Sem memória, sem desejo, sem compreensão prévia
- há 2 horas
- 5 min de leitura
Texto publicado no Vozes da Psicanálise – Clínica, teoria e pluralismo. Vol.2 1943-1966. 1ed. São Paulo: Blucher, 2023, v. 2, p. 263-268.
Autores: Davi Berciano Flores [1] e Marina Ferreira da Rosa Ribeiro [2]
Bion (1965b/2014, 1967/2014) propõe um estado de mente na clínica psicanalítica no qual o analista escute seu analisando “sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia”. Esta proposta é tomada, pelo próprio autor, como uma extensão da “atenção livremente flutuante” de Freud. A proposta deste estado de mente, tipicamente bioniano, dialoga com sua epistemologia e surge em um momento importante de sua obra, a passagem do período epistemológico (1953-1965) para o período ontológico (1965-1979). Tentaremos ser fiéis a ambas as ideias, apresentando o conceito a partir de sua herança freudiana e, em seguida, localizando-o na obra de Bion.
A partir da obra de Freud, escolhemos duas passagens fundamentais que estruturam a proposta de Bion, levando-se em consideração que sua proposição de método se baseia em inúmeras passagens do pensamento freudiano, kleiniano e de outros autores. A primeira delas encontra-se em Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Psíquico (FREUD, 1911/2010), no qual Freud aponta que diante da iminência de uma descarga motora, o aparelho mental é capaz de recorrer a impressões de sentido, notações que constituem parte da memória. Trata-se de um sistema de antecipação ante o aparecimento de uma impressão, regido predominantemente pelo princípio de prazer-desprazer.
A segunda passagem freudiana que norteia o estado de mente proposto por Bion se encontra em carta enviada por Freud a Lou Andreas-Salomé, em 1916, na qual Freud aponta que para atingir um estado mental, na clínica, capaz de subverter a obscuridade de seus fenômenos, seria necessário “cegar-se artificialmente, focando toda a luz em um único ponto de escuridão" (FREUD, 1916/1975, p. 65).
O estado de mente “sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia” consiste na recomendação de que o psicanalista se discipline em evitar memórias, desejos, impressões de sentido que o levem a se afastar do que se passa no momento da sessão com seu analisando, ou seja, a experiência emocional que está ocorrendo no aqui e agora.
Na obra de Bion, desejos, memórias e explicações, seriam impressões sensoriais às quais o pensamento do psicanalista pode recorrer defensivamente, apegando-se a estes elementos, principalmente diante da precipitação de algo inquietante, angustiante e terrorífico no momento do atendimento clínico. Bion usa como exemplos o desejo de que a sessão termine, ou o uso da memória de alguma sessão anterior como tentativa de explicar algo que o paciente está relatando.
No último capítulo do livro Atenção e Interpretação, Bion (1970) apresenta a expressão “capacidade negativa” citando o poeta John Keats: a capacidade de permanecer em incertezas, mistérios e dúvidas, sem procurar apressadamente razão ou compreensão. Em 1977, Bion (Chuster et al, 2019) apresenta um seminário em Londres com o nome de Capacidade Negativa, ou seja, a disciplina psicanalítica proposta por Bion encontra, nessa expressão poética, um outro continente para o estado de mente do analista na sessão.
A proposta de Bion busca, como horizonte, que o analista encontre seu analisando sempre em uma nova sessão, como se não o tivesse visto antes, permitindo-se assim desprender-se de registros, concepções prévias à experiência daquele encontro analítico, com aquele paciente, naquele momento. As evasões promovidas pelas impressões sensoriais afastariam o psicanalista do que Bion denomina “experiência emocional” (BION, 1965a/2014), aquilo que se dá no presente da sessão, com que o analista deve se manter em uníssono. Esta proposta de método clínico de Bion, tão conectada com elementos da obra freudiana, como à comunicação entre inconscientes (FREUD, 1915/2010), surge em um ponto de virada na obra de Bion.
A proposição do estado de mente “sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia” surge no período em que seu trabalho epistemológico se volta não somente para a psicanálise enquanto um trabalho de produção de conhecimento, associado a aprender com a experiência emocional, mas para o alcance ontológico do trabalho psicanalítico, a possibilidade de tornar-se. Em outras palavras, Bion passa a dar ênfase ao ser em constante transformação durante a sessão, ao que se é a cada instante.
Assim, a presença do analista na sessão, enquanto alguém que prescinde de compreensões prévias, coloca-o em um trabalho de tornar-se uno com o analisando, ou seja, ao invés de falar sobre, é estar com o analisando. Do mesmo modo, entrar em contato com a verdade psíquica do momento da sessão, liberta ambos, analisando e analista, de uma construção rígida a respeito de seus lugares e de quem são, abrindo espaço psíquico para que surjam elementos inconscientes que poderiam ser facilmente encobertos por qualquer tipo de conhecimento prévio ou antecipação.
Quando uma analisanda diz que conversou com seu pai pela última vez há mais de um ano, e que de nada se lembra da última mensagem que ele mandou, o analista pode facilmente ser levado a confiar nesta associação, na ideia já conhecida de esquecimento ou recalque. No entanto, a experiência emocional que acompanha esta ocasião é a intuição, do analista, de que a analisanda está vendo a mensagem no momento que diz não se lembrar dela. Apontar isso leva-a a revelar que guarda um pedaço enigmático da mensagem em sua memória.
Em um outro exemplo, um analisando parece estar falando, fluentemente, de questões de seu trabalho. No entanto, ao manter-se presente na sessão, sem buscar compreensões de seu discurso, o analista aos poucos nota um estranho sentimento de depreciação, como se aquelas associações articuladas encobrissem uma experiência de desidealização ou desqualificação do analista. Esta constatação leva a sessão para um caminho novo e inusitado.
A revisitação de Bion à problemática da escuta clínica se apresenta justamente para se contrapor ao hábito de oferecer, com naturalidade, interpretações carregadas de teoria, ou de saturar a escuta com conteúdos teóricos e certa presunção de conhecimento. Sua obra torna-se, progressivamente, um material de alcance epistemológico e crítico a respeito da prática psicanalítica, independentemente do viés de leitura teórica que cada analista venha a usar.
Notas
1 Davi Berciano Flores é psicanalista e supervisor clínico, graduado em Psicologia pela PUC-SP, com especialização em psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae; é mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, docente do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP); membro do LIPSIC e do GBPSF.
2 Marina F R Ribeiro é psicanalista, mestre e doutora em psicologia clínica pela PUC-SP; Membro efetivo do departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae; professora doutora do IPUSP da graduação e pós-graduação; coordenadora do LIPSIC e do GBPSF.
Referências
BION, W. R. (1965a/2014). "Learning from experience". In: The Complete Works of W. R. Bion. London: Karnac Books v. IV, p. 247-365
BION, W. R. (1965b/2014). "Memory and Desire". In: The Complete Works of W. R. Bion. London: Karnac Books,, v. VI , p. 7-18
BION, W. R. (1967/2014). "Notes on memory and desire". In: The Complete Works of W. R. Bion. London: Karnac Books, v. VI, p. 203-210
BION, W. R. (1970/2014). “Attention and interpretation”. In: The Complete Works of W. R. Bion. London: Karnac Books, v. VI, p. 211-330.
BION, W. R. (1977/2019). Capacidade Negativa. In Capacidade Negativa. Um caminho em busca da luz. Org. Chuster, A. & Stürmer, A. (Trad. Stürmer). São Paulo: Zagodoni.
FREUD, S. (1911/2010). "Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Psíquico". In: Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913) (Vol. 10). São Paulo, SP, Brasil: Companhia das Letras.
FREUD, S. (1915/2010). "O inconsciente". In: Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). São Paulo, SP, Brasil: Companhia das Letras, v. 12, p. 99-150
FREUD, S. (1916/1975). Carta de 25/5/1916. In: Freud – Lou Andréas-Salomé: correspondência completa. Trad. Dora Flacksman. Rio de Janeiro: Imago
Indicação de leitura:
BION, W. R. (1965/2014). "Memory and Desire". In: The Complete Works of W. R. Bion. London: Karnac Books,, v. VI , p. 7-18
BION, W. R. (1967/2014). "Notes on memory and desire". In: The Complete Works of W. R. Bion. London: Karnac Books, v. VI, p. 203-210





Comentários