A Fantasia Inconsciente: leituras atuais
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Capítulo IV do livro "Por que Klein?" (2018) com autoria de Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.

O conceito de fantasia inconsciente é outra grande contribuição do pensamento kleiniano para a psicanálise. Ainda que o termo já figurasse no texto freudiano, foi Klein quem investigou profundamente o funcionamento arcaico da mente. De fato, Freud (1923/1980) havia postulado: "... o ego é, antes de qualquer coisa, um ego corporal..."; no entanto, Klein explorou clínica e teoricamente os destinos das sensações corporais mais arcaicas e a sua transformação em fantasia inconsciente, que é o lugar onde se constitui a mais profunda imagem inconsciente do corpo.
As pulsões sexuais em suas diversas aparições na dimensão oral, anal e uretral - ganham então suas primeiras representações psíquicas, as fantasias inconscientes. Para a autora, as pulsões, na qualidade de processos psicossomáticos limitrofes, dirigem-se sempre aos objetos que poderiam satisfazê-las. Estes, por sua vez, transformam-se em "objetos internos" da fantasia, vindo a constituir os cenários internos que formam a vida psíquica (ISAACS, 1952/1982; FIGUEIREDO, 2006).
Como escrevem Cintra e Figueiredo (2004, p.151) "(...) A fantasia é o lugar de registro daquilo que Melanie Klein chamou de memórias em sentimento (memories in feelings), mas que poderiamos chamar, de maneira mais exata, de 'memórias em sensações". Importante então que, em seu cotidiano clínico, o analista mantenha-se em contato com suas memórias corporais mais arcaicas para captar e entrar em ressonância com as comunicações pré-verbais do paciente. Isso porque, se há uma paralisação no processo de simbolização, a fantasia inconsciente não se desenvolve, há um empobrecimento dos vinculos com o mundo externo e concomitante empobrecimento dos objetos internos. Os mundos interno e externo se tornam cinzentos, esvaziados, desabitados.
Um mundo interno povoado por objetos que podem estar conectados ou desconectados das emoções é outra considerável contribuição kleiniana para a teoria psicanalítica, sendo, posteriormente, desenvolvida e transformada na compreensão dos vínculos na obra de Bion (1959/1991b).
Podemos ainda compreender a fantasia inconsciente como uma imaginação radical [1], presente em todas as funções psíquicas - fantasiar é o processo que cria significado, é a forma de ser da vida psíquica inconsciente e transforma elementos somáticos em conteúdos psíquicos. Trata-se de representar as pulsões que estão próximas das intensidades e das forças, fazendo-as entrar no campo do sentido. A fantasia inconsciente é um conceito de caráter híbrido, entre corpo e psiquismo, dentro e fora, sensação e palavra.
O texto de Susan Isaacs (1952/1982) sobre a natureza e a função da fantasia é, ainda hoje, uma referência importante. Foi apresentado na Sociedade Psicanalítica de Londres, por ocasião das controvérsias Freud-Klein (1941-1945), quando havia um forte questionamento a respeito das teorias kleinianas, se estariam ou não se desviando do pensamento freudiano, marcando a disputa pelo poder institucional na formação dos candidatos. Contudo, gerou excelentes produções, como a de Isaacs.
Isaacs (1952/1982, p. 127) [2] afirma que "(...) as fantasias são o conteúdo primário dos processos mentais inconscientes". E, também, que "As fantasias inconscientes são, primordialmente, sobre corpos, e representam os anseios instintivos em relação aos objetos".
Ogden (2014) desenvolveu um trabalho instigante ao retomar o texto de Susan Isaacs, após algumas décadas, propondo que a compreensão de fantasia inconsciente antecede, em alguns aspectos, a teoria do pensar de Bion (1962/1991c).
A partir da noção de fantasia inconsciente e do trabalho de Bion, os analistas puderam compreender de forma mais nítida que a capacidade de pensar nasce do mundo sensorial das experiências emocionais, ancorado nas sensações corporais. Na versão [3] do texto de 1943, Isaacs (1943/1998, p. 283) afirma: "O conteúdo primário de todos os processos mentais é de fantasias inconscientes. Estas fantasias constituem a base de todos os processos inconscientes ou conscientes de pensamento". Sabemos, já a partir de Isaacs, e mais claramente a partir de Bion, que a fantasia é um proto-pensamento; são as experiências sensoriais e emocionais primitivas que vão se organizando e figurando, havendo uma relação de continuidade, ou melhor, uma invariância que conecta o pensamento inconsciente, ou protopensamento, ao pensamento mais abstrato.
Podemos afirmar que as fantasias inconscientes são os representantes psíquicos de estímulos como fome, sede, frio e calor, sentimentos, desejos, processos corporais como o alimentar-se e a excreção, além de trejeitos, projetos, ideias e ideais. Também o modo de falar e andar, a postura corporal, os hábitos de lidar com o tempo - pontualidade e procrastinação - e com o dinheiro-avareza ou prodigalidade - estão todos ligados a conflitos com a autoridade, tendo uma fantasia inconsciente como fundamento, assim como as fobias, conversões histéricas e rituais obsessivos.
Enfim, "Nada do que ocorre no corpo e na mente deixa de estar, de alguma forma, associado a esta atividade inconsciente e criativa de fantasiar" (FIGUEIREDO, 2009, p. 25).
A fantasia inconsciente é, então, uma capacidade de criar cenas, situações e teorias a partir de todo o vivido, dando sentido e valor a tudo que acontece. Podemos dizer que as primeiras formas de conhecer o mundo-nas etapas oral e anal-se dão através do devorar e do agarrar, que seriam os modos arcaicos de se apropriar do mundo. É possivel traçar uma linha de continuidade que vai do gesto de agarrar do bebê e até mesmo do feto até o compreender mais abstrato da atividade cognitiva adulta. Em inglês, usamos o termo to grasp tanto para o agarrar com as mãos quanto para o captar e compreender abstrato.
Quando o analista interpreta, ele desenvolve uma atenção que flutua do corpo ao psíquico; ou seja, pensa o aspecto psíquico tendo como pano de fundo o corporal. São as fantasias inconscientes, através de seu caráter hibrido, que permitem esse trânsito da sensação à palavra e desta de volta ao corpo, realizando a mediação entre dimensões tão heterogêneas. Isso toma possível traduzir um conflito que se passa, por exemplo, no âmbito moral, em termos corporais, primitivos e infantis. São essas transposições de sentido que ajudam o paciente a tornar mais carnal a interpretação do analista, que ganha então nuances de sentido, configurando um insight através do qual pode dar-se uma experiência emocional, e pode acontecer a mudança psíquica. Esses processos de transposição que a interpretação realiza - entre o corpo e o psíquico, o dentro e o fora, o passado e o presente - são deslocamentos de sentido que se tornam possíveis na transferência, em função da mobilidade mediadora da fantasia inconsciente.
Para encerrar essas considerações, podemos afirmar, com Figueiredo (2009), que há formas mais ou menos patológicas de lidar com a fantasia Inconsciente. Aquelas que se aproximam mais de uma ideia de saúde envolvem admitir, expressar e simbolizar as fantasias mais arcaicas, ao passo que a patologia está em reprimi-las, ou usar os mecanismos de defesa mais radicais contra elas, como a recusa, a desautorização, a cisão.
Em termos de um processo analitico, espera-se que as fantasias inconscientes possam ir sendo processadas e transformadas. Para lidar com as fantasias mais arcaicas e onipotentes, é necessário o partilhar com outra pessoa; no início da vida, a mãe e outros cuidadores, e mais tarde, o analista. O projeto analítico visa dar amplo espaço para a expressão das fantasias inconscientes, em direção a uma diminuição de sua onipotência e à entrada em um crescente processo de simbolização. É possível dizer então que o incessante trabalho de acolher e simbolizar as fantasias inconscientes é o que leva a uma ampliação significativa da capacidade de pensar e sentir.
Além de tudo isto, dispor de uma noção como a fantasia inconsciente em suas diversas articulações e níveis de desenvolvimento, um conceito que atravessa a realidade somática e psíquica, permite escutar as representações e ao mesmo tempo abrir-se a uma nova escuta do irrepresentável e das memórias inconscientes do corpo. Através dessa noção é possível transitar de forma criativa entre a primeira e a segunda tópicas de Freud, articulando a clínica da representação e a clínica das pulsões.
NOTAS
1 Ideia presente no texto de Figueiredo (2006).
2 Esta posição intermediária da fantasia entre corpo e psique pode ser aproximada da noção de elaboração imaginativa das funções corporais, proposta por Winnicott, também, na década de 1950.
3 Há duas versões do texto de Susan Isaacs, a original apresentada nas controvérsias em 1943, e a versão revisada, publicada em 1952.



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