Violência herdada [1]: Colonialidade, conhecido não pensado e possibilidades de transformação
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Artigo com a autoria de Cristina Martins Tavelin [2] e Marina Ferreira da Rosa Ribeiro [3] publicado em 2026 na Revista Brasileira de Psicanálise, Volume 60, n. 2, 45-59.
Resumo: As autoras investigam a herança psíquica da violência em sociedades marcadas pela colonialidade, articulando contribuições de Frantz Fanon e Christopher Bollas. Partem da hipótese de que a violência racista colonial não se restringe ao plano sócio-histórico, mas se inscreve no psiquismo como conhecido não pensado. A partir de uma vinheta clínica, analisam como tais marcas emergem na experiência analítica, evidenciando a articulação entre história coletiva e dinâmica psíquica. Mobilizam a noção de estado de mente fascista para compreender formas de organização psíquica que empobrecem a capacidade de elaboração e favorecem a repetição da violência. Em contraponto, discutem a possibilidade de transformação por meio da análise como objeto transformacional, concebida como espaço de surgimento de novas experiências e de reconfiguração do self.
Palavras-chave: colonialidade, violência, psicanálise, transformação
O que há de único em nós e o que decorre do ambiente onde nos situamos? O que trazemos de novo quando adentramos o mundo e o que será carregado (e, na melhor das hipóteses, transformado) das histórias que nos precedem? Mais do que buscar respostas sobre as origens desse movimento dialético sem síntese, nos parece fundamental constatar o que deveria ser óbvio: que não há experiência ou relação humana que não traga em si a história de nossas sortes e mazelas enquanto humanidade. "Cada geração, numa relativa opacidade, deve descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la, escreveu o revolucionário Frantz Fanon em Os condenados da terra (1961/2022a, p. 207). O fato de essa frase ter se tornado tão célebre não parece vão: ela implica diretamente o leitor em sua missão de cumprir ou trair aquilo que a sua época demanda.
O que seria cumprir ou trair a missão histórica da própria geração? A resposta a essa pergunta não está nos livros, mas na prática, que renova as perguntas e abre caminhos até então inexplorados. Freud (1933/2006) dizia que a psicanálise, ao contrário da filosofia e da religião, não se baseia em sistemas prévios de pensamento, crenças ou visões de mundo (Weltanschauungen), mas se aproxima da ciência ao se apoiar na experiência clínica para a investigação do inconsciente. Diríamos ainda, pensando no campo da intersubjetividade, que se trata da experiência de um encontro em sua integridade, de um encontro humano.
Situada historicamente, a psicanálise se vê implicada no destino das gerações, mas de forma mais modesta frente à missão histórica destacada por Fanon - que, no Brasil, ganhou corpo nas rebeliões das senzalas, no enfrentamento do regime militar, nas lutas indígenas e nas lutas cotidianas dos vários grupos oprimidos. Qual seria hoje o papel de uma teoria e prática nascida na Europa do fim do século 19 para a nossa realidade latino-americana, que teve sua história marcada por um violento processo de colonização? O que se faz com a herança dos privilégios e das torturas? Quando se chega a uma sala de análise ouou quando a análise vai para espaços coletivos, como a herança social de negros, brancos, indigenas, entre outros grupos, se coloca nesses espaços?
Uma história feita à força
Os países colonizados partilham de uma herança amarga, ainda que cada qual tenha encontrado um modo de lidar com tais marcas (ou negá-las). Mas, para além das dores, o ímpeto coletivo das lutas por libertação estabelece um laço entre essas nações. No contundente Discurso sobre o colonialismo (1950/1978), Aimé Césaire - um dos intelectuais mais importantes do anticolonialismo - evidenciou como o processo de colonização preparou o terreno para o nazismo e o fascismo, com a Europa sofrendo, em revés, a mesma barbárie que perpetrou em outros territórios. O terrível espelho do Holocausto revelou um modus operandi europeu empregado na invasão, tortura e submissão de outros povos.
Inspirado por Césaire, Fanon escreve sua obra na metade do século 20. enquanto assiste e participa de intensas transformações do período pós-guerra. Com as grandes potências abaladas após os anos em conflito bélico, impossibilitadas de manterem o domínio sobre as colônias como em outros tempos, o mundo assiste a uma sequência de processos de descolonização que tomam a África, a Ásia e a América Latina. O autor tem papel fundamental enquanto revolucionário na Frente de Libertação Nacional argelina, momento em que segue atuando como psiquiatra e se depara com as profundas marcas da colonização e do racismo em seus pacientes - tanto naqueles que sofrem quanto naqueles que estão do lado dos carrascos.
Em 1952, em Pele negra, máscaras brancas, Fanon desenvolve a tese sobre como um tipo de olhar racista é introjetado pela pessoa negra. Nascido na Martinica, nas Antilhas Francesas, pôde analisar de que modo parte de seus semelhantes passou a se identificar com os colonos franceses, em uma complexa relação marcada pelo racismo e pela opressão. Essa adesão se dava a partir de uma experiência que envolvia dimensões políticas objetivas e subjetivas e moldava o olhar do colonizado em relação a si mesmo. Ele ressalta que, embora opere uma análise psicológica na obra citada, a desalienação requer o reconhecimento das realidades econômicas e sociais; se há um processo de inferiorização, ele resulta de um duplo movimento, sendo econômico em primeiro lugar e, em seguida, ligado à interiorização, ou melhor, à epidermização dessa inferioridade.
É nesse sentido que o autor propõe a noção de sociogenia, ao sustentar que a alienação do negro não pode ser compreendida como uma questão individual; para além da filogenia e da ontogenia, trata-se de introduzir um plano de análise no nível de um sociodiagnóstico, deslocando a origem do sofrimento do plano intrapsíquico para situá-lo como produção de determinada sociedade.
Em Os condenados da terra, o autor martinicano faz algumas menções ao Brasil. Vê na América Latina uma força potencial de transformação capaz de deslocar a ênfase do estilo de ação e pensamento europeu para algo novo e emancipatório. No entanto, também identifica traços de uma configuração social profundamente marcada pela colonização. Percebe, por exemplo, que a elite brasileira de então se coadunava com interesses internacionais, em uma identificação com os colonizadores que subvertia de maneira ilusória seu próprio lugar colonizado. Nesse sentido, ressalta também que a intelectualidade nas colônias pode servir como mecanismo de apaziguamento de conflitos que deveriam vir à tona: o intelectual faz a intermediação entre interesses estrangeiros e busca neutralizar o potencial de libertação do povo colonizado, identificando-se com aquele que oprime para obter alguma garantia de estabilidade na estrutura colonial (Fanon, 1961/2022a).
No caso da América Latina, esse conluio das elites com países estrangeiros foi um dos fatores que levaram às ditaduras militares que marcaram Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia entre as décadas de 1960 1980. Como vemos a partir da leitura de Fanon (1952/2020, 1961/2022а, 1961/2022b), a violência dos processos de colonização moldou um certo tipo de organização social maniqueísta, que perpetua outras formas de violência - por exemplo, a epidermização da inferioridade através do olhar do colonizador, cujas bases e repercussões se apoiam na materialidade da vida social.
As possibilidades de ruptura existem, e muitas vezes se manifestam como violência por parte do grupo oprimido, que nesse processo recobra sua própria humanidade frente à desumanização perpetrada no contexto colonial.
É interessante notar que o autor traz a dimensão corporal para a sua escrita. Fala dos músculos dos colonizados, de sua força no correr, do enfrentamento, da dignidade que buscam não a partir da abstração dos direitos universais do homem (categoria que não os inclui), mas da dignidade que a terra e o pão podem oferecer. Trata-se de algo que os implica de forma íntegra em seus movimentos, em uma organização que não se dá apenas no campo do pensamento.
Essa dimensão de uma experiência política encarnada no corpo, nos registros sensíveis, nosos faz pensar de que modo tais heranças históricas de um povo se transmitem e se atualizam. Como mencionamos, o autor pensava em termos de uma sociogênese, mas buscava na psicanálise uma estratégia para escutar as marcas da colonização no inconsciente, para compreender os efeitos e as possibilidades de ruptura diante das formas de dominação e alienação. Segundo Faustino (2015), a recepção de Fanon no Brasil passou por algumas fases: um período inicial, por meio do ativismo negro, entre as décadas de 1920 e 1960; o final da década de 1970, com o retorno de intelectuais exilados pela ditadura civil-militar; os anos de 1980, com a influência da recepção norte-americana, cuja ênfase recaía no reconhecimento da negritude como possibilidade de emancipação; e da década de 1990 até hoje, em que segue integrando as lutas políticas.
Trazendo essas reflexões para nosso contexto e pensando em nossa modesta tarefa enquanto psicanalistas, podemos partir de duas premissas principais: 1) nossa comunhão enquanto sociedade colonizada com outros povos que também nasceram de uma história de violência; 2) a necessidade de entender os efeitos da violência nas várias dimensões e espaços sociais. Nesse sentido, mesmo a sala de análise que se pretenda a mais neutra e segura será invadida pela violência.
Em estado bruto
A forma de ser e estar em uma sociedade violentada pela colonização carrega marcas que vão das mais sutis às mais evidentes. Invariavelmente, o racismo está em sua base, na medida em que o próprio processo de colonização estabelece hierarquias raciais para justificar seu domínio. Assim, hả uma violência que atravessa gerações e aparece de modos variados na clínica. Tomemos como exemplo a vinheta a seguir.
Hernandez vem à análise após uma situação que o mobiliza intensamente: comete um ato de violência contra um grupo oprimido [4]. Menciona o acontecimento de forma fugidia algumas vezes, mas leva anos até se sentir à vontade para abordá-lo diretamente. Quando esse momento chega, conta que, durante uma partida de futebol a que assistia em um bar, proferiu uma frase que levou outros torcedores a reagirem agressivamente. O conteúdo da frase não é revelado, mas fica implícito que se trata de uma fala racista. Hernandez sente que chegou ao fundo do poço, muito mobilizado peło tumulto que seu ato violento deflagrou. As tentativas de revidar a agressão não se encerraram naquele momento; ameaças posteriores o mantiveram em estado de tensão permanente.
Uma série de explicações passa a ocupar o espaço de análise na tentativa de elucidar e justificar o que teria tentado dizer. Esse estado de violência se impõe na situação clínica, de modo inevitável e imediato. Um primeiro movimento meu, internamente, é o de me somar àquelas pessoas que tentaram agredi-lo; não faço parte do grupo étnico-racial de Hernandez nem do grupo que sofre a violência racista. Em certa medida, ele me vê como uma igual por supor em mim um direcionamento progressista, algo que se evidencia em frases como "Nós sabemos que isso não é correto". Ao mesmo tempo, sente-se extremamente constrangido quando consegue tocar no assunto após alguns anos de análise. Ao revelar enfim o que aconteceu, sou tomada por raiva e incredulidade. Chego a questionar se desejo seguir com esse atendimento. Tudo isso se passa em uma fração de segundo. No entanto, após esse primeiro impacto, de caráter maniqueísta, reconheço a complexidade que se apresenta. É possível acompanhar na história de Hernandez como a violência social da colonização abarcou sua dinâmica psíquica, obstruindo as saídas possíveis do estado em que se encontrava.
Algumas questões se apresentama partir daí. Em primeiro lugar, que as determinações sócio-históricas que constituem as subjetividades, em uma relação dialética contínua, não serão superadas no plano estritamente individual - algo já evidenciado por Fanon. Em segundo lugar, não é papel da análise resolver os problemas sociais, ainda que toda análise esteja imersa na cultura a que pertence, na medida em que o sujeito está implicado, desde muito cedo, em relações sócio-históricas e culturais; talvez escutar esses problemas em sua articulação com a dimensão psíquica, sem partir de um sujeito universal, seja um bom começo. Terceiro ponto, e talvez aquele que me trouxe alguma perspectiva no sentido clínico desse caso: há uma parte de Hernandez de uma violência extrema, mas há também outras partes, cindidas ou subjugadas, que podem ganhar força por meio do trabalho analítico.
Das diferentes violências em jogo, que não são da mesma ordem mas se entrelaçam, podemos desenhar um quadro que remete a outros tempos. No caso de Hernandez, o que se desdobra a partir do acontecimento que o levou à análise é uma história individual atravessada pela história política de um continente. Hernandez foi criado por um tio-avô por quem sempre nutriu afeto, apesar das desavenças em diversos campos, incluindo o futebol. Filho único de um pai ausente, aproxima-se desse tio-avô, que não teve filhos. As diferenças passam a se acentuar na adolescência, quando Hernandez segue um caminho mais libertário, alinhado a movimentos políticos progressistas. Sente-se deslocado em relação ao grupo familiar e passa a se colocar em posição defensiva diante dele. O afeto entre as partes se mantém, mas mediado por uma tensão permanente, marcada pela disputa em torno de quem estaria do lado correto, justo. Anos mais tarde, Hernandez encontra-se na situação de violência que o leva à análise, a partir de um impasse que se estabelece dentro dele: como pôde ser capaz de fazer aquilo? Muitos de seus amigos integram justamente o grupo étnico-racial que foi alvo de sua violência. A sensação, relata, é que estava fora de si. Como sabemos, porém, a estrutura da violência racial se sobrepõe às individualidades - trata-se de um problema estrutural.
Ao traçar o caminho que o levou até aquele estado, Hernandez chega a um ponto importante que conecta sua história à história de seu país. O tio-avó, por quem nutria afeto, teve participação na repressão da ditadura civil-militar, mesmo se mostrando um homem pacífico e afetuoso a maior parte do tempo. Já seu pai, que nunca se envolveu com política, teve suas formas de direcionar a violência herdada - por meio de um processo autodestrutivo que marcou severamente a vida do filho. Nunca houve violência explícita no ambiente familiar, nem mesmo falas que trouxessem de algum modo a discriminação contra outros grupos. Mas isso sempre esteve lá de alguma forma.
Há uma violência que se apresenta de forma bruta, incitada contra o outro, que atravessa as várias gerações da família de Hernandez, manifestando-se em rompantes com expressões diversas. Como exploramos há pouco, há uma dimensão estrutural que configura relações de violência nas sociedades colonizadas, mas há também o psiquismo daquele que adere ou questiona as ideologias nas quais está imerso. Nesse sentido, é preciso diferenciar brevemente violência de agressividade.
Para a psicanálise, a agressividade é inerente ao psiquismo. A partir da segunda teoria pulsional, Freud compreende a agressividade como um dos destinos da pulsão de morte: para preservar o organismo, essa pulsão é parcialmente desviada para o exterior e dirigida ao objeto, podendo também voltar-se para o próprio sujeito, sob a forma de autoagressão, ou ainda estabelecer vínculos, quando se articula à pulsão de vida. A civilização, por sua vez, tem como tarefa conter e domesticar essa agressividade, o que conduz à constituição de um núcleo de mal-estar inerente à vida civilizada (Freud 1930/2011). Em Melanie Klein (1946/1991), que investiga uma dimensão mais arcaica do psiquismo, a agressividade está presente desde o início da vida, de forma intensa na posição esquizoparanoide, quando angústias persecutórias e mecanismos de cisão marcam a relação com os objetos. Em autores posteriores, como Donald Winnicott (1950/2020), a agressividade é pensada também em sua dimensão constitutiva e potencialmente criativa, desde que encontre um ambiente capaz de sobreviver a ela sem retaliações.
Em diálogo com Fanon, poderíamos conceber a violência como expressão da agressividade, mas diretamente moldada pelo campo sócio-histórico, de modo que as expressões possibilitadas dizem respeito a determinadas configurações sociais. Por exemplo, a agressividade inerente ao psiquismo será facilmente externalizada e impulsionada pelo racismo colonial. Os objetos-alvo da violência são concebidos nesse campo.
A herança dessa violência, para as diferentes gerações, comporta então aspectos objetivos e subjetivos e varia conforme a posição social. No caso de Hernandez, o que poderia ser lido como um acting out nos faz olhar por outra perspectiva, considerando as condições de seu ambiente - um país latino-americano com um passado apoiado no racismo e na colonização. Uma questão se coloca: quais os endereçamentos possíveis para a violência que segue nos compondo e nos cercando, e como o nosso psiquismo se adapta ou atravessa esse campo minado?
Vislumbrando uma brecha nesse labirinto, que tem vários caminhos tortuosos, optamos por recorrer a duas noções de Christopher Bollas para pensar sobre a violência colonial e seus efeitos transgeracionais: a de conhecido não pensado e a de estado de mente fascista. Como Césaire mostrou em seu Discurso contra o colonialismo, o nazifascismo é uma espécie de retorno da violência perpetrada nas colônias, o revés sanguinário de um modo desumano criado no próprio continente europeu. Em última instância, trata-se de um modelo de violência bem estabelecido na modernidade. Nesse sentido, a analogia de um estado de mente fascista para pensar a paralisação do psiquismo nos parece pertinente. Veremos como essa possibilidade se mostra.
O conhecido não pensado e o fascismo nosso de cada dia
Com uma formação plural que passa por áreas como história e literatura, Christopher Bollas apresenta uma obra com desdobramentos e articulações criativas para pensar a contemporaneidade, baseado fortemente em autores como Bion e Winnicott, sem perder de vista as transformações políticas e culturais de nosso tempo. O conceito de conhecido não pensado (the unthought known), uma das bases de sua obra, procura dar conta de experiências que não foram simbolizadas, mas que, ainda assim, são fundamentais na articulação do idioma - outra de suas noções mais importantes.
Para o autor, há uma espécie de organização pessoal que seria geneticamente determinada e comporta em seu âmago o self verdadeiro (Bollas, 1987/2015). Trata-se do idioma, tal como uma impressão digital, que exprime um modo de ser particular e que será influenciado e composto também pelo idioma dos objetos primários.
Nettleton (2016/2018) oferece um exemplo ilustrativo de como o idioma materno ajuda a compor o idioma do bebê. Na maternagem, há diferentes formas de lidar com certas situações. Ao entrar no quarto para pegar o filho no berço, a mãe (ou cuidador) pode se expressar com entusiasmo, abrir as janelas, falar com empolgação sobre o dia que nasce, enquanto o carrega pelo quarto e lhe mostra o mundo lá fora através da janela. Em um outro modo de maternagem, podemos imaginar uma mãe que entra calmamente no quarto, falando baixinho com o bebé, tirando-o pouco a pouco do sono no qual se encontrava.
Na comparação da autora, não se trata de avaliar qual seria o modo correto no que concerne aos cuidados com o bebê, mas de perceber como essas formas primordiais de cuidado, cotidianas,apoiadas na materialidade do dia a dia, vão moldando uma forma de estar no mundo que deixa sua marca na história de cada um. Trata-se de uma arquitetura do self em que a experiência entre o bebê e a mãe/cuidador é base dessa construção.
Há um diálogo ininterrupto entre o idioma do bebê e aquele do ambiente, em um processo que pode dar mais espaço à expressão singular ou restringi-la e adaptá-la aos seus moldes. Conforme a criança cresce, novos axiomas se estabelecem a partir da regulação de sua vida familiar e da inserção em outros espaços, como a escola e a comunidade da qual faz parte. Reconhecimentos, punições, horários, deveres, o lugar dentro da família: o idioma pessoal segue se configurando com tais experiências e dá forma às expectativas frente à realidade.
Essas experiências iniciais que compõem o conhecido não pensado permanecem conosco ao longo da vida. Bollas (1987/2015) indica que um dos modos pelos quais as retomamos é sob a forma de humores. Também chamados de estados de espírito, tais humores apresentam uma temporalidade específica. Há humores com uma tendência criativa, como a retirada do self do mundo exterior para elaborar alguma questão interna; outros têm caráter objetal, precisam ser testemunhados; outros ainda têm caráter coercitivo. Todos eles podem dar pistas sobre as primeiras relações.
Parece-nos que esse modo relacional de estar no mundo, informado pelo idioma dos pais (e posteriormente pelo de outras pessoas do meio social da criança), traz um direcionamento importante para pensarmos a transmissão de geração em geração. Nas palavras do autor:
Não será possível que, ao desenvolver, finalmente, uma relação limitada com o conhecido não pensado em nós mesmos, não possamos então nos dirigir aos mistérios da nossa existência, como o curioso fato da existência em si, e principalmente o legado de nossos ancestrais, transmitido através das gerações por meio do idioma da disposição herdada? Ao refletirmos sobre o conhecido não pensado, ponderamos não somente sobre o âmago de nosso self verdadeiro, mas também sobre os elementos de nossos antepassados. (pp. 312-313)
Vinculando a disposição herdada do verdadeiro self a elementos de nossos antepassados, Bollas nos faz pensar não apenas em termos de uma herança filogenética - talvez o grande mistério no âmago da psicanálise -, mas também em como um idioma particular está vinculado à história das gerações que nos antecederam. Inevitavelmente, isso nos leva à História (com H maiúsculo), aquela de onde nascemos e a qual iremos deixar no momento de nossa morte. O que fica da História em nossos modos de ser e de nos relacionar? О conhecido não pensado representa não apenas experiências sensoriais primárias, mas atmosferas afetivas herdadas de um grupo, de um tempo histórico.
Na história de Hernandez, podemos hipotetizar que a violência implícita de seu tio-avô tenha perdurado ao longo de gerações, como um núcleo em torno do qual orbitam e são barradas possibilidades de transformação. No entanto, tal violência - que sobrepujou seu pai completamente - em Hernandez encontra resistência de outras partes do psiquismo.
Em "The fascist state of mind" (1992), Bollas indica como defesas primárias em torno do self podem estruturar uma posição dominante como a mente fascista - uma organização defensiva psíquica que tenta eliminar a alteridade, a complexidade e o pensamento simbólico.
Volto minha atenção para o estado de mente [frame of mind] que justifica o extermínio de seres humanos. Denomino-o estado de mente fascista, sabendo que, em alguns aspectos, isso é historiograficamente incorreto, visto que o fascismo foi um movimento particular na história mundial com características altamente singulares. No entanto, justifico essa licença explorando o duplo sentido da palavra. Houve um Estado fascista. O surgimento desse Estado e sua teoria política podem nos dizer muito sobre outro estado: o estado de mente que autorizou uma teoria fascista. (р. 196)
Como podemos notar, o autor faz um paralelo entre um Estado fascista e um estado de mente que comportaria características fascistas e, ao mesmo tempo, daria suporte aos regimes autoritários. Nesse sentido, não aponta para a formação de um sujeito fascista somente a partir da cultura de massas e da repressão social, mas faz o movimento inverso, de tentar compreender como o psiquismo adere ao fascismo considerando os primórdios da mente, um momento pré-edípico. Tal movimento é feito com cautela no sentido de não psicologizar um dado histórico; por outro lado, o autor considera que o termo fascista já ganhou alguma autonomia, está implicado na cultura como metáfora - o que possibilita fazer essa abertura para compreender a dimensão subjetiva.
No caso de Hernandez, percebemos como essa violência em estado bruto está em conflito com as outras partes do psiquismo. A possibilidade de derrubada dessa parte onipotente se dá diante do impacto da resistência impelida pelo pequeno grupo que lhe devolve a violência cometida. Nesse sentido, concordamos com Fanon quando diz que, frente ao maniqueísmo colonial, por vezes a resposta terá de ser na mesma moeda.
Para mostrar como uma parte fascista "toma o poder" no psiquismo, Bollas remete à ideia de diferentes selves e objetos representados no mundo interno, formando uma espécie de parlamento, com "instintos, memórias, necessidades, ansiedades e respostas objetais encontrando representantes na psique para o processamento mental" (p. 197). Sob a pressão de algum impulso intenso, o mundo interno pode perder a ordem parlamentar e evoluir para uma ordem menos democrática, na medida em que diferentes partes do self são projetadas em outros objetos e a mente fica empobrecida em termos representativos.
Em face da crueldade, os aspectos humanos que poderiam ser pensados em termos da capacidade do self para a empatia, o perdão e a reparação seriam exterminados. Assim, um aspecto agressivo do estado narcisista do self seria alcançado pelo extermínio do self dependente e amoroso e pela identificação com as partes narcisistas destrutivas. É interessante notar que, no caso de Hernandez, o predomínio de sua parte narcisista sofre um abalo diante do impacto da violência real que irrompe no grupo oprimido. Esse abalo parece mobilizar outras partes de seu parlamento psíquico, abrindo a possibilidade de deslocamento e tornando assim viável o acesso a um processo analítico.
Rosenfeld (1984/2024) compara a estrutura psicótica de certos pacientes com organizações políticas como a do Terceiro Reich. Aponta especialmente para a voz que os pacientes escutam demandando atos destrutivos e autodestrutivos, assim como na Alemanha nazista milhões de pessoas foram hipnotizadas pelos discursos de Hitler. No paciente psicótico, o sentimento de "inferioridade e inveja assassina" é alterado de maneira delirante, de modo que sua megalomania adquire um sentido forte de self.
Curiosamente, a gangue nazista e a máfia têm um papel central no mundo delirante de nossos pacientes, na medida em que a gangue aumenta o poder do narcisismo destrutivo e onipotente e produz uma ansiedade específica, ameaçando aqueles pacientes que estão começando a ganhar algum insight sobre sua doença e que começama duvidar das promessas do Führer de dominar o mundo delirante. (pp. 160-161)
Essa intensidade que reorganiza o self e aciona mecanismos de defesa psicóticos tem como elemento de sustentação principal, no caso do estado de mente fascista, a ideologia. Esta seria tomada pelo sujeito enquanto crença ou convicção, sustentando uma certeza através de mecanismos mentais destinados a eliminar toda a oposição.
Com isso, dúvidas e visões diferentes são expulsas, e a mente deixa de ser complexa e polissêmica. Há uma morte simbólica, pois várias partes do self e representantes do mundo externo que poderiam entrar em um movimento vivo perdem lugar para a fixação dos significantes ordenados pela ideologia. Desse primeiro estágio, gerado pela violência simplificadora de uma ideologia que não tolera oposição, nasce o "vazio moral", que precisará encontrar uma vítima para ser contido.
No caso do estado de mente fascista, o self nuclear morto é cindido e projetado no outro, identificado ao "vazio moral". Esse processo de destruição do psiquismo é negado na mesma medida em que um narcisismo delirante ganha espaço: o líder da gangue entra em um lugar completamente idealizado, apoiado na negação de todas as outras partes do self. Assim, "à medida que a negação das qualidades do outro é destruída por sua aniquilação, uma grandiosidade delirante se forma na mente fascista" (Bollas, 1992, p. 203).
Recordar, repetir, transformar
Com esses autores, partimos da premissa de que há um fascista em potencial em cada um de nós, e de que certos climas políticos representam a ameaça concreta de um movimento coletivo destrutivo. No caso da América Latina, essa ambiência tem a marca de um processo violento de colonização, cujas repercussões seguem presentes. Tendo isso em vista, como bem destaca Bollas, não há nada a fazer com figuras completamente tomadas pela própria onipotência, como um Goebbels ou um Mussolini. Mas há outras tantas que entram em uma maré histórica, hipnotizadas por um lider ou uma ideologia, que possivelmente ainda podem recorrer a outras partes do psiquismo.
Segundo Rosenfeld (1984/2024), em sua analogia do regime psicótico de alguns pacientes com o regime nazista, é preciso dar muito suporte às partes "saudáveis", sãs, para fazer frente ao horror imposto pelo líder sanguinário do psiquismo. O medo de ser morto, massacrado, está sempre à espreita - ele acrescenta: assim como o medo dos alemães que se opunham ao regime nazista, e que nem por isso desistiram de se opor.
O que resta, a uma análise, quando à agressividade constitutiva soma-se uma violência concreta que perpassa gerações? Para Bollas, a transferência
não é apenas um reviver de uma relação com a mãe ou com o pai, ou uma representação do self da criança, mas uma experiência fundamentalmente nova, já que se dá a "algo" certa dose de tempo, espaço e atenção para emergir. (1987/2015, р. 308)
Nesse sentido, há algo que se repete, mas também uma possibilidade de transformação. Nos primórdios da vida, o bebê é continuamente transformado pelo ambiente por meio de gestos, ritmos, tonalidades afetivas e formas de cuidado: todas essas experiências produzem modificações nos estados subjetivos anteriores à representação. A mãe, nesse sentido, tem mais o caráter de processo do que de objeto.
Um objeto transformacional é identificado pelo bebê quando ele vivencia os processos que modificam a experiência do self. É uma identificação que surge da relação simbiótica, na qual o primeiro objeto é "conhecido', não como uma representação de objeto, mas como uma experiência recorrente do ser - mais existencial e oposta a um saber representacional. (p. 50)
Nesse sentido, Bollas postula que o bebê percebe o outro que se ocupa de seus cuidados como a origem de processos de transformação, e não como objeto representacional. Essas experiências primárias de transformação inscrevem em nós o anseio por novas e contínuas transformações ao longo de toda a vida, o que nos movimenta na direção de encontros humanos, experiências com a arte, viagens ou mesmo a inserção em grupos políticos ou fundamentalistas. Em suas palavras, "a busca do objeto transformacional é uma busca de memória infinita por algo no futuro que reside no passado" (p.75). О conhecido não pensado corresponde, assim, a uma "memória" de experiências com objetos transformacionais que nos instiga a outras transformações.
No caso de Hernandez, percebemos que a proximidade a um grupo político progressista apresenta-se como um objeto transformacional no período da adolescência. Tal objeto pode reaparecer ou ser encontrado no mundo tem diferentes destinos: pode trazer novamente uma experiência primária, possibilitar a elaboração ou atuar no sentido "negativo". Vemos no caso abordado que o ambiente do jogo de futebol atualizou algo da violência familiar. Podemos pensar que tal experiência foi desestruturante para o paciente em questão, levando-o a um estado de colapso diante do conflito interno e externo que se evidenciou - mas que também abriu uma brecha para outro tipo de ordenação das partes do self.
A experiência da análise pode funcionar como um objeto transformacional "positivo', favorecendo um espaço para que tal violência venha à tona dentro de um enquadre, passando pela transferência (e provocando o ódio na contratransferência). Bollas aponta que, ao longo da vida, o sujeito pode tanto buscar objetos transformacionais que possibilitem experiências de integração e vitalidade quanto repetir, de forma não consciente, modos de relação marcados por falhas precoces. O objeto transformacional, portanto, não é em si positivo ou negativo: ele está ligado à possibilidade de transformação, que pode tanto promover expansão quanto reatualizar formas de sofrimento.
Se, por um lado, o sujeito está continuamente em busca de objetos transformacionais capazes de reativar e elaborar experiências inscritas como соnhecido não pensado, o estado de mente fascista opera justamente no sentido oposto: ele restringe, empobrece e rigidifica essa capacidade de transformação. Há uma tendência à repetição, frequentemente marcada por dinâmicas de dominação e exclusão. Dessa maneira, o que poderia se constituir como campo de transformação passa a ser capturado por uma lógica defensiva, que visa à manutenção de uma ordem rígida. O objeto, nesse contexto, deixa de ser vivido como potencialmente transformador e passa a ser enquadrado segundo categorias fixas, esvaziando-se sua potência de afetar e ser afetado.
O estado de mente fascista funciona, então, como um regime psíquico que bloqueia a transformação do campo do conhecido não pensado, impedindo tanto a elaboração de experiências traumáticas quanto a atualização de experiências implícitas de empatia e cuidado, empobrecendo assim a vida psíquica e relacional. No que diz respeito a Hernandez, esperamos que suas outras partes - as amorosas, generosas - possam garantir certa empatia em face das diferenças, enfrentando a parte de seu narcisismo que o levou ao fundo do poço.
Referências
Bollas, C. (1992). The fascist state of mind. In C. Bollas, Being a character: psychoanalysis and self experience (pp. 193-217). Routledge
Bollas, C. (2015). A sombra do objeto: psicanálise do conhecido não pensado (F. Marques, Trad.). Escuta. (Trabalho original publicado em 1987)
Césaire, A. (1978). Discurso sobre o colonialismo (N. Sousa, Trad.). Sá da Costa. (Trabalho original publicado em 1950)
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Notas
[1] Este trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), código de financiamento 001. Decorrente de pesquisa de doutorado em andamento. Agradecemos ao grupo de pesquisa e a Janderson Farias Silvestre Ramos pelas contribuições inestimáveis.
[2] Psicanalista. Doutoranda no Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).
[3] Professora doutora do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).
[4] Os grupos étnico-raciais em questão não serão mencionados devido à sua especificidade, a fim de preservar o paciente. A vinheta é de uma das autoras, ambas brancas, o que as situa em posição de poder, mesmo com as opressões de gênero - que não serão exploradas neste artigo.

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