“Agora me sinto confortável na minha própria pele": dimensões da presença no setting online [1]
Capítulo 1 do livro Presenças & Virtualidades: perspectives psicanalíticas, publicado em 2023. Escrito por Ana Fátima Aguiar, Maysa Bezerra, Pedro Hikiji Neves e Marina Ferreira da Rosa Ribeiro.

Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são Tão doces e polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela (Gilberto Gil, 1987)A crueza com que a pandemia do coronavírus (Sars-Cov-2/Covid-19) invadiu o cotidiano da população mundial tornou mais duros e penosos os dias da maioria das pessoas. O trabalho de arar o terreno da vida e da clínica passou a ter grandes obstáculos e impedimentos. As incontáveis perdas que cada um precisou (e ainda precisa) enfrentar, mobilizando dimensões econômicas e dinâmicas da mente, despendem em nós um quantum de energia psíquica que nem sabíamos existir. Isso pode ser ilustrado pelos relatos de muitos colegas psicólogos e psicanalistas, que passaram a trabalhar com mais intensidade no período de isolamento social mais rígido, o que aumentou o sentimento de cansaço e exaustão no trabalho executado diante desse novo solo social.
Essa passagem ocorreu de uma forma tão disruptiva que podemos perceber como a modificação do campo cultural altera a prática clínica. Essa circunstância nos remete ao provérbio “em terra alheia, pisa o chão devagar”, pois todos passamos a pisar em um campo dominado pelo vírus, completamente desconhecido, onde foi e é necessário ter cautela, caminhar paulatinamente, preservando uma reserva de energia interna, para sabermos onde estaremos quando dermos o próximo passo. Essa tensão do não saber aumenta ainda mais a sobrecarga emocional.
Para continuar a caminhada no atual território viral, cada um utilizou – no intuito de manter a própria orientação no espaço e tempo – determinados elementos constantes que serviam como organizadores psíquicos diante de tanta turbulência. Alguns hábitos, ainda que de forma adaptada, puderam ser mantidos, visando equilibrar o antigo e o novo, o conhecido e o totalmente incerto e ameaçador. Manter a rotina com horários para trabalho, estudo e para o tão sagrado ócio. Videochamadas com os amigos, momentos para cozinhar ou fazer exercícios. Tudo isso servia de fertilizante para nosso campo mental. Afinal, quando o solo não ajuda pela sua condição, o lavrador deve pensar em diferentes saídas, inventando novas condições de luminosidade, irrigação ou adubagem, e não simplesmente abandonar sua extensão de terra. Da mesma forma, presumimos que há algo a ser criado e preservado nos encontros entre analista e analisando no terreno da clínica, para que os processos de simbolização ocorram e para que a vida psíquica do campo analítico não paralise.
Depois de fecharmos as portas de nossos consultórios, o espaço de trabalho se resumia a um cômodo da casa. Um espaço antes privado, íntimo, mas agora compartilhado. Para o analisando, que nos via através da tela, um campo virtual, no qual a presença passa a ser vivida/sentida por outras vias, outras dimensões. Para a dupla, que continuava a se encontrar, a se relacionar e a se afetar, permanecia um chão comum em que ambos pisavam e se uniam nas dinâmicas de perlaboração psíquica: o campo analítico, tal como a estrela que o psicanalista amarra a seu arado frente à pandemia.
Para pensarmos as sutilezas desse novo espaço remoto, recorreremos ao conceito de campo analítico (1961-1962), criado pelo casal Madeleine e Willy Baranger, psicanalistas franceses radicados na argentina, com fortes influências kleinianas. Os autores enfatizam a implicação do analista no encontro com o paciente por este ser caracterizado como um campo dinâmico e bipessoal (concebido como um espaço psíquico). Dessa maneira, analista e analisando não podem ser compreendidos individualmente, mas sempre a partir do encontro e movimento intersubjetivo específico da dupla.
Para o casal Baranger (1961-1962), o campo analítico deve ser entendido como "uma situação de duas pessoas indefectivelmente ligadas e complementares enquanto está durando a situação e involucradas num mesmo processo dinâmico. Nenhum membro dessa dupla é inteligível dentro da situação sem o outro” (p. 129). O que está em jogo nessa dinâmica é o caráter intersubjetivo, no qual ambos são partes integrantes do processo, e cada subjetividade se entrelaça à outra, formando progressivas transformações da dupla.
A noção construída pelos autores evidencia que, no campo, ambos os sujeitos são passíveis de serem modificados em algum grau pela situação analítica. Por isso, o olhar teórico se aproxima dos meios inconscientes que a dupla utiliza para se comunicar. Os Baranger descrevem que os movimentos transfero-contratransferenciais subjazem a uma fantasia inconsciente básica e compartilhada pelo par que estrutura o campo bipessoal da situação analítica. Essa fantasia, como estrutura dinâmica, atribui sentido a cada posição vivida em distintos momentos pelos sujeitos, a qual pode impulsionar ou obstruir a análise, pois: “tudo o que acontece no campo analítico é fruto do funcionamento tanto da mente do analista como da mente do analisando em complexa interação” (Ribeiro, 2020, p.63).
Ainda utilizando o termo “campo” como metáfora viva, compreendemos que, para colher bons frutos, o campo deve ser semeado. O tempo da colheita poderia ser pensado como o tempo de transformações psíquicas ocorridas a partir da dupla, e o tempo da semeadura como o tempo de preservação daquilo que sustenta essa produção: o enquadre, elemento constituinte e que, ao mesmo tempo, serve como um adubo simbólico do campo analítico. Constrói-se no encontro a partir do estreito contato emocional entre a dupla, com criações conjuntas. Sem o enquadramento, ou seja, sem os acordos de funcionamento do trabalho analítico que abarcam ambos, não há ceifa psíquica e a safra se desvitaliza.
Figueiredo (2011), ao discutir a estrutura e a dinâmica da situação analisante, encontra no analista argentino José Bleger (1967) inspirações que tratam sobre o tema do enquadre na análise a partir do conceito de campo analítico. Dentro de uma delimitação própria, como uma espécie de linha de demarcação, devem existir condições de base para o enquadramento que caminhem juntas a uma cinesia inerente ao processo analítico. Há partes predominantemente imóveis e partes que se movimentam no enquadre clínico, tal como o Figueiredo (2011) postula uma relação entre: “o imóvel dos enquadres, e o processual dos movimentos psíquicos que podem ocorrer dentro desta moldura, entre, de um lado, o processo analítico em sua dinâmica, e, de outro, suas condições de base que, em princípio, devem ser estáveis” [grifos do autor] (p. 139).
O enquadre pode ser entendido como um papel ofertado a uma criança onde nele encontra um espaço que cria as condições para a composição de infinitas possibilidades de desenho. Nele, a criança pode inventar um sol amarelo, um castelo, uma luva ou um guarda-chuva, como nos lembra Toquinho (1983), usando os limites como condição para a transformação e a criatividade. Por outro lado, as partes inconstantes, variáveis do enquadre, e a movimentação da tira elástica da técnica, são igualmente necessárias para formar o campo vivo, espontâneo e não-rígido da análise, onde os processos psíquicos possam ocorrer. Estendendo a metáfora do “campo” do plantio à temática esportiva, elucidamos a questão discutida:
Nenhum jogo pode ser jogado sem as regras constitutivas que delimitem o seu campo, os tipos possíveis e os interditados de movimentação dos jogadores e os valores das jogadas. Ou seja, ainda que a bola seja de couro, as traves de madeira, a rede exista realmente, o gramado feito da mais verdadeira grama e onze marmanjos em cada time, não haverá futebol se não vigorarem as regras que definem o jogo. Pura virtualidade e simbolismo. (Figueiredo, 2020, p. 70)A análise só consegue prosseguir se certos pontos cegos e repetições forem ultrapassados. O enquadre, nesse sentido, é um sinalizador e depósito de elementos primitivos, escamoteados e em estado de latência que ainda não puderam emergir/surgir/ manifestar-se no campo analítico. A estabilidade do enquadre é necessária para a ocorrência da análise, já que é nessa área constante que os elementos psíquicos podem se anunciar.
Apesar de existir uma demarcação e sustentação firme ou, como propõe o autor, “que as regras do jogo sejam bem estabelecidas e sustentadas, os limites bem definidos” (Figueiredo, 2011, p. 139), esse arrimo não deve ser confundido com um esteio de concreto. O enquadre também guarda em si um traço de flexibilidade como possibilidade de mobilizar o que se encontra estancado e movimentar os processos de criação conjunta pela dupla (Figueiredo, 2011)
Em outro trabalho, Figueiredo (2020) propõe a análise do enquadre interno do analista [2], ou seja, há uma disposição ética e técnica da mente do analista que independe do enquadre externo – como cadeira, divã, etc. Essa disposição interior se fundamenta na transferência do analista com a própria psicanálise, portanto, é virtual e estabelece o alicerce dos movimentos transferenciais e contratransferenciais. Ela estrutura-se a partir da internalização da psicanálise e da função analítica – outra variável do campo – como bom objeto interno no analista, construindo uma presença e disposição de mente para exercício de uma escuta flutuante. É justamente esse enquadre que favorece a transferência, a elaboração, liberação e potencialização dos trabalhos psíquicos no rumo dos processos de representação e simbolização. O enquadre cria contornos em um campo de conexões virtuais do intrapsíquico com o intersubjetivo, do interno com o externo.
No campo analítico, cada indivíduo ocupa, necessariamente, um lugar específico nas fantasias inconscientes produzidas pela dupla, de forma que não é possível se isentar do magnetismo inconsciente que o campo produz. Por exemplo, quando um jogador passa a bola para seu parceiro de time no campo de futebol, há de manter o andamento da jogada, seja chutar para outro colega ou mirar para dentro da rede. Isso diminui a possibilidade da bola cair no pé do jogador e esse se eximir ou ficar imune do impacto gerado pelo objeto.
Todos os jogadores estão submetidos às mesmas regras e implicados a um só objetivo: fazer gol. Algo semelhante se percebe quando duas crianças brincam de gangorra em um playground: quando uma se movimenta, a outra permanece parada, evidenciando a interdependência da brincadeira. Entre subir e descer, a sequência é uma modulação dinamizada com e a partir do outro. Ainda no campo dos jogos, compartilhamos a seguinte metáfora do jogo de xadrez que Freud (1913) descreve:
Quem desejar aprender nos livros o nobre jogo do xadrez logo descobrirá que somente as aberturas e os finais permitem uma descrição sistemática exaustiva, enquanto a infinita variedade de movimentos após a abertura desafia uma tal descrição. Apenas o estudo diligente de partidas dos mestres pode preencher a lacuna na instrução. As regras que podemos oferecer para o exercício do tratamento psicanalítico estão sujeitas a limitações parecidas (p. 124).
O campo bipessoal pode ser igualmente pensado como um jogo de xadrez, pois o tabuleiro por si só não caracteriza uma partida, assim como uma sala de consultório não produz inerentemente processos clínicos. Para que essa dimensão de virtualidade exista, é necessário ter duas pessoas implicadas em uma ação conjunta e em constante dinâmica, resguardando as assimetrias devidas. O casal Baranger (1961-1962) descreve essa lógica que se instala na clínica utilizando a metáfora citada:
O ‘tabuleiro de xadrez’ entre eles é uma estrutura compartilhada e cada um deles está agindo em virtude disso, um por meio de comunicações e resistências e o outro por meio de interpretações. Este tabuleiro de xadrez poderia muito bem simbolizar o que chamamos de campo bi-pessoal, enquanto o jogo seria a estrutura do tratamento como um todo. (p. 811)
Assim, os deslocamentos possíveis ao longo do processo são infinitos, nunca existirá uma partida igual a outra. A estrutura do tratamento indicará o início da jogada, mas ambos participantes estarão à deriva sem saber como será o final. É necessária uma disposição das mentes da dupla analista-analisando para que a virtualidade do dispositivo ocorra, ou seja, para que a área intermediária do jogo se sustente.
Nesse sentido, o campo analítico e a dimensão do enquadre são condições virtuais, pois se estabelecem a cada encontro e se desmontam quando a criação do campo e o enquadramento se esvaem (Figueiredo, 2020). Caso as regras do jogo estejam bem desenhadas e os participantes estejam de acordo com as delimitações, é possível acontecer inúmeras jogadas e impensáveis fenômenos no setting.
Nesse constructo, o Figueiredo traz a relevante ideia de que o dispositivo psicanalítico é sempre virtual, seja nos atendimentos presenciais ou remotos. A virtualidade se trata de uma disposição de mente tanto do analista quanto do analisando no encontro clínico, seria "um plano da realidade simultaneamente real e fictício, verdadeiro e ilusório" (p. 66), tal qual o "espaço potencial" do sonho e do jogo do teórico D. Winnicott (1971).
Partimos do pressuposto de que, em cada espaço construído com pacientes distintos, pode-se encontrar, tanto na experiência vivida, remota ou não [3], processos que favorecem movimentos de vitalização ou desvitalização na clínica: para uns, a distância física parece enfraquecer o vínculo, enquanto para outros, mantém e fortalece o enquadre, podendo (re)vitalizar o campo analítico.
Um solo fértil para o sonhar compartilhado: a reverie no setting online
Um devaneio, um estado de sonho da mente. O termo reverie teve sua introdução no contexto psicanalítico nas formulações de Bion sobre a Teoria do pensar, publicada em 1962 em Learning from experience. Nesse contexto, reverie pode ser compreendida como um estado de mente que representa uma capacidade de receptividade da mãe, que empresta sua função alfa [4] para conter os elementos ainda não-pensados na mente incipiente do bebê, para sonhar a experiência e produzir sentidos.
Assim sendo, a mãe tem a importante tarefa de ajudar o bebê a constituir sua mente, a atribuir sentido às suas sensações, iniciando um processo de comunicação com o mundo. A partir das identificações projetivas [5], os conteúdos da mente do bebê são projetados e captados intersubjetivamente pela mãe, que então os metaboliza, possibilitando que esses possam ser representados e devolvidos à mente do bebê.
Nesse sentido, a reverie pode ser pensada como um importante processo que contempla uma forma de comunicação intersubjetiva, tanto na vida quanto na análise. Em ambas há algo a ser pensado dentro de uma dimensão criativa, por parte de ambos os psiquismos, tanto na relação mãe-bebê, quanto dentro do setting da clínica psicanalítica, entre analista e analisando.
Vemos, pela perspectiva bioniana, que a experiência intersubjetiva pode ser fenomenalizada pela reverie, via processos psíquicos capazes de conter e metabolizar as experiências emocionais. Isso ocorre, em parte, pois nossos afetos frequentemente ultrapassam nossa capacidade de representá-los e, por conseguinte, nossa possibilidade de expressá-los por linguagem verbal.
Podemos aqui fazer uma menção ao conceito de pensamentos selvagens, enfatizando a ideia de Bion de que existe um pensamento à procura de um pensador. Pensador esse que se coloca em um estado de mente relaxado e onírico, de modo tal que pensamentos possam brotar.
Compreendemos, a partir da leitura dos textos bionianos, um mesmo componente fundamental para que tal fenômeno ocorra: conexão emocional, abertura, receptividade e capacidade de continência para o encontro, seja entre a díade mãe e bebê, seja entre analista e analisando [6].
A aproximação entre as díades mãe-bebê e analista-analisando, no tocante à experiência da reverie, terá uma maior expressão e desenvolvimento nas ideias de autores pós-bionianos que têm se dedicado a pensar a capacidade de reverie do analista pelo fato deste, numa abertura de mente que muito se assemelha à da mãe com seu bebê, também ser capaz de acolher as identificações projetivas de seu analisando, ou seja, a capacidade de estar ressonante com o que é projetado em si. Logo, se a mãe (assim como o analista) for capaz de conter as angústias do bebê (ou analisando), haverá condições para uma expansão da mente.
Bion (1965) propõe que a experiência emocional do encontro analítico pode contemplar uma série de movimentos sensíveis e genuínos (entre eles, a reverie). Esses movimentos são experimentados pela dupla analista e analisando e criam transformações, promovidas pela dimensão intersubjetiva da comunicação, que se efetiva nesse processo e que culmina na expansão da mente de ambos.
Em uma reunião científica realizada online em junho de 2020, intitulada "Intuição e Reverie no tratamento psicanalítico", Ribeiro apresenta, a partir de um caso clínico, a ideia de reverie como um estado de receptividade no qual, em um primeiro momento, é vivido como um estado extremamente desorganizador, uma experiência de estar à deriva, que também pode levar a um abismo psíquico. Lembrando Bion, a autora diz que o analista está no campo de batalha junto com o analisando, ainda que haja uma assimetria, pois a condução ética é sempre do analista, sendo este o comandante.
A autora narra a experiência de ser arrastada por imagens pictóricas, termo escolhido para representar o que ocorre na reverie, sendo comum nessa experiência a captação de imagens, que parecem ser "pintadas" na mente do analista. Sobre essa configuração do que se passa no fenômeno da reverie, vemos em Ferro (1995, p.71): “O setting fornece a moldura, as emoções da dupla proporcionam a tela e as tintas, as palavras têm função de agregação e organização das mesmas (...)”.
Para Ribeiro (2017), diante do abismo psíquico que pode se instaurar durante uma sessão, é imperativo que o analista possa sustentar um estado de confiança na possibilidade de produção de sentidos. Bion chama essa qualidade de mente de fé [7]. Assim, a mente do analista está constantemente sendo desafiada a enfrentar novas situações clínicas a partir de um estado mental sem memória, sem desejo, sem necessidade de compreensão prévia (Bion, 1992). Cada paciente e cada sessão de análise produzem sempre uma experiência inédita, que implica no analista a tarefa de desbravar um território complexo e enigmático da experiência emocional conjunta.
O que é captado da experiência emocional entre paciente e analista permite a transformação de elementos brutos em elementos passíveis de serem pensados pela dupla analítica. A imagem, por si só, já é uma forma na qual a emoção, inicialmente em estado bruto, foi apreendida.
A capacidade de reverie da mãe/analista pode ser pensada como uma abertura receptiva e sintônica das projeções e emoções, que capta aspectos sensoriais e não sensoriais. Essa postura de acolhimento, tradução e significação é característica do analista que abarca os atos de ver, escutar, sentir e sonhar com o analisando.
A partir dos fundamentos teóricos bionianos, outros autores contemporâneos puderam ampliar o olhar para a ideia do sonhar na sessão de análise. Um dos autores contemporâneos que mais se dedicou a compreender o fenômeno da reverie na clínica psicanalítica foi Thomas Ogden. Para o autor, o analisando se vale da mente do analista, para que então possa sonhar seus sonhos não sonhados e interrompidos, o que se traduz na possibilidade de associar, simbolizar e elaborar experiências emocionais.
Ogden (2013) apresenta a ideia de que as reveries podem ser compreendidas como ruminações do analista, devaneios, sensações, percepções, fantasias e imagens que se formam a partir do encontro intersubjetivo. Assim sendo, dificilmente essa experiência é discutida coletivamente, justamente por se tratar de aspectos, não só do paciente, mas do próprio analista, conteúdos esses muitas vezes desconcertantes e até mesmo constrangedores.
Segundo ele, o uso da reverie exige do analista muita tolerância à sensação de estar à deriva, pelo contato com o incognoscível, o desconcertante estado de vazio, que muitas vezes se apresenta em sensações ou imagens. O manejo da reverie deve ser metabolizado, e não interpretado como conteúdo manifesto de um sonho.
A reverie é colocada pelo autor (2013) em uma condição análoga a uma bússola emocional. Através dela somos levados a experimentar uma infinidade de sensações e sentimentos ainda não desbravados, caminhos ainda desconhecidos. Dessa forma, ainda que essa seja uma experiência quase sempre desconcertante, vivida como uma distração, desatenção ou falha na sua função analítica, a reverie pode ser um importante instrumento técnico na sala de análise.
Se o analista tiver condições psíquicas de se permitir ser afetado e modelado pelas comunicações afetivas que o paciente desperta, estará se defrontando com um valioso conteúdo interno do outro, que se expressará por sentimentos vividos e construídos no campo da intersubjetividade, no vínculo transferencial-terapêutico (Ogden, 1982).
Podemos, portanto, considerar a reverie como um fenômeno intersubjetivo, amparado na concepção que Ogden cria de terceiro analítico (1998). No livro Sujeitos da Psicanálise (2018/1977), ele investiga quem é o sujeito [8] da interpretação, e quais são os sujeitos presentes na sala de análise. Nessa empreitada, propõe que existe um terceiro sujeito, intersubjetivo, que emerge a partir do contato entre analista e analisando.
O autor argumenta o conceito de terceiro analítico a partir da apreensão da relação inicial mãe-bebê, sustentado pelo arcabouço teórico winnicottiano, considerando que há um sujeito intersubjetivo, um estado fusional entre dois, desde o princípio da vida, entre uma mãe e seu bebê. O “sujeito bebê” pode surgir apenas a partir do momento em que ele consegue diferenciar-se da entidade “mãe-bebê” inicial. Essa discriminação entre eu e outro, no entanto, nunca é completa, e há sempre um campo de indiferenciação na relação entre sujeitos. Assim como existe a categoria “mãe-bebê”, coexistindo em tensão com as subjetividades “mãe” e “bebê” enquanto subjetividades separadas, existe também a categoria intersubjetiva terceiro analítico, coexistindo em tensão dialética com as subjetividades “analista” e “analisando”.
O autor compreende que não há uma fronteira diferenciada entre sujeitos, há uma área de indiferenciação e permeabilidade sempre presente. Ou seja, pensamentos fugidios, sensações somáticas passageiras ou devaneios de um terapeuta são sempre vividos imersos em uma relação intersubjetiva. Podemos considerar cada um desses fatos como produtos de uma tensão dialética entre três termos: a subjetividade do analista e suas idiossincrasias; as de seu analisando, manifestadas a partir de suas comunicações verbais e não verbais; e do terceiro analítico, formado a partir da maneira com a qual os dois interagem a cada momento, e, por sua vez, moldam a interação.
De acordo com Ogden (2013, p.26), estar disponível para o encontro representa um empreendimento emocionalmente desgastante em que analista e analisando perdem, em certa medida, suas capacidades de pensar e de criar enquanto indivíduos separados. Diz ainda que as pessoas de antes já não existem mais após um trabalho de análise ser realizado. Ambos são transformados no, pelo, e com o terceiro sujeito analítico. Assim, analista e analisando já não podem mais ser compreendidos isoladamente.
Gestando e criando (com) Leon [9]
Leon iniciou a análise pouco tempo antes do isolamento social decorrente da pandemia ser decretada. Desde a primeira sessão, sua aparência parecia mortificada, apática, o que era corroborado pelo seu corpo magro, esguio, muito branco e com olheiras escuras. Suas expressões gestuais e faciais eram apagadas, a voz sempre muito sóbria, o que provocava um sentimento de monotonia e tédio durante os nossos encontros. Até quando ele ria, parecia-me artificial e cansado. Isso ganha sentido quando, sessões depois, confessa que era mais fácil permanecer morto do que vivo.
Pouco falava diretamente dele e dos seus sentimentos, e isso me deixava em alguns momentos bastante aflita. Sentia que não conseguia alcançá-lo e acessá-lo, muitas vezes questionava para mim mesma: “O que ele está fazendo aqui? Parece que não há nenhuma demanda!” ou: “O que eu estou fazendo aqui? Sinto que não estou fazendo nada. Será que estou ajudando?”.
Quando os atendimentos começaram a ser remotos, por cerca de dois meses foram realizados através de chamadas por vídeo, mas logo depois Leon pediu para fazer sem câmera, apenas por ligação. Após algum tempo, Leon comentou que apagava as luzes do quarto no momento da sessão e ficava no escuro, disse que se sentia mais à vontade assim. Depois de algumas sessões trabalhando dessa forma, percebi que essa forma de ajustar sua iluminação referia-se a um aspecto mais regredido do seu funcionamento. Mantivemos os encontros dessa forma: eu com a luz acesa, ele com a luz apagada.
Em uma das ligações por voz com Leon, ficamos em silêncio por um certo tempo. Sentia sua respiração tão forte e tão próxima, que era como se ele estivesse do meu lado, corpo a corpo, respirando perto do meu ouvido. Por uns segundos fui “teletransportada” para outra dimensão, à imagem de uma mulher grávida, escutando os batimentos do seu bebê. Era uma imagem que se misturava: ora sentia que eu era a mulher grávida, como se eu e o bebê, “encarnado pelo paciente”, fossemos um só; ora via como se fosse uma imagem diferenciada de mim. Essa imagem me lembrou a forma de esculturas de mulheres grávidas, em que o bebê ficava aparente. Percebi-me, por segundos, em uma realidade paralela, suspensa, como se fosse uma alucinação ou um sonho e senti um estado de completude muito grande, misturado com sentimentos de amor e ternura.
O silêncio vivido parece ter sido necessário para essa experiência ter acontecido. Lembro, ainda, que a gravidez é um processo que necessita de um corpo para existir. No modo remoto com Leon, a corporeidade e sensorialidade se fizeram presentes de uma forma muito intensa. Talvez, a ligação por voz, considerando haver uma diminuição nos estímulos sensoriais e visuais das chamadas por vídeo ou dos atendimentos presenciais, favoreça um maior afloramento da sensibilidade.
Essa vivência pode ser ilustrada tomando-a como uma espécie de “sonho da vigília” (Bion, 1996/1962) a partir da seguinte música da banda Nação Zumbi (2014):
Ontem eu tive esse sonho/ Nele encontrava com você/ Não sei se sonhava o meu sonho/ Ou se o sonho que eu sonhava era seu/ Um sonho dentro de um sonho/ Eu ainda nem sei se acordei/ Desse sonho, quero imagem e som/ Pra saber o que foi que aconteceu/ Hoje de manhã eu acordei/ Sem imagem e sem som.Confesso que nunca havia tido uma experiência desse tipo na minha vida pessoal ou profissional. Fui tomada por um sentimento de satisfação, misturado a um estranhamento e perturbação. Diante disso, perguntava-me, confusa, o que havia acontecido naquele momento. Assim como apontado por Ogden (2013), o processo analítico envolve: "a criação de novos eventos intersubjetivos inconscientes que nunca antes existiram na vida afetiva, seja do analista seja do analisando" (p. 174). A partir desse episódio, indaguei a Leon se ele sabia algo de sua história enquanto bebê, ou sobre a gravidez da sua mãe. Lembrava apenas que a gravidez havia sido difícil e que o descreviam como um bebê que não sorria.
Um bebê que não sorria… Lembro-me das primeiras impressões que Leon me causara: apatia, desvitalização. Recordo-me também que, por haver uma certa monotonia em nossos encontros, às vezes eu era tomada por um sono muito grande. Era assim que meu corpo entrava (ou saía, desligava-se) da cena.
Certa vez, sonhei que estava fazendo um atendimento com ele por ligação e acabava me distraindo, começava a conversar com outras pessoas, a fazer outras atividades, e ele perguntava se eu ainda estava ali. Eu dizia que sim, mas ele me confrontava relatando que tinha escutado tudo que eu estava fazendo. Fui tomada por uma grande culpa, pedi muitas desculpas para ele, mas a sensação era de que eu tinha feito um ato irreparável e de que, por isso, ele iria interromper a análise. Depois desse dia, fiz um esforço para me manter mais atenta e desperta nos nossos encontros.
O processo analítico prosseguiu e continuávamos a nos conectar pela voz. Após algumas sessões dessa experiência devaneante, Leon foi transparecendo uma maior vivacidade. Eu sentia mais vida em sua fala, a ponto dele conseguir me dizer: “Agora estou me sentindo confortável na minha própria pele”. Talvez essa frase destaque a confiança gerada no vínculo, confiança essa reforçada, em outro momento, a partir da enunciação: “Consigo ser eu aqui. Diferente de como sempre foi, agora eu tenho vontade de viver”. Chegou a explicitar que nossas sessões estavam promovendo uma expansão de seu mundo afetivo.
Para chegar a esse momento subjetivo de abertura para o mundo, Leon precisou antes estar confortável em sua própria pele, passar por uma “gestação psíquica”, a partir do contato intersubjetivo, para que dela derivasse um “nascimento” de si mesmo e o desenvolvimento de uma nova faceta do eu.
A análise de Leon favoreceu a construção de um espaço que, ainda que remoto, era imbuído de uma presença sensível e potente que pôde acolher e permitir-lhe criar a si mesmo e, consequentemente, sentir-se vivo. A partir da noção de terceiro analítico, podemos pensar a experiência de devaneio apresentada no caso clínico como: o "produto de uma dialética única produzida por entre as subjetividades separadas do analista e do analisando dentro do setting analítico” (p.60). O devaneio da gravidez experimentado pela analista, uma reverie complexa, sensório-imagética, foi gerada pelas forças do campo, ou seja, pelos elementos intersubjetivos que fazem parte da dinâmica do terceiro ogdeniano, a tensão dialética entre as subjetividades de analista e analisando.
Ainda que a analista pudesse tê-la considerado, à priori, como uma distração, ou resistência, ao aproximar-se do vivido foi possível identificar uma comunicação profunda e intersubjetiva, captada pela reverie, que vinha sendo transmitida por elementos ainda sem forma: a respiração lenta, encadeada, o escuro do quarto, o bebê que não sorri, o materno, o cuidado. Nesses detalhes, um ouvido sensível às sutilezas da chamada de áudio percebe o que há de compartilhado e intui a importância para aquele paciente de viver um silêncio a dois (ou, para nos mantermos fiéis à ideia de terceiro analítico, um silêncio vivido a três).
Em 1997, Ogden sugere verificar as formas de vivacidade (aliveness) ou mortificação (deadness) do encontro e valorizar a sensação da sessão estar viva ou morta como indicadores do trabalho inconsciente realizado no encontro. No início das sessões há a sensação de futilidade: “O que ele está fazendo aqui? Parece que não há nenhuma demanda!” ou: “O que eu estou fazendo aqui? Sinto que não estou fazendo nada. Será que estou ajudando?”, ou seja, um sentimento de análise “parada”, “morta”, sem sentido.
Viver a reverie da gestação e o modo de relação indiferenciado que ela engendrou possibilitou uma abertura do campo de significados possíveis e abriu espaço para a vida. Lembrando do relato já citado pelo paciente: “Eu consigo ser eu aqui. Diferente de como sempre foi, agora eu tenho vontade de viver”. Essa experiência foi possibilitada através de um campo online fecundo. O arado do manejo analítico, preparado para as modificações sutis do campo, e a capacidade para receber as reveries criadas pela dupla, possibilitaram que outros terrenos da vida de Leon se abrissem para serem semeados. Assim, a continuidade do trabalho pôde produzir novas colheitas de frutos que ainda permanecem em gestação.
Um encontro possível, de uma presença viva [10], que precisava estar ali, para ele, com ele. A analista que, entre estados de monotonia e devaneios, permitia-se escapar pelas imagens provocadas pelo encontro, marcadas pela desvitalização que acompanhava Leon em sua jornada até ali. Ainda que planasse, a analista-pessoa-real também buscava aterrizar e fazer-se presente na sessão, atenta, aberta e sensível. Uma pessoa real e presente que “permite" a Leon (re)nascer, vir-a-ser real e, também ele, estar mais presente, "encarnado" em sua própria pele.
Eis o elemento essencial para que a virtualidade do encontro pudesse ser vivida por ambos: presença marcada e sentida via ressonância da voz, da respiração, do corpo materializado na escuta. Retomando o que foi descrito no início do texto, o campo analítico e o enquadre, no modo remoto, favoreceram a experiência do “sentir-se real” do paciente, pois serviram como um adubo para que Leon entrasse em contato com partes antes inacessíveis do seu campo interno.
Notas
[1] Este capítulo foi desenvolvido pelos autores a partir de uma vinheta clínica ocorrida no setting online, em virtude do início do isolamento social gerado pelo COVID-19, e apresentado no IV Simpósio Nacional do Grupo de Trabalho “Psicanálise e Clínica Ampliada”: Presenças e Virtualidades.
[2] É importante notar que a noção de enquadre, articulada por Figueiredo (2020), é originalmente proposta por Green a partir do conceito de estrutura enquadrante (1967, 1993).
[3] Não utilizamos o termo "presencial" como um modelo oposto à experiência remota, pois entendemos que há qualidades de presença nos dois campos, o remoto e o não remoto. Haveria, portanto, múltiplas dimensões de presença no campo analítico, seja ele online ou não.
[4] Função alfa é a tarefa de metabolizar os elementos beta, transformando-os em elementos alfa, elementos que, por sua vez, ainda não têm significado por si só. A partir da reverie os elementos alfa passam por outra transformação: de um elemento sem forma para uma imagem, ou seja, por meio da reverie, ganham um contorno imagético. Assim, a tarefa da função alfa é a de transformar as impressões sensoriais e emoções brutas, em elementos alfa, que depois são transformadas em imagens e então podem ser pensados e armazenados na memória.
[5] Apesar de essa terminologia não ter sido criada por Bion, ele foi o primeiro a lhe conferir um importante significado. A identificação projetiva é por ele teorizada como uma forma primitiva de comunicação entre o bebê e o mundo. Ribeiro (2016) enfatiza a ideia de que “a identificação projetiva compreendida por Bion é, também, uma atividade básica da mente humana para comunicar emoções e passa a ser considerada a origem do pensar. Além de esse autor ressaltar o aspecto de comunicação humana fundamental, aloca o conceito no campo da intersubjetividade.” (p.46). A autora ressalta também que o conceito kleiniano de identificação projetiva reflete, predominantemente, os aspectos do intrapsíquico, enquanto Bion amplia o olhar ao campo interpessoal.
[6] Para Bion a experiência da reverie é compreendida apenas entre o bebê e sua mãe, com exceção de uma única referência em seus textos inéditos publicados em 2014, sobre o uso da reverie pelo analista como um pensamento em busca de um pensador (Ribeiro, 2022).
[7] Bion (1970/1973) postula o termo fé a distinguindo da concepção religiosa. A fé em Bion refere-se a um estado mental, sem memória e sem desejo, no qual o analista não busca um sentido. Há uma intuição, uma confiança em que este emergirá, abrindo sentido ao abismo psíquico gerado pelo incognoscível na experiência analítica.
[8] No original em inglês, Subjects of Analysis, fica clara a ambiguidade do termo sujeito, entre os sentidos de “coisas/fatores que podem ser sujeitos à análise” - sentido passivo - e “qual o sujeito presente em análise” - sentido ativo.
[9] O caso fora apresentado a partir de uma dimensão ficcional para preservar a identidade real do paciente em questão, sem que a verdade emocional do encontro fosse alterada (Tanis, 2015). A vinheta parte da experiência clínica de um dos autores, por isso será descrita em primeira pessoa.
[10] Termo em referência ao livro de Alvarez “Companhia viva” (1992/2000).
REFERÊNCIAS
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