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Apresentação: Por que Klein hoje?

  • há 18 horas
  • 5 min de leitura

Apresentação do livro "Por que Klein?" escrito por Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.



Por que Melanie Klein? E por que hoje? Essas são as perguntas que iluminam este livro. Pensar na transmissão do legado de Klein leva diretamente aos efeitos que seus escritos vêm produzindo e à infinidade de autores que se seguiram pelo mundo afora. Trata-se, pois, de obra seminal, cujas concepções contêm sementes de futuros pensamentos, suscitando, alimentando e criando uma posterioridade viva.


Não há dúvidas de que o alcance de um autor se mede em sua posterioridade, em sua capacidade de nutrir o pensamento e suscitar novas formas de fazer terapêutico e de compreensões conceituais. Movidas por toda essa fecundidade de Klein, apresentamos, neste livro, as reverberações de sua obra em vários autores, clássicos e contemporâneos, de uma maneira própria à nossa compreensão e trajetória.


Seguindo o projeto iluminista de Klein, e a sua proposta de entrar em contato com a experiência emocional, só poderíamos escrever este livro a partir de nossos encontros significativos com as pessoas e com os pacientes que tivemos a sorte de encontrar e que foram se tornando nossos objetos internos, na lenta incorporação do vivido. Sem nossos objetos internos não podemos viver. São eles que nos encorajam a nos voltarmos para os outros, a lidar com os enfrentamentos cotidianos, a realizar façanhas heroicas, ou nos deixam isolados e perdidos em nossa arrogância e onipotência.


Os objetos internos - os nossos e os de nossos pacientes - dão-nos muito trabalho e nos fazem buscar um equilíbrio energético, ainda que sempre instável, entre a força das pulsões e a rede das primeiras simbolizações. Sem eles, a energia pulsional, por ser uma força cega, tenta abrir passagem de forma direta, através da repetição, do acting out e dos enactments. Uma trama de objetos com traços iluministas ajuda muito quando somos obrigados a lutar com os objetos internos arcaicos, que continuam ativos nas camadas profundas de nosso superego e podem nos paralisar.


Com o passar do tempo, a própria Melanie Klein tornou-se para nós um objeto interno de amor e conhecimento, incentivando-nos a trabalhar a onipotência, a arrogância, o narcisismo, a impossibilidade de fazer lutos, de deixar passar o passado; enfim, o núcleo de loucura que existe em cada um de nós. A genialidade de sua obra se avalia também nesses efeitos minúsculos e inconfessáveis, no intimo de cada análise e da vida cotidiana, sem desconsiderar os efeitos mais visíveis na imensa produção de seus seguidores mais conhecidos. Entre eles estão Bion e Winnicott além de muitos outros que beberam das intuições kleinianas: mais tarde. também os leitores franceses se juntaram a eles, como Pontalis, Green, Roussillon, Florence Guignard. E temos, ainda, os autores ingleses e americanos, como Rosenfeld, Searles, Grotstein, Ogden, Bollas, Britton, Caper, Hinshelwood, Symington, Steiner, além de dois bionianos italianos: Bolognini e Antonino Ferro.


Entre os autores franceses, Julia Kristeva, tão ligada às obras de Freud e Lacan, escreve um livro em que celebra a genialidade de Melanie Klein, destacando a permeabilidade à angústia que se escondia em uma segurança aparente:


A coabitação com a angústia, simbolizada, e por isso mesmo possivel de se conviver com ela, posto que elaborada através do pensamento, deu a ela o gosto e a força de não recuar diante da psicose....isto nos lembra que a liberdade sempre se fortalece através das experiências limitrofes. (KRISTEVA, 2000, p. 21).

Klein, destaca Kristeva, não se dedicou aos aspectos politicos da loucura, mas ampliou seu conhecimento "ao descobrir no recém-nascido um ego esquizoparanoide, ou ao constatar que "a posição depressiva é indispensável para adquirir a linguagem", precisando com destreza "os mecanismos profundos que levam à destruição do espaço psíquico e ao assassinato da vida do espirito que ameaçam a era moderna".

(...) através dela a psicanálise nos conduziu ao cerne da psique humana passe. A obra de Melanie Klein é daquelas que mais contribuiram para para ai descobrir a loucura, que é ao mesmo tempo seu motor e seu impasse. A obra de Melanie Klein é daquelas que mais contribuíram para o conhecimento de nosso ser na medida em que ele é um mal-estar, sob seus diversos aspectos: esquizofrenia, psicose, depressão, mania, autismo, atrasos e inibições, angústia catastrófica, fragmentação do eu, entre a lhe dar um acompanhamento ótimo e uma chance de modulação com outros. E se não nos fornece chaves mágicas para evitá-lo, ela nos ajuda vistas a um renascimento, talvez, (KRISTEVA, 2000, p. 21).

O mal-estar acima descrito pode ser associado ao grande mal-estar social dos últimos cento e vinte anos, e ambos podem se ligar ao que Kristeva chamou de destruição do espaço psíquico, pensado por Klein, e ao assassinato da vida do espirito, pensado por Hanna Arendt. Pois foi essa destruição, assim consideramos, que levou aos crimes nazistas, aos genoci-dios comunistas, ou raciais do século XX, e que ainda leva aos incontáveis fundamentalismos do nosso momento histórico.


O mal-estar atual provém de não se poder pensar, não se poder criar um espaço psíquico no qual a destrutividade e a violência possam se abrigar e ser vividas no plano simbólico, mais do que por meio de atos impulsivos e impensados. Um lugar de contato, no qual ao menos uma parte da violência possa se transformar em desejo de conhecer e em obras da cultura, a serviço do bem-estar. Este foi, afinal, o sonho iluminista de Freud e de Klein: ampliar o espaço psíquico.


E é justamente o que buscamos neste livro! Com a intenção de revelar a potência do pensamento clínico kleiniano, percorremos uma trajetória diversa de outros tantos que já foram escritos, inclusive o produzido por uma das autoras junto com Luís Cláudio Figueiredo: Melanie Klein: estilo e pensamento (2004).


Ao mesmo tempo em que apresentamos os conceitos kleinianos, também indicamos ao leitor algumas de suas expansões, trazendo para o diálogo psicanalistas contemporâneos que estudaram em profundidade a obra de Klein, não sendo, necessariamente, considerados kleinianos.


Para lembrar a capacidade da obra de Melanie Klein em disseminar e criar novos pensamentos faremos referência, em especial, a três autores que podemos considerar como herdeiros de sua linhagem: Bion, Winnicott e Ogden.


Outra característica deste livro é que usamos filmes, livros, poesia para refletir acerca dos conceitos, tornando a árdua apresentação teórica um pouco mais lúdica, no sentido winnicottiano do termo, que considera o brincar um ato de criação. Além disso, alguns textos aqui reunidos já foram anteriormente publicados, em revistas e livros de colegas psicanalistas; outros se baseiam em artigos e livros nossos. Fomos então recolhendo as várias referências à obra de Klein que marca nossa trajetória acadêmica e clínica para oferecer ao leitor um conjunto inédito construído a partir de nossa parceria.




 
 
 

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