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Resenha do livro Bion em São Paulo - Ressonâncias

há 4 horas
5 min de leitura

Resenha publicada na revista Boletim Formação em Psicanálise (São Paulo), São Paulo capital, v. VII, n.VII, p. 85-88, 1998. Escrito por Marina Ferreira da Rosa Ribeiro.


Este livro foi organizado a partir de textos apresentados no simpósio - que teve o mesmo nome - em novembro de 1996, realizado pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Como o próprio título sugere, os textos referem-se às ressonâncias da teoria bioniana, o impacto provocado por suas idéias; acrescido pela influência da presença do próprio Bion em seminários em São Paulo na década de 70.


Os textos denotam o amadurecimento que o tempo e o esforço de um grupo podem trazer para a compreensão e expansão de idéias. A teoria bioniana parece estar incorporada a uma linguagem corrente comum ao grupo, assim como conceitos freudianos e kleinianos - duas outras historicamente importantes influências. O impacto das idéias de Bion também parece ter gerado mudanças na prática clínica. Termos como interpretação são repensados: alguns psicanalistas usam em seus textos o termo formulação. Analista e analisando não possuem mais funções nitidamente diversas, fala-se da dupla analítica, na experiência emocional da dupla.


Em relação a uma psicanálise que se originou do modelo médico é uma verdadeira revolução. Cabe ressaltar que mesmo as idéias revolucionárias de Freud e Klein são melhor compreendidas hoje. O apego às regras de uma psicanálise engessada em conceitos pertence ao passado. Provavelmente este apego foi fruto do receio compreensível dos pioneiros, receio de caminharem em terreno tão desconhecido como o da mente humana e tão próximo de práticas não científicas.


A impressão que tive ao ler os artigos é que ganha-se liberdade para pensar, sem se perder o rigor conceitual e a disciplina, que é condição fundamental de um analista. Outra ressonância é o reconhecimento de que a psicanálise "ultrapassou as fronteiras das instituições oficiais" [1] e que a divulgação do turbilhão de idéias gerado por este grupo pode ressoar e germinar em outros campos. Acredito que um dos objetivos desta publicação também seja este.


No livro mesclam-se autores nacionais e internacionais, em um rico intercâmbio de idéias. Este é dividido em quatro temas que foram os "motes" a partir do qual os autores escreveram, são eles: "Interpretação: Revelação ou Criação?"; "Sexualidade e Pensamento";"Agir, Alucinar e Sonhar" e "Psicanálise: Evolução e Ruptura" .Vinte e sete autores preenchem quatrocentas páginas, vibrando suas ressonâncias particulares.


Seria uma tarefa impossível comentar de forma válida tão rico e vasto material, desta forma escolhi três artigos para resenhar algumas particularidades. O primeiro artigo, de Nilde J. Parada Franch, está inserido no tópico "Agir, Alucinar, Sonhar" e tem como título "Da Paixão às Dores da Alma". Este é um artigo claro em suas articulações e bem organizado. A autora permanece quase que exclusivamente dentro da Teoria do Pensamento de Bion, para descrever as implicações dos conceitos agir, alucinar e sonhar. Entremeados por partes mais teóricas, há exemplos clínicos para ilustrar os conceitos, criativamente designados como "Vinheta Clínica".


O artigo começa abordando a libidinização necessária para que exista um bom encontro mãe/bebê - um encontro apaixonado, atrativo. Descreve o conceito de rêverie materna como promovedor de um espaço interno na mente do bebê. Diz a autora: "...rêverie é uma operação erotizada..." Ou seja, a mãe (analista) deve "...deixar-se penetrar pelas angústias, pelas identificações projetivas do outro (bebê/paciente)...". Esta operação é erotizada pois envolve o desejo mútuo dos participantes da dupla: bebê/mãe ou paciente/analista. A partir deste encontro é possível o pensamento e o aparelho para pensá-lo. O desencontro, a falha na função de rêverie da mãe ou do analista, geraria o agir no sentido do acting. Elementos beta evacuados através do acting e da alucinação. Alucinar que também pode levar ao acting, mostrando as implicações dos conceitos.


A autora compreende o sonhar "...como possibilidade de utilização de um instrumento sofisticado, a serviço da digestão da dor mental...". Neste sentido é desejável que possamos sonhar ao invés de usarmos de mecanismos evacuatórios como o acting e a alucinação, sem perder a referência de que isto não é uma escolha, mas reflexo de uma condição mental.


O segundo artigo localiza-se no tópico "Sexualidade e Pensamento" e tem como título: "Falhas na vinculação: ataques ou deficiências?". A autora é a psicanalista inglesa Anne Alvarez, que destaca da teoria bioniana a seguinte reflexão: "... Bion afirma que o ataque de um paciente ao pensamento do analista pode não ter sido motivado por sadismo, mas pela projeção de sua própria falta de função alfa. A implicação é de uma necessidade desesperada, isto é, de déficit, mais do que de destrutividade sofisticada." A partir desta reflexão a autora vai tecendo seu texto com exemplos clínicos para discutir que em certos casos podemos estar diante de falhas na vinculação por questões de deficiência e não de ataque. Esta distinção é fundamental, pois modifica a cúmpreensão que o analista está tendo de seu paciente e consequentemente suas interpretações ou formulações. São questões micro analíticas que podem ser vividas e observadas na intimidade de um consultório.


O terceiro artigo é de Ana Maria Andrade de Azevedo que faz parte do tópico "Interpretação: Revelação ou Criação", cujo título é o mesmo que o do tópico. Neste texto, a autora faz uma revisão bibliográfica, seguindo uma cronologia, do conceito de interpretação e da compreensão das funções do analista e do paciente. São funções distintas ou ambos compartilham de um encontro? A interpretação é função do analista? Descreve a evolução destes temas em psicanálise, desembocando no pensamento de Bion. Algumas idéias de Bion abordadas pela autora sobre o tema:


"(. . .) Entre paciente e analista constitui-se um campo de relações emocionais intersubjetivas e intrapsíquicas, onde se criam áreas de resistência da dupla, que um trabalho de "working through" do analista pode vir a desfazer. A presença do analista como elemento fundamental na dupla para a elaboração dos aspectos transferenciais e contratransferenciais é também enfatizado por Bion. A interpretação é "construída" a partir dessa relação, caso seja possível diminuir e/ou eliminar as áreas de resistência tanto internas como externas. "( .. ) o melhor colega que podemos ter é nosso analisando."

São ideias impactantes, mas que Ana Maria vai descrevendo e tornando-as mais próximas. Muda-se a compreensão do contexto analítico, sem perder a disciplina e o rigor. Esta polêmica frase de que o melhor colega que podemos ter é nosso analisando, significa que o paciente conhece sua experiência emocional - que esta é única - e pode nos ajudar a compreender o que está acontecendo no contexto de uma sessão. Outro impactante pensamento de Bion é a comparação usada entre uma sessão de análise e um campo de batalha - sob intenso tiroteio (tempestade emocional), precisamos manter nossa capacidade de pensar.


Bion tornou o trabalho do analista muito mais complexo, mas também mais atrativo. O desconhecido não tem fim, mantendo o vértice do desconhecido podemos acompanhar nossos pacientes neste constante trabalho de elaboração.


Espero ter conseguido ser fiel às idéias desenvolvidas nos artigos, objetivando mostrar ao público interessado na obra "vinhetas" de seu conteúdo. É recomendável que os leitores tenham algum conhecimento dos conceitos de Bion.


Notas


 [1] Leopoldo Nosek.

 
 
 

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