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A Posição Feminina: Uma teoria sobre a feminilidade e a masculinidade [1]

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Capítulo VII do livro "Por que Klein?" (2018) escrito por Marina F. R. Ribeiro.



Primeiramente, gostaríamos de retomar os conceitos de posição e fase, explicitados no capítulo sobre as posições esquizoparanoide e depressiva. Em 1932, [2] Klein utiliza as duas expressões: fase da feminilidade e posição feminina, não fazendo distinção entre elas. No entanto, fase traz o caráter de algo passageiro, de que existe uma passagem para outro patamar, outra fase; ou seja, traz no seu âmago a ideia de desenvolvimento, de superação. Posição é um lugar ocupado diante de uma experiência emocional, remetendo à ideia de estados intercambiantes, mutáveis, de organizações psíquicas diversas diante da experiência. Partindo dessa compreensão, pensamos que o conceito de posição traz a ideia de um dinamismo psíquico mais condizente com as experiências emocionais, levando a uma melhor compreensão da complexidade da teoria kleiniana hoje [3].


Segundo Herrmann & Alves Lima (1982, p. 17), foi necessário que uma mulher se dedicasse à compreensão da experiência feminina para que a visão freudiana de equiparação da trajetória edípica masculina à trajetória feminina, vigente na psicanálise nos anos 1920, fosse modificada e as especificidades do feminino, consideradas. De fato, além de trazer novas compreensões das angústias específicas às meninas, Klein (1932) se refere à posição feminina como experiência partilhada nos dois sexos, o que ainda não havia sido expresso na psicanálise até então.


A psicanalista nos convoca então a observar a experiência inicial da vida, predominantemente corporal, sintetizada na imagem seio-boca. A primeira realidade do bebê é o inconsciente materno; a ideia de sistemas de vasos comunicantes é instigante: "O bebê começa a ser e é em relação com a mãe, com o corpo materno, com o seio que o alimenta e conforta". A mãe vive essa experiência profundamente identificada com o bebé, emprestando seu pensamento e seu acervo cultural à criança, num sistema de vasos comunicantes (...) (HERRMANN & ALVES LIMA, 1982, p. 17).


Klein (1932) postula que a principal angústia feminina se refere a danos internos, ao medo de ter o seu interior atacado e destruído; para a autora, a angústia de castração, nas meninas, é secundária. Nessa perspectiva, as relações objetais estão presentes desde o início, com suas intensas ambiguidades, amor e ódio. A menina, na sua fantasia, imagina ataques ao interior do corpo materno e seus conteúdos, possíveis bebês. A caracteristica receptiva do órgão sexual feminino passa a ser vista; ou seja, a experiência corporal diversa entre meninos e meninas torna-se objeto de reflexão nos textos kleinianos.


Importante considerar que Freud (1926) se questionou acerca da castração nas meninas, destacando ser difícil compreender a ansiedade de castração quando ela já ocorreu. E, logo na primeira parte do texto "Sexualidade Feminina", escreve:

"Há muito tempo renunciamos à expectativa de um perfeito paralelismo entre o desenvolvimento sexual masculino e o feminino" (FREUD, 1931/1980, p. 260).

Podemos pensar que Klein seguiu as "pistas" deixadas por Freud. No final do texto de 1932, faz então um breve cotejamento conceitual com algumas ideias freudianas acerca da trajetória edípica da menina. Assim como Freud (1931), compreende que o apego ao pai na menina é profundamente afetado pelo apego inicial da menina à mãe, e que um é edificado sobre o outro, tendo como decorrência, na idade adulta, o fato de que o relacionamento das mulheres com seus maridos tende a repetir seus conflitos com a mãe.


Mas, de maneira diversa, na concepção freudiana, o apego exclusivo da menina à mãe duraria até os cinco anos de idade. No entanto, Klein (1932) põe em evidência a precoce presença paterna, sendo o pai encontrado primeiramente como um objeto interno na mente da mãe.


A mãe - o corpo materno, o seio, o inconsciente materno - é o objeto primário, o primeiro objeto de identificação dos bebês de ambos os sexos. Essa observação, feita provavelmente a partir da experiência pessoal de Klein com a maternidade e, também, baseada no atendimento de crianças muito pequenas, foi fundamental para um vértice de compreensão diverso do freudiano - segundo o qual a "descoberta" da vagina se daria apenas na vida adulta.


Klein (1932 e 1945) percorre outra direção. A mulher tem, sim, representações psíquicas para o seu sexo: sensações vaginais precoces, potencialidade de gerar filhos e posteriormente, os seios.


A este respeito, Chasseguet-Smirgel (1988, p. 31) adverte:

Como poderemos supor, na verdade, que a menina ignore posuir uma vagina, quando Freud confere ao sonho, no "Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos" (1915), a capacidade de perceber precocemente todas as modificações orgânicas? Por que os poderes do inconsciente para conhecer o que se passa na nossa intimidade corporal não chegariam à vagina? Como não haveria, para o menino, uma presciência de um órgão complementar ao seu, quando Freud postula, por outro lado, a existência de fantasmas inatos?

É comum, a quem observa brincadeiras infantis, a cena de duas crianças entre dois e três anos descobrindo suas diferenças corporais. Essa curiosidade - pulsão epistemofilica, como nomeou Klein (1928) - está ligada às questões primordiais, aos grandes enigmas da existência: de onde vim, quem sou, como é meu corpo, como é o corpo dos adultos cuidadores, qual a relação entre eles, etc. As díades são então experienciadas pelo bebê e sempre convocadas e presentes pelo infantil no adulto: seio-boca, vagina-pênis, dentro e fora, eu-outro, presença-ausência.


A partir dessas experiências primordiais, Klein (1932) postula o conceito de posição feminina, que consiste na identificação inicial e precoce do bebê com a mãe; por volta dos seis meses, o infans se volta para o pai, identificado com a mãe. Nesse momento, há um primeiro esboço de que a mãe é um outro, e de que o pai é o outro da mãe. Para Klein, o pênis (objeto parcial/posição esquizoparanoide) é encontrado primeiramente dentro da mãe. Em outros termos: o pai é encontrado no olhar da mãe, no inconsciente materno, primeira realidade do bebê. Assim, de forma diversa de Freud, entende que o pai está presente, desde o início, na mente da mãe, ou seja, o seio contém o pênis.


Tendo como objetivo refletir acerca das questões ligadas à identidade sexual, no texto de 1945, Klein faz uma articulação entre os conceitos de posição feminina, posição depressiva e complexo de Édipo precoce, mas não com a posição esquizoparanoide, que foi conceituada um ano depois, em 1946. Com o conceito de posição depressiva, retomou as posições libidinais e, portanto, a posição feminina - posição que acreditamos estar ligada a uma interessante construção teórica da feminilidade e da masculinidade, mas que não teve expansão dentro da teoria kleiniana.


A posição feminina é a sustentação experiencial primeira para que posteriores constituições psíquicas identitárias de masculinidade e feminiilidade possam surgir. Entendemos que a constituição de uma identidade sexual é composta por uma mescla complexa entre identificações masculinas e femininas, que não necessariamente acompanham o sexo biológico, Há uma grande plasticidade na constituição psíquica, mas sempre a partir das primeiras relações objetais e da libidinização que permeia essas relações


Articular os dois conceitos - posição feminina e posição depressiva - pode nos levar a reflexões interessantes, pois, se estamos sempre no âmbito de um processo constante e contínuo de construção e articulação entre um sujeito e um objeto, no qual a alteridade é sempre incerta e depressiva, a feminilidade e a masculinidade dialogam com essas questões. Para que exista uma identificação, é preciso que aconteça um delineamento depressivo eu-outro. Pontuamos, portanto, que a posição feminina é um início de diferenciação eu-outro, e também, um início da diferenciação seio-pênis, mãe e pai, ou a diferenciação entre os adultos cuidadores que exercem funções matemas e paternas, independentemente da designação do sexo biológico.


Tanto meninas quanto meninos se identificam com os atributos maternos femininos e se voltam para o pai, identificados com a feminilidade da mãe. Para os bebês do sexo masculino, na posição feminina, o que está em jogo é a possibilidade de sublimação de seus componentes femininos. A boa elaboração dessa fase propicia, na idade adulta, que um homem possa apreciar os atributos femininos sem precisar menosprezá-los (KLEIN, 1932).


Uma possivel atitude de depreciação masculina em relação às mulheres pode ser compreendida como um movimento defensivo em relação a uma mãe/mulher que se tornou, no psiquismo do bebe do sexo masculino, ameaçadora. Isso ocorre quando predominam os sentimentos de inveja e ódio à mãe. Ao contrário, quando predominam os sentimentos amorosos, ou seja, mais depressivos e reparadores, o contato com o feminino e sua interioridade parece propiciar aos homens qualidades psíquicas surpreendentes, dentre elas, a capacidade de apreciar a feminilidade de uma mulher.


Para a menina, essa identificação com a mãe na fase da feminilidade exerce uma força de atração em relação ao arcaico. A cada fase (menarca, defloramento, primeira gestação e menopausa), a menina (e depois a mulher) é remetida à identificação com a mãe.


Kristeva (2002, p. 149) destaca que é Klein quem propõe o "primeiro modelo psicanalitico de sexuação fundado no casal". Os pais combinades ou acasalados são referências arcaicas do casal parental, tanto na mente do bebê como no inconsciente da mãe.


A este respeito, Klein (1945/1996, p. 463) escreve:

"O desenvolvimento sexual da criança está ligado de forma inextricável às suas relações de objeto e a todas as emoções que moldam desde o início sua atitude diante da mãe e do pai".

A posição feminina para os bebês de ambos os sexos seria essa reserva arcaica de fantasia inconsciente, partilhada com o corpo/psiquismo da mãe havendo uma afetação mútua entre o bebê e a mãe, por meio da fantasia inconsciente da dupla: mãe-bebe do sexo feminino e mãe-bebe do sexo masculino. A metáfora dos vasos comunicantes, citada acima, expressa essa afetação mútua, marcada pela corporeidade


A feminilidade, no seu sentido de passividade, receptividade e interioridade, não é patrimônio das mulheres. Os homens partilham e compõem sua masculinidade a partir desse universo materno e feminino, porém de uma maneira diversa.


Tendo em vista que nossas origens são femininas (ANDRÉ, J., 1996), o objeto primário é feminino, marcando a trajetória dos bebês de ambos os sexos, com sutis diferenças. Klein constatou isso no final da década de 1930, um pensamento ousado diante do conhecimento psicanalítico da época.


O conceito de posição feminina teve também um significativo desdobramento nas construções teóricas de Florence Guignard, autora que apresentamos a seguir, destacando suas contribuições quanto à constituição da feminilidade nas mulheres.


O materno primário e o feminino primário: breve apresentação do pensamento de Florence Guignard


Florence Guignard (1997, 2000 e 2002), psicanalista francesa contemporânea, propõe a distinção de dois espaços psíquicos nos quais se organizam as configurações das identificações iniciais com a mãe.


Guignard (2000) considera a hipótese da existència de dois tempos do feminino, nos quais as identificações iniciais com o objeto primário se organizam. O primeiro tempo é o do materno primário (entre dois e três meses de vida); o segundo é o do feminino primário (por volta dos seis meses).


O espaço do materno primário constitui-se como o espaço interno dos investimentos pulsionais das primeiras relações identificatórias com a mãe, imprimindo violentamente o desconhecido do objeto na psique-soma da criança e vetorizando as pulsões em direção ao objeto [4]. Inspirada na teoria de Laplanche (1988), Guignard (2000) qualifica o desconhecido do objeto como o "enigmático".


O espaço do feminino primário é aquele no qual se instala o que Klein denominou fase da feminilidade ou posição feminina. A criança se identifica com o desejo da mãe pelo pai - trata-se da identificação ao desejo do outro (mãe) pelo outro (pai). Acontece no limiar da posição depressiva, no fim da díade onipotente e narcísica mãe-bebê, e perante a primeira triangulação edipiana - o Édipo precoce, assim denominado por Klein (1928). É o momento da desidealização: o bebê não é tudo para a mãe - ela deseja outro, o pai, o terceiro ou seu representante. Guignard (2002) diz que, nesse momento, a filha deverá se identificar com aquela que a privou de seu status onipotente de único objeto de amor da mãe: a mãe sexual.

Considero o "feminino primário" o espaço psíquico que se desenvolve em relação à primeira triangulação observável no ser humano. É o lugar inicial do desejo do Outro-do-Outro, da ausência, do negativo, do abandono recíproco e, por conseguinte, de toda a potencialidade dos processos de luto. Do bom estabelecimento desse espaço vai depender o equilíbrio econômico da bissexualidade psíquica em relaçãos com o sexo biológico do individuo (GUIGNARD, 2000, p. 140).

A partir da organização do espaço psíquico do feminino primário, há um aumento das identificações introjetivas. Constitui-se, de forma um pouco mais delineada, um dentro e um fora, o eu, o outro e o outro do outro. Assim como Klein, Guignard (2000) considera que o núcleo do ego é constituído pelas identificações introjetivas; e se estas são inicialmente femininas, o destino de ego passa a se encontrar ligado ao destino do feminino.


Em 1945, de fato, Klein escreve que o primeiro objeto introjetado é o seio da mãe, um seio que contém o pênis, ou seja, a imagem dos pais combinados, referência arcaica do casal parental.


As identificações introjetivas do materno primário e do feminino primário são necessárias para o equilibrio econômico da bissexualidade psíquica, tanto para o menino como para a menina. No entanto, em razão do destino de mulher e de mãe, essas identificações serão ainda mais requisitadas no que se refere ao ego corporal da menina. A hipótese de Guignard (2002) é de que o investimento do maternal e do feminino por uma mulher adulta e mãe funciona como uma báscula, como figura e fundo, e sob o signo da culpabilidade.


Retomando: o espaço do materno primário constitui-se como o espaço interno dos investimentos pulsionais das primeiras relações identificatórias com a mãe, imprimindo violentamente o desconhecido do objeto na psique-soma da criança e vetorizando as pulsões em direção ao objeto.


O espaço do feminino primário é aquele no qual se instala o que Klein denominou posição feminina. A criança se identifica com o desejo da mãe pelo pai; é a identificação ao desejo do outro (mãe) pelo outro (pai). Acontece no limiar da posição depressiva, no fim da diade onipotente e narcísica mãe-bebê e diante da primeira triangulação edipiana - o Édipo precoce, assim denominado por Klein em 1928.


Finalizando, vamos dar voz ao poeta Mia Couto (2013), que é capaz de nomear a experiência de forma incomparavelmente exitosa em "A mulher de mim" - o feminino é, pois, a mulher de mim, ou, poderíamos dizer o feminino em mim:


Naquela noite, as horas me percorriam, insones ponteiros. Eu queria só me esquecer-me. 

(...) Nesse enquanto, ela entrou. Era uma mulher de olhos lisos que umedeciam o quarto. Vagueou por ali, parecia não acreditar em sua própria presença. Seus dedos passeavam pelos móveis, em distraído afeto. Quem sabe ela sonambulasse, aquela realidade lhe fosse muito fictícia? Eu queria avisar-lhe que estava enganada, que aquele não era seu competente endereço. 
(...) 
Mas a estranha me atentava, descendo do seu decote. Seu peito me espreitava, subornando meus intentos. ...Porém. Por artes da intrusa, eu desaparecia, intermitente, da existência. Me irrealizava. E quando me apelava, rumo à razão, nem sequer eu chegava a meu cérebro, o austero juiz. Por causa da voz dessa mulher: lembrava o murmurinho das fontes, a sedução do regresso a dantes quando não havia antes. 

(...) O que vinha fazer, caso então? Porque tanto mais ela se senhorava mais eu me inquietava. A enviada prosseguiu: 

- Não percebes? Eu venho procurar lugar em ti. Explicou suas razões: só ela guardava a eterna gestação das fontes. Sem eu ser ela, eu me incompletava, feito só na arrogância das metades. Nela eu encontrava não mulher que fosse minha mas a mulher de mim, essa que, em diante, me acenderia em cada lua.

- Me deixa nascer em ti. (MIA COUTO, 2013, p. 127-133) [5]

Se as identificações são o que resta das paixões - o que resta depois que tudo foi esquecido -, nossas identificações primárias são femininas. O feminino - comum aos dois sexos - é compreendido como o termo que designa a posição primeira, a matriz das origens, o encontro primordial com a mãe, a experiência de ausência de representação. Em outros termos, o irrepresentável, o domínio do arcaico, do recalque originário.


Surpreendente que Melanie Klein tenha escrito sobre a posição feminina em 1928 e 1932.


NOTAS


1 Alguns conteúdos deste capítulo estão também presentes no livro De mãe em filha: a transmissão da feminilidade (RIBEIRO, 2011).


2 Especificamente nos textos: "Os efeitos das primeiras situações de ansiedade arcaica sobre o desenvolvimento sexual da menina" e "Os efeitos das primeiras situações de ansiedade arcaica sobre o desenvolvimento sexual do menino".


3 Podemos considerar que a posição feminina está em uma área de transição entre as posições esquizoparanoides e depressivas, partilhando de angústias e defesas desses dois estados de mente.


4 Fica explícito que Guignard articula a teoria freudiana das pulsões com a teoria kleiniana das relações objetais.


5 Apenas algumas frases do conto estão citadas.



 
 
 

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