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Prefácio: As origens da criatividade e da esperança - reflexões psicanalíticas a partir de Melanie Klein e Donald Winnicott

  • marinaribeiroblog2
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Prefácio do livro As origens da criatividade e da esperança - reflexões psicanalíticas a partir de Melanie Klein e Donald Winnicott de Maysa Bezerra, escrito por Marina F. Ribeiro.


Quero ignorado, e calmo

Por ignorado, e próprio

Por calmo, encher meus dias

De não querer mais deles.


Aos que a riqueza toca

O ouro irrita a pele.

Aos que a fama bafeja

Embacia-se a vida.


Aos que a felicidade

É sol, virá a noite.

Mas ao que nada espera

Tudo que vem é grato.


Fernando Pessoa.


Sinto-me privilegiada de fazer parte da eclosão de criatividade e esperança que este livro de Maysa representa. Ao longo dos últimos anos, venho, cada vez mais, a cada trabalho concluído, considerando que a questão que nos conduz na pesquisa psicanalítica é aquela que conseguimos alcançar e expressar do enigma que nos habita e nos move como seres únicos que somos. Quanto mais próximos e perturbados pelo enigma formos, mais autoral é o texto. A escrita de Maysa é extremamente implicada, transparece no seu texto a dor e a beleza de ser quem se é!


Uma pesquisadora jovem que se dedica com tanta perspicácia à apreensão e à transmissão do pensamento kleiniano me provoca um discreto sossego. É reconfortante saber que alguém competente levará adiante o legado de Melanie Klein. Maysa tem se debruçado sobre o pensamento kleiniano de forma criativa e, por que não dizer, inovadora, anunciando uma nova geração de psicanalistas, com o frescor matinal que anuncia algo novo. Vejam que bela descrição da obra de Klein:


Capaz de circular entre os arcos viscerais e sensíveis, Klein convida a um mergulho nos assombros e abismos humanos, explorando os mais profundos conflitos e insanidades que a mente pode alcançar. Ao mesmo tempo, destaca a potência da vida, que impele o indivíduo de escapar dos mais terríveis padecimentos ao contornar com letras e imagens aquilo que parece icognoscível: a brutalidade e a violência do inconsciente. (Epílogo). 

Maysa tem uma capacidade surpreendente de metaforizar e transformar o árduo da teoria em uma narrativa poética e fluida, que o leitor acompanha com prazer. Ela apresenta tanto o arcabouço teórico kleiniano como o winnicottiano, construindo metáforas surpreendentes.


Sucintamente, este livro é uma consistente pesquisa teórico-clínica sobre os fenômenos da criatividade e esperança, bem como da desesperança e destrutividade. Maysa apresenta e articula conceitos da obra de Klein e Winnicott, por meio de vinhetas clínicas, contos e filmes, deixando o leitor encantado com seus belas e pertinentes metáforas. A autora ousou uma interlocução, pouco comum, entre esses dois titãs da psicanálise. Devido a questões históricas e institucionais, suas obras foram e são tratadas sem considerar seus pontos de convergência, acentuando as divergências. Maysa se apropriou magistralmente desses dois autores, destacando questões ainda pouco abordadas, como a pulsão de reparação [1] no texto kleiniano.


A discussão que Maysa traz para a questão da inveja é um dos momentos no qual a criatividade da autora se manifesta intensamente. Tenho usado o conto de Clarice Lispector (1999), A legião estrangeira [2], há muitos anos na disciplina sobre Klein que ministro na graduação do IPUSP. Maysa retoma magistralmente a potência do conto e avança na sua reflexão. "Inveja e gratidão", publicado em 1957, foi o ponto de discórdia máxima entre Winnicott e Klein. Segundo relatos, Winnicott teria comentado que, com esse texto, Klein tinha ido longe demais, o que selaria, por fim, o rompimento entre esses dois pensadores da psicanálise.


Algumas observações sobre inveja e gratidão são necessárias. A inveja participa da estrutura original do desejo humano: insaciável. E isso faz com que a inveja existe como decorrência dessa estrutura voraz - queremos simplesmente tudo! A inveja se dirige sempre ao bom, à bondade materna, à paciência, a generosidade, à compaixão e à confiança. O objeto por excelência da inveja é a criatividade. A gratidão é o fundamento da capacidade de apreciar e saborear os bons momentos e a qualidade daquilo que nos é oferecido. A capacidade de ser grato é decisiva na constituição, na manutenção e na expansão da vida psíquica, e, além disso, é fundamental para o exercício das funções empáticas e intuitivas do analista na sessão. Muito se fala de inveja e pouco de gratidão. Penso que a palavra gratidão diz mais e melhor do que pode vir a acontecer em alguns momentos de uma análise. Klein (1957/1991) escreve:


O seio bom que nutre e inicia a relação de amor com a mãe é a representação  da pulsão de vida e é também sentida como  a primeira manifestação da criatividade...A capacidade de dar e preservar vida é sentida como dom  máximo e,  portanto,  a criatividade torna-se a causa mais profunda da inveja. (p. 37)

A inveja é um ataque à criatividade, aos vínculos (Bion, 1959/2013) e à beleza (Meltzer, 1988), no sentido da experiência estética do humano, da possibilidade de pensar e da transitoriedade. Como salienta Freud (1916/2010), "Mas contestei a visão do poeta pessimista, de que a transitoriedade do belo implica sua desvalorização. Pelo contrário, significa maior valorização! Valor de transitoriedade é valor de raridade no tempo" (pp. 248-249).


Podemos fazer algumas breves conjecturas sobre inveja, gratidão e criatividade. Será que o poeta pessimista está impossibilitado de apreciar a beleza, a experiência estética do mundo, em função de um apego à imortalidade (predomínio da inveja), ou seja, um estado de mente esquizoparanoide, no qual não há transitoriedade, tudo é absoluto, não há tempo, não há outro, não há perdas, não há possibilidade de pensar.


Pensar implica um estado de entristecimento, de gratidão e reconhecimento de que tudo é transitório, somos seres em trânsito e em transição. A experiência com um analista continente ou suficientemente bom será, inevitavelmente, alvo de sentimentos invejosos, mas há a possibilidade de reparar e criar, pulsão de reparação, como escreveu Maysa. A condição psíquica de reconhecer que precisamos do outro para existir e para criar. Os estados mentais são transitórios, há um movimento constante na mente, isso está implícito no conceito kleiniano de posições.


Precisamos de tempo para conhecer uma pessoa, aliás, tudo que um analista tem com o seu analisando é o tempo da sessão. A faceta destemida, corajosa, valente de Maysa apareceu desde o início de seu processo como pesquisadora. Aos poucos, penso que foi possível um lapidar do texto e da alma que amadureceu sua escrita, desembocando na escrita desse livro.


O ambiente suficientemente bom do grupo de pesquisa [3], favorece a criação de textos originais. Quando nos sentimos em terras seguras e férteis, é possível usufruir, fluir e criar. Como diz Winnicott, precisamos conduzir o paciente para que ele construa a própria interpretação. Parafraseando-o, precisamos conduzir o pesquisador psicanalista para que a reflexão e o texto autoral emerjam ao longo do processo de pesquisa.


Penso que é essa a marca do grupo de pesquisa que coordeno; todos trabalham muito, são competentes, dedicados, exigentes na medida, com bom humor e acolhimento generoso. Parece que essa composição tem gerado o desabrochar de talentos acadêmicos, psicanalíticos e literários. A poesia do texto, da clínica e da vida estão presentes em quase todas as pesquisas produzidas no caldeirão fervilhante de várias mentes pensando a mesma pergunta de pesquisa, e colaborando com o texto do colega, um autêntico grupo de trabalho. Este livro é fruto desse ambiente, suficientemente bom, de pesquisa psicanalítica na academia e também de implicação e criatividade de Maysa na sua apropriação ética e autoral da teoria.


Maysa se questiona: "em termos psicanalíticos, que motor, mais ou menos invisível, incita ou impede alguém de realizar determinados trabalhos psíquicos? O que motiva a viver e o que provoca o anseio de morrer?". E conduz essas perguntas inspirada por um trecho do poema de Cora Coralina (2013), percorrendo sua investigação no arcabouço teórico kleiniano e winnicottiano: "Como fazer das pedras e roseiras encontradas no meio do caminho, um poema?".


A questão do enigma que conduz o pesquisador surge do exercício clínico, e também das experiências pessoais no psicanalista-pesquisador, tudo começa em casa, diz Winnicott (1970/2011) com sabedoria. É preciso coragem para elucidar facetas do enigma, ou seja, uma pesquisa precisa se abrir para o desconhecido, e não repetir o já conhecido. A teoria precisa estar harmonizada com a personalidade do psicanalista-pesquisador, teoria nos ossos, como escreveu Winnicott (1957/2016). E não uma teoria restrita ao intelecto ou, podemos dizer, uma teoria como um falso self analítico [4].


Penso que o legado freudiano da criação de uma forma de relação ainda inédita na história da humanidade [6], sustentada pelo enquadre, representa uma reserva de humanidade em um mundo no qual o processo de des-humanização parece acelerar, esteja o analista nas instituições, nas praças ou nos consultórios.


Maysa dedicou seu livro à Polly, sua irmã, diria que a força de um vínculo amoroso é o horizonte do objeto bom, um futuro humanizado e sonhado com criatividade e esperança.


Referências


Bion, W. R. (2013). Attacks on linking. The Psychoanalitc Quarterly, 82 (2), 285-300. (Trabalho original publicado em 1959).


Chuster, A. (2018). Serendipidade, capacidade negativa e memória do futuro: pensamentos selvagens em busca de uma descoberta. Berggasse 19 8(2), 18-36.


Chuster, A. (2024). A linguagem de alcance psicanalítico: a diferença transcendental em W. R. Bion. Blucher.


Cintra, E. M. U. & Ribeiro, M. R. F. (2018). Por que Klein? Zagodoni.


Coralina, C. (2013). Vintém de cobre: meias confissões de Aninha (10a ed.). Global.


Freud, S. (2010). A transitoriedade. In S. Freud, Obras completas (Vol. 12, pp. 339-344, P. C. de Souza, Tradução). Companhia das Letras.


Lispector, C. (1999). A legião estrangeira. In C. Lispector, A legião estrangeira, Rocco.


Klein, M. (1991). Inveja e gratidão. In E. Rocha, & L. Chaves (Coords). Obras completas de Melanie Klein - Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). (Vol. 3, Tradução da 4a ed. inglesa, pp. 205-267). Imago; (Trabalho original publicado em 1957).


Meltizer, D. (1988). Apreensão do belo: a mente estética e sua encarnação na cena analítica (M. T. de M. B. Frota, Tradução). Imago.


Mezan, R. (1987). A inveja. Revista Brasileira de Psicanálise, 21(2), 121-136.


Ogden, T. H. (2010). Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos (D. Bueno, Tradução). Artmed.


Pessoa, F. (2001). Quero ignorado, e calmo. In C., Berardinelli (Org.), Poesia completa de Fernando Pessoa. Nova Fronteira.


Ribeiro, M. F. R. (2023). Org. Por que Ogden? Zagodoni.


Winnicott, D. W. (2011). Vivendo de modo criativo. In D. W. Winnicott, Tudo começa em casa (5a ed, pp. 23-40). WMF Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1970).


Winnicott, D. W. (2016). Knowing and learning. In L. Caldwell & H. T. Robinson (Eds.), The collected works of D. W. Winnicott 1946-1951. (Vol. 3). Oxford University Press. (Trabalho original publicado em 1957).




Notas


1 Para o leitor interessado em compreender melhor a pulsão de reparação, veja o tópico 1.2 "Comentários sobre a pulsão de reparação" no livro citado.


2 Renato Mezan (1987) usou esse conto para discorrer sobre a inveja.


3 No grupo de pesquisa que coordeno todos os capítulos são lidos e comentados pelos ppparticipantes.


4 Ideia expressa por Douglas Pereira, comunicação pessoal. Comentário proferido em banca examinadora em 27 de junho de 2025.


5 Arnaldo Chuster (2024) e Thomas Ogden (2010).

 
 
 

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