Resenha do livro Meltzer em São Paulo - Seminários Clínicos
Resenha publicada na revista Boletim Formação em Psicanálise (São Paulo), São Paulo capital, v. VII, n.VII, p. 81-83, 1998. Escrito por Marina Ferreira da Rosa Ribeiro.
Este livro é uma ótima oportunidade para aqueles que desejam conhecer ou se aprofundar no pensamento clínico inovador de Meltzer. O livro é organizado à partir de seminários clínicos e temáticos realizados por Meltzer na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em abril de 1996. Contém também a conferência "Dream Life", realizada no Centro de Convenções Rebouças, nomesmo período - evento aberto ao público. Mesmo para aqueles que participaram da conferência é interessante ter acesso ao texto, pois Meltzer consegue falar muito com poucas palavras, suas frases causam impacto e seu pensamento é instigante.A tradução é cuidadosa e mantém o significado e a estética da linguagem do autor. Meltzer pensa com a ousadia da liberdade e isto faz do seu trabalho algo único e criativo.
"...como analista, você não tem nada a oferecer a não ser opiniões; você não tem explicações para dar; mas tem uma porção de opiniões a oferecer. Isso quer dizer que você tem todo o direito, por exemplo, de mudar de idéia."Ao longo da leitura dos seminários clínicos percebe-se a exuberância clínica de Meltzer. A teoria psicanalítica vai surgindo da prática, e teoria e prática são orquestradas com maestria. Esta característica o torna um teórico consistente, navegando livremente por conceitos psicanalíticos complexos. A leitura revela-se como uma rica fonte de psicanálise aplicada. Uma psicanálise que poderíamos chamar de "psicanálise de última geração", amplamente influenciada pelas gerações Freud-Klein-Bion.
Outro fruto da leitura deste livro é podermos conhecer um pouco do trabalho clínico dos membros da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo - uma intimidade que foi revelada com generosidade, propiciando ricas reflexões. Diante das exposições de material clínico, podemos observar a atitude respeitosa de Meltzer:
"... Na análise existe sempre o problema de respeitar a privacidade seja do analisando, seja do analista."Meltzer revela nestes seminários a facilidade com que transita nas imagens oníricas, tanto de sonhos relatados pelos apresentadores, como de pensamentos oníricos construídos na relação transferência/contratransferência. Meltzer "sonha" a dupla analista/analisando e à partir destas imagens oníricas e muitas vezes poéticas, oferece suas opiniões, e faz questão de destacar que são opiniões, impressões.
O leitor também é brindado com as opiniões de Meltzer sobre o processo analítico e qual a sua função no fim do milênio. Seguem-se algumas reflexões do autor:
"(. . .) Creio que a psicanálise diminui pouco a dor dos processos da vida. Podemos diminuir a confusão, mas temos pouca ou nenhuma capacidade de diminuir as dores fundamentais do viver.";
"(. . .) Como analistas, estamos sempre em busca do sentido das coisas, não somos médicos em busca de prolongar a vida, diminuir a dor etc.";
"(. .. ) Acho que ficou claro para muitos analistas fora dos Estados Unidos (não sei se isso vale também para os Estados Unidos) que a psicanálise tinha pouco a ver com os processos de adaptação social e com os aspectos contratuais e causais da vida mental. Não significa que a psicanálise não possa oferecer ajuda nessas áreas, mas, infelizmente, melhorias na vida emocional e íntima podem resultar numa má adaptação, na medida em que podem levar a uma recusa a qualquer adaptação sentida como degradante para a área íntima."A análise, sob este ponto de vista, não se propõe a resolver conflitos de desenvolvimento, mas oferecer um campo propício para o analisando pensar, e isso nem sempre resulta em adaptação, neste sentido uma análise é revolucionária. Citando novamente Meltzer:
"Bion nos conduz numa direção que considero humanista, a qual reconhece que o homem carrega um fardo, que é o de ter inteligência para ver o problema, mas não para resolvê-lo. Conseqüentemente ele padece de confusão".A partir do imediato vivido na transferência/contratransferência, Meltzer observa os processos de pensamento, ou melhor, da dupla confusão/pensamento. Meltzer também parece ser um humanista, no sentido de reconhecer que o homem realmente carrega um fardo, que é sua condição de humanidade, de ser pensante, condição dolorosa, pois implica em não resolução, na inevitabilidade da dor psíquica.
"( .. ) mas é um fato clínico bastante claro que, quanto mais você se interessa pelo significado da dor, mais tolerância à dor você desenvolve."
Espero que os "petiscos" tenham favorecido um agradável apetite para a leitura de mais um livro de psicanálise, na nossa infindável e prazerosa prática de sermos psicanalistas.

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