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Vitalização como uma função analítica: uma proposição a partir do pensamento de Winnicott

  • 26 de jun.
  • 36 min de leitura

Capítulo 4 do livro "Chuva n'alma: a função vitalizadora do analista", escrito por Fátima Flórido César e Marina F. R. Ribeiro.





Sento-me no chão da capital do país


às cinco horas da tarde


e lentamente passo a mão nessa forma insegura.


Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.


Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.


É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto,


o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade, "A flor e a náusea", 1967.


Neste capítulo, partimos do pressuposto de que o processo psicanalítico segundo Winnicott tem como um dos pilares fundamentais o analista como presença viva e vitalizadora, entendendo tal condição dentro de uma perspectiva complexa sobre a qual nos debruçaremos adiante. Embora a função vitalizadora do analista seja primordial junto a casos que apresentam entraves severos quanto à constituição do eu, propomos que em Winnicott a oferta de vitalização se estende a todos aqueles que chegam para serem cuidados, sem necessariamente apresentarem questões tão primitivas.


Mas o que significam vitalidade, vitalização e a função vitaliza dora do analista? Como entender o que aqui reconhecemos como a necessidade do analista de disponibilizar-se enquanto presença viva? Como formular uma resposta metapsicológica para tais questões cruciais? Para isso faremos uso predominantemente do pensamento de Winnicott, mas também de autores que com ele dialogam. Propomos nesse começo uma reflexão do que seja vitalidade - incluindo a vitalidade presente no entre do par analítico -, valendo-nos, para tal, de um artigo de Boraks (2008) intitulado "A capacidade de estar vivo". Feito isso, poderemos em seguida nos debruçar sobre a função vitalizadora tanto da mãe quanto do analista, mais detidamente no pensamento de Winnicott.


O que significam vitalidade e a capacidade de estar vivo?


Nas etapas primitivas do desenvolvimento, o corpo ganha destaque como lugar onde se sustenta o sentir-se vivo. O nosso início é descrito por Winnicott em termos de vida corporal (Boraks, 2008, p. 112): o corpo é o lugar de onde se pode iniciar a vida a partir do que nos é familiar e do que vivemos inicialmente de modo sensorial. É importante destacar que tal vitalidade vai depender primordialmente do cuidado da mãe e de sua capacidade de acolher estados excitados e sustentar estados relaxados com uma presença viva, dedicada e não intrusiva, protegendo o bebê de interrupções em sua continuidade de ser. O corpo como apresentação primitiva da capacidade de estar vivo, como destaca Boraks, é uma decorrência dos cuidados da mãe, a serem oferecidos de modo vivo, devendo emergir de sua vitalidade emocional e corporal: "o amadurecimento será facilitado dependendo essencialmente do tipo de troca, de proximidade e de uso do corpo da mãe" (p. 113).


A consequência dessa primeira comunicação mãe-bebê será a conquista de um eixo sustentador a partir do qual o sentir-se vivo se organiza, com flexibilidade que possibilita alternâncias dos estados do ser, sem que estas sejam experimentadas como vivências de despedaçamento e evitando que a personalidade se estruture de modo rigido. Segundo Boraks (2008):

Assim, realizar a capacidade de estar vivo ao longo da vida tem a ver com a proximidade de algo que se assemelha a um corpo materno, um íntimo flexível, ora organizado em certa direção, ora rarefeito, à mercê de qualquer destino. É o representante da vitalidade e sua expansão que caminham na direção de ampliar maiores e mais profundas capacidades de estar vivo. (p. 113)

A vitalidade em si não se encontra circunscrita a determinados momentos, a uma experiência uniforme. Alcançar a experiência de estar vivo implica a vivência inclusive de dor e sofrimento: estar vivo para a experiência; não sendo a vitalidade algo estático, isso pode mesmo incluir momentos de desvitalização. Destaquemos, como indica Boraks (2008, p. 115), que viver é a possibilidade de sustentar alternâncias, sendo que, se estas ficam restritas a agonias e/ou medo, o paciente se torna sobrevivente, não tendo alcançado a vida. Aqui o papel vitalizante do analista ganha relevância e desafios são impostos: como chamar tais pacientes à vida, como resgatá-los de uma única e terrorífica forma de viver; ou, melhor falando, de sobrevivência? Para tais pacientes, a tarefa do analista será, portanto, transformar essa empobrecida e extremamente sofrida forma de sobreviver em uma experiência viva.


A capacidade de estar vivo é uma conquista. Sentir-se vivo não é algo inerente:

"é a somatória de experiências que ao longo do desenvolvimento se tornam emocionais e adquirem sentido para nós" (Boraks, 2008, p. 115).

Boraks também discorre sobre a vitalidade na relação transferencial: tal vitalidade ocorre no entre da relação e na experiência emocional vivida no momento envolvendo o par analitico: o analista precisa manter sua própria vitalidade. E aqui consideramos fundamental destacar: vitalidade que se manifesta em sustentar alternâncias entre vitalidade e desvitalidade, "com as quais deve sonhar, brincar e tentar nutrir seu analisando, para lhe propiciar a oportunidade de ter uma experiência de dependência disponível dentro de si" (p. 115).


Para que tal vitalidade seja integrada, ressalta Boraks (2008, p. 116), é necessário que possa ser uma experiência tanto para o analista quanto para o analisando. Boraks se refere a um jogo/abertura para se disponibilizar a ser transformado pelo outro - uma dinâmica transformado/transformador sem a qual a vitalidade se perde, assim como a própria análise.


A vitalidade da relação será mantida a partir do modo de o analista oferecer as transformações segundo o idioma do paciente e seu próprio. Se o analista se enrijece devido a filiações rígidas a correntes e teorias, "o brincar transformador" se perde e o analisando não consegue usar o analista de modo a acessar o que tem de mais verdadeiro de si mesmo. O uso do analista é importante na medida em que se constitui como sinal de vitalidade. Quando isso não se torna possível, a decorrência é o emergir da desesperança quanto à ampliação da experiência de viver.


Seguindo Winnicott, Boraks compreende a vida como "a realização da vitalidade ao longo do existir" (2008, p. 120). A não vida seria equivalente à submissão extrema que substitui a espontaneidade pelas organizações defensivas. Viver implica deslocamentos entre vários aspectos da existência que devem envolver o núcleo do ser, incluindo, como descreve Winnicott, ser capaz de abandonar momentaneamente o impulso para existir. Isso faz parte da saúde que înclui a esperança de recuperar a integração quando esta é perdida. A vida, portanto, constitui na manutenção de tal esperança e em acolher toda a amplitude de vivências subjetivas, inclusive o que temos de mais terrorífico, de modo a colocar opostos em um jogo que nos permita acessar um novo lugar frente a nós mesmos e aos outros.


A vitalidade não é algo dado ou estanque, mas, como adverte Boraks (2008, p. 120), além dessa abertura e conexão com os vários estados de ser, inclui a ousadia para a transgressão do já estabelecido em nós mesmos.


E, agora, somos direcionadas à relação entre a vitalidade e a função analítica:


Quando a relação analítica toma a sua própria vitalidade como referencial e a capacidade de estar vivo está presente, cria-se um campo no qual duas pessoas poderão cooperar numa espécie de interjogo, para criar e/ou redesenhar as vivências decorrentes de experiências reais, de produtos da fantasia, de consequências de invasão ou privação, oferecendo a ambos a oportunidade de expandir a capacidade de estar vivo. (Boraks, 2008, p. 120)

Estar vivo e se deixar tocar pela subjetividade do paciente requer do analista o contato com os mais diversos aspectos de seu próprio ser, mesmo os mais primitivos, o terror, seus conflitos mais ameaçadores, e, incluímos aqui, sua própria abertura ao deixar de existir momentaneamente (mantendo, dessa forma, a saúde). O trabalho analítico se constitui baseando-se em grande parte na manutenção de opostos em jogo: será possível se houver, portanto,

"um profundo envolvimento da pessoa do analista com aquilo que sua vitalidade o faz experimentar" (Boraks, 2008, p. 122).

O mito da "inteireza" e de um funcionamento harmônico de nós mesmos deve ser abandonado: a capacidade de estar vivo, a vitalidade, implica conviver e produzir transformações a partir de nossas ambivalências - "a partir, inclusive, da nossa ambivalência em relação à capacidade de estarmos vivos" (Boraks, 2008, p. 122).


Optamos por iniciar o capítulo com essa reflexão sobre vitalidade a fim de buscar dar ao termo um status de conceito. A partir daqui, retornamos a Winnicott, agora segundo a perspectiva de relacionar a função vitalizadora da mãe com a dimensão vitalizadora presente no setting analítico.


O cuidado materno como convite à vida


Atentemo-nos para as palavras de Winnicott (1962/1982b) na apresentação de seu texto "Os objetivos do tratamento psicanalítico":


Ao praticar psicanálise, tenho o propósito de:


Me manter vivo;


Me manter bem;


Me manter desperto. (p. 152)


E completa: "ser eu mesmo e portar-me bem" (p. 152). Tal impactante declaração merece uma reflexão que nos conduza para além do que se apresenta aparentemente simples e suscitador de entendimento superficial. A necessidade de presença viva está ai colocada: uma ética que coloca o analista em estado de implicação à semelhança da disponibilidade da mãe, que, se suficientemente boa, apresenta-se como fonte de alimento vivo para seu bebê ou criança: um "seio vivo" ao contrário de casos em que se oferece um "seio morto" (ou por cuidar de seu filho de forma automática e estereotipada, ou por estar absorta em seus próprios devaneios, ou por questões psicopatológicas). Ser ele mesmo implica a oferta da pessoa real, ou seja, de posse de seus recursos anímicos e de uma maneira que compareça com seu idioma pessoal. A convocação da pessoalidade do analista deve se dar, entretanto, de tal forma que este não inunde o cenário analítico com acting outs, o que só poderá ser possível se o analista estiver integrado e em contato com seus núcleos menos saudáveis e estagnados. A consequência será o "portar-se bem": não como técnica "mecanizada", mas como disponibilidade sensível guiada para as necessidades do paciente.


Entendemos necessidades como necessidades do eu, irredutíveis às necessidades fisiológicas e instintuais. Se a mãe for ao encontro delas, estará facilitando as condições para que o bebê tenha preservada sua continuidade de ser. As necessidades do eu correspondem a necessidades de contato intimo, corporal e afetivo de comunicação: olhar e ser olhado. Winnicott usa a palavra "amor" para identificar tais cuidados ambientais, advertindo, entretanto, para o risco de soar sentimental. Com nossos pacientes, entendemos atender suas necessidades ao acompanhá-los empaticamente de acordo com o momento do amadurecimento emocional em que se encontram.


Encaminhamo-nos aqui ao reconhecimento de que o cuidado do analista, como se apresenta, tem como modelo o cuidado mãe-bebê em sua função primordial de convidá-lo para a vida. Convidar para a vida é propiciar, a partir da identificação com seu filho, o oferecimento de "coisas vitais", como ser segurado no colo, ser olhado, tocado, o que nos leva a pensar na ideia de um contato íntimo. Relacionamos o que aqui referimos como convite à vida ao atendimento das necessidades do eu que propicie uma experiência de mutualidade (Winnicott, 1969/1994b).


Consideramos assim com relevância o papel da mãe em seu investimento de cuidados e sua presença, impulsionadora de vinculos vitais e de esperança destacando esta última como fundante da abertura para a existência. Reconhecemos, portanto, o par mãe-bebé como modelo de referência da situação psicanalítica.


Mas, antes, pode ser proveitoso pensar na pessoa real do analista. Poucos analistas, como Winnicott, compareceram tão maciçamente com seu próprio modo de ser, de forma verdadeira e autêntica, forma esta que se constitui como vetor de uma comunicação viva com o paciente. Entendemos como comunicação viva aquela facilitadora da ampliação da capacidade de viver e do tornar-se humano em tudo o que isso implica quanto à vastidão de experiências próprias do existir. Valemo-nos aqui do valioso prefácio de Masud Khan (1949/1993) no livro de Winnicott Textos selecionados. Da pediatria à psicanálise, assim como das palavras do psicanalista Heitor de Macedo sobre a personalidade e humor de Winnicott. Assim Khan (1949/1993) apresenta Winnicott:

Quando olho para trás, para os quase vinte anos de meu trabalho com Winnicott, o que me surge vividamente é a sua postura corporal relaxada e a sua suave concentração. Winnicott prestava atenção com o corpo todo, e tinha um olhar perspicaz e respeitoso, que nos focalizava com um misto de dúvida e absoluta aceitação. Uma espontaneidade de criança impregnava os seus movimentos. Mas ele podia também ficar muito quieto, inteiramente controlado e quieto, Jamais conheci outro analista que fosse tão inevitavelmente ele mesmo. Era essa característica de ser inviolavelmente ele mesmo, que lhe permitiu ser tantas pessoas diferentes para tanta gente. Cada um de nós que o conhecemos tinha seu próprio Winnicott, e ele jamais atropelou a ideia que o outro fazia dele pela afirmação de seu modo pessoal de ser. No entanto, permanecia inexoravelmente Winnicott. Comecei propositalmente por definí-lo em sua presença física, porque não seria possível compreender o seu talento clínico sem primeiro entender que, nele, a psique e o soma encontravam-se em perpétuo diálogo, e suas teorias são simplesmente a abstração daquela constante pessoa que era Winnicott, o ser humano e o terapeuta. E novamente, Winnicott o homem e Winnicott o clínico eram recíprocos um com o outro, formando um bloco único, inteiriço. (p. 7, grifo do original)

Ser você mesmo, a reciprocidade entre a pessoa e o analista, o diálogo entre psique e soma, a espontaneidade, o trânsito entre gestos e quietude, a ligação absoluta entre suas teorias e o ser humano e terapeuta - por aí Khan vai "desenhando" Winnicott. O analista precisará ser inexoravelmente ele mesmo como ponto de partida para um contato autêntico e propiciador de confiabilidade e do despertar de esperança no paciente. Também a mãe precisa de modo semelhante se oferecer a seu filho: inexoravelmente ela mesma, não máquina, imperfeita, verdadeira, dedicada, com um amor que não é puro sentimentalismo, mas que inclui ódio (entretanto, tolerando-o, não podendo exprimí-lo e sem fazer nada acerca do assunto, sem se vingar na criança) (Winnicott, 1947/1993a). Sermos inexoravelmente nós mesmos, como cuidadores - mãe ou analista -, será condição para o estabelecimento do vínculo vitalizador com o filho/paciente, que convida para a vida e para a esperança de um porvir fértil, rico de possibilidades e novidades, de amplos e extensos territórios do viver. A presença viva da mãe e do analista constituem-se, assim, como uma disponibilidade: ao deixar-se usar em suas várias competências anímicas, o que inaugurará um acontecimento humano: cambiante, aberto a transições entre vários estados de ser - incluindo, de modo paradoxal, o compartilhamento de experiências de desvitalização.


Aqui estamos falando de saúde psíquica, entendendo-a como trânsito e como encontro de infinitas possibilidades de modo a ser capaz de transformá-lo ao mesmo tempo em que se é transformado por ele. A saúde psíquica que está intrinsecamente com o mundo, ligada à capacidade de estar vivo inclui os "naufrágios” a que se refere Fausto, personagem de Goethe (1808/1984). Entrar na vida implica a experiência, inclusive e de modo especial, de sofrer: o sofrimento, diverso da agonia que deixa em suspenso o indivíduo, "implica em devir, em destinar o vivido", como afirma Safra (2004, p. 70). Entretanto, poder alcançar o sofrimento como possibilidade de ensinamento só acontece pela hospitalidade ofertada ao singular de si mesmo pelo outro - aqui melhor definindo o que mencionamos como pessoalidade.


Macedo (1999), de modo semelhante a Khan, em seu livro intitulado Do amor ao pensamento, apresenta Winnicott a partir de seu modo de ser. Inicia destacando a alegria que o psicanalista inglês experimenta em fazer seu trabalho de psicanalista e pensar sobre ele. Há a dimensão desafiadora de seu oficio, de modo que Winnicott afirma constantemente o prazer em exercê-lo e a experiência fecunda que ele representa para o pensamento. É frequente encontrar em seus relatos: "eu participava ativamente nesta brincadeira que muito nos divertia" (Winnicott, 1984, p. 25), ou "estávamos os dois encantados em brincar juntos" (p. 61). Sobre a importância do humor, dirá:


O senso de humor é a marca de certa liberdade: o inverso da rigidez das defesas características da doença. É aliado do terapeuta, que, graças a ele, experimenta um sentimento de confiança autorizado a certa liberdade de ação. É uma prova da imaginação criadora da criança e de sua alegria de viver. (p. 41)


Macedo ressalta muito apropriadamente que um analista que trabalhou com casos tão difíceis fez da alegria o centro da concepção de seu trabalho. Entretanto, adverte que não se trata de um traço de temperamento, mas de uma escolha ética, que Winnicott (1975) enunciará, aliás, categoricamente: "se o terapeuta não pode brincar, isto significa que não é feito para este trabalho" (p. 80). O brincar aqui também é entendido não como simplesmente a dedicação a atividades ou brincadeiras, mas como uma capacidade do analista de se colocar na posição subjetiva de acordo com as necessidades psíquicas do paciente: é a esse jogo que se refere Winnicott.


Sigamos um pouco mais com Macedo (1999), que traz contribuições relevantes capazes de nos auxiliar na articulação entre a relação mãe-bebê e analista-paciente: iniciamos com a amamentação, esta como protótipo - tempo inaugural do encontro humano.

"A mãe disponível é a que não se encontra angustiada e é capaz de instalar o bebê confortavelmente e que prepara, se está tudo bem, o enquadre em que a mamada pode acontecer" (p. 22). 

É muito interessante o uso ampliado que Macedo faz do termo enquadre: "O enquadre faz parte de uma relação humana" (p. 22). O autor ressalta que, no momento de amamentação, a partir do contato com o corpo de uma mãe que olha seu filho e o vê como pessoa, o bebê experimenta sensações muito vivas. Tais sensações são fruto desse enquadre e do cuidado vivo da mãe:


[o bebê] tem necessidade de ser tomado com amor, ou seja, de forma viva, sem embaraços, sem angústia e sem tensão. Eis o enquadre. Cedo ou tarde, haverá certo contato entre o mamilo da mãe e a boca do bebê. A mãe está presente no enquadre, faz parte dele e gosta particularmente da intimidade dessa relação. O contato com o mamilo dá ideias ao bebê! "Talvez haja, fora da boca, algo que valha a pena ser encontrado". A saliva começa a escorrer. Há a possibilidade de escorrer tanta saliva, que o bebê pode ter prazer em engoli-la e não sentir, por um momento, necessidade de leite. Pouco a pouco, a mãe lhe permite, na imaginação, a própria coisa que ela lhe oferece e ele começa a colocar o mamilo em sua boca, a ir até à raiz, a mordê-lo e, pouco a pouco, a sugá-lo. Depois, segue-se uma pausa. As gengivas afastam-se do mamilo e o bebê se desinteressa da cena que acontece. A ideia de desejo se dissipa. O bebê tinha uma ideia e o seio veio com o mamilo, um contato foi estabelecido. Depois o bebê concluiu a ideia, virou-se e o mamilo desapareceu. Como a mãe reage ao desinteresse do bebê? Ele não tem um objeto que lhe é recolocado na boca para que os movimentos de sucção recomecem. A mãe compreende o que ele sente, porque ela está viva e tem imaginação. (Macedo, 1999, pp. 22-23, grifos do original)

O amor materno se apresenta como equivalente a tomar o bebê de forma viva: sem "embaraços", sem que algo perturbe a experiência e a instalação do enquadre, este definindo o encontro vivo. Adiante, ele afirma que a mãe compreende o que o bebê sente porque está viva e tem imaginação. Também o analista só será capaz de ir ao encontro da necessidade de seu paciente se estiver vivo e de posse de sua imaginação, ou seja, de sua criatividade psíquica. A mãe viva possibilita ao bebè uma experiência viva, assim como o analista com seu paciente. Acrescentamos aqui, para maior possibilidade de entendimento do analista como presença viva, o acesso à sua criatividade psíquica e à liberdade de experimentar.


A seguir, recorremos ao próprio Winnicott, continuando a convidar o leitor ao exercício de articular, fazendo uso da conceituação de Macedo, o enquadre mãe-bebê e o enquadre terapêutico (definindo-o como campo de vitalização).


Winnicott fala do amor da mãe inúmeras vezes no decorrer de sua obra, como a condição para esta se vincular a seu bebê de modo a lhe transmitir vitalidade e confiabilidade. Ambas estão ligadas, assim como a transmissão da esperança: a experiência fundamental de intimidade e da alegria (a alegria de estar em contato, no início primordialmente físico) com seu filho. Num texto de 1958, Winnicott fala dos diversos sentidos do termo "Amor", que vai se modificando no decorrer do processo de amadurecimento. No início, "Amor significa existir, respirar; estar vivo identifica-se a ser amado" (1958/1993d, p. 19). Deduz-se daí que a condição de estar vivo depende do "ser amado", ou seja, dos cuidados amorosos da mãe. Seguem algumas passagens em que Winnicott sublinha a importância do amor materno: "Sabemos que, em se tratando de crianças pequenas, é só o amor por aquela criança que torna a pessoa confiável o suficiente" (1950/1993c, p. 33). Em outro texto, ele afirma: "É algo [cuidados iniciais do lactente] que só se torna possível através do amor. Dizemos, por vezes, que a criança precisa de amor, mas queremos significar com isso que só alguém que ame a criança pode fazer a necessária adaptação à necessidade" (1964/1982f, p. 208, grifo do original), E, ainda: "se poderia usar a palavra 'amor' aqui ſem referência a esses cuidados maternos), correndo o risco de soar sentimental" (1962/1982c, p. 69).


A comunicação denominada por Winnicott comunicação mãe-bebê de mutualidade se inicia no útero. No ventre, o bebê já é um quando nasce, já teve uma soma de experiências (Winnicott, 1964/1982e. P. 20) - lá ele mostra sinais que são próprios dele, ou seja, não apenas a mãe transmite vivacidade para o bebê, mas também "este, quando ao espernear dá sinais concretos de vida e de vivacidade" (p. 21), é ativo no sentido de deixar a mãe contente de ir conhecendo-o, mesmo antes de nascer, e vivenciando a alegría, se ela está bem, de receber tais sinais de vida. Também o bebê já aprendeu muito a respeito da mãe, "compartilhou de suas refeições" (p. 21), o sangue fluindo mais rápido quando se alimentava ou corria para pegar um ônibus. Ele saberá quando a mãe está ansiosa ou zangada; ou, se é mais calma, terá conhecido estados de paz, esperando ao nascer, por sua vez, um colo aconchegante ou um passeio tranquilo em seu carrinho.


A importância da intimidade, esta transmissora de comunicações para assegurar que o filho é bem-vindo à vida, se inicia em termos corporais, e Winnicott coloca como o primeiro contato com o bebê as horas da alimentação, quando ele está excitado. Haverá também os momentos em que está calmo: são os dois estados vivenciados pelo bebê de inquietude e de quietude. Alguns bebês choram muito, mas também poderão se acalmar, por exemplo, durante o banho, dando-se assim início a um relacionamento humano. Segundo Winnicott esse momento constitui uma ocasião de contentamento.


E relevante pensarmos como a comunicação se dá com base nas experiências corporais, estas propiciando experiências de vitalização: tanto quando o bebê está excitado como, nos intervalos, "quando ele estará exultante por encontrar a mãe por trás do seio ou da mamadeira, e descobrir o quarto por trás da mãe, e o mundo para além do quarto" (Winnicott, 1964/1982e, p. 23).


Embora Winnicott, de certa forma, priorize as horas de amamentação como propiciadoras de conhecimento mútuo e de vitalização recíproca, também serão importantes as horas de descanso, do banho ou as trocas das fraldas.


Nas primeiras semanas ou meses do bebê, os alicerces da saúde emocional são lançados pela mãe; para isso, ela precisa estar protegida principalmente pelo pai) para devotar-se de modo intenso neste início, quando o vínculo entre os dois é tão poderoso. É porque acredita nessa vinculação entre o desenvolvimento emocional do bebê e o cuidado da mãe que Winnicott afirma: "só agora começamos a dar-nos conta da maneira absoluta como o bebê recém-nascido necessita do amor da mãe" (Winnicott, 1964/1982g, p. 27, grifo nosso).


Se, como já falamos, a vitalidade do bebê depende nesse começo, de certo modo, da mãe (veremos adiante como esta questão da vitalização proveniente da mãe é complexa, devendo ser pensada em termos de paradoxo), a alegria desta ao desfrutar o contato íntimo e corporal com seu filho é incentivada por Winnicott em uma de suas palestras dedicadas às mães, intitulada "O bebê como organização em marcha":

Bem, faço votos para que se divirta! Divirta-se por a julgarem importante. Divirta-se deixando que as outras pessoas cuidem do mundo, enquanto você está produzindo um de seus membros. Divirta-se com a sua concentração interior, quase enamorada de si própria - o bebê é uma parcela tão próxima de si. Divirta-se com a maneira como o seu homem sente-se responsável pelo bem-estar tanto seu como do bebê. Divirta-se descobrindo coisas novas a seu próprio respeito. Divirta-se tendo mais direito do que jamais conseguira ter, antes de fazer justamente aquilo que acha bom. Divirta-se quando fica contrariada porque os gritos e prantos do bebê o impedem de aceitar o leite que você anseia por dar com generosidade. Divirta-se com toda espécie de sentimentos femininos que você não pode nem sequer começar a explicar a um homem. Em particular, sei que a leitora [mãe] vai adorar os sintomas que gradualmente irão aparecendo, de que o bebê é uma pessoa e de que você é reconhecida como uma pessoa pelo bebê. (Winnicott. 1964/1982g, pp. 27-28, grifos nossos)

Tal reconhecimento recíproco vai sedimentando as bases para o ingresso do bebê na vida: o desfrute da mãe é importante para seu próprio prazer, mas esse prazer extraído de cuidar de uma criança é "vitalmente importante do ponto de vista do bebê" (Winnicott, 1964/1982g, p. 28, grifos nossos).


O prazer da mãe é fundamental para o bebê - e, podemos acrescentar, vitalizador: o prazer que acompanha os cuidados que são importantes não por serem corretos, isso seria monótono e mecânico. O alimento será importante não tanto por vir na hora certa, mas por ser oferecido por alguém que "ama" (Winnicott, 1964/1982g, p. 28, grifo nosso) alimentar seu bebê. Podemos aqui fazer uma primeira leitura do destaque reiterado que o autor dá para o "amor" da mãe, que ele menciona repetidas vezes: amor aqui se aproximando de prazer, embora não apenas, como veremos adiante. O prazer da mãe, afirma o autor, é como o "raiar do sol do bebê" (p. 28). Articulamos aqui com a alegria enquanto posição ética mencionada por Macedo: alegria fruto de um processo de amadurecimento e do estar integrado. A alegria, embora acompanhada dos inúmeros estados de ser que se inter-comunicam, continua sendo, entretanto, carro-chefe para o encaminhamento de um encontro vivo. O analista, assim como a mãe, precisa receber seu paciente de forma viva, com alegria não como traço de caráter, mas anunciadora de que existem modos saudáveis (entendendo saúde não como ausência de sintomas, mas como riqueza interna) de viver.


Mas é fundamental esclarecer a complexidade dessa dependência do bebê, que não se apresenta inteiramente passivo, apenas o suficiente para receber impulsões de vida. Mais um dos paradoxos de Winnicott: o bebê, diz ele às mães na citada palestra, não depende dela para desenvolver-se: "cada bebê é uma organização em marcha" (Winnicott, 1964/1982g, p. 29, grifos do original). Como entender tais afirmativas do autor? Vale a pena acompanharmos suas palavras: "Em cada bebê há uma centelha vital e seu ímpeto para a vida, para o crescimento e o desenvolvimento é uma parcela do próprio bebê, algo que é inato na criança e que é impelido para frente de um modo que não podemos compreender" (p. 29, grifos nossos).


A tendência para a vida e o desenvolvimento é algo inato ao bebê, ainda que este, paradoxalmente e ao mesmo tempo frágil de corpo, necessite dos cuidados provenientes do "amor materno". O desenvolvimento emocional do bebê depende de o próprio estar vivo este como condição para o seu amadurecimento. Entretanto, as potencialidades herdadas só poderão amadurecer na dependência de um ambiente favorável. O ímpeto vital, a centelha vital do bebê só pode se desenvolver a partir do amor da mãe, este visto como condição essencial para a saúde emocional do bebê: ele necessita de modo absoluto do amor da mãe.


Os paradoxos apresentados nos levam a refletir que a vitalização (e, ocasionalmente, a desvitalização) se situa na dupla, no entre; o bebê e sua centelha vital nos remetem à crença na natureza humana a que se refere Winnicott (1954-1955/1993b): "Para que seja feito algum trabalho, é necessário que uma crença na natureza humana e nos processos de desenvolvimento exista no analista, e isto é rapidamente sentido pelo paciente" (p. 478, grifos do original). É claro que, quanto mais no início, mais o bebê em sua fragilidade e o paciente regredido, enredado por questões primitivas, precisarão do investimento da mãe/do analista. Entretanto, o encontro, a construção da relação de intimidade é um "trabalho" conjunto.


Nessa interessante palestra, Winnicott interroga as mães sobre estas se sentirem aliviadas, já que muitas ficam privadas do prazer da maternidade por se sentirem responsáveis pela vivacidade do bebê. Essas mães ficam no papel de "animadoras", colocando o bebê para saltitar no colo, buscando risadas ou algum sinal que as tranquilize, aguardando que acordem para dar sinais de vida - algo que indique que o processo vital continua na criança". Em última análise, conclui Winnicott, "a vida depende menos da vontade de viver do que do fato de respirar" (Winnicott, 1964/1982g, p. 30). Os bebês não se tornam vivos porque a mãe tem de pôr vida neles: existe um processo vital próprio deles (muito difícil de extinguir, adverte Winnicott). Eles não são obra das mães.


Tudo isso nos remete à função vitalizadora do analista: a reanimação psíquica não significa "animar" o paciente com injeções de ânimo. Precisamos pensar que, mesmo em estados de quase morte, também no paciente o processo vital continua. Não cuidaremos apenas do que está adoecido, mas também do que permanece vivo. Por outro lado, o "vivo" tanto na mãe quanto no analista corresponde a estar ligado empática e vivamente às necessidades de quem é cuidado - a criança e o paciente -, preservando a atenção às manifestações de vida psíquica, mesmo que ocorram momentos em que algo da vitalidade esmorece; momentos esses que também fazem parte da vida.


O cuidado deve dar-se também no sentido de respeitar o tempo para o recolhimento tanto do paciente como do bebê, quando este necessita ficar entregue às suas divagações, simplesmente deitado. Privar as crianças dessa experiência pode retirar-lhes algo essencial, assim apontado por Winnicott: a sensação de que elas próprias querem viver. Também enquanto analistas precisamos estar atentos para sustentar a esperança do desejo de viver do paciente, ajudá-lo a se conectar com os sinais de sua ligação com a vida; mas, tal qual as mães, possibilitar que sintam como pessoal tal desejo. Winnicott nos encaminha para um pensamento paradoxal: a função vitalizadora, que deve estar presente de modo fundamental no cuidador, deve se dar de tal forma que haja espaço para um "deixar estar", para que o processo vital aconteça de tal forma que a sensação não seja de que a vitalidade foi incutida, inserida, mas que é, acima de tudo, do próprio indivíduo.


Podemos pensar que, apesar de reconhecer a importância fundamental do ambiente, ele é secundário: a mãe corresponde à centelha vital, o bebê tem o ego forte e fraco - é forte porque a tendência ao amadurecimento, para se integrar, para a vida que vem da natureza humana, é muito presente em nós todos, por isso nos mantemos, sendo capazes de encarar as adversidades. O bebê é frágil porque ele ainda não pode sustentar sozinho o impulso para a vida. Winnicott destaca essa tensão permanente entre o indivíduo e o ambiente: pensar no bebê como uma "organização em marcha" possibilita à mãe liberdade para a observação do que acontece em seu desenvolvimento. Winnicott finaliza essa palestra afirmando que será assim possível "desfrutar o prazer de reagir às suas necessidades" (Winnicott, 1964/1982g, p. 30).


Também podemos associar tal imagem ao paciente: precisando que nos liguemos ao que lhe é vitalmente próprio e que segue em desenvolvimento, mas também às interrupções dos processos de saúde, estas capazes de levar a recuos e paralisações na marcha. De qualquer modo, assim como Winnicott ressalta que os bebês não são obras da mãe, e que eles crescem e elas são propiciadoras de um ambiente facilitador e adequado, também podemos deduzir que um dos aspectos da vitalização necessária no processo terapêutico se liga à ideia de que nossa função também é oferecer um entorno facilitador do desatar os nós próprios das dificuldades de viver e, em casos mais graves, de alcançar a vida.


Esperamos ter começado a esclarecer essa complexa ideia que envolve a ligação entre a função vitalizadora da mãe com a do analista.


Uma das possibilidades de efetuar tal vinculação, de suma importância, como já vimos apresentando, refere-se à alimentação - esta entendida como uma das partes mais importantes de uma relação entre dois seres humanos:


possibilitando que unam-se mutuamente pelos tremendamente poderosos laços do amor e, naturalmente, terão primeiro de aceitar os grandes riscos emocionais envolvidos. Assim que chegarem a uma compreensão mútua - que pode acontecer logo ou só depois de alguma luta, passam a confiar um no outro e a entender-se reciprocamente, e a alimentação começa a cuidar de si própria. (Winnicott, 1964/1982d, pp. 32-33)

Este é o começo da tessitura da confiabilidade - cenário propiciador do vir a ser do bebê: tudo funcionará bem fisicamente se a relação emocional está se desenvolvendo naturalmente. Uma mãe que não está tomada por um estado de extrema angústia é capaz de agir com delicadeza. É ela que instala o bebê confortavelmente e que prepara, como Macedo (1999, p. 22) o nomeia, o enquadre em que a mamada acontecerá. É inegável a proximidade desse começo com os primeiros tempos do encontro analista-paciente. Em ambas as situações, é fundamental a instalação de um cenário-enquadre, espécie de "forração" para que a relação de confiabilidade e de enriquecimento mútuo possa vir a acontecer.


A amamentação deve se dar de modo natural, sem a interferência de outros. Winnicott enfatiza que, dessa forma, a mãe saberá sobre bebês com seu bebê, assim como o bebê saberá da mãe a partir da dele. Daí decorrem grandes sensações de prazer que participam tanto do intimo vínculo físico como do emocional: podemos voltar a sublinhar o destaque dado ao prazer fazendo parte da intimidade, esta geradora de vida e do fortalecimento crescente dos laços amorosos que unem a mãe ao seu bebê.


Optamos por enfatizar a amamentação enquanto possibilidade de vitalização, entretanto, ao longo de toda a obra de Winnicott e do processo de amadurecimento, está colocado o vínculo mãe-filho em paralelo ao vínculo analista-paciente. Embora já tenhamos apresentado a necessidade do analista enquanto presença viva e real, vamos nos deter, a seguir, na função vitalizadora na relação terapêutica.


O analista como presença viva e amorosa


Como já falamos no início, se a vitalização é central junto a pacientes regredidos, às voltas com questões primitivas, o analista deve se apresentar como presença viva em todos os casos. Como presença viva, propomos que pensemos não em procedimentos animadores, mas concebendo um analista implicado, em permanente trabalho com seu próprio psiquismo, de modo a preservar seu paciente de invasões, resguardar a previsibilidade e, consequentemente, a confiabilidade. Autenticidade e interesse genuíno colocam o analista numa posição (ética) de guardião da esperança de que "vai passar", da aposta nos recursos de seu paciente, sustentando-o e paradoxalmente recuando, de modo que este se conecte com sua própria "centelha vital" e tenha a experiência de que cria o ambiente, da mesma forma que um bebê bem cuidado tem de que criou o seio. Ao mesmo tempo, o analista precisa estar atento aos aspectos não saudáveis e cuidar do que está adoecido. Winnicott dissera a sua paciente Margaret Little, como esta relata em seu livro Ansiedades psicóticas e prevenção: registro pessoal de uma análise com Winnicott: "Ele [Winnicott] dissera sobre mim um pouco antes: "Sim, você está doente, mas também há muita saúde mental aí" Comecei a reagir com ansiedade, e ele acrescentou: "Mas isso fica para depois, o importante agora é a doença", tendo percebido o meu medo de que ele a negasse ou esquecesse (Little, 1992, p. 50).


O "vai passar, algumas vezes necessitando mesmo ser verbalizado, não é mero reasseguramento: é um modo de temporalizar o paciente e sua dor - desde as mais agudas (as agonias) até os conflitos de ordem neurótica. Paradoxalmente, como vimos no relato de Little, é preciso o reconhecimento daquilo que está doente, o analista como testemunha, ora numa posição de maior atividade, ora estando ao lado do paciente em seu atravessamento da dor - o "vai passar" devendo ancorar-se na crença na natureza humana, nas próprias reservas anímicas e de fé do analista. Propicia-se assim ao paciente que viva a partir de si mesmo, em seu ritmo: temporalizar é auxiliá-lo a "viver uma experiência com início, meio e fim, tal como no jogo da espátula: uma experiência criada por si, que o levará à integração de si mesmo e de sua relação com o mundo, a partir de um relacionamento real e vivo" (p. 110), como enfatiza Tania Hammoud em seu texto "A presença viva como tarefa incontornável do analista na clínica do adoecimento" (2017).


Seguindo a autora:

Paciente e analista precisam viver uma experiência na qual um, analista, concede ao outro, paciente, o trânsito por essa área chamada por Winnicott de espaço potencial. Nele, podem ocorrer experiências através das quais, gradativamente, subjetivo e objetivo se conjugam. O valor desse espaço é fundamental porque é nele que o essencialmente vivo para o amadurecimento acontece, permitindo a criatividade. Ser criativamente no mundo real e, portanto, encontrar sentido no viver, depende do ambiente que propicia o espaço da subjetividade, da potencialidade, espaço da presença na ausência, do ser e do não ser, do ter e do não ter, espaço dos paradoxos. (Hammoud, 2017, p. 105, grifos nossos)

É importante destacar esse trânsito assinalado por Hammoud: entre ser e não ser, ter e não ter, presença na ausência - e podemos incluir os momentos de desvitalização tendo de ser igualmente atravessados pela dupla. A experiência real e viva sendo vivida por ambos - não desconsiderando desafios e obstáculos - e propiciadora de uma experiência criativa. Procurando entender o que aqui estamos chamando de "experiência criativa", recorremos a Winnicott:


Para ser criativa, uma pessoa tem que existir, e ter um sentimento de existência, não na forma de uma percepção consciente, mas como uma posição básica a partir da qual operar. Em consequência, a criatividade é o fazer que, gerado a partir do ser, indica que aquele que é está vivo. Pode ser que o impulso esteja em repouso; mas quando a palavra "fazer" pode ser usada com propriedade já existe criatividade. (Winnicott, 1989, p. 31, grifos nossos)

Seguindo com os paradoxos, a presença real e viva do analista exige também, como adverte Hammoud (2017), o "ficar de fora":


"ficar com a sua parte, para que o paciente possa encontrar a si mesmo, através desse ambiente vivo, verdadeiro e não invasivo. Não ser invasivo é estar totalmente presente, vivo e, ainda assim, ser capaz de dar ao outro a primazia nessa experiência vivida a dois" (p. 107). O analista precisa ser ele mesmo, mas portar-se com "atitude profissional, como afirma Winnicott (1960/1982a):


O analista é objetivo e consistente na hora da sessão, sem pretender ser um salvador, professor, aliado ou moralista. O efeito importante da análise do próprio analista neste contexto é que fortalece seu próprio ego de modo a poder permanecer profissionalmente envolvido, e sem esforço demasiado. (p. 148, grifos do original)

Entre o paciente e o analista está "a atitude profissional do analista, sua técnica, o trabalho que executa com sua mente" (p. 148, grifos do original).


Portanto, o analista precisa ser ele mesmo com sua presença sensível e sua singularidade, mas portar-se bem - aquilo que Winnicott identifica aqui como "atitude profissional": um trabalho com sua mente que dependerá primordialmente de sua análise pessoal e que possibilitará a necessária supremacia do paciente no processo.


A seguinte afirmativa de Winnicott nos auxilia a pensar a função vitalizadora do analista como um misto de implicação e reserva: "O piquenique é do paciente, e até mesmo o tempo que faz é do paciente" (1965/1994a, p. 247). Essa é a experiência de um encontro vivo, não se tratando de uma "técnica, mas de uma experiência do viver" (Hammoud, 2017, p. 108).


A seguir, partindo da vinculação sobre a qual discorremos no item anterior entre vitalização e amor materno, propomos, seguindo as reflexões de Lejarraga (2019) sobre o (por ela denominado) "amor analítico", destacar a importância deste como agente terapêutico e vitalizador.


Perguntamo-nos, então, como propõe a autora, se cabe usar a palavra amor quando atendemos empática, verdadeira e vivamente um paciente. Aqui, precisamos de uma definição não piegas, evitando dessa forma o que Winnicott muito apropriadamente repudiava. Como primeira resposta, encontramos em trabalho anterior da mesma autora (Lejarraga, 2012) a concepção de Winnicott de amor como reunião e resultado da confluência de elementos heterogêneos.


São eles: desejo erótico, concernimento, intimidade e afeição, Mas qual a especificidade do amor analítico? Será ele necessário em todo processo terapêutico, estendendo-se para além dos casos de regressão à dependência?


Concluímos que, assim como a vitalização deve fazer parte da função analítica, também o amor, entendido como preocupação e cuidado, primordialmente o concernimento, é condição para uma comunicação viva e verdadeira com o paciente. O amor do analista, conclui Lejarraga, inclui os elementos de concernimento, intimidade e afeição, mas não o impulso erótico.


O amor à semelhança do amor materno, mas sem o enamoramento materno. O amor podendo também ser equiparado à capacidade de cuidar, à disponibilidade afetiva para envolver-se, a uma comunicação verdadeira, sensível e viva. Entretanto, os limites externos precisam ser respeitados, devendo o analista envolver-se e "des-envolver-se", mantendo a capacidade de afastar-se de seus sentimentos, salvaguardando, dessa forma, a diferenciação e a manutenção da dissimetria da relação.


Para finalizar este capítulo, compartilhamos um breve episódio clínico vivido com uma adolescente de 16 anos, seguido de reflexões que nos remetem a questões trazidas pelos autores aqui citados.


Movidas por essas questões, perguntamos: em que medida a vitalização se manteve presente na construção da relação entre a analista e a paciente, aqui chamada de Mel? Será que o amor analítico como o depreendemos do pensamento de Winnicott e como é concebido por Lejarraga, supondo-o como troca afetiva, incluindo aqui a diversidade de sentimentos e afetos presentes, a ambivalència, a profusão de intensidades e variações do clima emocional - funcionou como âncora, como sustentação do encontro?


Neste caso, o amor e a vitalização, concebidos de modo articulado, foram convocados desde o início, ainda que não falados diretamente, talvez apenas por meio de uma comunicação silenciosa tão essencial a pacientes que necessitam alcançar a vida, que se debatem entre entrar e ficar à margem.


Mas, se pudesse, a analista assim diria à paciente:


O piquenique é seu, Mel


Querida Mel, assim te nomeio porque a doçura, a qual sempre pesquei nas entrelinhas, ocultava-se nos primeiros encontros por trás de sua aguda amargura e, agora, por trás de seu amargor, sua acidez, por trás de cada "foda-se" dirigido ao mundo e a mim. Áspera e doce criatura. Anjo decaído trazendo a dor na carne dos braços cortados. Sou assim, desconfio de garras, especialmente de uma menina tão desamparada, perambulando pela cidade, que chega recém-púbere declarando sua depressão e reivindicando o reconhecimento (por parte dos pais e de mim por meio de gritos de socorro) de cuidado.


Lembro-me de que me espantei, você também, decerto, porque pedi que viesse novamente na mesma semana. Já na rua você volta e pergunta: "dessa semana?". Pensei a princípio que denunciava um excesso de contato; qual o quê: o vínculo fora estabelecido e nesses anos você compareceu com avidez aos encontros. Sua "centelha vital" recebendo meus cuidados e possibilitando a recepção de meus gestos de vitalização e amor. Sem a sua capacidade amorosa, eu nada conseguiria. Se fui à busca de trazê-la à vida, atravessando juntas desertos e terras vulcânicas em erupção, é porque você se disponibilizou a me receber. Trabalhamos juntas, mas o piquenique é seu. A balada é sua, o rolê é seu.


Minha preocupação e interesse por seu mundo confuso, atormentado, entre trevas e euforia, só foram possíveis porque fui recebida em sua casa interna, que não tinha teto, não tinha nada. Fui testemunha de suas buscas de pertencimento: desde o veganismo até a adesão à ideologia do mundo LGBT, de suas primeiras experiências sexuais, que, embora você alardeie por ai que foram quinze beijos, noutro dia vinte, são na verdade mais ansiadas e imaginadas do que talvez atuadas - busca de narcisação por meio de gestos estabanados. Afinal, para onde ir? Como ser olhada, senão mediante atos desastrados, quando vale tudo para o reconhecimento?


Você desde o início me pedia vida e uma comunicação amorosa: o cuidado sempre no centro. Atravessamos juntas tentativas de suicidio, a última com um saco plástico me deixou bem preocupada, viu? Para seus pais, repeti: "é grave!", "é muito grave!", eles sempre perdidos, entre preocupação e alheamento. Você não estava triste, a amargura cedera; no lugar, uma impulsividade igualmente preocupante. E eu sempre afirmei meu desejo de que você viva e eu sempre fui a primeira a receber seus telefonemas de socorro: "Eu tentei morrer".


Você sempre demandando cuidado - a capacidade de pedir ajuda é sinal de saúde em meio a tanto adoecimento. Frente ao imperioso desejo de transgredir, eu dizia: "não pode". Você me disse que eu era mais firme do que a psicóloga anterior. Parecia aliviada, mesmo que, não poucas vezes, me ameaçasse com raiva; eu precisando aceitar seu ódio, sem retaliar, mas mantendo a vigília.


Vigília lembra mãe, e aqui tem um autor chamado Winnicott que me ajuda, porque ele fala da necessidade da mãe viva - e eu concluo: de um analista vivo e vitalizador. Mas se você não abrisse a porta para mim, morreríamos ambas na praia, após braçadas em vão. Náufragas, igualmente náufragas. Entre febres ardentes e calafrios, você me convocava à vigília. Sim, o piquenique é seu. E quantas vezes fui "barrada no baile" e assim tinha/tem de ser.


Demorei a reparar que você puxa o divā, buscando encostar na minha poltrona. Ai, menina, como busca contato! Tem uma roca e você brinca com ela enquanto fala. E pede: "Posso ouvir música?".


Digo que sim, tentamos juntas acompanhar as letras, muitas vezes você demonstra "a falta de saco". Perguntei: "Por que você ouve música aqui?". E você respondeu: "Porque ninguém tem saco de ouvir minhas músicas". Entendo o precioso espaço preservado de invasões que vamos construindo. Muitas vezes fico apenas te olhando e parece que esse olhar com exclusividade, o tempo-espaço que é só seu, lhe oferece um tanto da paz que você diz que encontra aqui.


Mas você vai embora, por causa da mudança para outra cidade. Confesso que tem sido um luto mútuo. Consegui indicação de outra analista, e você me pergunta: "É velha?". "E se eu não gostar dela"? "Você sabe que sou difícil".


Você também é malandra, menininha, manipuladora, já até te falei, diz que é mimada e "foda-se". O mimo talvez confundido com cuidado. O "foda-se" ultimamente tão presente, jogando para o alto toda a falta de sentido em que é lançada pelos tsunamis internos e externos.


Mas, na última sessão, você veio mansa - isso é bom para mim também, o trabalho é exaustivo, como já dissera aquele psicanalista de que te falei. Mas também tem prazer: recebo de bom grado sua afetuosidade mais direta, os elogios e a promessa de um presente. Sou humana. Acho que esse encontro verdadeiro entre nós duas tem sido fundamental.


Quando acaba essa última sessão, você me pede para ver os cachorros (na minha casa, do lado do consultório). "Vamos!", repito com vigor. Jogamos bolinha para eles. Você perguntou os nomes. Você, vegana, que odeia a humanidade e ama animais. Não tenho palavras para descrever como ecoou em mim seu pedido de amor. Foi um piquenique. Você era a protagonista, mas também participei.


Dou-lhe um abraço forte e combinamos chamadas por vídeo até começar com a outra psicóloga. À noite, enquanto eu estava atendendo outro paciente, você deixa meu presente: maquiagem da Sephora e água Perrier. Você gosta de marca e você me marcou com esses pequenos e valiosos luxos. O feminino presente em nossos encontros: "Olha! Eu emagreci!"; "Essa roupa é conceito, né?" - você assim se dirigia a mim, clamando por meu olhar. Ou me olhando, me perscrutando: "Você tem olhos verdes!"; "já te disse que gosto de seu cabelo?" "já te disse que você tem bom gosto?".


Se o feminino veio junto com a maquiagem presenteada, a água surgiu como símbolo do que foi fertilizado, das terras áridas, do deserto paulatinamente irrigado. Você podendo dividir comigo a água, esse elemento essencial, pois você chegara sedenta e, entre encontros e desencontros, matamos juntas sua sede.


Mel, confesso que sou dada a apegos, talvez deslize um pouco na direção de certo enamoramento. Espero que tenha sido, apesar de algum exagero, terapêutico para você. (Temo que vazamentos tenham escapados, que não tenha me contido o suficiente e tenha te invadido.)


Esta é uma carta de despedida. Você acha engraçado quando digo: "Bacana". Nosso piquenique entre sóis e imprevisíveis temporais foi bem bacana. Mas ele é seu.


E quero você viva.


Beijo carinhoso,


Fatima


A construção de um abrigo seguro e vivo para Mel


Tudo o que nasce é rebento

Tudo que brota, que vinga, que medra

Rebento raro claro como flor na terra,

rebento farto como trigo ao vento...

Às vezes, só porque fico nervoso, rebento

as vezes, somente porque estou Vivol

Rebento, a reação imediata

a cada sensação de abatimento

Rebento, o coração dizendo: Bata!

a cada bofetão do sofrimento

Rebento, esse trovão dentro da mata

e a imensidão do som nesse momento


Gilberto Gil, "Rebento", 1989.


Convocada que fora para cuidar da imprevisibilidade e da impulsividade que habitavam Mel, desde as tentativas de suicídio até a insistente declaração de ânsias por transgredir, a analista se disponibilizou de forma sensível e viva, mantendo-se em estado de preocupação.


Mel-rebento que precisa inaugurar sua estreia na vida, mas não sabe como, que inventa extravios-transgressões como modo de se sentir única e de ser vista: especialmente por meio da hiperssexualização e do uso de drogas. Não passaram de beijos as experiências sexuais, em meninos, em meninas; o corpo-mente espalhado sem contorno.


Sobre as drogas, alertava sobre seu desejo de experimentar de tudo: usou maconha algumas vezes, outras drogas, talvez, também me ocultara, decerto. Busca de desviar-se das vias previstas ditadas pela família adoecida; entretanto, busca equivocada, porque o destino de tais tentativas tem resultado em extravio e deriva. Mas algo a mantinha/mantém ainda abrigada: poucos rolês, amizades feitas e desfeitas levavam-na a certo isolamento, talvez única forma possível de se proteger dos riscos e das tentações. Daí deduzo que flerta com o perigo, mas, embora navegando em mares turbulentos, algo a mantém preservada de desastres.


O precipício sempre no horizonte me levou a regulares contatos com os pais, estes perdidos, alternando sua presença entre desamparo e mimos. Presença que desaparece (como no dia em que Mel colocou um saco na cabeca e deixaram-na ir sozinha para São Paulo) e reaparece esfumaçada sob a forma de mimos. Eu precisando alertá-los sobre a gravidade do seu adoecimento e de sua necessidade de ser olhada/reconhecida, não pela satisfação de seus desejos (roupas, restaurantes caros, tatuagens e piercings) - o mimo, mas da oferta de um contorno, de uma âncora que possibilitasse gradativas e cautelosas largadas ao mar com garantia de porto seguro.


Se me vinculei, por um lado, pela atenção a sua necessidade de cuidado, é imprescindível reafirmar a capacidade de se ligar que Mel apresenta: a presença da "centelha vital" possibilitando a busca de ajuda. Trabalhamos juntas, ela a protagonista, o vivo dentro conectado com a necessidade de cuidar do terror que a visita, mas também significando chama de esperança.


Sem sua resposta ao meu chamado para a preservação da vida e da busca de sentidos novos, não haveria encontro. Não haveria refeições: o prato por mim ofertado sempre recusado. As recusas: seu coração dizendo "bata", a cada sensação de abatimento, sua euforia ou acessos de cão furioso ficavam restritos ao enquadre: ("Foda-se! Foda-se! Posso tudo! Sou mais madura que todos! Sou mais inteligente! Só penso em mim! Só gosto de mim e do meu cachorro!"). Nunca faltou e, se precisasse faltar, pedia reposição. O setting como um espaço de descanso para suas lutas internas e externas.


Na verdade, ela me chamou primeiro, reivindicando psicóloga e psiquiatra junto aos pais. Respondi dentro de uma perspectiva vitalizadora e amorosa - o "amor analítico" a que se refere Lejarraga, em que o concernimento (a preocupação) é predominante. Tenho dúvidas se, como falei na carta, me "enamorei", o que poderia ser um exagero e um risco de invasão; de qualquer modo, parecia que a cena dela cantando, ou sozinha ou acompanhando as músicas e eu ouvindo-a e olhando-a atentamente, num tempo razoável das sessões, era recebida por ela como oferta de cuidado e de compreensão.


Essa cena simbolizando a necessidade concreta de ser olhada, nos remetendo à citação de Winnicott em seu texto "O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil" (1967/1975b):


O vislumbre do bebê e da criança vendo o eu (self) no rosto da mãe e, posteriormente, num espelho, proporcionam um modo de olhar a análise e a tarefa psicoterapêutica. Psicoterapia não é fazer interpretações argutas e apropriadas; em geral, trata-se de devolver ao paciente, a longo prazo, aquilo que o paciente traz. É um derivado complexo do rosto que reflete o que há para ser visto. Essa é a forma pela qual me apraz pensar em meu trabalho, tendo em mente que, se o fizer suficientemente bem, o paciente descobrirá seu próprio eu (self) e será capaz de existir e sentir-se real. Sentir-se real é mais do que existir; é descobrir um modo de existir como si mesmo, relacionar-se aos objetos como si mesmo e ter um eu (self) para o qual retirar-se, para relaxamento. (p. 161)

Refletir o próprio rebento/o próprio paciente é função vitalizadora; é oferecer a certeza de que existe um lugar dentro do cuidador onde se pode brincar e ser abrigado - lugar este não ocupado, côncavo, pronto para receber o outro em suas necessidades básicas, naquilo que ele traz para ser visto e sentir-se singular.


No entre da relação, eis o afeto, o vivo - chama tremulante necessitando de vigília para que não se apague, possibilitando (essa tem sido minha aposta), entretanto, que, apoiada na minha esperança e em meu desejo de que viva, nasça, estreie e acredite em seu próprio desejo de viver.


Referências


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