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Réquiem para os nossos mortos. Promessa de futuro aos que sobrevivem: a "forração melancólica" na pandemia [1]

  • há 2 dias
  • 35 min de leitura

Capítulo 8 do livro "Chuva n'alma: a função vitalizadora do analista", escrito por Fátima Flórido César e Marina F. R. Ribeiro.



E o corpo fazia-se planta,


e pedra,


e lodo,


e coisa nenhuma


Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, 1971, p. 16.


Somos convocados a um tempo de árduos trabalhos de lutos. Precisamos de coragem (considerando, etimologicamente, que o vocábulo provém de cor, ou seja, coração); mas, como qualquer guerreiro que esmorece e descansa entre uma batalha e outra, também esmoreceremos e teremos de lidar com menores ou maiores núcleos melancólicos.


Apresentamos como suposição que uma "forração" melancólica se estende pelos territórios pandêmicos. Uma fina tristeza comparecendo nos dias que se arrastam tediosos, se não lançarmos mão de nossa criatividade psíquica. Por lutos, nos referimos desde as perdas a que somos submetidos - restrição de mobilização, isolamento social, impossibilidade de contato fisico, até aqueles que nos desafiam tragicamente quando assistimos ou somos atingidos diretamente pelas mortes, pelas condições traumáticas dos que são internados, pela impossibilidade de rituais de sepultamento. Daí advêm desde menores sofrimentos melancólicos até estados de sermos esmagados por uma melancolia densa, pontuada por dores inconsoláveis, culpas e reparações infindáveis.


A partir do cenário desolador que vem a desenvolver menores ou maiores estados melancólicos, este capítulo se concentra, fundamentalmente, nas possibilidades de luto, assim como nos trabalhos de luto obstruídos. Dada a dor despertada em tamanhas situações inumanas, impõe-se como desafio o enfrentamento da inicialmente impensável travessia daquele que supostamente diria "eu sou a dor" até a fala que passa da agonia ao sofrimento e enuncia "eu sinto a dor". Esse é o caminho capaz de transformar o trabalho de luto impossível da melancolia até a entrada no processo de luto capaz de conciliar o indivíduo com seus objetos internos amados. Ao final, pensamos nos modos de o analista auxiliar o paciente nessa travessia, mantendo sua função vitalizadora nesse cenário pandêmico.


Dos barulhos encobridores ao silêncio de morte


No texto "A psicanálise e o sofrimento psíquico na atualidade. Uma contribuição com base em Melanie Klein e Winnicott", Figueiredo, em data anterior à pandemia (2018), já falara do "fundo depressivo" e das defesas hipomaníacas dominando nossa vida social e subjetiva - reflexões que apresentam relevância para a compreensão do cenário pandêmico,


De fato, as palavras de Figueiredo (2018) podem bem ser aplicadas ao momento atual: o autor fala de uma sociedade com a "morte na alma, tomada pelo tédio, pelo senso de futilidade, pela melancolia e pela pulsionalidade destrutiva" (p. 56), supondo aqui um fundo depressivo contra o qual se acionam defesas maníacas. O que ficaria mais evidente que o sofrimento profundo seriam essas defesas - a "sociedade do espetáculo" - que ocultam os vazios dos bastidores de um palco de grande produção de defesa maníaca.


Podemos relacionar tal pensamento ao que denominamos "forração melancólica" e à negação tanto da realidade da pandemia, da morte, como dos sentimentos de depressão e luto, quando testemunhamos a insistência em não usar máscaras, o comparecimento a festas, bares e restaurantes lotados.


Mais adiante no texto de 2018, entre os regimes historicamente determinados de cultura e sociabilidade, Figueiredo considera aqueles facilitadores dos processos de saúde e outros impeditivos. Estes últimos se referem às configurações históricas em que predominam adoecimentos conflitivos mais ou menos intoleráveis, e pelo traumático: são os fatores de doença. Ou seja, eles incluem tanto as configurações históricas dos conflitos intersubjetivos e intrapsíquicos muito intensos, dos quais resultam angústias e o acionamento de defesas, quanto às configurações históricas do traumático, geradoras de estados agonizantes e defesas mais primitivas contra os traumatismos precoces. Os dois casos, adverte Figueiredo, resultam em interrupções severas nos trabalhos psíquicos.


Vale ressaltar a diferenciação entre angústias - fenômenos do vivo quando se sente ameaçado - e agonias - fenómenos do moribundo em seus derradeiros momentos de uma vida já perdida, a morte já acontecida ou acontecendo. Conflitos insolúveis produzem fortes angústias, traumas já acontecidos geram estados agônicos.


Identificamos nos dois casos (naqueles em que predomina a angústia e nos dominados pela agonia) interrupções severas dos trabalhos psíquicos e, consequentemente, dos processos de saúde. É possível reconhecer a presença de ambos nesta pandemia: desde os adoecimentos que se constituem em torno de angústias e defesas ativas até estados agônicos.


Podemos complementar pensando a pandemia não apenas em suas condições sanitárias, mas no que possui de configuração sociocultural e histórica, destacando ainda a pulsionalidade destrutiva a que se refere Figueiredo como um acontecimento determinante de processos de adoecimentos psíquicos que abarcam desde as psicopatologias da agonia até relevantes defesas maníacas. De qualquer modo, um "fundo depressivo", o sofrimento profundo apontado pelo autor, ao qual associamos a "forração melancólica", se mantém mesmo quando os adoecimentos não eclodem de modo explícito.


Em contrapartida, assistimos a manifestações de franca mania, como assinalamos anteriormente, lembrando que o conceito de "defesa maníaca" foi proposto por Klein no trabalho "Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos" (1935/1996). Fantasias e condutas maníacas implicam essencialmente processos de negação e de onipotência; negação de fragilidades e carências, de inadequações do próprio sujeito, negação das perdas e estragos causados por ele; negação, enfim das falhas e culpas imaginárias.


Cabe-nos com propriedade para a compreensão do sofrimento psíquico e das defesas acionadas nesta pandemia o assinalamento de Figueiredo de formas benignas e malignas de mania. Estas últimas podem ser capazes de obstruir o contato com a realidade, a elaboração das experiências emocionais: não se trata apenas de negar a realidade externa, mas fundamentalmente, de negar, não fazer contato, não processar e não elaborar a realidade interna com o que pode comportar de dor e sofrimento, desprazer, decepção, medo e desamparo. Nesses casos, obviamente, as defesas maníacas interrompem trabalhos psíquicos, em particular, os trabalhos do luto e do morrer. (Figueiredo, 2018, p. 62)


Se, indubitavelmente, a pandemia abre espaço para a necessidade de elaboração de lutos, o que acontece quando estes são negados? Como nos encaminharmos, individual e coletivamente, nessas condições, quando a realidade pede um contato com sentimentos depressivos de perda e restrições, sendo estes evitados tanto factualmente quanto na realidade interna? Podemos afirmar que uma forma maligna de defesa maníaca é assim assistida, conduzindo a processos de adoecimento coletivo.


Em contrapartida, Figueiredo destaca que Melanie Klein admite formas benignas e necessárias da mania ao longo do desenvolvimento emocional do sujeito, o que a leva a cogitar a existência de uma "posição maníaca" no processo saudável de desenvolvimento emocional do ser humano. Não seria de fato possível enfrentar certas passagens da vida sem o recurso a fantasias maníacas e suas negações onipotentes. Podemos aí reconhecer que as formas benignas de mania funcionam numa justa medida, facilitando trabalhos psíquicos e aliviando os excessos de angústia - fazem parte, portanto, dos processos de saúde, sendo necessárias para que enfrentemos o que se assiste de mortes e desamparo. Se entrarmos em contato permanente e sem "véus" que nos protejam a visão dessa trágica realidade, seremos impedidos de seguir a vida e de nos dedicarmos aos trabalhos de saúde e criação capazes de nos fornecer alento e força para o enfrentamento da realidade tanto externa como interna. Graças à defesa maníaca em sua feição benigna, seguimos trabalhando, escrevendo textos, criando, experimentando pequenas alegrias e prazeres, alimentando laços amorosos, sustentando a esperança necessária para seguirmos adiante.


No texto "A defesa maníaca", Winnicott (1935/1993) amplia o conceito kleiniano, considerando-a como a negação da realidade interna que traz a "morte dentro" (death inside). Em sua leitura desse texto, Figueiredo (2018) afirma: "é a 'morte dentro que gera esse fundo depressivo a ser negado ou mascarado, e, diante desse fundo depressivo, a defesa maníaca instaura um movimento 'ascensivo" (p. 64) - neologismo adotado por Winnicott. Também existe um movimento de "fuga para uma realidade externa", já que a interna está povoada de objetos mortos, procurando-se sinais de vida externamente, uma vez que a "sombra da morte" (Figueiredo, 2018, p. 64) impossibilita o vislumbre de tais sinais. Diante de tantas mortes reais, somos conduzidos a refletir sobre como a "morte dentro" se entrelaça com tal cenário - a intersecção das realidades interna e externa, ampliando e intensificando tanto a vivência da "morte dentro" como determinando o uso extremo de defesas maníacas benignas e perniciosas.


Como Klein, Winnicott (1993/1935) identifica tanto defesas benignas como defesas nocivas; porém, para o psicanalista inglês, ambas constituem defesa contra a "morte dentro", uma sob a forma ascensiva, outra pela fuga para a realidade externa, constituindo assim o duplo movimento maníaco: "para cima e para fora!". O autor esclarece que usa o termo "ascensivo" de maneira global para descrever as defesas contra a posição depressiva como o oposto do depressivo, seguindo a sugestão do Dr. J. M. Taylor, de modo a ressaltar a defesa contra um aspecto da depressão "que está implícito em termos tais como 'um peso no coração', 'nas profundezas do desespero, 'sentir-se afundando' etc." (Winnicott, 1935/1993, p. 255). Deve-se pensar nas palavras "grave" e "gravidade" em oposição a "leve" e "levitação", todas elas com duplo sentido.


Para entendermos melhor o sentido da palavra "ascensivo", cumpre lembrar que Winnicott se refere aos balões, aviões e tapetes mágicos nos jogos de criança que incluem uma defesa maníaca, às vezes incidentalmente. O autor também a associa com o significado da ascensão na religião crista: "Todo ano o cristão visita as profundezas da tristeza, do desespero e do desamparo através das experiências da Sexta-Feira da Paixão. O cristão médio não consegue manter esta depressão por tanto tempo e, desta forma, entra em uma fase maníaca no Domingo de Páscoa. A Ascensão marca a saída da depressão" (Winnicott, 1935/1993, p. 255). Se o "ascensivo" remete ao "para cima!", o "para fora!" representa a fuga da realidade interna para a realidade externa.


Figueiredo (2018, p. 65) identifica em Klein e em Winnicott o termo "triunfo maníaco", que pode se apresentar tanto sob a forma de uma "bem-aventurança despreocupada" como sob a forma de ódio e destruição dos inimigos. Em ambas, o triunfo maníaco é o avesso da depressão e marca a desvalorização da fragilidade, da solidão, das angústias e das agonias.


Aqui, chegamos a uma constatação que nos serve com veemência para o reconhecimento de um acirramento da caracterização por Figueiredo da cultura atual como uma "cultura da mania", a qual se instala sobre o fundo depressivo a que vimos nos referindo. Supomos que, nas circunstâncias atuais, tal fundo depressivo - um sofrimento profundo - ganha amplidão e, por conseguinte, as defesas maníacas, o triunfo maníaco e a violência implicada nesses movimentos ganham extremos de intensificação.


Dispositivos culturais contra o tédio, a melancolia e a desvitalização, a evitação coletiva de mortes e agonias conduzem a uma pseudovitalidade, afirma Figueiredo, identificando o que denomina "regime social de excitação" (2018, p. 65), na verdade, uma hiperexcitação que faz parte da defesa maníaca. Daqui supomos que as polarizações crescentes, assim como as decisões e posições sanitárias, se transfiguram em movimentos de excitação e de destruição que transcorrem de modo relevante nas redes sociais. As aglomerações, festas e celebrações negam a morte, desafiando-a num claro sentimento coletivo de onipotência-negação da impotência, da vulnerabilidade extrema, da finitude.


No texto que nos auxilia para a compreensão do que acontece coletiva e individualmente na atualidade, o autor se refere ao flerte com o perigo com os abismos, diríamos - fazendo parte da cultura da mania. Agora, podemos pensar num regime em que se toureia, graças à negação e as autoanestesias, o vírus da Covid-19. Este último poderia ser visto como o derradeiro inimigo. Assiste-se, entretanto, ao desdobramento e à proliferação de fúrias e combates nos vários territórios de convivência - sejam presenciais, sejam virtuais: um verdadeiro êxtase ligado ao delírio de aniquilação, de si próprio e do outro.


O eloquente subtítulo do texto de Figueiredo - "A morte na alma em um mundo em estado de agitação" (2018, p. 77) - nos alerta para a realidade de um grande barulho que oculta um silêncio, este de morte a falsa vitalidade - a "morte dentro" de Winnicott (1935/1993). Os objetos mortos ou agonizantes no interior do psiquismo, encapsulados nas criptas, geram as defesas maníacas, e "o que denominamos 'fundo depressivo' se instala e se fortalece sob o mascaramento que a negação onipotente socialmente instituída da morte e da realidade interna produz de forma incessante" (Figueiredo, 2018, p. 78).


Como não associarmos tanto o fundo depressivo como a ativação intensa das manias ao momento atual? Como não considerarmos que a morte na alma se oculta sob disfarce nos barulhos compartilhados e também nos barulhos individuais? E como testemunharmos e reconhecermos a "forração melancólica" quando a morte na alma chega até a superfície e se transfigura naquilo que se insistira em negar: as tintas sombrias da melancolia?


Os mortos insepultos


Todas as vidas são vidas heroicas.


Clarice Lispector, Água viva, 1998, p. 66.


Temos a necessidade, nós que sobrevivem sobrevivemos, de homenagear nossos mortos, de modo que a temporalidade obstruída do presente eterno, já que estagnado, ganhe movimento e resgate a direção para o futuro. Assim poderemos transitar do risco da melancolia (aquela que instala estados de estagnação e de não viver) para o luto que solicita travessia de dor, mas desemboca na escolha pelo continuar vivo e na criatividade psíquica.


A homenagem aos nossos mortos não é, entretanto, garantia para que encaremos com coragem a pandemia e reinventemos vida a partir de uma criatividade possível. Dependemos das dimensões de saúde frente ao caos pandêmico e também, quando adentramos por uma reflexão sobre a clínica, de reconhecermos o papel do analista como aquele que, ao salvaguardar seus próprios recursos psíquicos, é capaz de convidar o paciente para o futuro e para o partilhar da esperança.


Em meados de 2021, com o cenário pandêmico se agravando, o atendimento online tornou-se um imperativo. Não é incomum que pacientes e nós, analistas que compartilhamos do mesmo destino, afirmemos que agora "a Covid chegou mais perto" - a morte, essa "indesejada das gentes" (Bandeira, 1930/1979, p. 202), mostra sua face de uma forma inumana: vitimando parentes, vizinhos, amigos, conhecidos. Novas cepas, a violência do vírus, as sequelas deixam todos sob estado de alerta e, assim, chegam aos consultórios quadros de sofrimento menos ou mais graves, destacando-se pânico, hipocondria, paranoia, depressão entre outras formas de adoecimento. Mas um fundo de melancolia se acentua agora diante do número crescente e à proximidade das mortes, lançando sua sombra tenebrosa sobre nossas mentes, que enfrentam, em desalento e impotência, a irrepresentabilidade e o imponderável. Vivemos tempos em que a desesperança, o terror do vazio e a suspensão da temporalidade nos aprisionam a um presente eterno.


A solidão da morte entre as máquinas, a asfixia quando o oxigênio nos falta, a escassez dos medicamentos de sedação que aliviariam a dor só fazem agudizar o sentimento de nossa morte como coletividade. Assistimos impotentes e desconsolados à ausência dos rituais fúnebres na atual condição em que nossos mortos são sepultados, ou mesmo antes, quando agonizam em impensável solidão. Se a morte de uma pessoa for marcada pelo luto, ela será objeto de narrativa e comoção. Os insepultos, por sua vez, terão uma morte sem narrativa, reduzida à quantificação numerária que normalmente aplicamos às coisas - números sem história e sem o discurso lutuoso da perda.


No estado pandêmico, somos ameaçados pela condição de perda de nossa humanidade e dignidade. Os lutos permanecendo, dificultam os atravessamentos que permitiriam aos nossos mortos ganhar morada em nossas lembranças e em nossos territórios internos espoliados pela dor.


Falamos aqui das mortes reais e da morte de nossa humanidade. mas, como afirmamos há pouco, um fundo de melancolia "forra" as vidas: assombram-nos - tanto a nós, analistas, como aos pacientes - um trauma coletivo e o assistir da catástrofe se desdobrando cotidianamente. Mas é preciso destacar, como afirmam os Rocha Barros (2021), que devemos estar atentos às "ressonâncias simbólicas" (p. 107) da pandemia na prática clínica como a mente interpreta a vivência da pandemia.


E indagamos veementemente como encaminharemos o processo analítico de modo a fazer frente aos estados emocionais despertados nesse cenário, os quais vão desde a negação até a agonia? O que esses autores denominam "potencial traumático da pandemia" (Rocha Barros & Rocha Barros, 2021, p. 107) nos alerta para a atenção aos vários modos de operar frente à catástrofe a ser enfrentada. Desde modos mais saudáveis de reagir (e aqui incluímos o sofrimento, impossível de ser negado na perspectiva de uma mente razoavelmente saudável) até condições de adoecimento em que destacamos as agonias perpassando os vários quadros psicopatológicos. De qualquer modo, o fato de cada um ter sua vivência singular não modifica a realidade de que algo comum atravessa todos nós humanos.


Impossível não nos referirmos e nos debruçarmos, mesmo que brevemente, ao que vimos aqui destacando: trauma e catástrofe. Recorremos novamente a Rocha Barros e Rocha Barros (2021), que definem trauma em sua associação a uma impossibilidade de formulação narrativa de memórias e experiências, à ausência de palavras para nomear vivências, ao esgotamento de recursos imagéticos e metafóricos. O próprio aparelho psíquico sofre uma "pane", um transbordamento e uma ruptura. Destacamos ainda a dimensão pregnante de trauma como colapso da temporalidade, como apresentam os autores:


Quando a construção interna do passado é esmagada por uma única visão terrífica, poderíamos imaginar que estamos diante de um processo traumático. O mesmo poderia ser dito do modo de se pensar o presente ou o futuro. O trauma poderia ser concebido então como um colapso dessa maleabilidade na concepção das vivências e antecipação do que o futuro trará. Portanto, talvez fosse possível dizer também que o trauma é uma forma de se pensar, um modo traumatizado de cognição. Sob o signo do trauma, as capacidades do pensamento para a criatividade e a inovação ficam hipertrofiadas. O trauma se pensa de um modo repetitivo, sofrido e sem esperança. (Rocha Barros & Rocha Barros, 2021, p. 134)

Passamos agora a fazer uso de uma história clínica para ilustrar como o potencial traumático pandêmico pode afetar nossos pacientes, de acordo com as variadas formas de funcionarem psiquicamente. Destacamos, em particular, os encontros com uma paciente que arrastava mortes, lutos e paralisias e, ainda assim, lutava para seguir adiante.


Tintas de melancolia no cenário pandêmico


Nada se mexia, era a eternidade.


Jean-Bertrand Pontalis, "Perder de vista", 1991, p. 10.


Lembro-me de Antígona, personagem principal da peça de Sófocles que faz parte da Trilogia Tebana (1989) (ao lado de Édipo Rei e Édipo em Colono). Lembro-me porque ficamos sujeitos a uma amputação de nossa humanidade quando não podemos sepultar ou homenagear e venerar nossos mortos. Pano de fundo para o esfacelamento de nossa comunidade, nós que sobrevivemos, assim como Antígona, temos uma dívida para com aqueles que se foram de forma indigna.


Filha de Édipo, altiva e heroica, Antígona fez a escolha de lutar pelo sepultamento de seu irmão, mesmo que para isso viesse também a morrer. Ela segue, portanto, em luta para enterrar seu irmão Polinices, a despeito do decreto proibitivo de seu tio Creonte. Este decide: a Etéocles (o outro irmão de Antígona) seriam destinadas todas as honrarias fúnebres, ao passo que a Polinices seria negado o sepultamento, deixando-se seu corpo insepulto, sem homenagens e ao alcance dos cães e de aves carniceiras. Contudo, a irmã dos mortos, inconformada com o decreto proibitivo do tio, decide confrontá-lo.


Pede ajuda à sua irmā Ismene e, diante da negativa desta de desobedecer ao decreto de Creonte, Antígona assim a ela se dirige:


Não mais te exortarei e, mesmo que depois

Quisesses me ajudar, não me satisfarias.

Procede como te aprouver; de qualquer modo

Hei de enterrá-lo e será belo para mim

Morrer cumprindo esse dever: repousarei

Ao lado dele, amada por quem tanto amei

E santo é o meu delito, pois terei de amar

Aos mortos muito, muito tempo mais que aos vivos.

Eu jazerei eternamente sob a terra

E tu, se queres, foge à lei mais cara aos deuses.


(Sófocles, 1989, p. 200)


E Antígona cumpre sua promessa: sepulta seu irmão Polinices. Ela é chamada a responder por seu ato perante Creonte, que se mostra irredutível e manda que seus servos a enterrem viva.


De Antígona, a peça, destacamos o que nos remete à história de encontros com uma paciente e seus trabalhos por vezes obstruídos frente às perdas vivenciadas. Nomeio-a Antígona.


Não há, porém, como sobrepor as "duas Antigonas": a primeira, de Sófocles, fez uma escolha de posse de heroísmo e altivez; a outra, que aqui descrevemos, se apresenta sob tintas de melancolia. Entretanto, segundo Cintra (2011):


com a ajuda de Freud, Melanie Klein percebe que há sempre algo de melancolia no luto normal e algo do huto normal na melancolia, ela aprende a pensar dialeticamente. Os dois autores concordariam se disséssemos que, de certa forma, a melancolia é também um processo de luto que, no entanto, se extraviou. (p. 34)

Talvez aqui as duas se encostem em alguma semelhança: ambas se entregando à defesa de seus mortos, mas por motivos diversos, como veremos a seguir.


Como os humanos são diversos em suas feições anímicas, recebo muitos pacientes para os quais a pandemia se mantém longínqua -pano de fundo para outras questões. Outros, entretanto, são afetados de modo mais manifesto, como é o caso de Antígona, imersa em mortes, afogada em prantos na medida em que a catástrofe externa se cola à interna.


Assim como outros pacientes, chega necessitando de um cuidado com o apelo de resgatá-la do desastre que a ameaça de uma "experiência de terror [isto é, do trauma]... que não engendra nem aprendizados nem experiência, mas um vazio representacional" (Viñar, 2017, p. 43). Acrescentamos que as mortes "reais" acordam, como pesadelos dos mais tenebrosos, seus objetos internos mortos, insepultos e ameaçadores do que resiste como vivo. A dor crua e indizível desce seu manto de terror sobre tantos e requer um trabalho para o resgate da temporalidade e para a saída de incomensuráveis zonas de mortificação e paralisia.


Vamos, portanto, à Antígona.


Chega-me em leves passos, com uma doçura que não se desfaz nem nos momentos de dor aguda. Fala com acentuada delicadeza, mas ares de desvitalização vão aos poucos se revelando à medida que estreitamos nossos laços, sutis traços de dores ocultando sob a voz sempre calma um possível grau de esfacelamento. Logo sou cativada: sim, é doce, empatiza-se de modo ilimitado com a dor do outro, apresenta uma disponibilidade irrestrita, não resiste a chamados de socorro ou a gritos de angústia. Sou cativada no início mais por seu modo de apresentar-se em vestes tão suaves - do que por seus movimentos de acolher as dores dos que a cercam. Desde sempre desconfio do entregar-se incauta em sacrifício ao sofrimento alheio. O quanto sofre por si? O quanto abre mão de escolher-se quando convocada ao cuidado do outro, deixando-se ao abandono ao flertar com abismos?


Chega no início da pandemia: a voz suave, os gestos lentos não disfarçam o estado de puro susto em que se encontra. Arrasta mortos, lutos não resolvidos. Acompanhara pai e mãe até o fim de suas vidas, numa vigília tão dedicada que a privara de passar os fins de semana com o marido e das viagens anuais para visitar os filhos e netos que moram fora do país - fonte de alento e de vida, nos momentos em que, como veremos mais adiante, é alcançada por estados mortificados. Fonte esta que forra em disfarce um chão de desespero.


Pouco antes do início da pandemia, quando já passara dois anos sem viajar, apesar de ainda atormentada por fantasmas de que não cuidara o suficiente da mãe ou porque em um ou outro momento ficara irritada com ela, prepara-se com alegria para finalmente reencontrar os filhos e netos. É quando são novamente impedidos: seu marido - aquele que ela sempre desejara avidamente que sobrevivesse à sua própria morte, aquele sem o qual não se via capaz de viver - apresenta um câncer de próstata já com metástase óssea. E depois desse diagnóstico que Antígona me procura, quando já então, após tratamentos intensivos, o câncer se apresenta sob controle, não havendo mais sinais de metástase. Não a acompanhei nesse periodo, mas me relata seu estado de desespero ao se ver ameaçada pela ausência do marido. Com a habitual delicadeza, segue a vida oscilando entre períodos de inquietação e conformismo.


E quando a pandemia cola sua face de paralisia a seu próprio estado interno - refém que fica dos pedidos de cuidado alheio e do acudir fragilidades. Sente-se aprisionada, a pandemia a impossibilita de ver seus filhos, e véus de infelicidade frente a tal impossibilidade também me conduzem ao desvelar de outras formas de paralisia. Por vezes, sinto-a também refém minha: quer mesmo ficar? Que inércia ou mesmo submissão pressinto em nossos encontros? O que nos liga? O que nos desliga? Viverá comigo, como em outros vínculos, amores que se transfiguram como anzóis na carne? Pois é assim que se tecem seus laços: eternamente responsável por quem cativa ou por quem é cativada.


Nossas sessões vão transcorrendo assim: Antígona emitindo vozes mistas de gentilezas e indignação porque seu horizonte de abertura e promessa do novo mantém-se impossibilitado, já que as fronteiras estão fechadas. Mas de que fronteiras fala? Sobrepõe-se a real dor da distância oceânica ao fato de que não haverá nunca uma porta, janela, saída para seus aprisionamentos internos? Paradoxalmente, assisto a uma ausência de fronteiras/pele, tamanha a porosidade diante do sofrimento alheio. Tudo está parado. O que mais está parado além desse cotidiano pandêmico que pode ser vivido em claustrofobia e sufocamentos?


Entretanto, os sustos prosseguem, estes que se apossam do corpo colocando-o em dores inesperadas; o ser tomado por novas ondas de irrepresentabilidade. Coloco aqui numa área de não sentido não apenas as aflições de Antígona, mas o que vimos enfrentando nesta pandemia quando retornamos considerando nossos limitados recursos psíquicos frente ao hediondo da realidade com sua face tenebrosa de mortes, violências e desamparo - a vivências primitivas e estados regressivos.


O que aí assinalo tem sua razão, portanto, quando Antígona é apresentada aqui como exemplo paradigmático de alguém que vem enfrentando, entre afogamentos e retornos à superfície, a pandemia e o que esta impõe de destinos antes impensáveis. Para alguns, como para ela, os desafios dos aspectos mais sombrios da vida se sucedem.


Continuamos juntas e sou testemunha de novo sobressalto: seu irmão desenvolvera um câncer de pâncreas. Acompanho-a no descrever das tentativas de tratamentos, melhoras e pioras se sucedendo até que o estado do irmão se agrava. Antígona relata que irmão e cunhada tinham um estilo de vida muito diferente do seu, priorizando trabalho e status, o que acabou incorrendo no afrouxamento dos laços afetivos que os ligavam. Nas últimas semanas de vida do irmão, enquanto a esposa deste se mantinha maniacamente no trabalho, Antígona se dedica em vigílias diárias, sendo impensável deixar de acompanhá-lo no hospital, mesmo considerando os riscos de contaminar-se por Covid-19. Seu irmão também tivera covid nesse período e recupera-se, mas, semanas depois, vem a falecer em função do câncer.


Antigona me relata com relativa tranquilidade a morte do irmão, não aparenta dor; lamenta-se, todavia, de não ter ido ao enterro. Seus filhos se indignaram com suas idas ao hospital e fora atravessada por um profundo sentimento de solidão por não ter sido compreendida em sua extremada dedicação. Na verdade, uma ferida atroz se constituirá a partir daí, um estado de desorganização que se contrapunha radicalmente ao estado de tranquilidade diante da morte do irmão. Quanto a este, despedira-se quase completamente, restava a dívida de não ter comparecido ao sepultamento.


Paulatinamente, foi-se desenhando à minha presença uma necessidade ilimitada de... cuidar? Socorrer? Daí, consequentemente, quitar dívidas, tourear culpas. E então, consequentemente, eu não assistia a um trabalho de luto, a dor não era pela perda, mas pelo que se devia. As dívidas se acentuavam em demasia, principalmente em relação à mãe: não passava um dia sem recordar-se de uma possível resposta irritada frente aos abusos daquela. Não passava um dia sem que não surgisse em sua mente repetidamente: "e se?", "e se?". E se tivesse segurado a travessa no lugar da mãe de modo a impedir que ela caísse? A queda e o AVC não poderiam ter assim sido evitados?


A culpa ocupava o lugar da saudade; o trabalho de luto arrastado ou mesmo impossibilitado. Contratransferencialmente, experimentava a mesma indignação dos filhos e via avolumar-se a culpa em relação à mãe, ao marido, ao irmão. Mas o destino lançou impiedosamente nesses tempos de desgraças e almas atormentadas - mais um dificil acontecimento em seu caminho. O marido de sua melhor amiga, também grande amigo, estava gravemente internado com Covid e, após um mês, faleceu. No dia de sua morte, pergunta ao telefone para a amiga se queria que fosse até sua casa. A amiga responde que sim e ela vai. Parentes e poucos amigos estavam lá, a amiga em dor profunda. "Como não abraçar?" A amiga também tivera Covid, "mas como não estar junto?".


Escuto-a, não tenho palavras, eu também paralisada. É visível uma culpa avassaladora: a culpa de optar por si. Carrega nos ombros o peso do mundo e é um peso maior do que é capaz de aguentar, ameaçando-a de desintegração.


Embora conduzindo a vida provida de criatividade psíquica tanto em relação ao trabalho quanto aos laços amorosos, um estado de mortificação a mantém carregando sobre seus ombros a culpa do herói frustrado por não ter salvado seus mortos. As escolhas (ou é escolhida pela culpa e autorrecriminações?) a mantêm isolada e insulada numa câmara mortuária. Terá saído da sala dos velórios? A "morte dentro" (Winnicott, 1935/1993) paralisa-a quando me relata sua sensação de que nada se movimenta, quando uma lentificação dos gestos insinua um quadro melancólico, que a impossibilita de vislumbrar o futuro e a esperança. Talvez seja menos o cuidado que a culpa que a liga aos outros.


Meu papel enquanto analista é de oferta do inédito: tudo começa pelo futuro, o qual convoca nossa presença na vida. O trauma congela o tempo: perde-se a historicidade, extraviam-se passado e futuro, apenas se mantém um presente eterno e claustrofóbico. Tal qual a Antígona de Sófocles, também Antígona, minha paciente, parecia encontrar-se emparedada, buscando frestas entre os tijolos pelas quais algum movimento inesperado pudesse vir a brotar. Assim, a pandemia nos alerta para a fundamental função analítica: sermos testemunhas da possibilidade de um futuro, ainda que incerto, escavando nas paredes aprisionantes frestas possíveis para o advento da esperança e de caminhos de fertilidade, mesmo que no cenário de um deserto de longas distâncias de árvores ressequidas e de carcaças de animais sucumbidos pela seca.


Nessa direção, sob a forma de narrativa, conto que o filósofo Edgar Morin, com 100 anos e tendo casado aos 88 com uma mulher bem mais nova, havia dito que precisávamos encontrar/inventar pequenos oásis de vida. Ela me responde: "mas tem que andar tanto. Estou tão cansada", com voz sem ânimo, sem alma, sequestrada por um estado desolado. Não desisto. Antes que termine a sessão, insisto, convidando-a para a experiência de sonharmos conjuntamente. Digo: "tive uma ideia: mandamos um whatsapp para o Edgar Morin perguntando como se encontra um oásis". Ela sorri... por gentileza? Mas também pude vislumbrar que algum fiapo de esperança emergira a partir de nosso encontro.


Luto e melancolia


O entardecer é o desembocar de todas as ausências.

É o vento soprando saudades e dores.

Não sei como ainda não morri.

Mas estou morro não morro.

E acho que é mesmo no entardecer que desemboco a morrer,

cada tarde um bocado.


Marilene Felinto, As mulheres de Tijucopapo, 1992, p. 54.


Compreender Antígona e a pandemia passa necessariamente por uma leitura teórica do que se passa na melancolia. Temos como ponto de partida para o entendimento desse estado o texto de Freud (1917/2011) "Luto e melancolia"; entretanto, faremos uso também do texto de Ogden (2004) "Uma nova leitura das origens da teoria das relações objetais", e de algumas pontuações de Cintra (2011).


Ressaltamos que esse fundo depressivo, como nomeado por Figueiredo (2018), que permeia a sociedade contemporânea, ou a "forração melancólica" a que nos referimos, pode ganhar proeminência na constituição psíquica, levando ao adoecimento, se o cenário externo, aqui especificamente o pandêmico, ou esses veios subterrâneos de depressão e melancolia colam-se a uma predisposição do indivíduo à eclosão de um quadro psicopatológico.


É verdade que as condições externas trazem em seu bojo, como já vimos com Rocha Barros e Rocha Barros, um potencial traumático, mas o destino deste vai depender da economia psíquica individual. É predominantemente aos mortos insepultos internos que estamos nos referindo, às paisagens internas de "morte dentro" que se colam, ganhando espaço, rio que vinha silencioso, mas que se desdobra em pororoca ou turbulências. Eis o que aconteceu com Antígona: não foi porque não conseguiu ir até o fim em seus rituais fúnebres, mas porque já arrastava culpas e áreas internas de estagnação mesmo antes da pandemia.


É possível, por outro lado, se somos razoavelmente saudáveis, que enfrentemos as perdas (desde as restrições em nosso cotidiano até as mortes concretas) com a coragem necessária que um luto normal impõe. Dada a complexidade da realidade atual, ocorrem dramas tão extremos (como a morte de famílias inteiras) que será quase inevitável que se instale um quadro de desespero e, talvez, de melancolia. Essas circunstâncias trágicas não constituem, entretanto, a realidade de Antígona.


A melancolia, como destaca Freud logo no início de seu texto, é igualmente resposta à perda aqui assistimos a um desânimo profundo, uma suspensão do interesse pelo mundo, uma perda da capacidade de amar e um rebaixamento da autoestima com auto acusações. Freud destaca que, no luto, embora se assemelhe à melancolia, não há o rebaixamento da autoestima. Esse retorno dos afetos ao eu foi bem ressaltado na citação de vocábulos com o prefixo selbst (auto) - auto acusação, autodepreciação e auto recriminação -, nos levando a identificar um movimento mortífero de retorno contra si.


Reconheço em Antígona, sob a forma de um permanente sentimento de culpa e de um arrastar de dívidas, a predominância de autorrecriminações. Relaciono esse movimento constante que atravessa suas relações com os objetos à descrição de Freud de uma clivagem do ego em uma voz autoritária, acusadora e sádica e, do outro lado, a uma dimensão do ego esmagada pela sombra do objeto que critica arduamente, elementos que levam à ideia de um superego cruel e arcaico. São essas autorrecriminações (sinais de um superego sádico) que me fizeram considerar uma tendência à melancolia no entendimento do funcionamento psíquico de Antígona e de seu relacionamento com suas perdas.


A essa altura de nossa reflexão, compartilhamos a seguinte indagação de Cintra (2011):


O que permite que o processo de luto se desenrole normalmente e o que leva ao luto patológico e à melancolia? Já podemos responder que um acontecimento violento demais é sempre difícil de assimilar e deixar passar, mas quando se articula com um amor, um ódio e uma culpa intensos demais, forma esta voz de recriminação absoluta, que vai atravessar o ego na forma de um enclave, que vai deixar abertos os ferimentos do passado, de tal forma que é impossível fechá-los, pois a libido escorre através do ferimento, e não existem nem amor nem perdão suficientes para ligar e transformar tantos afetos, instalando-se então um luto impossível, a melancolia. São quatro os fatores que contribuem para instalar-se a melancolia e não poder curar-se: a extrema tragicidade dos acontecimentos, a extrema intensidade dos afetos, a predominância de um superego purificado e inassimilável pelo ego e a impossibilidade ou intermitência de acesso do paciente ao processo analítico dando origem a uma reação terapêutica negativa. (p. 33).

Consideramos esclarecedora tal explanação de Cintra e sua ênfase no papel do superego como "voz de recriminação absoluta" (esta ouvida em altos brados por Antígona) em sua fundamental relação com a melancolia.


Continuando agora com as mais relevantes considerações da melancolia por Freud, vale ressaltar que o melancólico não sabe o que perdeu em si mesmo em consequência da perda do objeto. Um aspecto se refere à perda do objeto, outro envolve a alteração do self como reação à perda do objeto. Na melancolia, o próprio eu torna-se pobre e vazio; no luto, é o mundo que assim se apresenta. Refiro-me a "tintas da melancolia" na medida em que identifico em Antígona uma manutenção de suas atividades cotidianas e um determinado desânimo que não se apresenta de modo exacerbado, como num quadro melancólico clássico. Entretanto, as autorrecriminações incessantes me conduziram a considerar uma melancolização de seu modo de estar frente à vida e às perdas. Além disso, à medida que o processo terapêutico avança, áreas de estagnação que pareciam pertencer exclusivamente ao marido, enquanto ela representava o pólo vitalizador da relação, começam a ser reconhecidas em si mesma. Ela mesma passa a identificar restos, resíduos internos à semelhança do estado caótico do quintal repleto de bagunças do marido. Um humor com tintas melancólicas ganha maior espaço quando se sente também paralisada e "pensando muito no fim da vida".


Outro aspecto relevante na teorização freudiana da melancolia diz respeito à ambivalência: as críticas do melancólico a si mesmo representam ataques inconscientemente deslocados ao objeto amado. Havia uma ligação libidinal a uma pessoa, mas uma decepção com o objeto amado leva a um estremecimento dessa relação. Em vez de deslocar a libido para outro objeto, a libido livre se retira para o eu, o que, como consequência, determinou uma identificação do eu com o objeto. Eis aqui a fundamental sentença de Freud (1917/2011): "dessa maneira, a sombra do objeto caiu sobre o ego" (p. 61). A ambivalência faz sua aparição no funcionamento psíquico de Antígona de modo indubitável em sua relação com a mãe, na qual se mesclavam e se mesclam cuidado, irritação e culpa.


O que acontecera na casa da infância, nesse laço primordial que se estende para além da despedida da carne, que, na verdade, se estende em tormento e tentativas desastrosas de prantear, de modo que acaba por manter o luto assim obstruído? O que a impossibilita de perder de vista, desprender-se dessa presença excessiva, dizer adeus?


Pontalis (1991) nos fala das dores do perder de vista que precisam ser atravessadas para que o luto seja possível. O psicanalista destaca uma "fragilidade essencial: a de não ser capaz de amar o invisível" (p. 205). Fragilidade esta de todo humano, poderíamos dizer? E. assim, no sonho, quando nossos mortos nos visitam, quando os lugares perdidos retornam, eis a tentativa de união do efêmero ao eterno. Como lidarmos com a ausência - que capacidade será esta de acalmar tal dor, de modo a que se configure um luto e não um estado melancólico?


Será que o mais insuportável na perda seria o perder de vista? Será que isto significa a retirada absoluta do amor da outra pessoa e em nós, a inquietação de uma fragilidade essencial: a de não ser capaz de amar o invisível? Primeiro seria preciso ver. Não apenas ver, mas ver primeiro, e poder sempre acalmar em nós a angústia suscitada pela ausência, garantindo que o objeto amado esteja inteiramente ao alcance do nosso olhar e que nos reflita em nossa identidade. Qual é a razão de sonharmos, afinal, a não ser a cada noite vermos o que desapareceu (os mundos, os lugares, as pessoas, os rostos), para confirmar sua permanência e para tentar unir o efêmero ao eterno? (Pontalis, 1991, p. 205)

Mas retornamos à célebre sentença de Freud, agora com o auxílio de Ogden (2004). Quando Freud afirma que: "A sombra do objeto caiu sobre o ego", Ogden (2004) destaca que se dá uma mudança de "objeto perdido" para "objeto abandonado". O objeto abandonado é preservado por uma identificação com ele - "a sombra do objeto caiu sobre o Eu" -, diferentemente do luto, em que o objeto é perdido. Ogden contribui para a compreensão da famosa frase de Freud:


A metáfora da sombra sugere que a experiência do melancólico de se identificar com o objeto abandonado tem uma tênue qualidade bidimensional, que se opõe a um objeto vivaz e vigoroso. A dolorosa experiência de perda sofre um curto-circuito, através da identificação do melancólico com o objeto, ele nega, assim, a sua separação do objeto; o objeto sou eu e eu sou o objeto. Desta maneira, não há perda possível, um objeto externo (objeto abandonado) é substituído onipotentemente por um objeto interno (o Eu identificado com o objeto). (Ogden, 2004, p. 90)

Mantendo uma relação com o objeto interno para o evitamento da dor, consequentemente, testemunha-se, na melancolia, uma falta de vitalidade derivada de seu desligamento de uma porção da realidade. O melancólico perde assim uma parte substancial de sua vida: "a vida emocional tridimensional, vivida no mundo dos objetos externos" (Ogden, 2004, p. 90). No mundo interno deste vemos povoado um desejo de aprisionar o objeto. Entretanto, um duplo aprisionamento se mantém: o objeto como prisioneiro eterno do melancólico (devido à sua internalização) e o melancólico também para sempre um prisioneiro do objeto.


O aprisionamento recíproco entre o eu e o objeto nos alerta para uma temporalidade específica em que o eterno é dominante. Em contrapartida, podemos pensar no luto como névoa que se dissipa. Ogden (2004) se refere ao estado "esmagado" do melancólico. Uma associação surge: em desenhos animados, se um personagem é atropelado, ganha de imediato uma bidimensionalidade para logo recuperar sua tridimensionalidade. No melancólico, mantém-se a bidimensionalidade, a sombra do objeto se arremessa e esmaga. Recobrar a tridimensionalidade, a capacidade de luto e a temporalidade em que ressurgem passado e futuro, e libertar o paciente das correntes de um tempo morto - presente eterno - passam a ser as tarefas da dupla analítica.


Também na pandemia destaca-se tal temporalidade estagnada: podemos identificar o tempo pandêmico como um tempo melancólico, quando as sombras dominam e a névoa não se dissipa - algo, como já foi falado, da ordem do traumático. O fundo depressivo assim imiscuindo-se nas vidas, cada qual com sua biografia, sendo capaz de enxertar um tempo morto e claustrofóbico, como o que acontece com Antígona, que descreve seus dias como sempre iguais e sem perspectivas do inédito ou visitação do novo.


Ogden (2004) destaca que o melancólico, diferentemente do enlutado, só foi capaz de estabelecer formas narcísicas de relação objetal, o que impossibilita o contato com a realidade da perda. A dor da perda é evitada às custas de grande gasto de vitalidade emocional: a relação bidimensional (como uma sombra) com o objeto interno toma lugar de uma relação tridimensional com o objeto externo mortal, fonte de decepções e abandono. O autor conclui que, na melancolia, ocorre uma substituição da realidade externa pela realidade interna.


Também a ambivalência é reforçada, como assinala Freud, com o conflito entre amor e ódio se destacando na relação, quando a melancolia não se dá apenas por morte, mas também por situações de decepção ou ofensa. Ogden (2004) assim ressalta que o vínculo de ódio pode ser mais poderoso que o de amor: o sadismo que surge a partir da perda ou da decepção dá origem a uma forma de tormento. Tal mistura de amor e ódio explica a "surpreendente durabilidade das relações internas patológicas" (p. 93). É o que se destaca na relação de Antígona com sua mãe, esta última fonte de provocações e insaciabilidade, despertando na filha um ódio estrangulado (disfarçado) sob a forma de reações de irritação.


Ogden identifica no conceito de ambivalência a mais importante contribuição para a melancolia e para a teoria freudiana das relações objetais: um sentido novo diverso do conflito entre ódio e amor. Tal conflito refere-se a um conflito entre o desejo de viver com aquilo que é vivo e o desejo de estar em concordância com o que é morto; entre estar vivo com a dor da perda e o desejo de ir se amortecendo para a perda e a realidade da morte; e, ainda, uma combinação entre ambos. Enquanto no luto o ego desiste do objeto, ao aceitar a realidade da morte e continuar a viver - ocorrendo um trabalho psicológico em que o objeto morre irreversivelmente na própria mente e na realidade externa -, na melancolia é dominante o desejo de amortecimento com o fim de se encontrar junto ao morto, auto aprisionado e sobrevivente em um mundo objetal interno atemporal, ainda que moribundo.


Daí Ogden (2004) destaca uma dimensão nova e fundamental acrescentada por Freud à teoria das relações objetais: "as relações objetais internas inconscientes tanto podem ter uma característica de vida e vivificadora, quanto de morte e amortecedora" (p. 97). Aqui, o autor nos dirige a atenção ao campo transferencial-contratransferencial, algo que lhe é muito caro e de muita importância no encaminhamento dos processos terapêuticos. O sentido de vitalização e desvitalização nas experiências da dupla analítica ganha importância frente ao que está vivo e o que está morto no mundo interno do paciente. Entretanto, podemos pensar que também as dimensões de vitalização e desvitalização, de vivo ou morto, podem se estender a toda situação analisante, inclusive ao mundo interno do analista e ao seu encontro com o paciente.


É nesse sentido que fico atenta e inquieta diante das sensações despertadas em mim por algo que Antígona comunica, quando parece estar presente (ou ausente?) como refém, quando preciso cuidar sob determinada forma de vigília, tanto junto a ela como junto aos outros pacientes - dimensionando o quanto da sombra da pandemia abateu-se sobre o eu.


O analista em tempos de pandemia: como manter sua função vitalizadora?


A utopia está lá no horizonte.

Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.

Caminhos dez passos e o horizonte corre dez passos.

Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.

Para que serve a utopia? Serve para isto:

para que eu não deixe de caminhar.


Eduardo Galeano, "Ventana sobre la utopia", 1994, p. 310, tradução nossa.


Para Winnicott (1990), a marca mais específica da natureza humana é a temporalidade: "O ser humano é uma amostra-no-tempo da natureza humana" (p. 29). Desde os primórdios, há uma familiaridade com o tempo: o que fomos/o que aconteceu, o que somos/o que está acontecendo, o que seremos/o que irá acontecer. Ser e acontecimento estão entrelaçados. Mas, como já vimos, o trauma congela o tempo, e o sujeito perde sua marca de humanidade na medida em que perde a historicidade: deixa de ter passado e, principalmente, de ter futuro, vivendo num eterno presente. O sonhar permite que nos preparemos e nos projetemos para o futuro, condição para o devir. Mas se o sonhar fica obstruído pelas condições traumáticas - individuais ou coletivas - esperança e futuro, os quais se conduzem em comunhão, esfumaçam-se em espaços existenciais de vazio (terrorífico) e paralisia.


O analista é alguém que convida para o futuro. Pois tudo começa pelo futuro, futuro este que convoca nossa presença na vida. O mais fundamental na função analítica é ser testemunha da possibilidade de um futuro, ainda que incerto, se disponibilizando como portador da esperança. Em tempos de pandemia, não há como prometer o futuro com previsão, nem individual, nem coletivo. Entretanto, o futuro estará aberto ao oferecermos nossa presença no caminhar com o paciente, compartilhando da comunidade de destino e de desamparo e da experiência de sonharmos conjuntamente.


O futuro é a abertura para o infinito, para o incomensurável das potencialidades, do que está por vir. A marca da saúde é viver no inédito: no que ainda não aconteceu. A função analítica passa por temporalizar o paciente, pois tudo está "achatado" em uma condição estéril de bidimensionalidade. O analista, com o seu rosto voltado para o futuro, trabalha conjuntamente com o paciente na recuperação de sua tridimensionalidade.


Na perspectiva de como atuar numa direção vitalizadora, de abertura de futuros junto aos pacientes na pandemia - particularmente junto a Antígona -, Bollas (1992) afirma: "Ajudar um paciente a transformar o fado em destino e entrar de posse dos futuros pode ser uma parte essencial do trabalho analítico" (p. 59).


As noções de fado e destino nos são importantes porque nos remetem ao que está paralisado em contrapartida ao que se desdobra em movimento, novidade e elaboração do que Bollas define como self pessoal. Temos como função auxiliar o pensamento do porvir sem a rigidez dos desígnios e, em meio à pandemia, abrir clareiras de futuros, pequenas que sejam, na tentativa de descongelar o tempo enrijecido.


Originalmente, fado e destino não se distinguiam, quando então, no século XVII, o destino ganha um significado mais positivo, relacionado ao potencial na vida de alguém: uma pessoa pode realizar seu próprio destino se é determinada, se é agressiva o suficiente. Segundo Bollas, a ideia de fado, que deriva do latim fatum, ligado ao oráculo e profecia, relaciona-se à cultura agrária, quando as pessoas dependiam de elementos externos a elas, das estações e do tempo. Destino, por sua vez, deriva do latim destinare, que significa segurar, tornar firme, estando mais relacionado às ações do que às palavras (Bollas, 1992, p. 47).


Quando recebemos uma pessoa adoecida, com sintomas limitantes e sofrimentos de toda ordem, podemos dizer que ela está fadada. A isso soma-se o futuro agora na pandemia, que tem o potencial de nos privar de perspectivas, de caminhos para além do labirinto: o fatídico nos ameaçando individual e coletivamente. Mas, na medida em que Bollas nos adverte que, lado a lado com o fado, encontra-se um destino, algo mais próximo do movimento para o futuro por meio do uso do objeto (a transferência), acenam-se no horizonte possibilidades de esperanças.


No fado, domina a sensação de uma pessoa que não se apropriou de seu self verdadeiro, que não foi encontrado e, portanto, não pode ser transformado em experiência. É importante destacar que a pessoa fadada não vivenciou a realidade como favorável, daí não podendo realizar seu idioma.


Podemos pensar, nestes tempos de catástrofe e cólera, que tal realidade traumatizante impossibilita movimento e futuros, o presente sem porvir, os repertórios anímicos restritos a adoecimentos aprisionantes. Calejados por experiências fatídicas, estas definidas assim por sua imprevisibilidade, corremos o risco de uma imobilização capaz de roubar os futuros e o vir a ser do indivíduo e da comunidade. A consequência é a restrição da liberdade inconsciente e da criatividade psíquica. Não à toa, assistimos a movimentos culturais - artes de todos os tipos - como vetores lançados na tentativa de nos libertar das algemas que nos aprisionam ao pensamento atormentador e restritivo da iminência do desastre.


Referindo-se à pessoa aprisionada a um oráculo fatídico, Nettleton (2018) afirma:


Ela [a pessoa] se sente impotente para influenciar sua própria vida; aprisionada pelos ecos opressivos do passado, o futuro lhe parece desprovido de esperança. O trauma inicial e, em particular, a perda do objeto primário podem impactar não só no uso futuro desse objeto, mas também, crucialmente, nas articulações do self em evolução. Isso traz um luto inconsciente pela perda de selves potenciais. (p. 46)

Remetemo-nos ao fado atingindo o indivíduo porque, na medida biografia do em que o futuro pandêmico nos assombra com névoas fatídicas, corremos o risco de que se entrelace o não futuro na indivíduo com as ameaças aprisionantes que vivenciamos enquanto coletividade. Eis o caso de Antígona, quando se vê enlaçada em redes de imobilidade e desesperança, atingida tanto pelos desencontros e perdas dos objetos primários quanto pelo desânimo por um cotidiano ativo, porém esvaziado de alma frente às impossibilidades impostas pela pandemia.


Continuemos com Bollas (1992) para maior compreensão do sentido do "fado":


A pessoa que se sente fadada pode imaginar futuros que carreguem o peso do desespero. Ao invés de sentirem a energia da pulsão de destino e de "possuir" futuros que a nutrem no presente e que servem criativamente para explorar caminhos para um percurso em potencial (através do uso objetal), a pessoa fadada projeta somente o oracular. Um olhar de relance de futuro, uma visão do fado, faz ecoar somente a voz da mãe, do pai ou do contexto sócio-cultural que oprime o self. Não há então, nenhum desejo de evocar futuros, uma vez que a pessoa não deseja evocar memórias dolorosas. Na verdade, podemos falar de repressão de futuros, da mesma maneira que falamos da repressão das memórias. Se eles contêm sofrimento demais, os futuros são tão sujeitos a serem reprimidos quanto as memórias dolorosas. (p. 58)

Em contraposição, retomemos a noção de destino, este que tem sentido de trajetória na vida de um indivíduo para a realização de seu potencial único, de seu idioma pessoal. Ampliemos a noção de destino relacionando-o ao que nos promete de progressão e trajetória: ao descongelamento do tempo morto próprio do tempo pandêmico. A função vitalizadora do analista se apresenta, assim, no resgate do paciente de sua imersão no fatídico, um trabalho na contramão das condições desalentadoras da pessoa fadada a que se refere Bollas na citação anterior.


Escutando as memórias, abrir caminho para o "levantar" da repressão dos futuros; não há como oferecermos garantia, mas sim nossa "companhia viva" de modo tal a convidar ao imaginar de futuros "sem o peso do desespero". A função vitalizadora do analista pode se dar no sentido de resgatar o paciente das vozes passadas dos objetos primários que se vinculam (como no caso de Antígona) ao silêncio de desertos sem oásis, ou de distantes oásis - precisamos cuidar para que as dores pessoais do paciente não se colem de modo indissolúvel à situação coletiva que anuncia desamparo e tragédias. São esses os casos em que predominam condições psíquicas de porosidade extrema, em que não há fronteiras entre o eu e o outro, entre o interno e o externo. Pode mesmo ser o drama pessoal de Antígona, que se abre de modo radical às feridas alheias, em vigília junto ao leito do adoecido, esquecendo de si. Até onde ir quando se ouvem chamados agoniados? Como manter fronteiras capazes de mobilidade: portas e janelas que ora se abram e que ora se fechem? Uma posição absoluta - de modo geral, o absoluto é sempre aprisionante: presente morto ou passado que só chama para o lembrar-se, sem espaço libertário para o esquecimento.


Portanto, a função vitalizadora do analista poderá se apresentar por meio do convite aos futuros e ao resgate - por que não? - da utopia, entendendo por utopia, com Figueiredo (2003), que esta:


será encarada como uma tendência básica à antecipação, uma abertura e uma disponibilidade para o futuro independentemente de qualquer projeto político social determinado, embora, sem dúvida, comportando a esperança de uma vida melhor. Embora o futuro esteja aí implicado, não se trata de uma vivência ou fantasia de tempo futuro, mas de uma abertura para ele, sobre a qual uma vivência temporal pode de fato se assentar, contudo, sem a ela se confundir. (p. 160)

Em meio a mortes, entre o humano e o não humano, apostar nos futuros e na transformação de fado em destino. Afinal, como diz a canção, "para sempre, é sempre por um triz" (Holanda & Lobo, 1983).


Notas


1 Originalmente publicado no Jornal de Psicanálise, v. 1. p. 201-217, 2022.


Referências


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