A genialidade da análise com crianças e seus desdobramentos na clínica
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Capítulo III do livro "Por que Klein?" (2018) com autoria de Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro.

A primeira e a mais revolucionária contribuição kleiniana para a clínica contemporânea, certamente a mais assimilada por inúmeros psicanalistas, foi a descoberta da análise de crianças. Assim, o que na década de 1920 era visto como um ato de ousadia se tornou uma experiência clínica cotidiana. Mas como isso aconteceu?
O início desta história remonta à própria experiência analítica de Klein com Sándor Ferenczi, em 1914. Num momento em que ela sofria de estados de depressão e dificuldades no exercício da função materna, Ferenczi ajudou-a a conhecer-se e a conhecer o universo psíquico de seus filhos, incentivando-a a analisar o mais novo, que sofria de inibições intelectuais e afetivas. A partir desse primeiro trabalho, abriu-se um universo de realizações profissionais para a jovem mãe que havia sonhado em ser médica e que se encontrava impossibilitada de fazê-lo, em função do casamento e da necessidade de cuidar de suas três crianças.
Em 1918, Klein apresentou então seu primeiro artigo psicanalítico, o caso Fritz, baseado na observação e análise do próprio filho, cuja identidade, de início, foi preservada. Na época, essa prática não causava estranheza, pois a psicanálise estava em seus momentos inaugurais. A partir desse primeiro mergulho no trabalho analítico, que abriu as portas da sociedade psicanalítica de Budapeste, Klein não parou mais de escrever, pensar e clinicar, até os seus últimos dias.
O caso Fritz (1918-1921) marca o início da técnica psicanalítica através do brincar. Klein tornou-se sensível ao fato de que a criança expressa as mais profundas angústias e fantasias por meio da brincadeira, que é a forma como realiza a associação livre. Assim, possibilitou o início da análise infantil, inexequível até aquele momento, excluindo todo e qualquer elemento pedagógico (HINSHELWOOD, 1992).
Durante o atendimento, Klein se engajava ativamente na fantasia desta, sendo sempre muito direta e clara quanto a suas hipóteses relativas que estava sendo proposta pela criança e se utilizava do próprio linguajar ao significado simbólico do brincar (HINSHELWOOD, 1992).
A análise de Rita (1923) foi outro marco importante na possibilidade de analisar crianças pequenas. Klein iniciou esse trabalho na casa da família da paciente, mas logo percebeu que seria mais adequado estabelecer outro espaço para a sessão analítica. Inicialmente, usou os brinquedos dos próprios filhos, e mais tarde propôs o uso de uma caixa contendo outros, que hoje chamamos de caixa lúdica.
Nas palavras de Klein (1955/1996, p. 157), o analista:
(...) deve permitir à criança vivenciar suas emoções e fantasias na medida em que aparecem. Sempre foi parte de minha técnica não me utilizar de influência moral ou educativa, mas ater-me apenas ao procedimen-to psicanalítico que, resumidamente, consiste em compreender a mente do paciente e comunicar a ele o que ocorre nela.
A utilidade, atualidade e simplicidade desse postulado surpreendem. A partir de suas observações clínicas, Klein (1955/1996) compreendeu que a inibição no brincar da criança representava uma séria perturbação, pois refletia dificuldades em formar e usar símbolos, além de perturbações na vida de fantasia. Observou que essas crianças com inibição intelectual apresentavam excessivos impulsos agressivos não assimilados, o que despertou o interesse na investigação clínica e teórica dos processos de simbolização. Como se forma a capacidade de pensar o que foi vivido? Para ela, a simbolização tem origem em um interesse primordial pelo próprio corpo, além disso, o significado de prazer e desprazer que se associa aos objetos concretos e às pessoas do mundo externo adquire uma função protossimbólica. O processo de figurar e representar o vivido dá início à construção de um mundo interno e às primeiras tramas do tecido da fantasia inconsciente, conceito que abordaremos adiante.
De fato, no momento atual continuamos a trabalhar com este critério diagnóstico tão fácil e simples: uma criança inibida na sua capacidade de brincar indica a presença de sofrimento psíquico e exige cuidados.
O grande insight de Klein foi perceber que as brincadeiras, os jogos, as histórias que as crianças inventam e os comentários que fazem ou calam podem ser escutados como associações livres de pacientes adultos deitados no divă. Usar a mesma linguagem das crianças para interpretar os conflitos e as angústias produzia efeitos terapêuticos que podiam ser percebidos na vida emocional, intelectual e nas relações sociais dos pequenos pacientes.
Finalizando este item, para falar sobre o brincar e sua riqueza, citamos Manoel de Barros (2010):
Poeminha em lingua de brincar
Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada.
Falava em língua de ave e de criança.
Sentia mais prazer de brincar com as palavras do que de pensar com elas.
Dispensava pensar.
Quando ia em progresso para árvore queria florear.
Gostava mais de fazer floreios com as palavras do que de fazer ideias com elas.
Aprendera no Circo, ha idos, que a palavra
tem que chegar ao grau de brinquedo
para ser séria de rir.
Contou para a turma da roda que certa rã saltara sobre uma frase dele
E que a frase nem arriou.
Decerto não arriou porque tinha nenhuma palavra podre nela.
Nisso que o menino contava a estória da rã na frase
Entrou uma Dona de nome Lógica da Razão.
A Dona usava bengala e salto alto.
De ouvir o conto da rã na frase a Dona falou:
Isso é Lingua de brincar e é idiotice de criança
Pois frases são letras sonhadas, não têm peso, nem consistência de corda para aguentar uma rã em cima dela
Isso é lingua de raiz - continuou
É lingua de Faz de conta
E lingua de brincar!
Mas o garoto que tinha no rosto um sonho de ave extraviada
Também tinha por sestro jogar pedrinhas no bom senso.
E jogava pedrinhas:
Disse que ainda hoje vira a nossa Tarde sentada sobre uma lata ao modo que um bem-te-vi sentado na telha.
Logo entrou a Dona Lógica da Razão e bosteou:
Mas lata não aguenta uma Tarde em cima dela, e ademais a lata
não tem espaço para caber uma Tarde nela!
Isso é lingua de brincar
É coisa-nada.
O menino sentenciou:
Se o Nada desaparecer a poesia acaba
E se internou na própria casca ao jeito que o jabuti se interna.
Desdobramentos do método analítico
A partir da abertura do método analítico para as crianças, tornou-se se possível pensá-lo também para psicóticos, autistas e borderlines. Klem trouxe novas propostas clínicas, novas estratégias terapêuticas e um novo estilo de trabalho. Sua técnica é, no essencial, freudiana: a leitura do inconsciente. Uma atitude despreconceituosa com relação aos aspectos primitivos do humano, uma escuta atenta, um interesse pelos conflitos, pelas angústias, pelo sofrimento psíquico e pelo absurdo da existência humana - o fato de que as coisas vão acontecendo de modo bastante diferente do que gostaríamos e que nos sentimos desamparados, vulneráveis, pois não conseguimos prever nem controlar os próprios afetos e sua intensidade nem as reações dos outros.
Quais serão os principais elementos da vida psíquica que têm de permanecer recalcados, escondidos, fora da consciência e da possibilidade de serem percebidos e elaborados? Podemos pensar na destrutividade, na sexualidade, na singularidade e nas diferenças entre as pessoas. E, também, no feminino, no sentido do acolhimento ao sentir, às sensações, ao saborear, contemplar, intuir. Podemos aqui incluir todos os desejos: as invejas, os ódios, os ciúmes, o não se conformar com as separações, as perdas, o sentimento de ter sido lesado e/ou prejudicado.
Melanie Klein - uma espécie de iluminista radical, como já dito - acreditava no poder terapêutico e no valor curativo da verdade e da possibilidade de criar um ambiente acolhedor e verdadeiro, independentemente da idade do paciente. Diante de crianças, adolescentes e de adultos, o analista deve se desprender de expectativas pedagógicas e educacionais, pois, apesar de iluminista, o projeto clínico não é o de civilizá-los, mas o de ampliar e aprofundar o seu contato com a realidade psíquica - impulsos, fantasias inconscientes, conflitos, dores e sofrimento.
Aos poucos, esse contato em um ambiente autenticamente disponível permite que os pacientes percam o seu horror à vida psíquica, no caso das crianças, razão de muitos de seus terrores noturnos e fobias, desistindo, assim, de acionar as defesas mais radicais contra as angústias, defesas estas que são sempre mutiladoras. O analista favorece, então, o encontro com novas vias de aproveitamento e transformação da realidade psíquica e, também, da realidade externa.
Entretanto, não basta amor pela verdade, é preciso uma "intuição" instruída teoricamente para que se possa entrar em contato com esse nível tão arcaico da vida psíquica. Isso porque, embora possam estar organizadas como phantasias inconscientes, as angústias arcaicas sempre estiveram fora do campo da linguagem, comunicando-se por vias primitivas e pré-verbais, como a identificação projetiva. Trata-se do mecanismo pelo qual as representações inconscientes e seus afetos são projetados para dentro do analista. Se este conseguir conter esses conteúdos projetados, pode então ajudar a formular, em termos simbólicos e linguageiros, as angustias mais arcaicas.
O analista não deve imaginar que as angústias possam ser percebidas conscientemente, pois pertencem a uma camada pré-verbal ou pré-narrativa. Porém, embora não possam ser ditas expressamente, elas precisam urgentemente ser ditas por alguém. O analista deve ser capaz então de ir ao encontro dessas angústias arcaicas, contê-las na sua mente e transformá las em uma narrativa. Essa é a função de continência da mente do analista, assim denominada por Bion, de modo que possa formular em palavras as angústias, abrindo espaço para um campo de simbolizações possíveis.
Algumas vezes, as ansiedades aparecem pelo avesso, por meio das defesas, o paciente pode dizer: "não sinto nada", ou tornar ridícula a expressão de afetos, a vergonha por tudo aquilo que se relaciona ao corpo, denotando recalcamento da sexualidade, medo social, que aparece por meio de um afastamento e uma reclusão excessivos, que são defesas esquizoides. O analista deve nomeá-las para acessar e mobilizar o aparecimento das ansiedades soterradas e das fantasias inconscientes que as originam, e quando as angústias aparecem, deve ir em sua direção, oferecendo a palavra analitica, a interpretação.
O psicanalista não consegue fazer isto sem a sua intuição e sem contato empático e imediato com o mundo dos afetos e das representações inconscientes. Ele também necessita estar orientado por uma teoria que explicite as formas de aparição da vida mental primitiva. No entanto, apenas quando é capaz de usar uma linguagem narrativa compreensivel poderá ser compreendido, mesmo que sua escuta analitica também esteja ligada à teoria mais abstrata e metapsicológica. É preciso, pois, que esteja atento à sonoridade das palavras, aos jogos semânticos e gramaticais que as palavras formam, ajudando o paciente a fazer a ponte entre o irrepresentável das pulsões e a superfície psíquica e suas narrativas. E preciso dar nome, forma e figura ao irrepresentável da pulsão, que se expressa na phantasia inconsciente e ao qual não se consegue ter acesso através do pensar consciente. Em outra perspectiva, se o analista permanecer convicto demais de sua teoria, no seu aspecto metapsicológico, pode tornar-se intrusivo, arbitrário e violento.
Para Klein, mais do que narrar suas experiências, o que o paciente precisa, e logo começa a fazer junto com o analista, é reeditar experiências padrões de relacionamento já vividos com maior ou menor prazer em outros momentos de sua vida. O que acontece diante deste personagem enigmático que é o analista? Considerando que as angústias primitivas e suas defesas vão se projetar sobre ele, é preciso deixar que, no percurso de uma análise, essas projeções aconteçam e sejam trabalhadas pela interpretação, mas, para isso, os climas e as posições relativas que vão sendo ocupadas pelo paciente e atribuidas por ele ao analista precisam ser sempre monitoradas.
Tudo o que o paciente diz, tudo o que relata, suas brincadeiras, seus desenhos, os sonhos que conta, seus comentários e associações, suas reações às interpretações oferecidas, tudo parece ser visto e escutado como endereçado ao analista. Este é percebido como tal ou qual figura significativa da experiência do paciente e, efetivamente, colocado nesse lugar. Em maior ou menor grau, o analista se deixa levar para esse papel e, em certa medida, o encarna, ocupando de fato o lugar que o paciente o coloca.
De fato, na transferência, acabamos por ocupar diferentes lugares e assumir diferentes feições. Mesmo que o paciente esteja se referindo a qualquer outra pessoa, sabemos que, ao menos em parte, é de nós que está falando; é sempre a nós que se dirige.
A situação analítica é bastante complexa e acaba reunindo muito tempo, lugares e situações diferentes, os quais se sobrepõem, se desdobram e se multiplicam. O analista focaliza o aqui e agora, mas está ciente de que todo aqui e agora é um momento de ressonância do passado e antecipação do futuro - não há um aqui e agora isolado desta sobredeterminação.
Para os kleinianos, é importante reconhecer que a análise se dá nessas condições e, fundamentalmente, sobre essas condições, cabendo então interpretá-las, discriminando phantasia de realidade, passado de presente, inconsciente e consciente. O objeto da análise não é o passado tal como se passou, mas este presente complexo, multifacetado e sobredeterminado em que o infantil está atuante, tanto nas crianças como nos psicóticos, e mesmo nos adultos neuróticos, como um modo de funcionamento mental, com uma modalidade de ansiedade, de defesas e resistências e de formas de contato com os objetos internos e externos.
A análise é um percurso que deve ser atravessado para que o paciente dele saia transformado. Muitas vezes, o analista é idealizado, tratado com complacência e com uma concordância muito rápida. Os kleinianos logo buscam detectar os elementos de voracidade, inveja, ciúme e ódio que ficam muitas vezes camuflados. Esses elementos destrutivos são companheiros inseparáveis do processo analítico, e se não forem interpretados, atacarão tudo o que de bom e amoroso o analista e a análise podem oferecer, gerando uma forte reação terapêutica negativa.
Prestar atenção a esta reação terapêutica negativa - essa estranha vontade de não se curar e não aproveitar o que aquela análise e aquele analista podem oferecer - foi algo que nossa autora apontou como decisivo, desde o principio, importante de ser captado e interpretado.
Mais uma vez, aqui opera seu lado "iluminista radical", segundo o qual essas forças sombrias e contrárias ao sucesso de uma análise podem ser ao menos parcialmente neutralizadas, caso venham à luz desde o princípio, de modo que não ocorra um pacto de silêncio entre paciente e analista.


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