Apresentação: Lendo Thomas Ogden
- 8 de mai.
- 17 min de leitura
Apresentação do livro "Por que Ogden?" (2023) com autoria de Marina F. R. Ribeiro [1].

O livro terá fracassado se não se tornar um objeto de estudo para o leitor, e se a própria leitura não for uma experiência emocional. Minha esperança é que esta seja uma experiência que conduza a uma ampliação da capacidade do analista para mobilizar os próprios recursos de conhecimento, observação clínica e construção teórica (Bion, Cogitações, 1992/2000, p. 269)
Inspirada nesta epígrafe de Bion, levanto algumas questões norteadoras deste livro: é possível conhecer um autor por meio dos seus textos? Ao lermos textos podemos ler pessoas [2]? Um texto pode gerar ressonâncias em seus leitores que passam a ser presenças? Um texto psicanalítico pode gerar uma experiência emocional transformadora em seu leitor? A escrita psicanalítica pode ser uma experiência transformadora? Escrever é uma forma de pensar? Há um terceiro analítico que se forma entre o leitor e o escritor? Escrever é estar em estado favorecedor de rêverie?
Ogden (2010) escreve sobre o gênero literário da escrita psicanalítica, o amálgama entre a escrita teórica e clinica e a personalidade do autor. Ogden considera a escrita psicanalítica uma forma de pensar, ou seja, não escrevemos o que pensamos, mas ao escrever, estamos pensando algo inédito:
(..) Este "estado de escrita" é muito semelhante a minha experiência de devaneio no setting analítico. Quando estou em um "estado de escrita", estou em estado de elevada receptividade à experiência consciente, mas ao mesmo tempo procurando incluir na experiência uma escuta sobre como eu poderia fazer uso literário do que estos pensando e sentindo. (Ogden, 2010, p. 148)
O livro apresentado parte da ideia de que estamos escrevendo sobre as ressonâncias em nós da leitura dos textos de Ogden. O grupo de autores foi inspirado pela proposta metodológica de uma leitura transitiva e criativa, descrita em vários textos de Thomas Ogden. Foram convidados colegas que estudam a obra de Ogden e alguns pós-graduandos [3] dos quais sou, ou fui, orientadora e supervisora.
Recentemente, em um texto sobre metodologia psicanalítica de pesquisa, proponho a expressão "fragmento intersubjetivo", que seria um fato selecionado, ou um conjunto de fatos, que emergem na mente do pesquisador-psicanalista em estado de capacidade negativa (sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia). Essa proposta metodológica parte da leitura de vários textos de Thomas Ogden, entre outros autores. Retomo o que escrevemos nesse texto, pois apresenta de forma clara a proposta de leitura dos textos de Ogden neste livro:
Nos artigos do livro "Leituras criativas", e em inúmeras outras publicações, Thomas Ogden (2014) compartilha com seus leitores suas experiências com a leitura das obras de outros autores, os múltiplos atravessamentos que delas advêm e que enriquecem seu cotidiano como psicanalista. Tece, assim, uma relação viva entre as produções que circulam no campo da Psicanálise e os relatos de casos emblemáticos de sua clinica. Ogden (2014) chama esta experiência na qual novos significados são produzidos de "leitura transitiva", no sentido de interpretar o texto de modo a reconhecer nele algo que não se encontrava explicitamente antes. Para o autor, ler jamais pode ser uma experiência imparcial ou passiva. O texto, "marcas pretas da página" (p. 22), portaria em si possibilidades de alteridade, nessa fronteira borrada entre o fim da voz do leitor e o inicio da voz do texto, referindo-se inclusive a esta indiscriminação em sua mente no que tange a seu pensamento próprio e ao conhecimento que possui a respeito de Bion, por exemplo. Para além disso, podemos acrescentar à interpretação dos textos lidos a concepção de que, em uma única leitura, múltiplas vozes se implicam. Ogden (2003) já dizia não conseguir ler mais Luto e melancolia (Freud, 1917/1969) da mesma maneira depois de ter se familiarizado com a teoria das relações de objeto de Melanie Klein. A voz da autora aparece no texto freudiano, bem como se dá em um processo de pesquisa cuja metodologia porta esta qualidade polifônica, em que a serialidade é substituida por um conjunto de vozes capazes de iluminar um conceito ou um fenômeno clínico: "Em outras palavras, a influência não é exercida apenas por uma contribuição anterior em outra; contribuições posteriores afetam nossa leitura das anteriores (Ogden, 2003, p. 594, tradução nossa). Este trânsito livre pelas temporalidades é essência da opacidade de memória e desejo proposta por Bion (1965/2014, 1967/2014a, 1970/2014), uma vez que, para o autor, o futuro e o passado são partes do presente (Ogden, 2003, p. 595). Ao discorrer sobre o inquietante que é ler Bion, Ogden por vezes utiliza trocas de preposição que indicam a emergência dialógica, a virada ontológica e a subversão espaço-temporal gerada por seus textos. Trata-se mais de "estar em" e menos de "falar sobre" (Ogden, 2014, p. 153). Assim, ao refazer a leitura das Notas sobre memória e desejo de Bion repetidas vezes (Ogden, 2015, p. 286), Ogden descobre que o texto porta a ideia de se fazer algo com ele (make with it) ao invés de extrair algo dele (make of it). Não se trata de depreender o que o Bion "quis dizer", mas como Bion atravessou Ogden e o tipo de uso que este faz desta experiência de leitura na teoria e na clinica. Ogden descreve o árduo trabalho de reencontro com o texto de Bion até que esta nova condição ontológica na relação com o texto pudesse se dar, lembrando-nos da antiga postura de Charcot observada atentamente por Freud ao longo de tantos dias: "Costumava olhar repetidamente as coisas que não compreendia, para aprofundar sua impressão delas dia a dia, até que subitamente a compreensão raiava nele" (Freud, 1893/1969, p. 22). A voz de Charcot, sobredestinada ao pensamento de Ogden (2014), nos leva a entender que atentar às mesmas "marcas pretas" impressas na página de um texto, repetidas vezes, faria com que algo novo surgisse dele. Da mesma forma como Ogden (2003) é capaz de encontrar Melanie Klein no texto de Freud, é possível encontrar ao longo do movimento psicanalítico uma série de autores nascendo dentro da obra freudiana, ou então múltiplos nascedouros de importantes teorias em textos bastante distintos. Cada autor ilustra a trama de conceitos desde um lugar muito singular, imbuído de um percurso clínico e analítico. Thomas Ogden é um autor que apresenta repetidamente um formato de escrita que circunscreve um ponto da teoria psicanalitica e sua leitura criativa e transitiva desta, aproximando subsequentemente as tramas teóricas de narrativas clínicas. (Ribeiro, Flores e Silvestre, 2022)
É a partir desse lugar singular de leitura que estamos compondo este livro: como os textos de Thomas Ogden nos atravessam, nos habitam, e colaboram com o nosso pensamento teórico e clinico, criando um tipo de acervo pessoal fértil para a escuta clínica e para a escita psicanalítica. Consideramos que a leitura de um texto pode ser uma experiência emocional transformadora, e a escrita psicanalitica pode ser uma forma de pensar e sonhar nossas experiências emocionais como analistas. Em outras palavras, o fragmento intersubjetivo é um amálgama, uma quimera de experiências únicas, clínicas, de leitura, de formação e da trajetória de vida de cada um dos autores. O texto é emoldurado pela ética no cuidado com os conceitos, sendo que há pontos de indecibilidade no texto no qual não sabemos mais de quem é a ideia. Seguindo a provocação de Bion (1977/2014): pensamentos não tem proprietários, no entanto, podem e devem ser eticamente referidos na sua autoria. Nosso esforço neste livro segue na direção de um pensamento criativo livre emoldurado pela ética conceitual e pela potencialidade de transformação de um texto psicanalítico. São textos implicados, singulares, autorais, e podemos perguntar: poderia ser diferente ao escrevermos sobre como fomos habitados pela obra de Thomas H. Ogden?
A seguir, relato brevemente a minha história com os textos de Ogden, como este livro foi sonhado e realizado, e apresento sucintamente os capítulos a partir da escrita dos próprios autores desta coletânea.
O primeiro contato que tive com os textos de Ogden foi em 1996, ano da publicação em português do livro Sujeitos da Psicanálise, em um grupo de estudos com Ignácio Gerber. Ao longo dos anos, fui acompanhando sua vasta produção. No início dos anos 2000, comecei a estudar de forma sistemática seus textos e os de Antonino Ferro em uma atividade coordenada por mim no Instituto Sedes Sapientiae intitulada Dialogos Abertos. Fazíamos reuniões cientificas para estudar autores ainda pouco conhecidos e convidávamos colegas para conversarmos sobre os textos.
Em 2006, comecei a ministrar aulas na pós-graduação (Instituto Sedes Sapientiae - São Paulo) usando os textos de Ogden e Antonino Ferro. O curso de especialização chama-se Para além da Contratransferência, o Analista Implicado e é oferecido até hoje. Atualmente, é ministrado por uma colega, Gina Tamburrino, também autora desta coletanea.
Em 2016, comecei a ministrar uma disciplina na pós-graduação do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo: Aportes ao pensamento clinico psicanalitico contemporâneo de Thomas Ogden e suas origens na obra de Melanie Klein e W.R. Bion. Ao longo dos semestres nos quals a disciplina foi ministrada, tive a colaboração dos colegas Daniel Kupermann [4] e Nelson Coelho Júnior, autores neste livro. A disciplina ampliou o interesse pelos textos de Ogden e favoreceu pesquisadores-psicanalistas a se dedicarem ao estudo da obra.
Em função de ter ministrado um número considerável de aulas sobre os textos de Ogden, a forma como apresento a obra e o desenho do livro foi algo que eu não sabia que sabia (Ogden, 2003). Emergiu naturalmente, como uma rêverie originada a partir da experiência do terceiro analítico, que também acontece na leitura de textos, criando uma intertextualidade própria, única e autoral.
A seguir faço uma breve apresentação dos capítulos. Sendo assim, nas próximas linhas é a voz e a escrita dos autores desta coletânea que irão gerar ressonâncias nos leitores.
Abrindo a coletânea, temos Alberto da Rocha Barros, que nos brinda com uma visão consistente e panorâmica da vida e da obra de Ogden, além de nos informar sobre dados biográficos.
Ao final, temos uma linha do tempo detalhada sobre a vida e as publicações; material inédito e de referência para futuros pesquisadores, fruto de algumas entrevistas de Alberto Rocha Barros com Thomas Ogden.
O capítulo "Tradição e Inovação: o estilo de Thomas Ogden", de Nelson Ernesto Coelho Junior, apresenta as ideias centrais da teorização psicanalítica de Ogden por meio de dois de seus principais conceitos: a posição autista-contigua e o terceiro analitico, e, também, de duas vinhetas clínicas do autor. O objetivo do capítulo é destacar o estilo psicanalítico do autor norte-americano, a partir de uma permanente tensão entre tradição e inovação, tanto na teoria quanto na clínica psicanalítica.
Nelson considera que Ogden demonstra como pode ser fértil, sem ser eclética, uma forma de pensar e trabalhar as ideias do campo psicanalítico para além das fronteiras rigidas que marcaram o período das grandes escolas em psicanálise. Por fim, o capítulo procura estabelecer que Ogden está "longe de ser apenas um continuador, um protetor da tradição, mas também longe de ser um criador que produz uma ruptura aguda com a tradição, [e que assim] indica um caminho que simultaneamente valoriza a tradição e se arrisca nas inovações necessárias e vitalizantes de um campo teórico e clínico" (Coelho Júnior, 2023).
Adentrando os textos teóricos, temos o capitulo de Érico Brunno Viana Campos, que discute o legado freudiano apresentado como referência na obra de Ogden. Além disso, o autor expõe uma discussão metodológica consistente para psicanalistas pesquisadores:
Poucos são os autores que abordam Freud de forma mais livre, sem a marca da deferência, mas principalmente, a partir de uma posição efetivamente mais dialógica, ou seja, em um debate mais horizontalizado em que as diferenças são postas para trabalhar nas contradições de sentido no âmbito do discurso teórico-conceitual, mas também em seus estratos clínico e literário. Thomas Ogden é um autor dessa estirpe e que o faz em um estilo diferenciado. Trata-se efetivamente de um autor da psicanálise contemporânea, o qual, portanto, transcende as matrizes escolásticas do campo e dialoga com diferentes tradições em uma perspectiva original. Sua obra é relativamente extensa no tempo e no peso de contribuições, sendo multifacetada, embora marcada pre alguns eixos de questões e interesses. (Campos, 2023)
Janderson Farias Silvestre Ramos e Elisa Maria Ulhõa Cintra, ne capitulo "Ogden leitor de Melanie Klein: entender Klein para transcendê-la", consideram que grande parte do diálogo subjacente ao de senvolvimento da teoria das relações de objeto foram reações às ideias kleinianas. De certo modo, essa afirmação se estende ao próprio Ogden. Parte de seu trabalho pode ser pensado como uma reação e uma apropriação criativa de certas ideias kleinianas. Ele afirma que é preciso entender a teoria kleiniana para transcendê-la. As leituras que Ogden propõe dos conceitos de fantasia inconsciente, identificação projetiva, posição esquizoparanoide e depressiva apontam para esse caminho da transcendência. Ele realiza, ao mesmo tempo, um tributo à tradição kleiniana e se apropria dela de maneira criativa para a construção de suas próprias ideias.
O capítulo "Ogden leitor de Bion: da teoria do pensar ao pensamento intuitivo", escrito em parceria com Davi Berciano Flores, apresenta algumas das principais ressonâncias da obra de Bion na teoria e na clinica de Ogden. Nele, são rastreados e pormenorizados os quatro princípios do funcionamento mental apresentados por Ogden, um dos textos de inspiração bioniana na obra do autor. De cada principio, é possível derivar aspectos da teoria de Bion que ressoam direta ou subliminarmente na obra de Ogden (na visão dos autores), percorrendo um caminho que parte da psicanálise epistemológica rumo à psicanálise ontológica, demonstrando que há, na obra de Ogden, uma consideração autoral pela obra de Bion.
A escrita do capítulo inspira-se ontologicamente em ambos os autores. Entre eles, há em comum a qualidade de considerar a leitura de um texto como uma captura transitiva da verdade entre leitor e autor, ou seja, um texto não pode ser lido sem levar em consideração o viés autoral do leitor. Ao fim do capítulo, para além de terem sido apresentadas evidentes e possíveis articulações entre os autores, é possível identificar uma metodologia de pesquisa, apresentada por Bion e encarnada na obra de Ogden. Desenvolvimento este que foi realizado em outro texto, já citado, A pesca do fragmento intersubjetivo na pesquisa psicanalitica (2022).
Pedro Hikiji Neves e Daniel Kupermann exploram a relação entre Ogden e Winnicott, contextualizando a maneira com que o primeiro transforma a obra do segundo, em um processo de criar/encontrar. Tomando a noção de sujeito como fundamento e apoiando-se em termos exteriores ao texto original, como dialética, intersubjetividade, rêverie e terceiro analítico, Ogden sugere outro vértice de leitura dos textos winnicottianos. Os autores propõem compreender os diálogos de Ogden e Winnicott em três eixos: um primeiro epistemológico, relativo ao entendimento de que o sujeito é intersubjetivamente constituído; um segundo teórico-clínico, relativo à descrição conceitual do que acontece entre analisando e analista no setting psicanalitico; e um terceiro estético, cuja ênfase é a descrição fenomenológica de como o analista é afetado pelo encontro clínico. Esses três eixos têm relação direta uns com os outros, pois a noção de sujeito intersubjetivo (eixo epistemológico) engendra uma compreensão de teoria da clínica (eixo teórico-clínico) que, por sua vez, é utilizada para interpretar as vivências específicas do analista na sessão (eixo estético).
No capítulo "Da identificação projetiva ao conceito de terceiro analítico de Ogden: uma pensamento psicanalítico em busca de um autor", apresento a passagem e transformação do conceito de identificação projetiva (Klein, 1946) para o de terceiro analitico (Ogden, 1994) por meio da análise e discussão de publicações do autor, em que faz ele articulações tanto com conceitos de Winnicott quanto de Bion. Para Ogden, os conceitos são metáforas que nomeiam diferentes aspectos do funcionamento mental, e as transformações conceituais estariam, então, nos pequenos deslizamentos de sentido, nas sutilezas do texto e no uso diverso das expressões. Destaco algumas ideias:
Ogden (2010) escreve que não somente as contribuições anteriores afetam as posteriores, seguindo uma ordem cronológica, mas que a leitura de autores contemporâneos altera a nossa leitura de textos clássicos da psicanálise.
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Se compreendemos o inconsciente, nosso campo de observação, como imanência e não como oráculo (Ogden, 2010), podemos pensar que as teorias são formas de capturar um sentido, uma metáfora conceitual, como expressa Ogden (2016).
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Considerando a ideia de que os pensamentos não têm proprietário, mas surgem justamente pela contínua interação entre as pessoas, e são referidos a partir de seus autores, podemos conjecturar que os conceitos são criados, descobertos e nomeados por diferentes autores, em diferentes épocas, e no a posteriori de diversos textos, em complexa intertextualidade (Paz, 1984). Um autor, no campo da psicanálise, talvez seja aquele que tem a habilidade de captar, conceitualizar e narrar fenômenos clínicos e, além disso, articulá-los com os paradigmas teóricos existentes, criando novas tramas conceituais, novos atravessamentos de paradigmas.
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Ogden (2010, 2013, 2016) escreve em vários momentos que a psicanálise precisa ser inventada a cada paciente, ou seja, como analistas, estamos reconstruindo a cada sessão, de forma viva, nossa trama teórica, nosso fio de Ariadne. Como estudiosos e pesquisadores da psicanálise, cabe a nós historicizar e articular os conceitos, atravessando paradigmas com rigor e ética, nesse universo transmatricial criativo da psicanálise contemporânea.
Seguindo o horizonte aberto pelo conceito de terceiro analítico, temos dois textos. O primeiro, intitulado "Um encontro com Ogden no terceiro analítico", de Gina Tamburrino, parceira nos estudos da obra de Ogden desde o início dos anos 2000, ela aborda o conceito através de uma experiência clínica reveladora da forma singular e única como o terceiro nasce no setting analitico, uma escrita clínica e teórica implicada.
E, seguindo pelo conceito de terceiro analítico, temos o capítulo "Supervisionando com Thomas H. Ogden: narrativas a partir do terceiro analítico", no qual Idete narra a vivência analítica dentro do vínculo de supervisão com Thomas H. Ogden. Idete Zimerman Bizzi escreve que a trajetória de sete anos de convivência, em sua riqueza única e repleta de significados, é sintetizada através da descrição de dois momentos marcantes do trabalho em supervisão. A autora narra uma circunstância de mudança do setting de supervisão, por ocasião de sua visita a São Francisco (Califórnia), com alguns encontros de trabalho presencial, no consultório do Dr. Ogden, que permitem um aprofundamento na densidade emocional dessa colaboração e conferem ao vínculo de supervisão analítica uma vivacidade ímpar.
O segundo momento relatado no capítulo descreve a elaboração de um caso clínico de análise a partir do conceito de terceiro analítico, que permite vislumbrar um tanto do conteúdo e um tanto da forma do pensar analítico do Dr. Ogden, em plena e viva construção. Ambas as circunstâncias priorizadas na escrita desse texto tentam retratar o interjogo dialético entre a dimensão epistemológica e ontológica da psicanálise, presentes na relação de supervisão analítica com Thomas Ogden. Idete ilustra a riqueza dessa experiência, em especial no que tange à coerência que se depreende, nos encontros de supervisão, entre a obra desse grande pensador e sua forma genuina de trabalhar.
No texto "Do limbo ao lume: a rêverie em Ogden", escrito conjuntamente por Ana Fátima Aguiar e Pedro Hikiji Neves, é apresentado ao leitor a noção de rêverie. A rêverie é uma experiência decorrente de elementos sensoriais e imagéticos que emergem na relação intersubjetiva. Seu uso exige do analista tolerância ao sentimento de estar à deriva, em contato com o desconhecido, com o incognoscível da experiência. Ainda que possa causar sensações tão inquietantes, Ogden compara a rêverie a uma bússola emocional, a partir da qual o analista é levado a experimentar uma infinidade de sensações que são, simultaneamente, dele, do analisando e do terceiro analítico. Por meio de uma psicanálise viva e fluida, o autor nos coloca diante de uma clínica implicada, que se estrutura na presença e na escuta receptiva do humano e na vitalidade da experiência analítica. Imbricada na perspectiva de que a análise precisa ser uma experiência viva, a intersubjetividade é um tema central do pensamento ogdeniano. A partir dessa compreensão, em uma escuta aberta e receptiva ao outro, é possível captar a sonoridade entre notas, os ecos entre palavras, sonhar o indizível e o impensável presentes na clínica. Quando se pode sonhar, pode-se viver a própria experiência emocional e, assim transformá-la.
Ao final do livro, temos dois textos sobre linguagem e os processos de vitalidade e de desvitalização, ambos escritos por Fátima Flórido Cesar. No primeiro, "As palavras aladas de Thomas Ogden..."
(...) discorremos sobre o pensamento de Thomas Ogden no que se refere à compreensão das ideias de vitalidade e de desvitalização no processo analitico, mas, primordialmente, sobre a importância da linguagem do analista: do que aqui chamamos de palavras aladas. Introduzimos um primeiro sentido para tais palavras com asas: a imprecisão e a incerteza instaladas no que várias vezes nomeamos de palavras aladas possibilitam que seja mantido o vivo do fenômeno, com rasgos e deslizes, ou seja, a experiência do encontro analítico. Palavras e silêncios vivificadores ao libertar as amarras do anseio de tudo saber. O verbo que voa e escapa e que apenas na recusa das certezas sustenta a experiência viva. (Cesar e Ribeiro, 2023)
No segundo texto, "Uma reflexão sobre os discursos direto, tangencial e non sequiturs de Ogden e a busca da vida não vivida. Visitação quando as palavras vêm ao nosso encontro",
Assistimos a palavras de afetação sensível que se dão na acontecência do encontro humano e que emergem de dimensões inconscientes: é o que aqui chamamos de visitação. São modos do ser ou palavras que nos visitam arrebatadoramente, quando então somos capturados por estados de assombro que, se nos disponibilizarmos à condição de hospitalidade (sendo hospitaleiros para que a festa da novidade possa acontecer), nos tornaremos habitados, grávidos de possibilidades infinitas.
Fazemos uso da imagem metafórica da visitação para explicitar como, através das palavras no entre da dupla analitica, emerge uma verdade emocional, tal como aparece em vários relatos clínicos de Thomas Ogden. Escolhemos inicialmente um desses relatos, que se apresentam no texto O medo do colapso e a vida não vivida (2016a)... Vamos destacar o vigor transformador das palavras que vão direcionando para o que o autor assinala como próprio do existir humano e do adoecimento psíquico: porções de vida que não foram vividas e que precisam ser integradas para o individuo vir a ser o que é. Também apresentaremos vinhetas clínicas nossas, esperando que, das entrelinhas dos relatos, sobressaiam tanto o que aqui denominamos como "visitação" quanto a busca conjunta da dupla pela vida não vivida. Buscaremos alinhavar ideias de Ogden que envolvem linguagem, verdade e vida não vivida... (Cesar e Ribeiro, 2023).
Ao organizar e escrever este livro, tive como horizonte o desejo de que a escrita dessa pequena comunidade de autores transcorresse de modo criativo, ético e rigoroso nas apresentações e articulações conceituais. Os autores da coletânea foram habitados pela presença que emana dos textos de Thomas Ogden, como este o fez com vários autores seminais da psicanálise.
Fazemos votos de que nosso leitor igualmente se disponibilize a uma leitura criativa, que seja vivida como uma experiência transformadora e que passe a fazer parte do acervo próprio a cada analista.
A anunciação de palavras aladas deixa vestígios em nós e compõe o nosso ser a cada experiência analítica vivida e sonhada. É possivel encontrar presenças vivas e vitalizantes nas marcas pretas de uma página em branco?
O leitor nos dirá!
NOTAS
1 Psicanalista. Professora doutora do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP), Coordenadora do LipSic: Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea. Autora de diversos livros e artigos, entre eles: "De mãe em filha: a transmissão da feminilidade" (2011). Coautora de: "Por que Klein? (2018)" e "Chuva N'Alma. A função vitalizadora do analista" (2023). Organizadora e autora de "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos" (2023).
2 "Um filósofo se preocupa com a compreensão e a incompreensão, mas não pode fazer o que um psicanalista pode fazer: isto é, observar e ouvir uma pessoa enquanto ela está compreendendo e enquanto ela não está compreendendo. Esta é uma das razões pelas quais não estou muito interessado em teorias psicanaliticas. Se alguém for treinado, pode procurá-las em um livro, mas a prática da análise é o único lugar onde é possível ler pessoas, não livros. É, portanto, uma pena gastar tempo que poderia ser gasto na leitura de uma pessoa, lendo um livro" (Bion, 1973/2014, p. 63, tradução nossa). Bion aborda na epígrafe citada no início deste texto um vértice diferente da frase acima; no qual faz uma crítica ao excesso de teorias psicanalíticas que funcionam como um tipo de proteção das turbulências emocionais geradas pelo encontro entre duas personalidades.
3 Ana Fátima Aguiar, Davi Berciano Flores, Janderson Silvestre e Pedro Hikiji Neves são meus orientandos. Fátima Flórido Cesar é pós-doutoranda sob a minha supervisão. Psicanalistas pesquisadores que se dedicaram nas suas pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado a um estudo aprofundado da obra de Thomas H. Ogden.
4 Agradeço o convite e o incentivo de Daniel Kupermann para organizar esta coletânea.
5 Agradeço a Alberto Rocha Barros pela prontidão e o entusiasmo com que aceitou o convite para participar desta coletânea.
REFERÊNCIAS
BION, W. R. (1992). Cogitações (P. C. Sandler, trad.). Rio de Janeiro: Imago, 2000.
BION, W. R. (1973) Brazilian lectures. In: The complete works of W. R. Bion. London: Karnac, 2014. v. VII, p. 1-197.
FREUD, S. (1893). Charcot. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 3. p. 22-29.
FREUD, S. (1917). Luto e melancolia. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 14. p. 271-296.
KLEIN, M. (1946) Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos. Tradução de A. Cardoso. Rio de Ja-neiro: Imago, 1996.
OGDEN, T. H. (1994) Os sujeitos da psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.
OGDEN, T. H. O que é verdadeiro e de quem foi a ideia? Revista da SBP-dePA, v. 5, n. 2, p. 393-419, 2003. Original em: Int J Psychoanal, v. 84, p. 593-606.
OGDEN, T. H. Sobre sustentar e conter, ser e sonhar. In: Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.
OGDEN, T. H. Leituras criativas: ensaios sobre obras psicanalíticas seminais. Traduzido por T. M. Zalcberg. São Paulo: Escuta, 2014.
OGDEN, T. H. Intuiting the truth of what's happening: on Bion's notes on memory and desire. The Psychoanalytic Quarterly, v. 84, n. 02, p. 285-306, 2015,
OGDEN, T. H. Reclaiming unlived life experiences in psychoanalysis. London/New York: Routledge, 2016.
PAZ. O. Os filhos de barru. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
RIBEIRO, M. F. R. FLORES, D. B., RAMOS, J. F. A pesca do fragmento intersubjetivo na pesquisa psicanalitica. In: Pesquisas acadêmicas em psicanálise reflexões teóricas e ilustrações práticas. São Carlos: Pedro & João Editores, 2022. https://pedroejoaoeditores.com.br/2022/wp-content/uploads/2022/05/Pesquisas-academicas-em-Psicanalise.pdf (último acesso 14 de janeiro de 2023).



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