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O Arcaico em Klein

  • há 15 horas
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Capítulo V do livro "Por que Klein?" (2018) com autoria de Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.



Há um aspecto que nos conduz diretamente ao núcleo da herança kleiniana: sua linguagem. Trata-se de uma forma de comunicação que nos permite um contato direto com a dimensão concreta e corpórea da fantasia infantil, por sua constante referência aos órgãos e fluidos do corpo. E talvez justamente esse aspecto possa, em um primeiro momento, levar a uma imediata rejeição de suas ideias, "assustando" tanto o interlocutor leigo como também os próprios psicanalistas...


De fato, o psicanalista francês Victor Smirnoff (1985) conta-nos do "choque" que viveu ao ler Melanie Klein pela primeira vez. Mas, apesar de tudo, destaca que foi ela quem nos ensinou a atribuir palavras justas à criança que está presente também nos adultos. Smirnoff acredita que não sabemos lidar com a criança em nós: ora a mimamos demais, ora a per seguimos além da conta: "... a criança em sua onipotência, sua raiva, seu desespero, seu desamparo, seu abandono, seu combate com os fantasmas, os bons e os maus objetos introjetados, triturados, destruídos ou hipostasiados" (p. 84-5). Ou seja, mais do que proteger ou perseguir a criança em nós, é preciso dar voz a ela; é preciso escutá-la.


Então, para lermos Klein e nos apropriarmos de suas ideias, é especialmente importante ter em mente um procedimento que permanece vivo até hoje: observar como brincam as crianças, de que maneira cuidam ou querem tomar posse de seus objetos de amor e ódio; como aparecem os desejos de controlar, de machucar e ferir seus brinquedos e seus companheiros reais e imaginários; de que forma encenam suas necessidades, medos e angústias, seu prazer de dominar os outros, exercendo seu poder ou revelando o impulso de negar a separação das pessoas amadas.


Para nossa autora, as dimensões oral, anal, uretral e fálica da sexualidade infantil permanecem exercendo seus efeitos ao longo de toda a vida, como uma camada ou um substrato inferior na composição do erotismo adulto e continuam a se expressar por meio das mais diversas fantasias ligadas ao devorar, expulsar, estreitar, controlar ou submeter-se.


Através das observações pessoais e clínicas do brincar e da vida psíquica de crianças e bebês, a psicanalista nos leva a entrar em contato com o campo do arcaico, contribuindo sobremaneira para a compreensão do funcionamento inconsciente mais profundo e primitivo. De fato, o infantil pede uma escuta analítica e uma capacidade metafórica do psicanalista. Isto nos coloca diante de uma preocupação central de Klein: a ênfase na experiência emocional do analista e dos pacientes durante a sessão, que, somada ao aprender com a experiência, foi amplamente desenvolvida por Bion [1] e Winnicott e, depois, por Thomas Ogden, Christopher Bollas, Antonino Ferro, entre outros.


Há, porém, um paradoxo de difícil resolução no centro de toda experiência emocional: a necessidade de entrar em contato com as emoções em sua dimensão bruta e violenta, que revelam necessidades arcaicas de apropriar-se do outro para capturá-lo, e, por outro lado, a necessidade de ser livre e dar liberdade ao outro, tornando-se capaz de separar-se do infantil e de estar só. Trata-se do paradoxo entre o desejo de ser amado e reconhecido, e o desejo de ser livre, e ao mesmo tempo obedecer à exigência ética de cuidar e realmente enxergar o outro em sua singularidade.


Podemos dizer, então, que o enigma do amor e de suas violentas capturas está no cerne do pensamento de Klein. Ela se tornou sensível mais do que qualquer outro analista, ao paradoxo apontado por Freud o de sermos todos uma espécie de porcos-espinhos, sempre sedentos de viver a experiência do amor, movidos pelo que chamou de uma sensucht, uma ânsia voraz de amar e ser amado, um desejo de intimidade e de proximidade afetiva. E, no entanto, ao chegar perto dos outros, aparecem os espinhos e descobrimos a face obscura da natureza humana, a violência e a possessividade. "O homem é o lobo do homem", afirma Freud (1930/2010, p. 77) em O mal-estar na civilização, lembrando-se da famosa frase de Hobbes. Trata-se de nossa quase irredutível violência, e de nossa necessidade infantil de tomar posse do outro e torná-lo um escravo.


Levinas (1996, p. 79), o filósofo, propõe discutir a ideia de Aristophanes de que cada ser humano está sempre em busca de sua "outra cara metade". Na verdade, ou antes de mais nada, ele busca dominar o outro, mesmo quando chama isso de amor. Eis um ponto de concordânca amargamente pessimista, com o Freud de O mal-estar na civilização, e com a ideia de Melanie Klein acerca da pulsão de domínio e da violência que caracteriza a mente primitiva. Os psicanalistas, no entanto, cultivam a esperança de que seja possível reduzir e transformar uma parte dessas tendências hostis e a isso dedicam o seu trabalho.


A relação primordial com a mãe e a "situação edípica"


Decifra-me, ou te devoro.

(Esfinge, no mito de Édipo)


Ferenczi (1924/1990) chamava de "anfimixia" [2] de erotismos a presença simultânea de todas as formas de erotismo, dos aspectos orais, anais, uretrais, fálicos, sádicos, fetichistas, enfim, o caráter polimórfico da sexualidade infantil.


Inspirando-se no psicanalista húngaro, Melanie Klein compreendeu então que, no mundo arcaico e inconsciente, há uma infiltração dos erotismos, cada um deles "tingindo" o outro com a sua forma, como se a oralidade transmitisse ao dinamismo anal algo de sua fantasia ligada ao devorar e ao consumir, e a analidade, com sua ligação à musculatura e à pulsão de domínio, transmitisse ao âmbito oral algo de sua lógica, que podemos resumir nos termos "reter-expulsar", "aproximar-afastar". Essa formulação a levou a conceber a mesma ideia de uma "infiltração" do pré-genital no erotismo genital adulto e no dinamismo do complexo de Édipo, em um movimento que faz conviver as relações duais e as que se inserem em um campo triangular. A separação entre as etapas fica assim menos nítida e permite usar a metáfora de Freud de uma paisagem em que diferentes tipos de vegetação se sucedem, com áreas mistas.


Foi Melanie Klein, entretanto, que, antes de qualquer outro analista depois de Freud, teve a intuição de que existe um triângulo edípico incipiente desde os primeiros meses de vida. Embora as primeiras relações de objeto sejam predominantemente duais e orais, com grande indiferenciação entre o bebê e a mãe, um primeiro registro de diferença, de alteridade, começa a insinuar-se muito cedo. A psicanalista se deu conta de que as sensações desagradáveis que são atribuídas à mãe ou ao ambiente materno por parte do bebê são os registros que constituem o seio mau.


No inicio da vida, forma-se então uma triangulação incipiente entre o bebê, o seu objeto de amor e de satisfação e o objeto mau. Exemplificando: o bem-estar de ser amamentado e embalado pode ser interrompido por uma cólica intestinal, ou por algum outro estimulo desagradável que se interpõe ao idílio da dupla mãe-bebê, introduzindo-se, através do desconforto, um terceiro elemento dissonante que quebra a continuidade da vivência de satisfação. Ou seja, no horizonte da dupla mãe-bebê está precocemente presente um terceiro, e o idílio está sendo sempre ameaçado por uma interrupção.


Klein, com sua intuição clínica, evidenciou a importância do corpo e da interação do bebê com o corpo da mãe, em formas primitivas. O hoje que é visto como algo intrínseco às investigações psicanalíticas, nas décadas de 1920 e 1930 foi considerado extremamente ousado e incompreendido; porém, em sua posterioridade, acabou sendo mais desenvolvido na obra daqueles que a sucederam.


Tanto Winnicott como Bion vão investigar o inicio da vida psíquica a partir dessa relação primordial com a mãe, nas décadas de 1950 e 1960. Winnicott elaborou os conceitos de mãe ambiente (1958/1988), mãe suficientemente boa (1957), preocupação materna primária (1958/1988) e Bion (1962/1991c) usou o modelo mãe-bebê para construir a teoria do pensar [3].


Nos primeiros momentos de vida, a mãe não é percebida como separada do corpo do bebê; porém, na época do desmame, entre o quarto e o sexto mês de vida, os momentos de frequente ausência materna tornarão possível o seu próprio reaparecimento como figura separada. Em outra palavras, no momento em que se dá a experiência de ausência da mãe, tem início o complexo de Édipo arcaico (KLEIN, 1928/1997). A própria ausência da mãe cria uma nova compreensão de sua presença, que começa a se destacar e se deixar discernir fora da união simbiótica. É sobre a experiência da mãe ausente que o pai ou outros cuidadores vão se tornar mais perceptíveis, justamente pela estranheza criada, quando aparecem no lugar da mãe.


Podemos compreender melhor a precocidade da triangulação edípica a partir deste trecho do artigo de Cintra e Figueiredo (2004, p. 28):

Os personagens desse triângulo ou drama edípico precoce são a criança - cujo ego começa a constituir-se de forma mais nítida no momento mesmo em que pode perceber a mãe como objeto total - a mãe - que começa a ser reconhecida - e o estranho - cuja existência é dolorosamente descoberta justamente porque vem assinalar a ausência da mãe.

Nesta perspectiva, o pai é o primeiro estranho-familiar. O objeto primário para meninos e meninas é a mãe, sendo que no horizonte afetivo da criança-e-sua-mãe surge o pai, imediatamente após a precoce percepção que o bebê tem da mãe como um outro (objeto total). O "pai" é, de início, este lugar ou horizonte em que a mãe desapareceu. Dizendo de maneira diversa, o pai é experenciado primeiramente como um estranho - ele ainda é a não mãe.


A precocidade da triangulação edípica marca e distingue, para o infans, o pensamento de Klein (1928/1997). O bebé é impelido, pela frustração oral imposta pela mãe, desde o desmame, a voltar-se para outras fontes de satisfação, e aí encontra o pai. Esse movimento se dá concomitantemente à posição depressiva, conceito que será articulado por Klein em 1935 e 1945, como explicaremos adiante. Petot (1988, p. 49) afirma que o ego "foge e distribui"; isto é, ele foge da frustração e distribui seus investimentos para além do objeto primário.


Podemos afirmar, portanto, que o estado de fusão e indiferenciação do início da vida não se mantém de forma absoluta, e são as falhas do idílio com o objeto primário que fazem surgir a não mãe, lugar de onde começará a se tornar visível o pai e depois dele o mundo. Estes portadores da triangularidade - a dor, o desconforto e o pai - aparecem no horizonte externo da mônada original entre mãe e bebe, ali onde se dá o desencontro; na verdade, em qualquer idade há sempre certo desencontro entre o sujeito e seus objetos. Ora, é a partir desse desencontro que bebês e adultos imaginam a chamada cena primária. É mais fácil compreender essa fantasia inconsciente, inscrita no psiquismo desde o início da vida, se supusermos que, no momento de quebra da plenitude, a experiência de plenitude que não se encontra mais lá é projetada para fora, para um lugar imaginário onde estaria supostamente acontecendo. É esse movimento para fora que cria a cena primária - uma festa inconcebível de prazer - na qual estão representados, ao mesmo tempo, a plenitude, a dor ligada à perda da plenitude, a nostalgia dessa perda e o desejo de resgatá-la.


Neste lugar fictício, o sujeito passa a ocupar o lugar de terceiro excluído, posição esta necessária para que possa ocupar, em outro momento, o lugar do primeiro e do segundo incluídos, e para que possa desenvolver a capacidade de pensar e sentir, como deixaremos mais claro abaixo.


Foi a esta triangularidade originária que Melanie Klein (1926) deu o nome de "situação edipiana", associando-a à multidão de experiências que interrompem a experiência de satisfação. A plenitude da gratificação continua sendo desejada, porém é deslocada para outro lugar: pertence agora ao campo da memória, da nostalgia e da incessante busca de que possa ser de novo alcançada em algum momento futuro; ou seja, foi transferida para o plano da fantasia e, mais tarde, do pensamento.


Para Klein (1928, 1932 e 1935), antes da entrada no complexo de Édipo propriamente dito, tal como descrito por Freud, a criança vive a "situação edipiana", o vislumbre de que a mãe tem outras fontes de prazer. Isso se dá quando a mãe se ausenta ou falha, e a criança se vê invadida pelas questões: para onde foi?; com quem está agora? Essa situação imaginária e pouco nítida antecipa a entrada no complexo de Édipo propriamente dito, entre três e cinco anos de idade.


No dizer de Figueiredo (2009, p. 41), "Nesta medida, há uma situação triangular precoce e incipiente, pouco nítida, como limite da bem-aventurança". A bem-aventurança e o idílio primário precisam encontrar um limite, tanto na realidade como na fantasia. Na realidade, o pai e os outros objetos que estão funcionando na função de terceiro precisam dar sustentação e viabilizar a relação dual entre o segundo - a mãe - e o primeiro - o bebê - que estão envolvidos na onipotência narcisica primordial.


A relação dual, por maior que seja o seu apelo, contém em si uma força de atração que também gera muita angústia: a de mergulhar e perder-se no outro. A presença do pai e dos que exercem a função de terceiro dá sustentação à mãe, para que esta dê sustentação ao bebê, e ao mesmo tempo, coloca um limite à tendência materna de fundir-se com o bebê e exercer sobre ele um controle absoluto, ou seja, ele a protege das angústias de engolfamento. Essa tendência materna a "devorar" o outro e o desejo de submergir n' "a coisa materna" (LACAN, 1959-1960) são tendências que podemos associar à Esfinge, no mito de Édipo com a sua injunção: Decifra-me ou te devoro.


Enfim, talvez o aspecto mais enriquecedor da contribuição de Klein para a compreensão da "travessia e dissolução do complexo de Édipo" tenha sido aproximar a elaboração do Édipo a um processo de luto e separação, aproveitando toda a reflexão psicanalítica já existente, desde 1915, a respeito do luto e da melancolia. Dessa forma, foi possível pensar uma travessia edípica de acordo com os processos mais saudáveis do luto e no outro extremo, os casos de travessia extraviada, que se aproximam dos quadros da melancolia, da paranoia e da esquizofrenia.


Ao mesmo tempo, a estratégia de pensar sempre em termos de "situações" e "posições" que agrupam angústias e defesas ofereceu a Klein um caminho mais flexível que lhe permitiu compreender as infinitas combinações e montagens que cada criança cría para haver-se com suas necessidades, demandas, desejos, defesas e angústias, em sua inserção no mundo familiar e em sua construção de um lugar no mundo.


Esta maneira de pensar em termos de angústias, defesas e nos modos de relação de objeto permitiu que a autora fosse discernindo, montando e desmontando a posteriori os elementos formadores de complexo edípico como um jogo de blocos, que teria início desde o desmame pela criação e destruição de diferentes formas da "situação edipiana".


A situação edipiana pode então se organizar ou de maneira mais defensiva ou mais estruturante; neste último caso, torna-se possível desconstruir o narcisismo primário e aceder aos processos de simbolização Na verdade, Klein não utiliza muito a noção de narcisismo, pois quer enfatizar a importância das relações de objeto desde o início da vida. O que aqui chamamos de narcisismo primário corresponde em seu pensamento à posição esquizoparanoide e aos "estágios iniciais do conflito edipiano" à luz das ansiedades arcaicas (KLEIN, 1928, 1932 e 1945).


A pergunta fundamental que permanece sendo decisiva em todas as linhas psicanalíticas - é: "Como sair da onipotência narcísica e das figuras combinadas e confundidas onipotentes, tal como dispostas na fantasia inconsciente?" (FIGUEIREDO, 2009, p. 42).


Em termos kleinianos, um sinal de que estamos na vigência dos estágios iniciais do conflito edípico é a presença das figuras parentais combinadas, que unem o pai e a mãe em uma relação que exclui tudo e todos, de forma absoluta. Essa relação é fantasiada segundo a dinâmica sádica, violenta, intensa e louca que corresponde à desmesura da sexualidade oral, anal, uretral do erotismo muscular, em suas formas primeiras.


Então, quando a criança se sente excluida por parte da figura dos pais combinados, a dor da frustração intensifica o ódio e a voracidade que são projetados no casal parental, participando da construção da desmesura ideal desta figura. Um exemplo da violência que pode aí ser gerada está no filme brasileiro Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund: em determinado momento, um menino criado em um ambiente delinquente entra armado em um motel e vai metralhando todos os casais que lá se encontram, em uma atualização violentíssima desse tipo de fantasia. A vivência seria que o casal parental celebra uma festa de inconcebível prazer, vivida pela criança como uma exclusão radical e manifestando que a sexualidade adulta aparece aos olhos infantis como enigmática, excludente e violenta, pois se reveste da própria violência infantil contra tudo isso. Para se contrapor ao sentimento de exclusão da sexualidade adulta, que aqui tem o valor de metáfora de todas as outras exclusões que este menino enfrentou, só resta praticar o ato mais radical de destruição.


A este respeito, Figueiredo (2009) destaca: "Na cena primordial fantasiada cria-se o objeto todo-poderoso, protetor absoluto e terrorífico, detentor de todos os atributos e capacidades, o interior da mãe com um pênis interno" (p. 42). Esse objeto autoerótico e autossuficiente reúne e condensa as mais intensas fantasias de prazer, violência e poder.


Na verdade, Melanie Klein cria um modelo de fantasia: os pais combinados - mas, para a sua construção, não há necessidade de ter presenciado nenhuma relação sexual sadomasoquista, ou outra qualquer. A fantasia pode surgir apenas da convivência com uma mãe narcisista e autoerótica, o que já é suficiente para alimentá-la. Outras experiências que podem criá-la são a figura de um ditador, de uma gangue de criminosos, ou a convivência em um ambiente fundamentalista que discrimina e exclui outro grupo social, como pudemos observar antes dos genocídios dos séculos XX e XXI.


Queremos com isto assinalar que basta que se crie uma figura monstruosa, detentora de todos os ideais de poder e excelência e de todas as ameaças de exclusão, para que se diga que estamos diante da figura dos "pais combinados".


Às vezes, apenas a combinação entre o estado de desamparo de bebê, contemporâneo a um ambiente que falha de forma mais radical e violenta, é o suficiente para gerar a fantasia dos pais combinados. Podemos dizer que o superego arcaico em Klein, com suas violentas injunções, recriminações e depreciações, tal como aparece na melancolia, seria outro exemplo desse objeto fantasiado e, por vezes, experimentado. No caso dos ditadores, o que parece conferir a eles alguma credibilidade é o fato de oferecerem uma proteção absoluta a seus seguidores, o que é objeto de intenso desejo; porém, em troca de uma obediência radical, como no caso da jihad dos muçulmanos.


Tudo o que dissemos acima está relacionado, então, às formas mas arcaicas de aparecimento de uma "triangularidade" pouco discriminada na qual as figuras do segundo e do terceiro se encontram, ainda, ameaçadoramente amalgamadas, lançando sombra sobre o eu.


A posição esquizoparanoide seria um primeiro passo no sentido de organizar essa intensidade, construindo figuras de mãe e de pai boas más, ou seja, dissociadas. Podem ser criadas então diversas relações do pais, superidealizando a mãe para fugir de um pai "mau" ou o contrário disto. Os kleinianos falam dessas configurações defensivas em que a triangulação não aparece nítida, que para se tornar visível, precisa dar lugar às integrações da posição depressiva.


Assim, para haver resolução edípica, as figuras materna e patema precisam se tornar ambivalentes, boas e más - precisam ser diferenciadas e estabelecer entre si relacionamentos de aliança terna e de erotismo. O sujeito precisa abrir mão das fantasias incestuosas, do desejo de formar um relacionamento eletivo e idealizado com a mãe ou com o pai, eliminando o rival, e entrar nos mecanismos de filiação, experimentando estados relativos de discriminação, união e de separação.


Se for possível realizar a elaboração de várias posições depressivas ao longo dos cinco primeiros anos de vida, estaremos já no domínio de complexo de Édipo, tal como descrito por Freud. Isso torna possivel a criação de um casal parental benigno, que tem uma aliança baseada em ternura e erotismo e que se diferencia entre si, unindo-se e separando-se de forma não violenta. Ao mesmo tempo, pai e mãe excluem os filhos da relação erótica e os incluem na aliança parental que dá sustentação e acolhimento. Isso seria uma descrição precisa do bom objeto a ser introjetado, trazendo importantes consequências para os futuros destinos das relações afetivas da vida adulta, ensinando-nos a lidar com as demandas de intimidade e de liberdade nos vinculos de amizade e de troca sexual e amorosa.


A criança terá de aprender a lidar com a diferença entre relação sexual e intimidade terna e poderá e poderá passar de uma dependência absoluta dos pais a uma dependeência relativa. Isso será necessário com seus parceiros futuros, conquistando níveis de liberdade em situações de apego: ela terá de ser capaz de excluir o outro em certos momentos e se deixar excluir pela pessoa amada, para que possam ser preservadas as liberdades individuais e uma moderação constante dos desejos de dominar e de ser dominado, os quais não desaparecem por completo na sexualidade adulta, mas precisam ser transformados e sublimados.


O bom objeto introjetado como um casal parental não combinado permite também que as angústias arcaicas de separação e de engolfamento, com seu potencial de ameaça de aniquilação, possam se transformar em angústia de castração e culpas que são mais passíveis de elaboração. Abrem-se, então, possibilidades de reparação não maníaca, pois angústias mais brandas podem se transformar em atos de verdadeira reparação através do aprender a estar só, a cuidar (concernimento) e a se deixar cuidar, pelo trabalho e pelas infinitas ofertas culturais.


Um ponto muito importante da elaboração da posição depressiva é aceitar a presença de um terceiro - o chamado outro do outro ou seja, o outro do objeto primário, pois isso ensinará as vantagens de aceitar ocupar o lugar de terceiro em uma relação. Ser o filho excluído da sexualidade parental é a base da capacidade de pensar, pois o pensamento só poderá se constituir como uma atividade de observar e simbolizar se houver a ocupação do lugar de terceiro. Diante da ausência da satisfação e da ausência do objeto é que poderão ter início os processos de representação e de pensamento. São as sucessivas separações e seus enigmas que dão origem à época das perguntas da criança: de onde vem os bebês?; do que são feitos?; onde eu estava antes de nascer?, e da necessidade de desenvolver as capacidades cognitivas e autorreflexivas para dar conta dos mistérios do mundo.


O sujeito em constituição se torna, assim, sujeito que quer conhecer o mundo e também objeto a ser conhecido por si mesmo e pelos outros. Ele precisa se mover para dentro e para fora das relações afetivas através da posição de terceiro, o que lhe permite circular entre os diversos lugares - saindo do lugar de protagonista e voltando a ele em momentos alternativos para enxergar de longe, com perspectiva, e ver-se de fora, através do olhar dos outros e do seu olhar identificado com o olhar alheio; trata-se de refletir e refletir-se a si mesmo, a partir da exterioridade.


É, pois, a ocupação da posição de terceiro que libera o impulso epistemofílico, fortalecendo o vínculo K (conhecimento), que Bion (1962) considera ser de grande importância como forma de mediação e transformação dos vínculos L (love) e H (hate).


A esse respeito, diz Figueiredo (2009, p. 44):

"Na ausência de triangulação, o conhecimento e o pensamento ficam inibidos e as relações de amor e ódio prevalecem sem moderação".

A transformação do complexo de Édipo em uma situação concedeu a Klein a possibilidade de que esse complexo fosse construído e desconstruído de infinitas maneiras. A mobilidade da situação edipiana é também um dos precursores da noção de função paterna. Pensando em termos de posições esquizoparanoide e depressiva - é mais fácil chegar à noção de lugares que vão sendo ocupados pelos personagens durante a constituição do sujeito psíquico, permitindo a transformação dos personagens concretos - o pai, a mãe - em lugares de ocupação. Em vez de uma estrutura rígida, com seus personagens fixos, o complexo de Édipo foi sendo colocado em movimento através desta forma de pensá-lo.


Podemos afirmar, agora, que para sair do narcisismo primário - questão decisiva enunciada algumas páginas atrás - e para uma boa evolução da situação edípica, é preciso que a função paterna aconteça de modo satisfatório. Mas o que significa isso?


A função paterna depende da boa ocupação do lugar de terceiro e da aceitação por parte da mãe de sair do lugar de simbiose originária para ser uma mãe "interrompida". Trata-se do processo que poderíamos chamar de uma boa evolução da "situação edipiana", desde a época do desmame, antes de um complexo de Édipo se manifestar plenamente.


Quando a função do pai não é bem constituída, a criança pode sentir-se completamente excluída do casal parental ou, ao contrário, incluída de forma violenta e confusa, o que acontece com frequência nas patologias borderline. Contra essas situações, pode se tentar uma estratégia de defesa construindo "refúgios psíquicos" (STEINER, 1997), que protegem o sujeito da exclusão e das inclusões intensas demais.


Outras formas de situações edipianas neuróticas são o desenvolvimento de rivalidades, ciúmes e invejas excessivos, ou, para se contrapor a esse excesso de turbulência, a entrada em estados de indiferença ou depreciação dos pais e dos pares. Podem criar-se fantasias de que "minha mãe gosta mais de mim do que de meu pai", que geram grandes instabilidades, fantasias homicidas ou reparações maníacas. Isso é o que acontece nos casos de um complexo de Édipo excessivamente visível, tais como descritos por Britton (1989).


Para que se possam evitar estas saídas que estamos considerando mais patológicas, é preciso ocorrer uma boa ocupação do lugar de terceiro que estamos associando à função paterna. Durante a vigência da simbiose mãe-bebê, a função paterna é a de proteger e dar continência à diade, de forma não invasiva: trata-se, portanto, nesse momento, de viabilizar a simbiose. Outra função que deve começar a aparecer de forma mais acentuada nos primeiros meses depois do nascimento é a seguinte: o pai precisa atrair os investimentos da mãe para que ela possa sair da mônada narcísica e experimentar momentos de liberdade da função materna, resgatando-se como pessoa. Essa função pode ser realizada por um homem com quem aquela mulher tem um relacionamento significativo ou por qualquer outro interesse que a atraia muito: "É preciso que haja investimento erótico dela e nela para que a mãe seja vitalizada e o terceiro seja legitimado" (FIGUEIREDO, 2009, p. 47).


Ou seja, a mãe precisa encontrar vitalização e erotização fora da célula narcísica, até mesmo para voltar ao enlevo com o bebé mais reabastecida. A presença do pai é importante para desalojar fantasias inconscientes de permanecer para sempre em uma relação dual-narcisista: isto é, a sua presença começa o trabalho de desconstrução do narcisismo primário. À medida que cresce, a criança poderá então conviver com um casal que apresenta a ela inúmeras combinações de exclusão e inclusão. É isto que torna possivel a introjeção de um objeto bom, que se constitua uma boa alternativa para escapar às fantasias de uma união simbiótica absoluta. É preciso encontrar um lugar suficientemente bom para abrir mão do narcisismo primário, com seu caráter absoluto.


Este objeto bom funciona como modelo de identificação para relações mais livres nos campos do amor, do ódio e do conhecimento. Um elemento muito sublinhado por Bion e por Winnicott que contribui para a saúde é a presença de relações em que predomina a confiança. Assim, torna-se favorável à elaboração das angústias do Edipo, quando o pai não desautoriza a mãe, e que esta não deprecie o pai, assim, ambos podem, então, criar um clima de confiança e de autorização do filho, de modo a reduzir um pouco os elementos de rivalidade, inveja e ciúme. As formas evolutivas de sair do narcisismo primário e elaborar o Édipo vão, então, incidir no desenvolvimento emocional, cognitivo, ético e estético.


Mas e na prática analítica, onde podemos discernir o lugar de terceiro? O terceiro pode ser discernido nos elementos do enquadramento, manejo, interpretações que o analista realiza; seriam os elementos da "estrutura enquadrante" (GREEN, 1988). São eles os criadores de um contorno que delimita e ajuda a configurar o que vai se passar na relação com o paciente, por exemplo, a regra fundamental "diga tudo que lhe vier à cabeça", os horários, o custo da sessão. Quando o analista consegue permanecer fiel a seu projeto terapêutico, a suas convicções teóricas e a seus objetos internos, que seriam aqueles com quem aprendeu seu ofício, seu próprio analista, seus supervisores e a comunidade terapêutica à qual pertence, estes exercem o papel de terceiro em sua relação com o paciente.


O analista pode então ocupar diversas posições: é o sujeito da contratransferência, objeto da transferência do paciente, mantendo-se, ainda, como observador da cena que se desenrola na análise. Ele precisa ocupar o lugar do primeiro, do sujeito, do segundo, aquele do objeto, mas sua atividade dependerá de poder ocupar o lugar do terceiro, mantendo-se assim em uma posição de reserva, de quem pensa o que está vivendo.


Destaca Figueiredo (2009, p. 50):

"Qualquer interpretação, aliás, independentemente de seu conteúdo especifico, atesta a independência, a autonomia e a capacidade de pensamento do analista. (...) qualquer interpretação estabelece um ângulo novo na relação, um vértice da triangulação".

É isso que leva alguns pacientes a recusar a interpretação, dissolvendo-a no já sabido, pois transferem para a análise a dificuldade que sentem em admitir o novo, o que pertence a este terceiro lugar que se situa fora de sua relação com o que já lhe é conhecido.


Caper (2002), inspirado em Klein, Bion e Britton, aconselha o analista a conservar uma "mente própria", mantendo-se fiel a seus objetos internos e a própria teoria psicanalítica, de modo que possa sustentar a sua posição de terceiro junto ao paciente e ás convicções deste.


Nas palavras de Figueiredo (2009, p. 50):

"Algumas vezes, o analista deverá estar disponível para uma relação proxima e quase fusional, mas para que isso venha a ser terapêutico, o lugar do terceiro elemento deverá ser ocupado, seja pelo setting, seja pelos objetos internos do analista, seja por um supervisor".

Esta boa ocupação do lugar de terceiro, no sentido daquele que pode sempre se desembaraçar do envolvimento com as emoções e as convicções apaixonadas, é a condição para que a psicanálise possa ter uma ação terapêutica.


Por fim, podemos nos perguntar: quais as consequências do pensemento kleiniano para a clínica psicanalítica em sua posterioridade? Ainda inspiradas em Figueiredo (2009), consideramos que a clinica de Bion (1962, 1965, 1970) aproveitou bastante o olhar teórico de Klein, criando três modelos clínicos: uma clínica da continência, uma clínica do confronto e uma clínica do vazio.


A clínica da continência propõe que o analista possa receber e conter as fantasias inconscientes do paciente, transformando-as através de sua rêverie. Bion irá falar sobre a noção de continente e de contido, de elementos-beta e função-alfa.


A segunda clínica - a do confronto - é a que propõe a realização de um trabalho sobre a vida de fantasias do paciente. Confrontar o paciente não significa impor a ele o seu modelo de verdade e de realidade, significa convidá-lo a desentranhar as suas fantasias, que se encontram reprimidas ou cindidas, para constituir com ele um campo de trabalho dentro desse terreno, de modo a elucidar os conflitos entre os aspectos emocionais que querem se expressar e as defesas que entram em colisão com eles.


A terceira clínica é um convite a lançar-se no silêncio e no vazio de imagens, e para além de ideias preconcebidas, na direção do inesperado e do desconhecido. O analista precisa desenvolver, então, uma capacidade negativa - escutar sem memória, sem desejo, sem uma compreensão prévia muito rápida (BION, 1970), para se livrar de suas preconcepções pessoais e teóricas e desenvolver uma "pura capacidade receptiva, antecipadora, poiética e poética de criação e espera do inesperado" (FIGUEIREDO, 2009, p. 49).


As angústias arcaicas ou as ansiedades psicóticas [4]


Antes de Klein, Freud considerou mais o aspecto quantitativo da ansiedade, associando o seu aparecimento à libido insatisfeita, sobretudo em sua primeira teoria da angústia. A preocupação freudiana predominava quanto ao aspecto quantitativo, mais do que ao aspecto qualitativo: ou seja, ele não se preocupava tanto com as fantasias associadas à ansiedade, mas sim com a sua intensidade. Aos poucos, foi se interessando pelas fantasias e pelas "situações arcaicas de ansiedade e perigo" (FREUD, 1926). A ansiedade passa a ser considerada o afeto liberado como antecipação de uma situação de perigo já vivida. Por exemplo, o perigo de sair da vida Intrauterina, no momento do nascimento.


Otto Rank pensava que toda ansiedade era uma forma posterior de reviver o trauma do nascimento. Já Freud (1926) compreendia a metáfora do nascimento como passagem de um estado de homeostase a um estado desconhecido que podia ser um modelo geral; no entanto, discutia com Rank sobre a generalização desse modelo, alegando que as situações de perigo e ansiedade mudavam de acordo com o estágio da vida.


Em 1926, Freud aceita pensar o trauma do nascimento como protótipo da angústia, considerando que essa primeira forma será ressignificada a posteriori, através das diversas fases da libido sexual - oral, anal, uretral, sado-oral, sadoanal, sadouretral - que darão novas configurações à situação de perigo temida. Na fase fálica e durante o complexo de Édipo, a angústia originária aparecerá sob a forma de angústia de castração.


No artigo "Inibição, sintoma e angústia", Freud (1926) falou com toda clareza de situações arcaicas de ansiedade ou perigo. O artigo inspirou Melanie Klein (1926) a pensar as ansiedades arcaicas a partir desse modelo, isto é, preocupando-se em decifrar qual era a situação de perigo que estava implícita na ansiedade. É curioso notar que a data em que Klein começa a falar em situação edipiana coincide com esta noção de situações de perigo, do texto freudiano de 1926.


Desde o início de seu trabalho clinico, Klein observou que o brincar da criança conduzia a muitas fantasias e encenações dramáticas envolvendo crueldade e agressividade, seguidas de uma forma severa de remorso e culpa. Ficou sempre impressionada com a violência e o sadismo que estavam presentes na fantasia das crianças e com o medo de retribuição (retaliação) e de retorno sobre si dos aspectos mais agressivos dessas fantasias. O medo de ser aniquilado, a culpa ansiosa de ter machucado ou estragado inibiam as fantasias agressivas e, consequentemente, o impulso epistemofílico, o desejo de conhecer - situação que gerava inibições e dificuldades de aprendizagem observadas por Klen nas crianças pequenas.


Para nossa autora, o principal conflito pulsional é aquele entre agressão (pulsão de morte) e remorso (que vem da pulsão de vida, da libido do amor). As ansiedades arcaicas ou psicóticas criam um círculo vicioso que se retroalimenta e se perpetua. Agressão gera medo, que, por sua vez, gera mais agressão.


Em 1935, quando escreveu o texto "Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos", Klein criou a teoria da posição depressiva e centralizou a principal ansiedade arcaica ao redor do temor de perder a mãe, ou a pessoa que cuida, e seu representante interno, o chamado "objeto bom interno".


No livro de 1932, A psicanálise de crianças, postula a existência de dois tipos de angústias arcaicas: aquela mais característica da posição depressiva, com seu matiz de culpa e com a impressão de ter estragado o objeto e a relação com ele, que inclui certa preocupação com o destino do objeto; e outro com matiz mais persecutório e paranoico, envolvendo o medo de ser aniquilado pelo objeto - trata-se, aqui, de uma ansiedade mais voltada aos danos que o ego pode sofrer.


Em 1946, quando escreveu "Alguns mecanismos esquizoides", Melanie Klein definiu de modo mais nítido a teoria da ansiedade persecutória, que corresponde ao medo de aniquilação do ego, sendo mais autorreferenciada que a angústia depressiva. Seu eixo é mais narcisico, ao passo que a outro eixo é mais objetal. Poderíamos traduzir, de forma simplificada, a angústia persecutória da seguinte forma:

"Tenho medo de que meu eu seja destruído"

Desde o princípio, ao estar diante de uma criança, Melanie Klein considerou importante interpretar as ansiedades e defesas mais urgentes no material trazido: aquelas que a criança expressava por meio das brincadeiras. Começou então a pesquisar as situações infantis de perigo e ansiedade, as reais e as imaginárias. Partiu da ideia de Freud de que a principal ansiedade arcaica da criança é a perda da figura amada e protetora (a mãe, o pai, a "instância parental", quem cuida), por quem a criança sente um desejo muito forte, e que gera uma situação de perigo maior nos momentos em que precisa de algo e depende da ajuda dos pais. Constatou que o amor infantil é extremamente intenso - como os pais e cuidadores ficam inevitavelmente sujeitos a diversos tipos de falhas e ausências nos momentos em que a criança precisa, essa situação arcaica é capaz de gerar fantasias de ataque ao corpo da mãe, as quais expressam a agressividade que nasce do amor insatisfeito e, também, aquela que surge espontaneamente da pulsão de morte.


As crianças têm então impulsos agressivos e libidinais de roubar tudo que a mãe tem de bom, de apropriar-se de modo mais definitivo de tudo que precisam e parece ter origem no corpo materno. O medo de que a mãe venha a matá-las e roubá-las é, em grande medida, o retorno sobre si de uma fantasia gerada pelo sadismo. O amor primitivo é violento, pois quer sugar, incorporar, controlar, ser exclusivo. As fantasias paranoides são de que a mãe venha atacar, matar, roubar ou abandonar para se vingar da insaciabilidade do amor infantil.


Posteriormente, surgem também ansiedades depressivas de que a mãe, ao sentir-se abandonada e estragada, venha a morrer pelo excesso de demandas da criança. Quanto mais "furiosos" ou "estragados" estiverem os pais, mais se transformam em perseguidores internos; contra eles, a criança lança todas as suas "armas" sádicas para destruí-los; dessa forma, eles se tornaram todo-poderosos e ameaçam destruir a criança sádica. Essas imagos arcaicas são, em parte, o efeito da própria violência e do sadismo, gerando o círculo vicioso da paranoia. Nesse caso, a ansiedade pode chegar a tal intensidade que Klein (1932) começou a se referir a ela como sendo uma ansiedade psicótica.


As ansiedades psicóticas são as que ainda não foram trabalhadas pelo ego e não foram simbolizadas, por isso são intensas, paralisam o ego, têm aspectos paranoicos. Revelam que a pessoa pode estar sentindo um medo aterrorizador de ter cometido um ato de grande destruição. Isso envolve muita onipotência, e no caso de sentir culpa pela destruição cometida, pode surgir um frágil sentimento de identificação com a pessoa morta ou ferida. Ansiedades psicóticas são, entre as demais ansiedades (neuróticas), aquelas que ainda não têm rosto, nome ou figura; isto é, não podem ser pensadas. Estão em estado bruto e obedecem a um regime absoluto de "tudo ou nada", imediatamente, sem mediação ou consideração para com a complexidade dos fenômenos psíquicos. Provocam estados de abolição simbólica, grandes atuações e atos delinquenciais.


A ansiedade paranoide ou persecutória, isto é, o puro pânico de vir a receber o troco de tudo que fez ao outro (ainda que na imaginação), modifica-se muito pelo ingresso na posição depressiva, quando o objeto atacado já não pode ser visto como sendo um puro objeto mau, mas se torna complexo, uma mescla de aspectos bons e maus.


Diante das angústias depressivas, surge o sério temor pelo objeto e não mais apenas pela destruição do eu, como quando predominam as angústias persecutórias. Surge um medo intenso de ter danificado o objeto bom, além dos primórdios de um senso de responsabilidade, cuidado e culpa.


No entanto, se a culpa é avassaladora, ela se transforma em sentimento persecutório e ocorre uma volta à posição anterior, dando origem a sentimentos desesperados de que o dano não tenha conserto nem reparação possível. Trata-se, aqui, da ansiedade arcaica em sua face depressiva, que envolve choro, lamento, penar desesperado, medo de já ter destruído e estragado, sem que haja um "conserto" possível. A ansiedade depressiva é temer pelo objeto amado, pela continuidade da relação de amor e consideração para com ele.


O lamento desesperado, o penar pelo objeto amado e irremediavelmente perdido pode ser suavizado por um aumento de libido, de sentimentos amorosos que combatem o sadismo, elevando a importância dos objetos bons internos e a confiança no poder reparador de seu amor.


Vimos então que Melanie Klein postulou a teoria das posições para explicar de que maneira o sujeito vai articular suas defesas, construir suas identificações, dirigir-se a seus objetos, relacionar-se com eles e atravessar ou ser atravessado por suas ansiedades arcaicas.


NOTAS


1 O termo experiência emocional na obra de Bion (1962/1991c) aparece constanteme indicando que o elemento transformador na análise é a experiência emocional vivida entre analista e analisando.


2 "...o desenvolvimento sexual do indivíduo atinge o apogeu no momento em que o primado da zona genital substitui os autoerotismos anteriores... e as organizações provisórias da sexualidade. Os erotismos e os estágios de organização superados persistem na organização genital definitiva como mecanismos de prazer preliminar" (FERENCZI, 1924/1990, p.261-62).


3 Para Bion (1962/1991c, 1990) pensar é sonhar - não se trata aqui do uso habitual da palavra pensar, como pensamento lógico e consciente, embora este último se origine dos modos arcaicos de pensar-sonhar.


4 No pensamento de Melanie Klein, não há diferenciação entre angústia e ansiedade, pois em alemão o termo usado é angst e em inglés o termo é anxiety. A noção de "arcaico" era considerada por ela equivalente ao funcionamento "psicótico".



 
 
 

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