indivíduos nesses grupos é precisamente a condição de não diálogo. Daí se depreende que, ao invés do diálogo, prevalecem palavras de ordem, dogmatismos, dialetos, cartilhas que precisam ser minuciosamente seguidas. O líder é o objeto idealizado, salvador onipotente que protegerá a todos. Esse líder, ou objeto, pode ser Freud, Foucault, Gandhi, Marx, Cristo ou Hitler.
De modo geral, basta o membro de um grupo - classe, comunidade ou família - passar a se relacionar com o membro de outro grupo diferente, ou até mesmo se encontrar com novas ideias ou interesses, que a ameaça catastrófica ao grupo vem a primeiro plano e, nesse caso, a criatividade humana para desenvolver motivos - místicos, espirituais, científicos e ideológicos - que justifiquem a importância da não integração é infinita.
Levando-se em conta a atualidade da charge de Dahmer, será que o artista nos provoca a pensar que a esperança na força do diálogo, de modo geral, se esvai por conta da proliferação e influência dos novos instrumentos, tecnologias e dispositivos que impediriam ou prejudicariam o vínculo e o diálogo entre os humanos?
Mesmo que não tenhamos condições aqui de avaliar o impacto psíquico das novas tecnologias, as seguintes questões se fazem necessárias: seriam o ambiente digital e todo seu aparato tecnológico os responsáveis pelas transformações na subjetividade humana atual ou esses seriam apenas os meios que propiciam a manifestação quase que irrestrita dos primitivos estados psíquicos das pessoas? Em outras palavras, seriam esses dispositivos os geradores do ódio, do desvínculo e da polarização entre as pessoas ou eles seriam apenas instrumentos que potencializam e favorecem a atuação dos aspectos primitivos das mentes humanas?
Sabemos que a tecnologia é desenvolvida a partir do conhecimento do funcionamento psíquico humano, logo, oferece conteúdos específicos com o intuito ininterrupto de prender nossa atenção. Automaticamente, acabam favorecendo um invólucro narcísico em que a constante reafirmação e o fortalecimento das próprias convicções e ideias dispensam a mediação, o contraste e os contrapontos necessários à construção do conhecimento. Está armada a condição para que todos soltem suas feras na arena digital!
Nesse sentido, a tecnologia algorítmica retroalimenta as defesas psíquicas contra as ameaças advindas do encontro com a alteridade e as redes sociais permitem o jorro de ódio à opinião diferente, facilitando a evacuação psíquica e impossibilitando o diálogo. Soltar as feras, nesse aspecto, pode ser um movimento que se manifesta das maneiras mais refinadas, racionalizadas e embasadas teoricamente.
Portanto, pensamos que essa tecnologia atinge, provoca e se utiliza do funcionamento esquizoparanóide de cada um de nós para reafirmarmos as defesas típicas dessa posição nas redes sociais - negação, onipotência, idealização, evacuação - e assim fortalecer o medo, a persecutoriedade e a desconfiança com relação ao outro. Algo que é constitutivo do humano, o funcionamento esquizoparanóide, pode se tornar objeto de lucro às custas de defendermos ilusória e onipotentemente nossas identidades, nossas causas, nossos grupos e nossas verdades absolutas.
Com isso, temos conosco que, de um lado, o ato de dialogar envolve trabalho psíquico e vínculo emocional; por outro lado, o ato de falar envolve descarga e desvínculo, daí o seu sucesso. De qualquer maneira, acreditar na potência do diálogo, mesmo assim, é ter esperança e confiança na luta para mantermos os vínculos humanos o quanto for possível.
Acreditamos que o analista está comprometido na construção do cuidado para com o outro objetivando oferecer arcabouços emocionais para que os pais e as instituições sociais sejam capazes de propiciar um contato íntimo com as crianças do presente e do futuro, para que elas possam, então, se sentir compreendidas e passem a ser compreensivas consigo mesmas e com os outros.
Referências Bibliográficas
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BRITTON, R. (1998) Crença e imaginação: explorações em psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2003
CINTRA, E. M. de U. & FIGUEIREDO, L. C. (2020) Melanie Klein: estilo e pensamento. São Paulo: Escuta. 2004
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HINSHELWOOD, R.D (1991) Dicionário do pensamento kleiniano. 2ª Edição. Porto Alegre- RS: Ed. Artes Médicas Sul
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KLEIN, M. (1996) A personificação no brincar das crianças In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921- 1945). Rio de Janeiro: Ed. Imago. (Trabalho original publicado em 1929).
_______. Estágios iniciais do conflito edipiano In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921- 1945). Rio de Janeiro: Ed. Imago. (Trabalho original publicado em 1928).
_______. (2006). Inveja e gratidão In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Ed. Imago. (1957).
_______. (2006). Nosso mundo adulto e suas raízes na infância In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Ed. Imago. (1959).
_______. (2006). Sobre o sentimento de solidão In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Ed. Imago. (1963).
_______. Sobre a criminalidade In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921- 1945). Rio de Janeiro: Ed. Imago. (Trabalho original publicado em 1934).
_______. Tendências criminosas em crianças normais In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921- 1945). Rio de Janeiro: Ed. Imago. (Trabalho original publicado em 1927).
Notas:
1 Psicanalista, membro associado do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Sociólogo (UNESP), professor, mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da USP e pesquisador do LipSic (Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea)
2 Psicanalista, professora livre docente do IPUSP, orientadora de mestrado e doutorado no Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da USP. Coordenadora do LipSic (Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea). Autora e organizadora de vários livros, entre eles: Conversa sonhante. A função psicanalítica da personalidade (2025); De mãe em filha. A transmissão da feminilidade (2011). Coorganizadora dos livros: Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Diálogos Bionianos (2023); Por que Ogden? (2023); Melanie Klein na Psicanálise Contemporânea (2019); Para além da contratransferência. O analista implicado (2017). Coautora nos livros: Bion em nove lições. Lendo Transformações (2011); Balint em sete lições (2012); Por que Klein? (2018); Chuva n’alma. A função vitalizadora do analista; Reading Bion’s Transformation (2024) e Why Ogden? The importance of Thomas Ogden's Work for Contemporary Psychoanalysis (2025). Coordenadora da série da Blucher: Academia de Psicanálise.
3 Experiência de Bruno O. Marte.
4 Optamos por utilizar o termo desvínculo para nos referir à atividade de forças corrosivas, violentas e nocivas operantes entre ego e superego e entre sujeito e objeto/mundo externo. Como se sabe, o desvínculo intrapsíquico completo só é possível no desligamento total do aparelho psíquico, isto é, na morte. Portanto, o termo desvínculo, aqui, se refere à manifestação das múltiplas formas de ataques aos vínculos operantes entre os objetos internos, entre superego e ego, e entre as realidades interna e externa. Tais ataques odientos geram vínculos frágeis, perversos e degradados, tanto na dimensão intrapsíquica, quanto intersubjetivamente, e acabam por acarretar importantes consequências degenerativas para o indivíduo e para a vida em sociedade.
5 Fazemos eco aqui do que afirma Bion (1992/2000, pp. 89-90): “Não pode haver personalidade se não há pensamento nem autoconsciência. Sem uma função de autoconsciência, as pessoas podem existir, mas não há personalidade. Autoconsciência, a função, é o sine qua non da personalidade. Dizer que alguém tem uma personalidade significa que esse alguém está cônscio de si mesmo, não de modo esporádico, mas de modo permanente, como um fenômeno contínuo.”
6 “O “superego invejoso” é sentido como perturbando e aniquilando todas as tentativas de reparar e de criar. É também sentido como fazendo exigências constantes e exorbitantes à gratidão do indivíduo. Pois, à perseguição acrescentam-se os sentimentos de culpa de que os objetos internos persecutórios são resultantes dos próprios impulsos invejosos e destrutivos que estragaram primariamente o objeto bom. A necessidade de punição, que encontra satisfação no aumento da desvalorização do self, leva a um círculo vicioso” (Klein, 1957, p.263).
7 As defesas maníacas envolvem a intolerância ao sentimento de culpa gerado pela agressividade voltada a um objeto bom, fato esse que impede a vivência da ambivalência necessária à elaboração da posição depressiva. Outras características dessas defesas são a negação da importância do objeto amoroso e também o desprezo pelo amor, devido à impossibilidade de algumas pessoas se enxergarem dependentes desse objeto amoroso.
8 Usamos aqui o conceito de triangularidade a partir de Britton (1998, p. 70): “Se o vínculo entre os pais, percebido como amoroso e odioso, puder ser tolerado na mente da criança, isso lhe fornecerá um protótipo para uma relação de objeto de um terceiro tipo, na qual ela é testemunha e não um participante. Uma terceira posição passa, então, a existir, a partir da qual relações de objeto podem ser observadas. Tendo sido alcançado isso, podemos também visualizar o fato de sermos observados, [...] de que possamos nos observar enquanto somos nós mesmos.”
9 “A capacidade de tolerar frustração, portanto, possibilita que a psique desenvolva o pensamento como um meio através do qual se torna mais tolerável a frustração que for tolerada.” (Bion, 2022/1962, p.129)
10 Bela é um nome fictício; a vinheta clínica é de um dos autores.
11 O aspecto da identificação projetiva como convocação, indução ou controle onipotente do outro não foi desenvolvido por Melanie Klein. Trata-se de uma contribuição valiosa de Betty Joseph contida em seu trabalho de 1989 “Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica”
12 No Dicionário do pensamento kleiniano de Hinshelwood (1991, p.339) encontramos o seguinte comentário sobre a relevância do casal parental interno no desenvolvimento da criatividade: “Meltzer (1973) descreveu o desenvolvimento da sexualidade e da criatividade na personalidade em termos da luta para ir além dessa figura (pais combinados) objetal parcial, de maneira a reconstruí-la em objetos totais com versões mais realísticas da mãe e do pai, processo inerente à posição depressiva. Internamente, uma relação sexual realista desse tipo forma um objeto interno que constitui a base - ou é sentido como fonte - da criatividade pessoal: sexual, intelectual e estética” (grifos nossos
13 "O objetivo principal é ajudar o paciente a ficar menos aterrorizado com seu próprio e horrível self - o quão horrível ele pensa que é"(Bion, 1992/2000, p. 27).
14 Em Personificação no brincar das crianças, Klein (1929, p. 230) faz a seguinte observação: “A satisfação narcisista obtida pelo ego ao derrotar inimigos internos e externos também ajudava a apaziguar o superego e conseguia reduzir consideravelmente a ansiedade.”
15 Nossa referência a esses termos está ligada à oposição entre símbolo, enquanto ato de ligação e vínculo, e diábolo enquanto desvínculo, desligamento.
De acordo com o Dicionário etimológico online, alguns estudiosos acreditam que o termo “diabo” possa ter se originado do grego diábolos, que neste caso significaria “acusador” ou “aquele que engana”. No latim, o termo diabolôs significa “demônio”, “entidade intrigante” e é a partir dessa acepção que a palavra passou a integrar o léxico do português.
16 "Ataques contra os vínculos relacionais originam-se daquilo que Melanie Klein denominou posição esquizoparanóide: um período dominado por relações com partes de um objeto ou com objetos parciais. [Nelas] o paciente mantém uma relação de objeto parcial consigo mesmo e também com objetos que não são o próprio paciente". (BION, 1959/2022, p. 144).
17 Série “Solidões” publicada na Folha de São Paulo em 2024.
18 Para os leitores não familiarizados com os conceitos kleinianos, indicamos o Dicionário do pensamento kleiniano- R.D. Hinshelwood (1991).
19 Sobre isso Bion (1962, p.162) nos esclarece: “O predomínio da identificação projetiva confunde a distinção entre o self e o objeto externo. Esse estado contribui para a falta de qualquer tipo de percepção de uma dualidade, já que o reconhecimento da distinção entre sujeito e objeto depende da noção consciente sobre dualidade.”
20 Bion (1959) contribui com essa questão em seu artigo intitulado Ataques à ligação, nas palavras do autor: “Examinarei os ataques que se fazem ao seio, na fantasia, encarando-os como o protótipo de todos os ataques a objetos que sirvam de elo de ligação, e a identificação projetiva - mecanismo que a psique utiliza para se livrar dos fragmentos do ego produzidos por sua destrutividade.” p. 109.
21 Klein (1929/1996, p. 233), nos diz: “Minha experiência mostra que na origem do conflito edipiano e no início de sua formação o superego tem caráter tirânico, montado sobre o padrão dos estágios pré-genitais, que se encontram em ascendência.”
22 O termo grupo homogêneo tem como referência a seguinte passagem de Freud (1921, p.113): “Enquanto uma formação de grupo persiste ou até onde ela se estende, os indivíduos do grupo comportam-se como se fossem uniformes, toleram as peculiaridades de seus outros membros, igualam-se a eles e não sentem aversão por eles”.



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