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A pesca do fragmento intersubjetivo na pesquisa psicanalítica

  • há 9 horas
  • 26 min de leitura

Este é um capítulo do livro "Pesquisas acadêmicas em psicanálise: reflexões teóricas e ilustrações prática", escrito por Marina Ferreira da Rosa Ribeiro, Davi Berciano Flores e

Janderson Farias Silvestre Ramos.


A pesca do fragmento intersubjetivo na pesquisa psicanalítica [1]


Sem especular e teorizar – quase digo: fantasiar – de maneira metapsicológica, não avançamos um passo neste ponto. Sigmund Freud 

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa nãopalavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler “distraidamente”. Clarice Lispector 

Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa. Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência. Pablo Neruda 

Por que abrir um capítulo de metodologia com duas referências poéticas? Estas nos servem aqui a, pelo menos, dois propósitos. Primeiramente, os temas evocados por Pablo Neruda (2018) e Clarice Lispector (1978) conversam intimamente com os temas e conceitos abordados ao longo do texto, como o leitor perceberá. Deste modo, acreditamos estar seguindo uma trilha há muito tempo aberta por Freud (1908/1996), quando disse que os poetas vão adiante de nós. São como desbravadores pioneiros no oceano da mente. Ou ainda, para seguir a metáfora marítima, como faróis. Os poetas são faróis a nos orientar em mares nunca antes navegados.


Em segundo lugar, mas não menos importante, à parte as temáticas dos poemas, o próprio exercício de ler poesia pode nos apontar um bom caminho para uma pesquisa psicanalítica. E aqui temos Ogden (2013) em nossa companhia, que afirma que “a poesia é um grande disciplinador para a escuta analítica” (p. 211). Com estes dois aspectos em mente, iniciamos nosso percurso apresentando a experiência de Ogden enquanto leitor de poemas, para, em seguida, nos deslocando do campo da poesia, mas permanecendo no terreno da arte, refletir brevemente sobre a análise feita por Freud da estátua de Moisés construída por Michelangelo.


Este mergulho inicial nas águas artísticas tem duas funções. Por um lado, indicar que a proposta metodológica que aqui apresentamos não se restringe ao território da clínica [2], mas se expande para qualquer objeto ao qual o pesquisador-psicanalista se debruce em uma investigação. Por outro lado, esperamos que os exemplos de Freud e Ogden sirvam como uma indicação prática da concepção de pesquisa psicanalítica que sustentamos ao longo do texto, a saber, a noção de que o pesquisador-psicanalista está sempre implicado no seu objeto de pesquisa, seja ele qual for, havendo sempre uma mescla entre pesquisador, objeto de pesquisa e meios de investigação (Figueiredo & Minerbo, 2006).


Podemos compreender, a partir disso, que uma pesquisa psicanalítica é realizada a partir daquilo que André Green (1987/2017) nomeou mito de referência do psicanalista. O autor utiliza esta exitosa expressão referindo-se a um conjunto indissociável formado pela escuta dos pacientes, a leitura dos psicanalistas predecessores, os diálogos com os colegas e os vestígios da própria análise pessoal do analista, às quais tomamos a liberdade de acrescentar as supervisões realizadas e, ainda, suas experiências de vida.


O mito de referência seria uma montagem pessoal, construída de múltiplos encontros e influências, a partir da qual o psicanalista apreende os diversos fenômenos com os quais se depara. Assim, por exemplo, o mito de referência de Bion, de acordo com Green (1987/2017), seria composto por elementos kleinianos, freudianos e suas próprias concepções originais. Por conseguinte, nós, leitores de Bion e de seus predecessores, temos a ele e a tradição psicanalítica anterior compondo nosso mito de referência, de maneira que uma única interpretação pode ser composta por múltiplas vozes (incluindo as influências citadas no parágrafo acima), sendo, por vezes, difícil defini-la como kleiniana, bioniana, etc.


Deste modo, embora André Green tenha cunhado essa expressão em uma reflexão a respeito de fenômenos clínicos, entendemos que ela pode auxiliar a compreender o lugar do pesquisador-psicanalista diante de seu objeto de pesquisa, seja ele qual for. Como refere Ogden (2007), a partir de suas leituras de Bion, o analista precisa inventar a Psicanálise a cada novo paciente, pois ambos deverão criar formas de conversar que serão sempre singulares a cada novo encontro. Podemos dizer que essa singularidade se deve àquilo que é trazido continuamente pelo paciente e ao mito de referência do psicanalista, que aparecerá, a cada vez, sob diversas facetas. Pensamos que esse mesmo modelo pode ser transposto para o campo da pesquisa psicanalítica, ainda que essa se dê no contexto da clínica ampliada. Esperamos que essa ideia se esclareça ao leitor ao longo de nossa argumentação.


Encerrando essas linhas introdutórias, queremos brevemente antecipar o caminho aqui percorrido. Dividimos nossa exposição em três partes fundamentais. Após a discussão a respeito das análises de obras artísticas feitas por Ogden e Freud, navegamos em águas com maior densidade teórica, apresentando aquilo que Ogden chama de leitura transitiva, para, por fim, afunilar a compreensão a partir de alguns conceitos de Bion: capacidade negativa e fato selecionado.


Pescando em águas intersubjetivas: Ogden e Frost, Freud e Michelangelo


Ogden (2013) termina seu livro Reverie e interpretação, um livro eminentemente clínico, com um capítulo em que analisa três poemas de Robert Frost. Ele deixa claro, já no início do capítulo, que não teve a preocupação de escrever algo “útil” (as aspas são dele) para o leitor que está interessado em Psicanálise. Esta afirmação poderia nos desconcertar, afinal estamos lendo em um livro que, até aquele momento, tinha a clínica psicanalítica como núcleo duro. Mas este “abandono” da Psicanálise é apenas aparente, pois poucas linhas à frente entendemos o sentido de “útil” que Ogden quer frisar. Encontramos, em sua pena, a citação do poeta A. R. Ammons, que, ao discorrer sobre a “inutilidade” dos poemas e das caminhadas, escreve que “Só a inutilidade é suficientemente vazia para a presença de tantos usos. [...] Só a inutilidade pode permitir que a caminhada seja plenamente ela mesma” (Ammons, 1968, apud Ogden, 2013, p. 212).


A pesquisa em Psicanálise tem muito em comum com a caminhada e a leitura de poesia. É somente lendo ou escutando distraidamente, sem a pretensão, a priori, de ser útil, que é possível pescar a entrelinha ou a luz caída no poço da sombra: um elemento inconsciente; ainda desconhecido, um pensamento ainda não pensado. Do contrário, corremos o risco de apenas repetir em nossas pesquisas “palavras bichadas de costumes”, como diria Manoel de Barros (2010, p. 453); ou como diria Bion [3] (1977), as palavras podem ficar gastas como moedas muito usadas e perder o seu valor e significado.


Pensamos que este modo de entender as investigações em Psicanálise se aplica tanto à pesquisa derivada diretamente de uma experiência clínica, quanto aos estudos no contexto da clínica ampliada [4] , incluindo as chamadas pesquisas bibliográficas ou conceituais. Dentro dessas possibilidades, o que vai realmente se tornar o objeto de pesquisa é um fragmento derivado da experiência, a partir de uma variedade de situações nas quais o psicanalista está envolvido. Trata-se sempre de como determinada experiência, seja de escuta clínica, seja de leitura de um texto, afetou o pesquisador-psicanalista, tornando-se não apenas um fragmento clínico ou teórico a ser investigado, mas o que podemos chamar de um fragmento intersubjetivo.


Em outro livro, Ogden recomenda que o leitor psicanalista que deseja abordar um poema não deve interpretar, mas sim “dizer que som e sentimento os versos têm, que sensação eles transmitem” (Ogden & Ogden, 2014, p. 49). Isto é precisamente o que Ogden faz com os poemas de Frost, o que muito pode nos ensinar sobre a pesquisa em Psicanálise, sobretudo nesta perspectiva de entendêla como a análise de um ou mais fragmentos intersubjetivos, que podem ser decorrentes de uma escuta clínica, como também de uma escuta de uma clínica ampliada, de um texto teórico ou de um objeto da cultura.


Antes de iniciar a análise dos poemas, Ogden fala sobre sua própria experiência com a poesia de Frost. Ele diz ter lido muito Frost durante a faculdade e alguns anos depois, e relata que não ficou muito tomado pelo que lia, pois, em sua visão, a poesia de Frost apresentava uma narrativa muito clara, que lhe dava pouco trabalho como leitor. Entretanto, na sequência, ele discorre sobre a complexidade dos poemas de Frost, uma complexidade de caráter diferente de outros poetas considerados “difíceis”, pois sua poesia é “tão sutil [...] a ponto de parecer óbvio para o leitor comum” (Frost, 1917 apud Ogden, 2013, p. 214). Vemos aqui questões próprias da pesquisa e do encontro psicanalítico: a sutileza que inquieta, os detalhes que crescem em significado após um segundo olhar, os sentidos que emanam do contato continuado com a obra, na situação clínica, com o texto, etc. (tal como Ogden em seu contato contínuo durante anos com a poesia de Frost).


Durante a análise dos poemas, vemos Ogden descrevendo que sons e sentimentos os poemas lhe evocam, como eles o afetam. Assim, recorrentemente, encontramos declarações como: “O primeiro verso me confunde e me perturba profundamente cada vez que leio o poema” (Ogden, 2013, p.224), ou ainda: “Geralmente sou pego fora de guarda pela palavra ‘least’ (mínimo) na frase The least stiffening of her neck” (p. 228). Assim, se, de um lado, encontramos nas primeiras páginas do texto alguns dados que podem reivindicar certo grau de objetividade (como as mudanças de visão a respeito da obra de Frost desde sua morte, a dificuldade de expressão sonora de sua poesia, os prêmios Pulitzer que o autor ganhou, etc), quando Ogden inicia a análise dos poemas, estes deixam de ser apenas poemas escritos por Robert Frost e passam a ser fragmentos intersubjetivos [5].


Em sua análise dos poemas, no entanto, Ogden não ignora certos dados objetivos, como o uso de recursos estilísticos próprios da poesia, tais como as aliterações, a construção de alguns poemas em forma de soneto, a inclusão de travessões, etc. O poema permanece como um objeto preexistente ao momento da análise, o que precisa ser também levado em consideração. Contudo, o pesquisador-psicanalista não deve perder de vista, como Ogden não perde, que, ao se debruçar sobre o poema, este se torna um fragmento composto de múltiplas faces: um fragmento intersubjetivo, como já salientamos.


Saindo do terreno da poesia para o campo da escultura, nos deparamos com Freud (1914/2012), quase cem anos antes de Ogden, realizando um trabalho de interpretação semelhante com a escultura Moisés de Michelangelo. Carvalho (1999) considera o ponto de partida de Freud para análise desta escultura um bom modelo para a interpretação de textos literários. A autora observa que o interesse de Freud na interpretação dessa obra volta-se inicialmente em compreender o que, nela, o afetou tão profundamente. Desta maneira, seria possível desvendar a constelação psíquica compartilhada entre o escultor e o público (neste caso, Freud) e, assim, chegar às raízes da intenção do autor.Consideramos que este ponto de partida de Freud pode ser tomado como um modelo não apenas para uma abordagem psicanalítica de um texto literário, mas para a pesquisa em Psicanálise de um modo geral.


Em uma carta enviada à sua esposa, Martha, Freud confidencia que, estando em visita à Roma, postou-se diariamente diante da estátua. Após três semanas lhe adveio a compreensão que deu origem ao artigo que conhecemos (Zilli, 2016). Logo no início do texto, ao referir-se à fascinação que as obras de arte lhe causam, especialmente a pintura e a escultura, ele afirma que já passou longos períodos contemplando-as, tentando explicar a si mesmo o efeito que elas lhe provocam. Este certamente foi o caso com a escultura de Michelangelo. O que move a sua interpretação, portanto, é o próprio impacto estético-afetivo que a obra lhe causa e o ímpeto de procurar as causas dessa afetação.


Em Recomendações aos médicos que praticam a Psicanálise, encontramos Freud (1912/2010) orientando que o analista, ao escutar o paciente, entregue-se à sua memória inconsciente. A comunicação durante a sessão se daria, sobretudo, entre inconscientes, e não pela via intelectiva da consciência. No entanto, algumas páginas adiante nos deparamos com um aparente paradoxo: as metáforas que Freud utiliza para descrever o trabalho do analista, tal como o cirurgião que deixa de lado as emoções humanas a fim de bem realizar sua operação, parecem contraporse à imagem de um analista deixando-se levar, ou como diz Ogden (2013), estando à deriva.


Este paradoxo, no entanto, compõe o próprio ofício do analista, enquanto clínico e enquanto pesquisador. Por um lado, o pesquisador-psicanalista se coloca diante de seu objeto de pesquisa, com rigor, persistência e afinco. É o que faz Freud diante da estátua de Moisés, e Ogden diante dos poemas de Frost. Por outro lado, o analista deixa-se afetar pelo que está à sua frente, impacta-se pela turbulência da relação (ou da obra), deixando-o à deriva, flutuando “na beira do poço da sombra”, para, desta posição, tentar pescar algo que expandirá a compreensão da obra, do paciente e de si mesmo. Aqui, novamente, Freud diante de Moisés vem em nosso auxílio.


Ao longo do texto, Freud debruça-se sobre os motivos que teriam levado Michelangelo a construir a escultura da maneira como a construiu. Entretanto, ao ler as reflexões de Freud a esse respeito, encontramos não apenas as possíveis motivações de Michelangelo, mas também as motivações de Freud para interpretar a obra da forma como interpreta. É interessante notar, por exemplo, que, em sua interpretação, Freud (1914/2012) realiza um tipo de reconstrução do conto original. Na história bíblica, Moisés, irado com as práticas heréticas do povo, quebra as tábuas da lei recém recebidas de Deus. Na interpretação de Freud, no entanto, Michelangelo teria representado um Moisés que, imbuído da convicção de sua missão maior, controla sua ira e não sucumbe às paixões humanas.


É plausível supor que a interpretação que Freud dá para a obra esteja de acordo com as intenções de Michelangelo. Sua argumentação é bastante perspicaz e convincente. Entretanto, a proposição de uma outra narrativa para a interpretação da obra parece proceder, também, dos conflitos que ele experimentava no momento [6] . Sabe-se que, quando da escrita deste artigo, Freud estava envolvido com as dissidências de Jung e Adler e inquieto quanto à preservação do pensamento psicanalítico – suas próprias “leis sagradas”, poderíamos dizer.


Seguindo esta lógica argumentativa, aquilo que Freud analisa não é mais a obra em si, mas sim aquilo que surgiu do encontro entre ele e a obra. Todo o texto poderia ser lido, então, como uma espécie de análise de um fragmento intersubjetivo, um fragmento composto por partes de Freud enquanto pesquisador-psicanalista e do autor (no caso da obra), além de vários outros fatores nesta complexa composição intersubjetiva.


Esperamos que os exemplos de Ogden e Freud diante de diferentes expressões artísticas tenham assentado o caminho para o mergulho, a seguir, em águas mais densas teoricamente.


A leitura transitiva e criativa de Thomas Ogden


Nos artigos do livro Leituras criativas, e em inúmeras outras publicações, Thomas Ogden (2014) compartilha com seus leitores suas experiências com a leitura das obras de outros autores, os múltiplos atravessamentos que delas advêm e que enriquecem seu cotidiano como psicanalista. Tece, assim, uma relação viva entre as produções que circulam no campo da Psicanálise e os relatos de casos emblemáticos de sua clínica.


Ogden (2014) chama esta experiência na qual novos significados são produzidos de ‘leitura transitiva’, no sentido de interpretar o texto de modo a reconhecer nele algo que não se encontrava explicitamente antes. Para o autor, ler jamais pode ser uma experiência imparcial ou passiva.


O texto, “marcas pretas da página” (p. 22), portaria em si possibilidades de alteridade, nessa fronteira borrada entre o fim da voz do leitor e o início da voz do texto, referindo-se inclusive a esta indiscriminação em sua mente no que tange a seu pensamento próprio e o conhecimento que possui a respeito de Bion, por exemplo.


Para além disso, podemos acrescentar à interpretação dos textos lidos a concepção de que, em uma única leitura, múltiplas vozes se implicam. Ogden (2003) já dizia não conseguir ler mais Luto e melancolia (Freud, 1917/1969) da mesma maneira depois de ter se familiarizado com a teoria das relações de objeto de Melanie Klein. A voz da autora aparece no texto freudiano, bem como se dá em um processo de pesquisa cuja metodologia porta esta qualidade polifônica, em que a serialidade é substituída por um conjunto de vozes capazes de iluminar um conceito ou um fenômeno clínico: “Em outras palavras, a influência não é exercida apenas por uma contribuição anterior em outra; contribuições posteriores afetam nossa leitura das anteriores” (Ogden, 2003, p. 594, tradução nossa).


Este trânsito livre pelas temporalidades é essência da opacidade de memória e desejo proposta por Bion (1965/2014, 1967/2014a, 1970/2014), uma vez que, para o autor, o futuro e o passado são partes do presente (Ogden, 2003, p. 595). Ao discorrer sobre o inquietante que é ler Bion, Ogden por vezes utiliza trocas de preposição que indicam a emergência dialógica, a virada ontológica e a subversão espaço-temporal gerada por seus textos. Trata-se mais de “estar em” e menos de “falar sobre” (Ogden, 2014, p. 153).


Assim, ao refazer a leitura das Notas sobre memória e desejo de Bion repetidas vezes (Ogden, 2015, p. 286), descobre que o texto porta a ideia de se fazer algo com ele (make with it) ao invés de extrair algo dele (make of it). Não se trata de depreender o que o Bion “quis dizer”, mas como Bion atravessou Ogden e o tipo de uso que este faz desta experiência de leitura na teoria e na clínica. Ogden descreve o árduo trabalho de reencontro com o texto de Bion até que esta nova condição ontológica na relação com o texto pudesse se dar, lembrando-nos da antiga postura de Charcot observada atentamente por Freud ao longo de tantos dias: “Costumava olhar repetidamente as coisas que não compreendia, para aprofundar sua impressão delas dia a dia, até que subitamente a compreensão raiava nele” (Freud, 1893/1969, p. 22).


A voz de Charcot, sobredestinada ao pensamento de Ogden (2014), nos leva a entender que atentar às mesmas “marcas pretas” impressas na página de um texto, repetidas vezes, faria com que algo novo surgisse dele. Da mesma forma como Ogden (2003) é capaz de encontrar Melanie Klein no texto de Freud, é possível encontrar ao longo do movimento psicanalítico uma série de autores nascendo dentro da obra freudiana, ou então múltiplos nascedouros de importantes teorias em textos bastante distintos. Cada autor ilumina a trama de conceitos desde um lugar muito singular, imbuído de um percurso clínico e analítico. Thomas Ogden é um autor que apresenta repetidamente um formato de escrita que circunscreve um ponto da teoria psicanalítica e sua leitura criativa e transitiva desta, aproximando subsequentemente as tramas teóricas de narrativas clínicas.


Uma investigação em Psicanálise, neste sentido, fomentaria um incremento nas leituras feitas em profunda dinâmica com as memórias do pesquisador-psicanalista e com os futuros autores com quem se encontrará, adicionando a esta experiência o rigor de expandir o exercício de trabalhar alguns conceitos. Do mesmo modo, incluiria na interpretação dos textos a posição singular de um analista, em um recorte espaço-temporal de seu trabalho clínico e de suas construções teóricas. Seria como acrescentar rigor e aprofundamento às leituras acadêmicas inspiradas por uma experiência clínica e de leitura que são intransferíveis e singulares.


A pesca do fragmento intersubjetivo, os múltiplos vértices da pesquisa


A pesca implica em um lugar, o setting, compreendido como um estado de mente do pesquisador-psicanalista, um estado de atenção flutuante, ou como expande Bion (1965/2014, 1967/2014a): sem memória, sem desejo, sem compreensão prévia. Isso implica uma abertura e receptividade para o que vier no anzol, sem procurar nada em específico, algo que surge espontaneamente, no fluxo de uma escuta clínica, de um texto teórico ou da observação de um objeto da cultura. O fragmento intersubjetivo, na pesquisa psicanalítica, se dá de forma contínua e circular.


As ideias de continuidade e circularidade nos remetem diretamente à problemática da temporalidade dos eventos psíquicos que Bion desenvolve ao longo de sua obra e que tem um turning point, em nosso entendimento, na proposição do estado de mente sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia.


Os trabalhos de Bion que apresentam esta proposta, Memória e desejo (1965/2014) e Notas sobre memória e desejo (1967/2014a), são críticos à evocação de memórias, desejos, entendimentos ou a recorrer a quaisquer experiências sensoriais prévias que afastem o analista da experiência emocional da sessão. Permanecer neste estado de mente proposto por Bion – a disciplina de abster-se de memória, desejo e entendimento – resulta em uma permanência no presente, sem evasões, sem antecipar uma impressão interna ou acobertar uma impressão nova. Na clínica, o analista que evocar um elemento da teoria psicanalítica ao longo de sua escuta pode estar se defendendo da possibilidade de apreender o que se dá ali, na experiência com seu analisando.


O estado de mente proposto por Bion pode, no entanto, levar à falsa ideia de que as memórias perderam seu lugar na clínica, de que os desejos devem ser censurados, de que o que restaria ao psicanalista seria uma estreita linha de pensamentos sobre o “aqui e agora”, conclusões que resultam em uma ingenuidade a respeito da concepção de objeto interno, como afirma Grotstein (2003). Para o autor, algumas pessoas ainda compreendem que objeto interno seria o equivalente a internalizar um símile do objeto real, quando o que se dá, no campo da percepção, é uma assimilação quimérica, muito distante do que seria o objeto original. Nas palavras do autor:


As imagens quiméricas (híbridas) resultantes são ao mesmo tempo removidas de seus modelos originais e se tornam preconcepções adquiridas ou secundárias que funcionam como filtros adicionais sobre nossas percepções subsequentes, transformando-as em apercepções (distorções personalizadas ou “transferências”). Processamos nossas experiências continuamente por meio de inerente formatação mental. Nós e nossos objetos nos tornamos prisioneiros, não dos eventos que acontecem entre nós, mas daquelas transformações subjetivas e dos modificadores pessoais com os quais processamos nossas experiências (Grotstein, 2003, p. 30).

Nota-se que as palavras do autor remontam à nossa concepção de continuidade e circularidade, dado que a captação inexoravelmente onírica dos fenômenos de percepção resulta em um permanente incremento deste funcionamento quimérico, em um incessante sonhar a realidade. Este modelo de pensar os processos psíquicos, por mais que possa soar inédito, encontra-se na esteira do pensamento freudiano e de suas bases filosóficas. Kant (1787/2018) já demonstrava que formatamos as imagens que captamos com nossa subjetividade.


Kant nos alertou para que não julgássemos a percepção como idêntica ao percebido, pois, nesse caso, estaríamos ignorando o condicionamento subjetivo da percepção. Do mesmo modo, a Psicanálise nos adverte que não temos que substituir o processo psíquico inconsciente, que é o objeto da consciência, pela percepção que esta tem dele.


O emaranhamento de temporalidades, algo que é da natureza do processo primário, é capturado no anacronismo das lembranças encobridoras em Freud (1899/1969, 1901/1969), quando uma memória pode conter ou encobrir outra, ou até mesmo invadir o campo da percepção. Algo da mesma ordem é notado de maneira mais abrangente no pensamento onírico, que se constitui de uma pletora de fenômenos temporais reordenados em um conjunto de imagens. Condensação, deslocamento e figurabilidade são a evidência de que a temporalidade da consciência dá lugar à atemporalidade inconsciente, em que se embaralham os conteúdos, os tempos, as memórias.


Entendemos que é desta qualidade de apreensão e nesta complexidade da vida psíquica que está posicionado Bion ao tratar de um estado de mente sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia. Abdicar desta sensorialidade, de memória, desejo e entendimento, significa abrir-se para um “aqui e agora” repleto de condensações, deslocamentos e imagens. Estar neste estado mental implica colocar estes elementos sensoriais em observância, decalcados de um “senso de realidade” objetivo, tomando-os como parte de um dispositivo de apreensão da realidade psíquica, de modo que, quando surjam, possam ser pensados como notícias oníricas ou fatos mentais.


Figueiredo e Coelho Junior (2008) afirmam que o “agora” consiste em uma sucessão de momentos e o “aqui” uma extensão de lugares, demonstrando que o “aqui e agora” é um espaço-tempo multideterminado (p. 28). Do mesmo ponto, transformações distintas são feitas pela mente, de modo que o presente se torna um recorte privilegiado do espaço-tempo para acessar múltiplas realidades psíquicas. O pesquisador-psicanalista, sentado diante de seu texto, está em um ponto de observação no qual podem vir à sua mente, simultaneamente, um fragmento clínico, uma passagem teórica, o texto de um colega e uma lembrança biográfica.


O reconhecimento desta realidade quimérica tem implicações diretas no posicionamento do pesquisador-psicanalista, que busca na pesquisa em Psicanálise um método que leve em consideração o fato de que ele próprio é afetado pelos mesmos processos.


O estado de mente, proposto por Bion não deve ser visto como uma subversão do pensamento clínico psicanalítico, como muitos o supõem, mas sim como um reconhecimento do funcionamento mental e dos processos do pensar, assumindo que o psicanalista não está nem aquém nem além das formações do inconsciente e de suas vicissitudes. A falha na busca de um material fidedigno é justamente a crença na concepção de um ponto de observação mais confiável que outro. A própria ideia de fidedignidade resulta em uma concepção que ignora a qualidade subjetiva da observação psicanalítica.


Em termos pragmáticos, teria mais crédito a lembrança de um atendimento minutos após ter se realizado, ou o retorno deste conteúdo meses depois, quando subitamente surge à memória do analista um elemento que, até então, lhe estava ocultado da mente? Considerando-se que o estatuto do inconsciente preconiza a abolição da hierarquia das representações, haveria um ponto de observação mais confiável que outro?


É justamente quando o psicanalista se entende como alguém alheio aos processos do inconsciente, que acaba por recair em memórias, desejos e entendimento, investindo demasiadamente seu estado mental em lógicas causais, ignorando a existência dos processos primários, tendenciosamente transformando seu relato em algo útil, com as tais “palavras bichadas de costume”, evocando motivos e explicações ao invés de observar os estados que emergem no ato do encontro.


Em complementaridade ao estado de mente proposto, Bion (1970/2014), revisitado, também, por Chuster (1996), faz uma analogia que nos ajuda a compreender esse processo psíquico: os negativos da fotografia antes da época digital. Podemos fazer, aqui, uma apropriação sutilmente diversa dessa analogia: o negativo é uma película transparente escura que recebe quaisquer impressões. A mente do psicanalista clínico, bem como do pesquisador-psicanalista, precisaria ter essa qualidade negativa – denominada “capacidade negativa” por Bion (1970/2014) e evidenciada por Chuster (2019), uma qualidade de recepção, de hospitalidade, de continência a qualquer afetação. Há uma composição complexa de elementos para que a realização da imagem ocorra, no processo de revelação, ou melhor, de realização, feito por elementos que precisam de um período para produzirem efeito e uma sala escura para que a afetação do negativo se realize em uma imagem, ou seja, um facho de intensa escuridão [7] que precisa de tempo e espaço. Memória, desejo e compreensão prévia podem ser a luz precipitada que queima o filme antes da realização da imagem.


Defendemos, em nossa proposta metodológica, que a mente do pesquisador-psicanalista se encontre em capacidade negativa antes de se transformar em palavras escritas – “marcas pretas na página”, ou seja, que guarde o pragmatismo, a objetividade e a ordem para o momento de escrita, reservando-se antes ao direito de se aproximar dos temas que lhe interessam em suas multideterminações, permitindo-se lançar um anzol ao mar aberto e aguardar que, aos poucos, um cardume de ideias se aproximem de sua visão.


A formação de um cardume ao redor do anzol, a construção de uma interpretação em torno de um grupo de associações, a formação de um texto ao longo de um processo de pesquisa, todos estes fenômenos carregam em comum o fato de que nós não inventamos os peixes, eles vêm até nós se os esperarmos pacientemente [8] com a nossa capacidade negativa de observação psicanalítica. Há ainda outro aspecto em comum: são conjuntos de elementos que advêm de distintos lugares e se reúnem, provisoriamente, ao redor de um ponto que os organiza. É fundamental, neste sentido, que uma pesquisa em Psicanálise, dentro desta metodologia, necessariamente contenha imprecisões e carregue o registro de uma busca, de dúvidas, de espaços não preenchidos, sem blefes assertivos ou, como se diz popularmente, histórias de pescador.


Podemos dizer que a escrita sobre a experiência clínica – quer seja o relato de um caso extenso ou uma pequena passagem, é sempre uma transformação do que se deu e, ao mesmo tempo, uma expressão única de um ponto de observação sobre a memória e todos os elementos ao seu redor naquele momento. O mesmo se dá no relato de um sonho, que se trata sempre de uma construção que busca alcançá-lo já na impossibilidade do sonhador em revivê-lo. Bem sabemos que relatar um sonho pela manhã ao acordarmos, ou relatá-lo algumas horas depois do sonhado, ou alguns anos depois da experiência onírica, resulta em narrativas muito distintas. Isto se dá justamente porque em cada relato, nestes diferentes momentos, processos mentais distintos estão em movimento. Não vê melhor nem quem está mais perto, nem quem está mais distante. Trata-se, apenas, de vértices de observação que buscam alcançar um fenômeno cuja totalidade é inapreensível.


Bion trata desta questão em sua obra, tanto na maneira de abordála quanto no estilo de sua escrita. Se por um lado Bion aponta que é perigoso distorcer uma experiência “a fim de fazê-la combinar com as capacidades que temos” (Bion, 1975/2014, p. 46, tradução nossa), por outro lado indica que transformar uma sessão em palavras, em uma cadeia de associações, resulta em um processo de clivar a experiência [9] , ou seja, dividir um conjunto de percepções condensadas, da ordem da multidimensionalidade, em palavras encadeadas, uma após a outra.


Detendo-nos a esta metodologia, notaremos que naturalmente ela se expande para os elementos teóricos. As leituras do pesquisadorpsicanalista ampliam a circularidade de seu pensamento, sem a possibilidade de definir em que momento um conceito teórico tomará de arroubo sua mente, ou quando um vestígio de sua clínica brotará das entranhas da metapsicologia. Nas palavras de Bion (1967/2014b), “O artigo de Freud deve ser lido – e ‘esquecido’” (p. 175), de modo que retorne à mente do analista sem sua forma de evocação, não como uma memória à espreita buscando uma realização, mas como um elemento espontâneo que surge à mente ao longo da experiência. Em outros termos, a sutil diferença proposta pelo estado de mente bioniano para a clínica, aqui ampliado para a pesquisa em Psicanálise, é que o pesquisador-psicanalista não deseje pôr memórias e entendimentos, que evite entendimentos prévios do material clínico que oportunamente combinem com seu arcabouço teórico, e que no lugar faça um esforço de relatar pensamentos que lhe ocorrem ao longo de sua escrita, tornando seu texto uma fotografia de seu percurso teórico e clínico, que estará em contínuo processo de construção e, portanto, seguirá para além do tempo de sua pesquisa.


Clínica e teoria se encontram ao longo do trabalho à medida que o pesquisador-psicanalista encontra invariâncias entre ambos, ou seja, a partir do ponto em que um fragmento clínico, um elemento teórico, uma epígrafe poética, uma passagem literária, etc., tendem a convergir na mente do pesquisador-psicanalista como formas distintas de tratar de um mesmo ponto. Como Bion (1970/2014) sugere: “As formulações de Freud fazem exatamente isto. O pensar, desenvolvido por meio de Psicanálise, levou a descobertas que não foram feitas por Freud; são, no entanto, reveladoras de configurações similares às descobertas que Freud fez” (p. 299).


Bion demonstra, desta maneira, que não propõe a abolição da memória, o fim da teoria psicanalítica, ou qualquer coisa desta natureza. No lugar disso, nos adverte para que não coloquemos a carroça na frente dos bois, para que a memória teórica não venha antes da experiência intersubjetiva, para que, ao invés disso, a experiência possa, eventualmente, conferir um novo lugar à memória teórica, não como substituição desta, mas como uma expressão exitosa daquilo que certa vez corria nas linhas opacas sobre o papel.


Ao momento de conjugação de elementos esparsos e perdidos na obscuridade da mente, em que do caos parece se desenhar uma forma e estabelecer algum tipo de imagem ou interpretação, Bion dá o nome de “fato selecionado”. Bion (1963/2014) propõe a denominação “fato selecionado” baseado na obra do matemático Poincaré (Science and method). Um fato selecionado seria algo que colocaria uma certa ordem na complexidade dos elementos, tornando apreensível aquilo que inicialmente era uma experiência desorganizada. Bion (1967/2014b) faz uma analogia do fato selecionado com uma imagem que se fixa em um caleidoscópio, dando um sentido momentâneo aos elementos desorganizados e em movimento.


Um ponto de ordem na desordem psíquica consiste em um ponto de saturação, ou seja, um momento em que se produz uma imagem, um pensamento, uma cadeia de associações, sobre elementos que não pertencem a um único ponto, mas flutuam em um mar turbulento, contínuo, infinito. Bion, inclusive, prefere subverter a lógica consciente-inconsciente, por finito-infinito, justamente porque o fato selecionado opera como um ponto – um elemento finito, saturado – que emerge de um mar infinito, sem forma, insaturado. Em outras palavras, há um movimento na direção daquilo que inicialmente não tem forma, é insaturado, infinito, para aquilo que se satura, que é finito, que tem uma forma definida, como este texto, por exemplo.


Neste sentido, um trabalho de pesquisa apresenta fatos selecionados de um amplo processo de estudos teóricos e trabalhos clínicos do pesquisador-psicanalista, ou seja, as águas quiméricas nas quais o pesquisador está imerso, seu mito de referência (Green, 1987/2017).


A pesquisa com o método psicanalítico: o fragmento intersubjetivo


Ao fim de nosso percurso, é possível que surja a seguinte questão na mente do leitor: como se sustenta, nesta proposta metodológica, a construção de uma pesquisa criteriosa? Neste ponto recorremos, novamente, à intersubjetividade, retomando a noção de mito de referência do analista proposta por Green (1987/2017). Uma pesquisa é construída dentro de um grupo de orientação, sob a influência de múltiplos leitores, da apreciação crítica da banca de qualificação, dentro de um escopo maior de formação de uma pós-graduação, levando-se em consideração a história do pesquisador-psicanalista, sua análise, supervisão clínica, formação teórica prévia, etc.


Os dispositivos que regulam a consistência de uma pesquisa são, na realidade, múltiplas vozes, internas e externas, evocadas e esquecidas pelo pesquisador-psicanalista. Trata-se de um arranjo que opera de forma intersubjetiva, assim como, o funcionamento psíquico, no qual há vozes lembradas e esquecidas, todos presentes na construção do texto. E, da mesma forma, uma pesquisa é sempre um conjunto de vértices, um mosaico de pontos de observação construídos ao longo de um tempo finito.


A proposta metodológica exposta compreende que o fragmento intersubjetivo é um fato selecionado, ou um conjunto de fatos, que emergem na mente do pesquisador-psicanalista em estado de capacidade negativa (sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia). O fragmento intersubjetivo que será usado na pesquisa tem como esteio o mito de referência do pesquisador-psicanalista, tendo como característica uma composição única de elementos.


A mente do pesquisador-psicanalista torna-se ponto de encontro dos diversos aspectos que contribuem para o processo de pesquisa: suas leituras, sua experiência clínica, seus diálogos com colegas, seus pensamentos mais íntimos.


Para finalizar, retomamos a epígrafe de Freud (1937/2018), entendendo que ela representa nas mais simples – e talvez despretensiosas palavras – nossa proposta metodológica: “Sem especular e teorizar – quase digo: fantasiar – de maneira metapsicológica, não avançamos um passo neste ponto”.


NOTAS


1. Agradecemos a Cláudia Perrotta e Fátima Flórido pelas sugestões feitas a este capítulo.


2. A expressão “clínica” é compreendida ao longo do texto no seu aspecto amplo, como pensamento clínico, ou seja, nessa compreensão está incluída tanto a clínica do psicanalista e seu paciente, como a clínica ampliada, que implica o exercício da escuta psicanalítica em diversos e diferentes contextos.


3. “A linguagem que usamos é tão degradada que é como uma moeda que foi muito usada e é impossível distinguir o seu valor” (Bion, 1977/2014, p. 243, tradução nossa).


4. Compreendemos uma clínica ampliada como o exercício da escuta psicanalítica em diversos e diferentes contextos, como já dito.


5. Estamos compreendendo o conceito de intersubjetividade conforme Coelho e Figueiredo (2004, p. 13): “... a noção de intersubjetividade costuma ser definida, em termos psicológicos, como sendo a situação na qual, por suas mútuas relações, numerosos (ou apenas dois) sujeitos formam uma sociedade ou comunidade ou um campo comum e podem dizer: nós. Pode ser definida também como sendo o que é vivido simultaneamente por várias mentes, surgindo então a denominação ‘experiência intersubjetiva’”.


6. Por outro, parece também atender à coerência teórica de suas concepções sobre a criação artística, que encontram no conceito de sublimação seu principal marco explicativo. De certo modo, Freud supõe que, na construção da escultura, Michelangelo vislumbra a sublimação como caminho ético ideal, apontando para si mesmo a necessidade de colocar-se numa relação estética sublime com seus impulsos desenfreados, ao invés de deixar-se dominar por eles. Podemos supor que seja essa precisamente a constelação psíquica que Freud julga compartilhar com Michelangelo e que lhe teria levado a experimentar um profundo impacto estético diante da obra.


7. Esta expressão encontra-se originalmente em uma carta enviada por Freud a Lou Andreas-Salomé, na qual relata que, para atingir um estado mental capaz de compensar a obscuridade de um fenômeno clínico, precisava cegarse artificialmente, focando toda a luz em um único ponto de escuridão (Freud, 1916/1975).


8. Os pensamentos antecedem o pensador (Bion, 1962/2014).


9. Podemos pensar em uma clivagem instrumental necessária, inevitável ao processo de transformação da experiência em narrativa, ou em um texto.


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