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Introdução: Por que Klein?

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Atualizado: há 11 horas

Introdução do livro "Por que Klein?" (2018) com autoria de Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.



Klein (1955/1996b) nos trouxe várias contribuições conceituais que expandiram o conhecimento psicanalítico, como a noção de objetos internos e de que as relações objetais estão presentes desde o inicio da vida. Nunca abandonou a ideia de um conflito entre pulsões de vida e de morte, tal como descrito por Freud, nem a dimensão das intensidades, ou seja, o vértice econômico. Entretanto, ao enfatizar o universo dos objetos e dos cenários de fantasia, ampliou a compreensão dinâmica da psique, postulando que todos os aspectos do funcionamento psíquico estão vinculados a objetos internos e externos em constante transformação.


As relações iniciais de objeto são compreendidas por Klein como ambivalentes; amor e ódio se apresentam desde os primórdios e marcam a experiência com o mundo interno e externo. O início da vida é, pois, uma experiência emocional caótica, com momentos em que predomina o sadismo, que é a mais pura expressão da intensidade e do caráter violento das demandas de amor e atenção. É a época das oscilações entre tudo e nada, dos desejos insaciáveis de amor e de destruição, da exigência de permanência do outro ao nosso lado, ou de retraimento radical deste outro que nos feriu.


Sem descanso, Klein dirige nosso olhar e nos torna sensíveis aos aspectos trágicos da existência humana: amor, ódio, perdas, ansiedades, tédio, compaixão, morte, fadigas, julgamentos condenatórios, persecutoriedade, rejeição e, por fim, a inveja e suas mortíferas estratégias de destruir o valor de tudo o que a vida nos ofereceu.


De fato, talvez a primeira questão que nos desperte atenção no trabalho clínico de nossa autora seja sua capacidade de se manter próxima à experiência de sofrimento e à angústia dos pacientes. Com a angústia, atingimos o solo mais básico do funcionamento psíquico, tocamos naquilo que é mais visceral, mais intimo, mais profundamente determinante de toda a organização psíquica. Melanie Klein acreditava ser esse o fio condutor mais "nevrálgico" da escuta analitica, o que melhor conduz à infraestrutura do acontecer psíquico. A hipótese é de que escutando e intervindo no registro da angústia atingimos o nível das forças que geram o sofrimento psicótico e produzem a neurose, em sua dimensão inconsciente e inacessível; para aproximar-se desse núcleo, é imprescindível, porém, uma escuta sensível, a Einfüllung, da qual falam Freud e Ferenczi.


Podemos afirmar, aliás, que sem ressonância empática - Einfüllung -com o sofrimento do paciente não é possível conduzir uma análise. Melanie Klein se apropria profundamente dessa empatia em sua escuta analítica, sendo herdeira, portanto, de Ferenczi nesse aspecto. Por outro lado, é possível dizer que o aparelho psíquico em Freud, Abraham e Klein é predominantemente intrapsíquico; ao passo que em Ferenczi e nos herdeiros de Klein - Bion, Winnicott e os psicanalistas contemporâneos -, o psiquismo passa a ser pensado de forma intersubjetiva; isto é, constituindo-se na trama de relações com os outros sujeitos psíquicos, sem nunca deixar de lado a dimensão intrapsíquica.


Na verdade, o que a aproxima de Sándor Ferenczi - seu primeiro analista e que muito incentivou o seu trabalho com crianças - foi o aprendizado da seguinte forma de escuta: primeiramente, dirigir a atenção às forças produtoras do conflito e da dor, para, apenas num segundo momento, discernir o caminho de desconstrução das defesas, dos modos de ser no mundo que estariam impedindo, mutilando e inibindo a livre manifestação da vida psíquica.


O que se pode afirmar com segurança quanto ao legado kleiniano é que a ênfase da autora nas noções de introjeção e projeção, e os desdobramentos do conceito de identificação projetiva permitiram que se percebesse de maneira mais nítida a importância de o analista entrar em contato com os sentimentos e pensamentos do paciente, para sentir de forma pessoal o que se passa com ele. Nessa tradição, as funções materna e analítica de receber, conter, elaborar e devolver, digerindo os conteúdos primitivos da criança e do paciente - a rêverie - tornaram-se a base das mais importantes transformações na técnica analítica nas últimas décadas. E foram essas modificações que permitiram a análise de crianças, psicóticos e demais perturbações do eixo narcísico, como a melancolia e algumas depressões.


Klein construiu todo o edificio de sua obra a partir da criação de um verdadeiro pensamento clinico. E embora não possamos situá-la na linhagem da intersubjetividade, a sua teoria da identificação projetiva, à medida que foi sendo apropriada por seus herdeiros, tornou-se, ao lado das contribuições de Ferenczi, a matriz da noção de contratransferência tal como entendida por Paula Heimann, das futuras noções de campo, das teorias da situação analítica e do terceiro analítico.


Inovações técnicas de Klein e suas reverberações em autores clássicos e contemporâneos


Importante destacar que para tratar a psicose e os casos-limite, quando a capacidade de associação livre do paciente não está fluente, ou ainda é impossível, e por ter cuidado de crianças desde o inicio, Klein teve de inventar técnicas que tornaram possível uma escuta psicanalítica ali onde o analista necessita praticamente criar, com o paciente, caminhos e trilhas associativas, quando estas estão ausentes ou precariamente constituidas. Ousou, então, fazer os enxertos simbólicos necessários ao trabalho com os casos mais difíceis, como o de Dick.


É a partir de Klein que Bion pensou a necessidade de dar continência às expressões dos pacientes, qualificando essa atitude, essa operação mental, por meio da noção de rêverie, incorporada a grande parte das práticas psicanalíticas atuais.


A tarefa de abrir novos caminhos para ter acesso à palavra e à narração de uma história é, indiscutivelmente, um mérito de Melanie Klein; certamente a primeira psicanalista a praticar, de forma intuitiva, a rêverie ou a capacidade de sonhar (dreaming) para se referir ao trabalho psíquico inconsciente que precisa ser feito sobre a experiência emocional. De maneira mais evidente que Freud, Klein chamou a atenção para a experiência emocional avassaladora, para as angústias e os medos arcaicos que podem ser reunidos sob o nome de angústias de aniquilamento, as quais são tão difíceis de elaborar que é impossível fazê-lo sozinho.


Ogden, por sua vez, relendo intensamente a obra de Bion, redescobre nela quatro princípios subjacentes ao pensamento bioniano. Vejamos en-tão como é possível discernir a herança kleiníana em cada um deles:

1. O pensamento é impulsionado (driven) pela necessidade humana de conhecer a verdade, a realidade de quem somos nós e do que se passa em nossa vida.
2. É necessária a presença de duas mentes para pensar os pensamentos mais perturbadores de uma pessoa.
3. A capacidade de pensar é desenvolvida, para que uma pessoa se reconcilie com pensamentos que nascem de sua experiência emocional perturbadora.
4. Existe, inerente à personalidade, uma função psicanalítica: o sonhar - ou a rêverie - esse é o processo principal, através do qual esta função se manifesta. (OGDEN, 2009, p. 91) [1]

Em relação ao primeiro item, não há dúvidas de que a necessidade humana de conhecer a verdade diz respeito à aspiração iluminista de que falamos antes e que marcou toda a vida de Klein, tanto em relação a si mesma como em relação aos pacientes. Isso pode ser verificado desde o inicio de sua obra, desde o seu primeiro caso, o pequeno Fritz, quando sustentava a importância do impulso epistemofilico (KLEIN, 1923) que se encontrava inibido nele - mais tarde, descobriu-se que se tratava, na verdade, de seu filho mais novo.


A partir da repressão do desejo de saber mais a respeito da origem dos bebés e da participação do pai na origem da vida, Fritz havia construÍdo uma série de inibições intelectuais e afetivas que o estavam impedindo de continuar o seu desenvolvimento. Klein demonstra, com esse caso, que é sempre possível lançar a luz da razão e de uma compreensão empática sobre os aspectos mais obscuros do psiquismo, de modo a diminuir o peso de preconceitos e de julgamentos morais. Os quais não são guiados pelo desejo de conhecer os aspectos mais hostis da realidade, as raízes profundas da violència e das práticas mais primitivas da dominação dos outros, como os conflitos e as guerras.


Ja em relação aos outros itens elencados por Ogden (2009), diríamos que, quando não consegue pensar por si só a experiência emocional perturbadora, o sujeito precisa da ajuda de outra pessoa para sonhar "os sonhos não sonhados e os gritos interrompidos" (OGDEN, 2010, p. 17). Uma pessoa que não consegue narrar-se a si mesma e se encontra no centro de um movimento de "deixar-se falar pelos outros", de certa forma, "não existe". É trágico e radical dizer isso. Lembra a sensação de alguns pacientes que se encontram amortecidos e precisam ser vitalizados e despertados. Precisam sair de um estado em que são habitados por vozes e olhos alheios, por assombrações que os impedem de ter uma mente própria. Eles ainda não entraram no tempo histórico e só conseguem repetir o que ouviram. O trabalho contínuo e sistemático para engendrar e transformar as posições depressivas é o que leva a entrar no tempo histórico, à posição de tornar-se narrador: aquele que reúne passado, presente e futuro, saindo da captura imaginária a respeito de si mesmo. Muitos se encontram encerrados em uma ideia fixa acerca de si, na prisão de não conseguir pensar-se fora de um casulo de imagens e representações que se congelaram.


No caso da situação analítica, é o analista que poderá dar início ao que Ogden chamou de uma conversação aparentemente não analítica. Assim, enquanto atende, e sendo guiado por sua rêverie, Ogden ousa se libertar para assuntos que estão aparentemente fora da estrita análise do funcionamento mental, e começa a falar com alguns pacientes acerca de livros ou obras de arte. Essa conversação aparentemente não analítica vai funcionar como uma placenta; será a matriz da futura associação live que estava aprisionada nas defesas, e a partir dessa estratégia, libera-se o paciente a entrar em um processo analítico clássico. Nessas conversações, misturam-se processos primários e secundários que permitem a instalação da capacidade de devanear do paciente, o falar-como-se estivesse-sonhando. Do lado do analista, essas rêveries trazem a compreensão e o insight a respeito do que está acontecendo na transferência e nas outras relações dos pacientes.


Ter acesso à rêverie é vivido por alguns pacientes como um despertar, um verdadeiro nascimento para outra experiência emocional; somente então se tornam capazes de narrar a própria vida e entrar no jogo da associação livre. "Uma vida que não é narrada não existe" - afirmou o escritor português Lobo Antunes. Trata-se de uma ideia contundente.


Outro exemplo da notável frutificação de sementes do pensamento kleiniano está no livro Sujeitos da psicanálise, de Ogden (1996). O autor pensa as posições esquizoparanoide e depressiva como diferentes formas de atribuir significado à experiência emocional; o que é diferente de dizer que há duas formas de funcionar, como proposto por Klein, e dizer que há duas formas de dar sentido à existência: uma que é esquizoparanoide, outra que é depressiva.


A expansão de um pensamento está precisamente nestes pequenos deslocamentos de sentido. Ogden (1996) faz mais um deslocamento, ao afirmar, de modo mais explícito do que Klein, que essas duas formas não existem separadamente, mas em uma relação dialética entre si. Traz então a noção hegeliana de dialética para dentro da intuição de Melanie Klein, como estratégia para ampliar a original, de fazê-la trabalhar de um jeito novo.


O autor destaca, ainda, que cada uma das maneiras de dar sentido à existência exige a outra, e que elas oscilam da mesma forma que, para Freud, a mente consciente só tem sentido em relação à mente inconsciente, ambas não existem em separado. "O sujeito kleiniano - afirma Ogden (1996, p. 30) - não existe numa determinada posição ou nivel hierárquico de posições, mas numa tensão dialética entre posições". Disso podemos inferir que o lugar do sujeito em psicanálise é um lugar em movimento temporal, e pode ser mais bem apreendido ao afirmarmos que o sujeito psíquico é uma relação entre dois lugares, entre duas maneiras diferentes de dar sentido à experiência. Nessa perspectiva:

A posição esquizoparanoide é uma organização psicológica que produz um ser a-histórico, relativamente desprovido da experiência de ser um sujeito que interpreta, que possa fazer a mediação entre a sensação de si mesmo e a própria experiência sensorial vivida. Esse modo esquizoparanoide de dar sentido à experiência contribui para a sensação do caráter imediato e da intensidade da experiência (OGDEN, 1996, p. 31).

De outro lado, a posição depressiva cria um sujeito narrador de si, que é capaz de interpretar o vivido e fazer a mediação entre si mesmo e a experiência sensorial, o que permite entrar no tempo histórico, acessando passado e futuro. A posição depressiva permite reconhecer os outros como sujeitos totais e independentes, com uma vida interna semelhante à nossa própria, dando origem à capacidade de cuidar do outro, sentir culpa e fazer reparações não mágicas aos danos praticados na imaginação e na realidade e aumentando a tolerância à dor e à frustração; enfim, gerando uma qualidade de vida que possui uma riqueza de significados simbólicos.


Na verdade, seguindo a intuição de Klein quanto à oscilação constante entre as duas posições, Ogden (1996) situa o sujeito entre sucessivos processos de clivagem e de integração e que então se constitui porque oscila entre posições, porque se temporaliza; seu processo de constituição faz dele um sujeito em perpétua errância, de passagem, um ser em devir.


Inevitável pensar que essa leitura de Klein é uma maneira criativa de usar a sua descoberta. Retomando o último ponto mencionado, Ogden (1996) nos descristaliza ao dizer que a posição depressiva, com sua historicidade e capacidade de criar símbolos, não deve ser pensada como o lugar por excelência do sujeito na teoria kleiniana, assim como o inconsciente também não é o lugar do sujeito freudiano, como pensam alguns. Em Freud e em Klein, o sujeito psicanalitico é sempre nômade, perpetuamente em trânsito entre consciente e inconsciente, entre o polo esquizoparanoide e o depressivo, no "espaço e na tensão criada pela inter-relação dialética das diferentes dimensões da experiência" (OGDEN, 1996, p. 43).


Outro campo em que o pensamento de Klein gerou frutos diz respeito ao fenômeno da identificação projetiva e da contratransferência. Antes dela o analista concentrava-se na vida psíquica do paciente; mas, a partir de suas teorizações, passou-se a considerar mais o funcionamento mental do analista, através de sua rêverie, e sua participação durante a sessão.


A ideia de que tudo o que o analista pensa e sente faz parte da transferência inspirou vários autores que vêm se dedicando à concepção de campo analitico, gerado pela dupla paciente e analista. Vale aqui mencionar o casal Baranger, que, no início dos anos 1960, publicou um texto acera da situação analítica que se tornou um clássico, levando-nos a reconhecer a necessidade de, como analistas, nos escutarmos mais e nos implicarmos de forma mais profunda no processo analítico.


Para o casal Baranger (2010/1961-62), as identificações projetivas e introjetivas são cruzadas entre analista e analisando, suscitando fantasias inconscientes compartilhadas que favorecem ou obstaculizam o processo analítico. Nessa perspectiva, a reação terapêutica negativa se torna mais intensa quando se formam resistências compartilhadas, difíceis de dissolver - os chamados baluartes - em uma produção conjunta do analista e de paciente [2].


A próxima referência que trazemos para exemplificar a importâcia do legado de Klein e a fecundidade de seu pensamento é um caso clinico de Winnicott (1977), em que se vê com clareza a precedência dos insights de Klein que tornaram possível a compreensão do sofrimento agudo de uma menina de dois anos e cinco meses, chamada Piggle. Os pais eram terapeutas e estavam angustiados, tentando entender o que se passava com a filha; mas, diante da impossibilidade de comparecerem a um trabalho clássico de cinco sessões semanais, pois moravam fora de Londres, o estado da criança foi sendo descrito por meio de cartas dirigidas a Winnicott.


O atendimento de Piggle aconteceu cerca de sete anos antes da morte de Winnicott, em um momento de grande consolidação de sua experiência clínica. A garota foi atendida catorze vezes durante dois anos e meio, até os cinco anos de idade. Ao longo desse atendimento, os sintomas mais agudos foram aos poucos desaparecendo. De inicio, Piggle tinha preocupações que a mantinham acordada à noite, em grande sofrimento. Tudo começou com o nascimento da irmă menor, quando ela tinha um ano e nove meses, antes disso, tinha sido uma criança tranquila, passando então a se tornar deprimida, aborrecendo-se com tudo, manifestando intensa angústia e ciúme da irmă. Dizia aos pais que, agora, tinha um pai preto e uma mãe preta, e sentia que esta a perseguia à noite e às vezes a colocava no vaso sanitário.


Um segundo elemento da fantasia de Piggle se referia a uma entidade que ninguém sabia decifrar, por ela nomeada de baba-car. Todas as noites, Piggle pedia em tom de desespero: "Me expliquem o baba-car, quero saber tudo sobre o baba-car" (WINNICOTT, 1977, p. 22). Perdidos, a única inferência que os pais puderam fazer era de que, com frequência, a mãe preta e o pai preto apareciam juntos, associados ao baba-car, e em decorrência disso, Piggle também se tornava preta, deixando de ser quem era.


Piggle sofria muito, não tinha mais concentração em seu brincar e dificilmente admitia ser ela mesma. Começou então a pedir que não mais a chamassem de Piggle, pois ela havia desaparecido, tinha ido embora, para o baba-car. "A Piga ficou preta. Os dois Pigas são ruins" (WINNICOTT, 1977, p. 31). Seus pais não sabiam mais como ajudá-la. Contaram então à filha que haviam escrito para uma pessoa, Dr. Winnicott, que entendia de "baba-cars e de mães pretas", e a menina pediu: "Mamãe, me leva ao Dr. Winnicott" (idem, p. 23).


Na primeira consulta, houve um início de interação com Winnicott, e algumas conversas e brincadeiras que versaram sobre a irmāzinha, o outro bebê. Em seguida, a mãe conversou com Winnicott, enquanto Piggle e o pai permaneceram na sala de espera. A mãe contou então que Piggle não queria mais ser ela mesma, preferindo ser a mãe ou o bebê. Depois dessa primeira consulta, pela primeira vez desde o nascimento da irmã, os pais mandaram notícias de que Piggle permitiu-se ser um bebê, entrando no "moisés" e tomando uma quantidade enorme de mamadeiras. Não admitia que ninguém mais a chamasse de Piggle e afirmava que os Piggles eram ruins e pretos. A menina se estendia na cama, chorava sem saber por que e afirmava aos pais que o Dr. Winnicott não sabia nada a respeito de "baba-cars". Mas disse que o seu ursinho sim queria voltar a Londres para brincar com Winnicott, e ela não, revelando toda sua ambivalência.


Por um lado, Winnicott tinha ajudado muito, permitindo, depois dessa sessão, que Piggle se colocasse no lugar do bebê, porém, não conseguira decifrar a estranheza do "baba-car". A mãe desconhecia a origem exata desse termo, sabia apenas que estava associado à cor preta, ao self preto e às pessoas pretas. No meio dos acontecimentos alegres, Piggle subitamente olhava preocupada e dizia. "Chegou o baba-car". Isso estragava tudo; tudo se tornava preto. De qualquer forma, depois da primeira sessão com Winnicott, os pais relataram que começou a entrar em cena uma mãe boa. Entretanto, quando não conseguia dormir, era sempre por causa do "baba-car".


Na segunda consulta, Winnicott pediu que Piggle lhe explicasse, por duas vezes, o que era o "baba-car", mas ela foi incapaz de lhe responder. Então, ele arriscou uma interpretação: "O baba-car é o lado de dentro da mãe, de onde o bebê nasce" (WINNICOTT, 1977, p. 35) -esse é, justamente, o ponto que destacamos, o qual só foi possível em razão da tradição kleiniana de pensar. Piggle olhou para Winnicott, aliviada, e concordou: "Sim, o lado de dentro, preto" (idem, p. 35 e 36). Essa interpretação aumentou a confiança da menina, e os dois entraram em um jogo dramático, em que Winnicott devia assumir o papel de um bebé muito voraz, e Piggle a de mãe desse bebê. Ela passou a dirigir a cena dramática e a análise começou a fluir.


A intuição kleiniana de que o corpo materno é a primeira geografia para uma criança estava presente, pois, no pensamento de Winnicott, levando-o a interpretar a fantasia inconsciente de Piggle. De fato, Klein nos ajudou a desvendar o caráter misterioso e estranho do lado de dentro do corpo, de onde brotam bebês, leite, palavras: se às vezes é luminoso, em outras é de fato um lugar escuro e ameaçador, que abriga as mais inesperadas irrupções de prazer e desprazer, tirando-nos de nosso lugar de conforto, inventando outro bebé que vem dividir conosco o dom materno que era pra ser só nosso, de modo exclusivo. Por isso, na primeira sessão, Piggle repetia várias vezes o outro bebê, o outro brinquedo, enfatizando o outro, o acontecimento inassimilável dessa chegada, dessa alteridade.


Foi então o desejo iluminista de Klein, o seu desejo de jogar luz nos recantos mais escuros da afetividade humana que tornou possível a eficácia terapêutica em um caso como o de Piggle, e de muitos outros que vieram depois, e daqueles que ainda estão por vir.


NOTAS


1 Tradução nossa.


2 Para um aprofundamento: Enactments e transformações no campo analisante (TAMBURRINO, G. 2016).


 
 
 

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