Elogio ao amor: porosidade e captação do humano na clínica psicanalítica
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Artigo publicado na Revista Brasileira de Psicanálise · Volume 60, n. 1, 157-171 em 2026, com autoria de Ana Fátima Aguiar [1] e Marina Ferreira da Rosa Ribeiro [2].
Resumo: As autoras examinam a relevância da abertura amorosa do analista como fundamento para a criação de um campo clínico permeável e transformador. Propõem que essa abertura configure uma forma de porosidade psicanalítica capaz de captar a experiência humana em sua complexidade, acolhendo afetos, tensões e fragmentos ainda sem representação. Sustentam que esse modo de presença favorece a expansão da capacidade de sonhar e a criação de pensamentos-sonho compartilhados, constituindo-se como dispositivo essencial para o refinamento da técnica e para a compreensão das transformações que emergem no encontro analítico.
Palavras-chave: ethos do amor, porosidade psicanalítica, reverie, sonhar, intersubjetividade
Só se pode viver perto do outro, e conhecer outras pessoas, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Guimarães RosaE o segredo é estar disponível para que outras lógicas nos habitem, é visitarmos e sermos visitados por outras sensibilidades. É fácil sermos tolerantes com os que são diferentes. É um pouco mais difícil sermos solidários com os outros. Difícil é sermos outros, difícil mesmo é sermos os outros. Mia Couto“Afinal, o que é o amor?”, pergunta a analisanda Rosemary a Bion, que lhe responde: “Sinto que terei que desapontá-la. Como psicanalista, não posso aspirar a ter sucesso ali onde os santos, os filósofos e os artistas de todo tipo não o tiveram” (1991, p. 452).
Da mesma forma que Bion para com sua analisanda, iniciamos este trabalho alertando aos leitores que, se o título sugeriu que encontrariam aqui uma definição estanque do que é o amor, sentimos que, assim como Bion, também vamos decepcioná-los. Este artigo não pretende definir o amor no sentido de torná-lo um fenômeno mensurável. Talvez a mitologia, a filosofia, a literatura – sobretudo a poesia – se aproximem mais de expressar o que se entende como a essência do amor, ou tentem nomear esse território abstrato e impreciso, praticamente artístico, e alcançar o que poderia significar o amor e a tal capacidade de amar.
A tarefa de sistematizá-lo, como bem apontado por Bion, não seria viável ou bem-sucedida, e seria errônea a tentativa de saturá-lo em um conceito hermético e cristalizado, justamente oposto à natureza do que ele, em termos gerais, representa: abertura.
Não à toa, a palavra amor sempre causou desconforto no discurso psicanalítico. Muitas vezes associada à transferência erótica ou à contratransferência indesejada, por bastante tempo ela foi considerada um risco ou uma interferência. Contudo, autores contemporâneos vêm resgatando o tema da amorosidade como um aspecto legítimo e necessário à clínica. Nesse sentido, propomos abrir uma fenda – uma delimitação necessária – para adentrar um dos tantos vértices da complexidade do que é amar. O recorte aqui indicado aponta para uma recuperação do termo amor no que se refere à disponibilidade do analista para acolher o analisando.
Nosso intuito é, portanto, ampliar as reflexões sobre esta forma específica de amor: a abertura amorosa e a hospitalidade do analista em sessão para acolher o analisando, estando disponível para ser habitado. O amor que nos interessa não se reduz à idealização romântica: é compreendido como campo de abertura, como um fecundo dispositivo vincular, por meio do qual o pensamento onírico emerge e potencializa o trabalho analítico. Um amor que corresponde a uma prática analítica e, mais do que isso, à hipótese de que haveria uma atitude analítica que, além da atenção flutuante e da associação livre, implicaria um ethos do amor – uma matriz amorosa que torna possível a capacidade de hospitalidade aos conteúdos emocionais do analisando, sejam eles quais forem: amor, ódio, angústia, caos, ambiguidade. Como afirma Ribeiro, “a substância humana da função psicanalítica da personalidade precisa ter essa qualidade de uma hospitalidade ao outro, de uma amorosidade que em si comporta o ódio, a ambivalência dos primórdios da vida” (2024, p. 83).
Para sermos capazes de promover uma escuta ampla e continente, é necessário antes, e sobretudo, desenvolver nosso invólucro psíquico, [3] para que os conteúdos emocionais do analisando encontrem um terreno aberto e seguro em que possam alojar-se. Sim, alojar-se – daí a ideia de considerar um “deixar-se habitar”. Desse modo, pretendemos pensar o amor como um elo de ligação e um importante vínculo na relação analítica. O ato de amar se aloca no campo das complexidades, e assim interessa à psicanálise desde os primórdios da criação do pensamento psicanalítico.
Mesmo sendo um campo espinhoso e atravessando resistências próprias de sua época, sabemos que os pressupostos psicanalíticos já se ocupavam dos afetos que circulavam entre analista e analisando. Em “Recomendações aos médicos que praticam a psicanálise” (1912/2010c), Freud compara a comunicação inconsciente à comunicação por telefone, e considera importante e desejado que a escuta do analista opere de modo verdadeiramente receptivo aos conteúdos do analisando. De acordo com ele, o analista “deve voltar seu inconsciente, como um órgão receptor, para o inconsciente emissor do doente, colocar-se ante o analisando como o receptor do telefone em relação ao microfone” (p. 156).
Em 1914, Freud se dedicou a pensar sobre o amor quando escreveu o icônico “Introdução ao narcisismo”, em que inaugura uma discussão sobre a importância de ser amado e de desenvolver a capacidade de amar, de sair de si para poder amar o outro. A teoria freudiana se dedica, então, a pensar o amor como forma de investimento libidinal e, no ano seguinte, nos brinda com uma obra a partir da concepção de amor de transferência (Freud, 1915/2010b), por meio da qual a psicanálise recoloca o fenômeno amoroso no seio da experiência analítica.
Afetar o outro e deixar-se afetar por ele – encontramos, nesse sentido, uma compreensão da existência e da relevância de um estado de receptividade para os afetos, e que se dá por uma via de comunicação entre inconscientes. As minúcias desse tipo de comunicação, inauguradas no pensamento freudiano, também são evidentes nas ideias de Sándor Ferenczi (1928/1992) sobre a elasticidade da técnica psicanalítica, com os conceitos de mutualidade e empatia, e passam a ser mais consistentemente teorizadas a partir de Melanie Klein com as relações de objeto, em especial com o conceito de identificação projetiva em 1946.
Posteriormente, partindo do pensamento kleiniano, Bion (1962/2014) postula a noção de reverie, termo que se relaciona à capacidade da mãe de acolher e metabolizar as sensações e percepções do bebê. O autor questiona: “Quando a mãe ama seu filho, o que ela faz com isso? À parte os canais físicos de comunicação, minha impressão é que seu amor é expresso pela reverie” (p. 35). Ainda que o conceito de reverie tenha sido inicialmente pensado como um elemento próprio da relação da mãe com o bebê, na pena dos autores pós-bionianos ele tem sido transposto para a compreensão da capacidade do analista de receber e metabolizar os estados emocionais brutos do paciente.
Expandida para a clínica, essa função de comunicação inconsciente pode ser pensada entre as mentes da dupla analítica. Nela, o analista passa a captar as identificações projetivas do analisando e, a partir de sua função alfa, as transforma. O analista devolve, então, ao psiquismo do analisando um material passível de ser pensado, de ser sonhado. Nesse sentido, a noção de reverie enfatiza a natureza intersubjetiva, que, transposta para a relação analítica, diz respeito a uma experiência em que a amorosidade do analista participa ativamente da coconstrução do campo emocional e psíquico. Esse paradigma exige um analista disponível, receptivo, permeável.
Assim, a capacidade amorosa para recepcionar o sofrimento, as angústias e os elementos não pensados depende de implicação e disponibilidade emocional para esse campo ser lavrado, semeado, favorecendo-se a colheita – o trabalho analítico, a expansão da mente e as transformações (em ambos):
Para ter acesso aos elementos provenientes da vida psíquica do analisando, é necessário que o analista abra um espaço em sua mente, ou seja, que flexibilize as fronteiras de seu “si mesmo”, não escondendo-o, ou ignorando-o, mas sim disponibilizando-o para abrigar tais conteúdos. Nesse processo, a própria experiência que ele tem de si mesmo é transformada, na medida em que, para processar esse estranho componente do outro, o analista coloca em jogo o que conhece e o que não conhece (mas, de alguma forma, reconhece) em seu próprio psiquismo. (Aguiar, 2025, p. 55)
Para pensar os fenômenos que emergem desse “solo”, no qual, como diria Mia Couto, é preciso “estar disponível para que outras lógicas nos habitem”, nos dedicamos a investigar esse espaço de afetações mútuas e de hospitalidade, compreendendo que tais processos partem de uma capacidade amorosa da mente do analista. Abre-se, portanto, um importante campo de investigação sobre a disponibilidade do analista para sonhar a experiência emocional [4] com o analisando. Poderia o amor do analista favorecer a criação de um campo mais fecundo? A abertura amorosa do analista favoreceria uma permeabilidade psíquica, que lhe permite penetrar e ser penetrado?
Por essa via, entendemos que os desdobramentos do pensamento bioniano representam um marco nessa virada. Para Bion (1970), a linguagem de êxito (language of achievement) seria uma forma de comunicação que evolui, a partir de uma matriz amorosa, até poder ser transformada. Se o analista disponibiliza sua função alfa, entregando-se como tal em favor da construção de um campo simbólico junto ao analisando, segundo Chuster, “isso não equivale a outra coisa senão a uma questão de amor” (1999, p. 87).
É neste caminho que nossas investigações se fundamentam: a matriz amorosa da mente é aqui apresentada como uma abertura do analista para sustentar, eticamente, a alteridade, sem se proteger do que isso mobiliza em si mesmo; essa matriz não busca resolver, interpretar ou defender-se do que chega, mas oferecer um continente suficientemente poroso para que a experiência emocional, ainda informe, se torne pensável. Tal dimensão do amor como uma ética, da forma como propomos, não idealiza o amor, não o considera um correlato do maternal, como gesto sentimentalista ou romântico. Pensamos o amor como aquilo que implica o analista, que o desafia em seus próprios limites, e que pode desorganizar, causar turbulências, mas também pode construir um pensamento novo, criar sentidos e gerar transformações. Recorremos aqui à interlocução com a psicanalista Radmila Zygouris (2003), que apresenta um amor que não conforta de imediato, mas transforma (a dupla) ao permitir o confronto com o que é estranho em si e no outro, e inaugura um campo fecundo para a criação de um vínculo inédito.
No texto “O amor paradoxal ou a promessa de separação”, presente no livro Pulsões de vida (1999), Zygouris ressalta que o amor na análise não se refere a uma ilusão de completude, mas a um campo de risco compartilhado, onde ambos, analista e analisando, se oferecem sem saber o que encontrarão. Essa noção dialoga profundamente com o que tentamos discutir, pois ilumina uma dimensão do amor que se instala no campo analítico, não como doação de conforto ou como fusão, mas como acontecimento transformador, atravessado por tensão, ambivalência e alteridade – justamente o tipo de amor que nos propomos a sustentar. Em outras palavras, a noção de amor paradoxal fala dessa abertura afetiva a ser cultivada: um tipo de escuta capaz de se abrir para acolher sem reter, de recepcionar sem absorver, de sustentar sem garantir alívio, sendo apenas um lugar a ser habitado.
Essa forma de amor permite criar um espaço de hospitalidade radical ao outro e seus conteúdos: o ódio, os traumas, os ataques e as fantasias. Abertura ao que ainda não tem nome, ao estranho (in)familiar, ao estrangeiro. Permeabilidade afetiva que permite ao analista deixar-se habitar, alongar em si o que no outro deseja (ou clama) por existir. Zygouris (1999) afirma que o amor do analista é paradoxal: ele promete abrigo, mas também ausência; assegura presença, mas também prenuncia um momento de separação inevitável, pois parte da ética da relação analítica são as próprias transformações vividas pela dupla.
O analista, a partir de uma mente porosa, faz-se continente para acolher o analisando e captar seus pensamentos não pensados, seus sonhos interrompidos (Ogden, 2010) e as formas mais tênues de sofrimento psíquico. Consideramos que uma análise baseada em uma ética amorosa possa favorecer a experiência emocional, a expansão da capacidade de sonhar, a possibilidade de subjetivação de si mesmo – quando o analisando encontra um ninho em que pode se (re)estabelecer e se descobrir sendo capaz de voar. O amor aqui proposto ocupa o cerne do cuidado analítico; o afeto torna-se campo dinâmico, intersubjetivo, com seus riscos, suas vicissitudes e sua implicação.
Vemos, ao longo da história da psicanálise, que a relação entre analista e analisando foi sendo reconfigurada por sucessivas revisões teóricas. Se no início a neutralidade e a abstinência dominavam o campo clínico como uma forma de “proteção” do trabalho da transferência, hoje assistimos a um desdobramento importante: o analista não tem apenas uma função de intérprete do inconsciente, mas mostra-se também disponível, implicado, alguém que afeta e é afetado, e que é, como o analisando, transformado pela experiência analítica.
Nossa proposta é (re)pensar a questão da neutralidade, bem como a dicotomia tradicional que cultua certa assimetria verticalizada, que muitas vezes põe o analista em uma posição mais defensiva, interpretativa e impenetrável. Nesse novo horizonte, o amor do analista não se apresenta como desvio, mas como elemento essencial para o processo.
A relação analítica, longe de ser um espaço asséptico de observação unidirecional, tem sido cada vez mais compreendida como um processo em que a dupla analista-analisando se afeta mutuamente. Na psicanálise contemporânea, em particular entre autores pós-bionianos, emergem concepções em que nos apoiamos para desenvolver aqui a proposição do amor e da permeabilidade do analista como elementos constitutivos e potencialmente transformadores na experiência analítica.
Por isso, este artigo se constrói a partir de uma investigação das especificidades do amor como fundamento da clínica psicanalítica, não apenas como afeto vivido, mas também como força motriz (Ribeiro, 2024, 2025), representante de Eros (Graça & Ribeiro, 2023), que atravessa analista e analisando, convocando ambos a um campo compartilhado do sonho que se sonha intersubjetivamente. Em vez de definições do amor, nosso propósito é construir uma espécie de esboço cartográfico dos afetos na relação analista-analisando, atento às sutilezas teórico-clínicas do que se apresenta como essencial para a criação do nosso mais importante dispositivo clínico: a escuta sensível, estética, implicada.
A hipótese é que, para hospedar em si os conteúdos emocionais do analisando, seria necessária uma abertura amorosa, um estado de receptividade do analista que funcionaria como elemento favorecedor da emergência de afetações enigmáticas [5] e, por meio destas, do resgate, criação e/ou ampliação da capacidade do sonhar.
Para tecer tais ideias, propomos a noção de porosidade psicanalítica. Mas como definir tal porosidade? Quais seriam os elementos essenciais para que o analista possa lançar-se ao inquietante desafio de ser habitado pelo analisando?
Ao ser habitado, o analista é afetado pela experiência emocional vivida com o analisando, processo esse iniciado por uma escuta além do audível, que abre caminhos para a expansão de pensamentos que passam a ser comunicados e geram transformações da/na dupla analítica. A porosidade psicanalítica funciona como escuta sensível, estética, pré-verbal, capaz de apreender o invisível e o inaudível, favorecedora da criação de pensamentos-sonho que emergem e potencializam o trabalho analítico.
Cabe aqui uma breve consideração sobre a que nos referimos por “sonhar”. É sabido que os sonhos representam um marco na origem do pensamento psicanalítico, desde o momento em que Freud publica, em 1900, o livro A interpretação dos sonhos. Em forma de experiência alucinatória, os sonhos reúnem elementos do inconsciente que, criativamente, nos oferecem um enredo ora coerente (ligado, por exemplo, a experiências cotidianas), ora completamente desordenado, desajustado e caótico.
Qualquer que seja a formatação de um sonho, a psicanálise o vê como um veículo para a formação de sentidos e, por mais simbólico que ele seja, a tarefa do analista não se relaciona à sua decodificação. O inconsciente não é um tesouro enterrado em um baú, e o analista, o dono da chave. Sonhos podem ter uma infinidade de combinações de sentidos, múltiplas possibilidades de articulação e significado, pois seu material nos permite uma viagem por memórias, afetos e experiências muito particulares da história de cada sonhador. Ainda que os processos oníricos carreguem traços da cultura e dos laços sociais, um sonho é sempre uma experiência particular, subjetiva, pois diz sobre o mundo interno e as conexões com o mundo externo que habitam aquele que sonha.
Sabemos, portanto, que o devaneio, o sonhar compartilhado e o trabalho de figurabilidade têm grande relevância para a clínica psicanalítica, especialmente em um contexto denominado psicanálise contemporânea. [6] O encontro analítico é essa via de afetação mútua, na qual analista e analisando funcionam como uma díade semelhante à vivida na relação entre mãe e bebê e, como tal, o papel da intersubjetividade e dos sonhos compartilhados torna- -se ainda mais expressivo e potencialmente transformador.
Deixar-se habitar pelo mundo psíquico do analisando e pelas afetações que atravessam o espaço-tempo do encontro analítico contribui para ampliar uma teoria da técnica, pois compreendemos que a abertura, a receptividade e a hospitalidade do analista tornam o campo mais disponível e fecundo. O analista passa a exercer a função de apreensão do pictograma ao estender sua capacidade de escuta do analisando para além do que é audível. Nessa posição, torna-se um instrumento fundamental na construção intersubjetiva de sentidos, possibilitando que fenômenos enigmáticos sejam transformados em conteúdos passíveis de elaboração psíquica. Desse modo, as imagens transvisuais, produzidas no campo onírico, favorecem a expansão do pensamento, passam a ser comunicadas e promovem transformações que atravessam a dupla analítica (Aguiar, 2025).
É nesse mesmo sentido que propomos a articulação entre o amor e a permeabilidade sensível do analista, a ampliação (ou mesmo a criação) da capacidade de sonhar. Em Bion, já em 1962, vemos que é no vínculo entre o bebê e a mãe que se instaura a capacidade para pensar. É na intersubjetividade do encontro entre o bebê e a mãe (mas também entre o analista e o analisando) que nos tornamos capazes de pensar e, então, de sonhar a própria experiência emocional. Pensar e sonhar nos ajudam a construir nosso espaço psíquico. A capacidade de sonhar pode ser considerada, portanto, um caminho de expansão para a mente.
O analista deve ser capaz de sustentar e conter os conteúdos não representados, o incognoscível da mente do analisando, pois se por um lado o sonhar torna possível o trabalho da figurabilidade, tão essencial para os processos representacionais e de simbolização das experiências emocionais, por outro a incapacidade de sonhar leva à incapacidade de reconhecer uma realidade psíquica. Uma vez que a capacidade de sonhar do analisando se apresenta como uma experiência escassa, incipiente ou obstruída, torna-se essencial que o analista “empreste” sua mente para sonhar os sonhos que não puderam ser sonhados (Ogden, 2010).
Em um mundo pragmático e pouco “poroso” como o que vivemos, a clínica contemporânea impõe a nós, analistas, um desafio cada vez maior na comunicação com os analisandos. O clássico “associar livremente”, que em alguma medida poderia ser tomado como uma forma de sonho de vigília, torna-se uma tarefa árdua quando há um abismo entre o indivíduo e suas próprias emoções, um “deserto simbólico” (Gradin, 2020).
Desse modo, o analista deve permitir-se afetar e ser afetado pelo analisando, visto que a função do sonhar como elaboração da experiência emocional remonta a uma construção que é, por excelência, intersubjetiva. Para que elementos não pensados se tornem pensamento onírico, eles precisam se deslocar do intrapsíquico para uma comunicação entre mentes.
Do simum ao abrigo: um sonho a dois
Por meses a fio, ele chegava às sessões com relatos marcados por uma aridez afetiva. Narrativas rasteiras, entoadas por palavras sem vida. Amontoados de acontecimentos do cotidiano, com admirável precisão cronológica, mas sem qualquer inflexão emocional. Não sonhava, ou pelo menos não se lembrava de sonhos, e dizia com certa perplexidade que “nada acontecia dentro” dele.
Parcas associações e robustos silêncios se instalavam, e o que se seguia era uma esterilidade do pensamento, uma rarefação simbólica. Mas a analista sentia que, o fato de estarem ambos ali, sessão após sessão, mês após mês, apontava para uma tentativa, muito exígua e incipiente, de se achegarem às margens da possibilidade do que não podia (ainda) ser sonhado. Apesar dessa precariedade evidente – ou exatamente por causa dela –, a analista passou a se haver com imagens fugidias, que surgiam durante esses encontros: imagens de camelos, uma sensação de ofuscamento, como se a luz fosse excessiva e impedisse a visão. Nada daquilo foi transformado em interpretação, pois a analista percebia que ainda era preciso esperar. Uma espera sem prazo nem garantias de esclarecimento. Mas era como se qualquer palavra que teimasse em querer nomear algo pudesse causar sufocamento, asfixia. Suportar o calor extremo que se instalava na sala de análise não era tarefa simples. Na verdade, nada ali era simplório, nem mesmo a fala monótona e desvitalizada do analisando. De repente, aquele silêncio sufocante é irrompido, minutos antes do fim de uma sessão: “Tem feito muito sol e pouca sombra lá fora, não é? O calor é insuportável!”. Muito prontamente a analista pensa – e diz – que ele aponta, de maneira expressiva, para a ausência (e a necessidade) de um lugar onde possa “descansar” e “refrescar” seus afetos. Analista e analisando derramam essas “acanhadas” palavras em um solo que parece árido, mas daquelas poucas gotas de vida algo parece brotar.
Na noite que sucedeu tal sessão, a analista teve um sonho incomum, marcado por uma intensidade sensorial que persistiu ao despertar. Sonhou que caminhava sozinha por um vasto deserto, sem horizonte definido, quando um forte vento começou a soprar do sul. Um vento abrasador, denso, carregado de areia fina, que queimava a pele e tornava o ar quase irrespirável. No sonho, reconhecia o nome desse vento, simum [7] (que em vigília nem recordava conhecer, mas que era como se sempre o tivesse sabido). O calor era excessivo, sufocante, e a visibilidade diminuía progressivamente. Ainda assim, não havia abrigo. Ela se abaixava, se deitava junto ao chão quente e permanecia ali, respirando com dificuldade, como se sua tarefa fosse apenas suportar a passagem daquele vento devastador.
Em determinado momento, o simum começava a perder força. A areia assentava lentamente, revelando adiante uma pequena construção de pedra, simples e quase confundida com a paisagem. Ao se aproximar, a analista percebia que a porta estava entreaberta. Dentro, não havia móveis, apenas uma sombra fresca projetada no chão. Ela sentava-se ali, sentindo o corpo ainda ardente, enquanto o vento continuava a soprar, mas dessa vez ao longe. Sentia-se aliviada, quase experimentava um estado de paz, por não ter desistido de encontrar aquele lugar. Precisava dele. Ao acordar, permaneceu com a sensação de ter atravessado algo perigoso e necessário. Precisava viver em sua pele o desespero que um “calor insuportável” pode causar, até enfim encontrar refresco.
Esse sonho não foi interpretado nem comunicado diretamente ao paciente. No entanto, ao longo das sessões seguintes, a analista notou em si a sensação de que os silêncios ali podiam ser ouvidos como busca obstinada por uma escuta-abrigo, que só foi capaz de suportar o calor porque havia uma ética pautada na amorosidade. Havia uma legítima disponibilidade da analista para atravessar o deserto com o analisando, de enfrentar o simum, de encontrar (e ser) abrigo e repouso. E assim os ventos foram se acalmando. Era como se algo do vento abrasador tivesse sido sonhado fora da sessão para que, dentro dela, pudesse emergir a sombra, como esboço de um contato com o mundo psíquico. Sombra que não representa ausência de luz – ao contrário, anuncia um abrigo, e refresco. A sombra comparecia, assim, como prelúdio de uma presença, um limiar onde algo podia começar a existir.
A partir desse ponto da análise, os sonhos passaram a surgir, ainda que de forma esparsa, fragmentada, mas o suficiente para indicar uma ampliação da capacidade de sonhar a experiência emocional. O trabalho analítico parecia operar justamente nesse “entre”, no espaço poroso em que a mente da analista, ao deixar-se habitar, pôde funcionar como suporte provisório para que o analisando começasse a reconhecer uma realidade psíquica até então inacessível. Sustentar o campo analítico permitiu, assim, sustentar um sonho em vias de nascer, ainda frágil, mas possível.
A vinheta se entrelaça com a noção de que a porosidade psicanalítica tem um papel fundamental na experiência analítica, pois em meio à precariedade associativa e simbólica, comumente presente na clínica atual, a mente do analista precisa poder “ser habitada” para haver todo um processo de captação, continência, metabolização e construção de sentidos (processo simbólico). Eis a importância de criar novos caminhos técnicos e teóricos, que ampliem o campo de compreensão da relevância da abertura amorosa, para que a receptividade permeável funcione como um espaço de metabolização do incognoscível, de ampliação da capacidade de pensar/sonhar.
Entendemos a porosidade psicanalítica como um gesto de abertura que, por sua própria natureza, se faz dispositivo de escuta, de implicação, de sustento do que ainda não pode ser nomeado. Não se trata apenas de uma disposição subjetiva do analista, mas de uma forma de organização de sua presença sensível e ética no campo, fazendo-se morada para as afetações, para os fragmentos que chegam sem forma ou sem qualquer inscrição na linguagem. A porosidade, nesse sentido, desenha-se na delicada arquitetura da escuta, aquela que permite que algo do outro encontre um lugar continente, ressoe e possa ser sonhado.
Especialmente quando as demandas se deslocam para fora dos contornos clássicos, a porosidade se revela ainda mais necessária. Na clínica estendida, onde o simbólico rareia e o analista é convocado a reinventar seus modos de presença, essa forma de escuta se mostra fundamento matricial do humano. A partir de uma condição amorosa, é possível sustentar um campo sem palavras; é possível ser afetado, ser habitado, ser continente-hospitaleiro.
Em face de movimentos totalitaristas que se revelam e se impõem tão violentamente em nossa sociedade, e que são intensificados via propagação do digital, notamos o alastramento de estados de mente cujo funcionamento é exatamente o oposto da porosidade psicanalítica, baseando-se em uma rigidez narcísica, sem espaço para a alteridade, em uma completa obstrução do pensar. A porosidade que consideramos aqui tem a marca da hospitalidade, das fronteiras flexíveis. Nossa proposta se imprime no sentido de recuperar na psicanálise a palavra amor, às vezes saturada, às vezes demasiadamente abstrata, carregada de uma penumbra de associações que a romantizam e a tornam piegas.
Nosso ensejo é recuperar a palavra amor, empenhá-la como uma ética do analista, um caminho à porosidade psicanalítica, e acreditamos que tal percurso nos permite ampliar a escuta clínica, com tudo o que isso implica: o que há de denso e complexo nisso que nomeamos amor. Diante da rigidez vivida hoje em tantos sentidos, a porosidade psicanalítica é uma aposta no que há de humano em nós, visto que a mente do analista se torna abrigo: sem paredes espessas ou defesas neutralizadoras, sem promessa de alívio do sofrimento, mas com disponibilidade ao que do outro clame por ser acolhido. É essa escuta amorosa e permeável que permite à psicanálise seguir viva, onde se fizer necessária.
Assim, um novo olhar para a amorosidade na cena analítica possibilita instrumentalizar o analista para iluminar, com a maior sensibilidade possível, o fenômeno clínico. Evocando um “elogio ao amor” como matriz da captação do humano, pode-se ver germinar safras teórico-clínicas autorais e complexas, ideias que nascem da experiência analítica, produzem sementes teóricas e seguem fertilizando o terreno do fazer psicanalítico.
A matriz amorosa da mente, ethos do amor, permite a abertura. Campo afetivo paradoxal, em que se sustentam sonhos em desdobramento: poroso ao indizível, atento ao que não se forma por palavras. A mente porosa não retém; ela abriga um indo e vindo de sons e silêncios, movimento ou escassez. Poro é côncavo do afeto, porosidade é gesto de vínculo. É abrir-se ao não saber, ao impreciso. Hospedaria inelutável do que muitas vezes não se ouve, não se vê, mas se sente.
E este artigo chega ao fim, na doce abertura do canto-acalanto de Gilberto Gil, na poesia musical de “Realce” (1979), que mais poderia ser um hino, uma ode à capacidade para a amorosidade, um convite à porosidade psicanalítica:
Não se impaciente
O que a gente sente, sente
Ainda que não se tente, afetará
O afeto é fogo
E o modo do fogo é quente
E de repente a gente queimará
…
Não desespere
Quando a vida fere, fere
E nenhum mágico interferirá
Se a vida fere
Como a sensação do brilho
De repente a gente brilhará
Notas
1 Psicanalista. Mestre e doutoranda em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (ip-usp). Pesquisadora-colaboradora do Laboratório Institucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea (LipSic) e membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF).
2 Psicanalista. Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (ip-usp). Orientadora de mestrado e doutorado. Coordenadora do Laboratório Institucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea (LipSic).
3 O termo invólucro psíquico é usado aqui como metáfora para a hospitalidade emocional que o analista deve construir em si para abrir-se ao outro, sem colapsar, oferecendo-se como um lugar habitável e seguro para os processos transferenciais. Entendemos que “desenvolver nosso invólucro psíquico” diz respeito, essencialmente, ao tripé freudiano, aos três pilares da formação analítica: análise pessoal, supervisão clínica e estudo teórico, considerados fundamentais para sustentar a escuta e a prática do analista. Em “Análise terminável e interminável” (1937/2018), ao se questionar sobre quais seriam as habilitações para um analista exercer de maneira adequada e eficiente sua função, Freud chega à constatação de que isso só é possível por meio da análise do analista, para quem esta deveria ser uma tarefa interminável.
4 Para Bion (1962/2014), a experiência emocional é uma forma de apreender a realidade e é central para a capacidade de pensar. Sandler diz que toda a teoria do pensar de Bion “baseia-se – como se fosse, metaforicamente, uma raiz – em experiências emocionais” (2021, p. 353).
5 O termo foi utilizado por Ribeiro no artigo “Sobre intuição psicanalítica: a afetação enigmática” (2022). A autora compreende a afetação enigmática como a captação dos mais tênues sinais de vida psíquica pela intuição do analista (favorecida pelo que designaremos como porosidade psicanalítica), na cesura entre consciente e inconsciente. Tais sinais são transformados em uma imagem pela função alfa. É nesse mesmo sentido que, neste trabalho, nomearemos afetações enigmáticas os fenômenos que emergem do campo.
6 A psicanálise contemporânea preconiza o espaço analítico como campo intersubjetivo, composto pelos afetos que circulam entre analista e analisando, na dinâmica transferencial e contratransferencial. Desse modo, o analista afeta e é afetado, e sua mente torna-se o instrumento de uma escuta sensível e singular aos conteúdos que habitam esse campo. É a terceiridade que “possibilita o sonhar transformador e o pensar, que dá suporte à posição que denominamos de psicanálise contemporânea” (Figueiredo & Candi, 2015, p. 10).
7 Simum é o nome dado a um vento desértico extremamente quente, seco e violento, característico de regiões como o Saara e a Península Arábica. Sopra, em geral, do sul para o norte, levantando grande quantidade de areia e poeira, reduzindo drasticamente a visibilidade e tornando o ar difícil de respirar. Mais do que um fenômeno meteorológico, o simum ocupa, em narrativas culturais e literárias, o lugar de um vento devastador e potencialmente letal, associado à experiência do sufocamento, do excesso e da travessia de condições-limite. Na vinheta clínica, o simum funciona como imagem onírica do irrepresentável: uma força psíquica abrasadora que antecede a possibilidade de abrigo, sombra e expansão da capacidade de sonhar.
Referências
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