A "conversa" analítica: as palavras são as pessoas que as pronunciam
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Escrito por Marina F. R. Ribeiro e publicado no Boletim Formação em Psicanálise (São Paulo), v. X, n.X, p. 104-110, 2003.
Resumo: A "conversa" analítica, como diz Donald Meltzer, é a mais interessante que dois seres humanos poderiam ter. É a técnica psicanalítica que torna tal conversa tão especifica e surpreendente. A "conversa" analítica pode ser compreendida como um derivado narrativo - conceito de Antonino Ferro - da sessão. Por meio dessa complexa "conversa" o analisando pode apreender qualidades psíquicas, e construir ou ampliar um continente psíquico próprio.
É comum pessoas que nunca estiveram em um processo psicanalítico perguntarem: - O que faz um analista? Ele apenas conversa? Como isso pode ajudar? São somente palavras? Se olharmos por uma perspectiva leiga, a análise realmente é uma conversa, muito diferente daquela que as pessoas costumam travar no seu cotidiano.
Donald Meltzer comenta que a análise é a conversa mais interessante que dois seres humanos poderiam ter. É pela técnica psicanalítica que tal conversa torna-se tão interessante e específica. Tendo em vista a referência do senso comum - conversar com alguém - podemos pensar que ao conversamos com alguém, estabelecemos uma relação que pode variar de intensidade e importância.
Um "bom dia" simpático e sorridente pode causar a sensação de acolhimento e bem estar, diferentemente de um "bom dia" formal e frio. As palavras são as mesmas, mas que diferença! Essa diferença tem um efeito mais superficial ou mais profundo dependendo do grau de importância daquela relação para nós.
Estamos descrevendo relações que ocorrem interpsíquicamente. O intra e o interpsíquico, porém, estão sempre relacionados. As palavras pronunciadas, além de transmitirem um significado comum - todas as pessoas que falam e entendem a língua portuguesa sabem o que significa "bom dia", também expressam como está se dando aquele encontro. O tom da voz, a expressão facial, a presença ou ausência de um sorriso. "( ... ) a fala, até a idade adulta, continua a atuar nos dois registros: o linguístico, da língua como código regulador da ordem e do uso dos significantes; e o prélinguístico, da expressão corporal que sustenta essa fala e da entonação que a modula" (Anzieu, 1997, p. 10).
A palavra parece ser uma complexa construção da mente humana que acontece ao longo do desenvolvimento. No início da vida, são nuances de sensações cinestésicas provocadas por sons e por outros estímulos ambientais. Isso é um processo que acontece a partir da ausência de forma a forma, que nos primeiros meses de vida se inaugura dentro de um contexto civilizatório marcado pela palavra.
Da ausência de forma a forma, a palavra que emerge
No início é o caos. Aos poucos, pontos dentro desse caos vão aparecendo. Esses pontos agrupam-se em linhas e as linhas formam figuras. O ponto é o primeiro reconhecimento de presença no bebê. Gradativamente, vão sendo armazenados. A linha é o movimento do ponto. A experiência emocional vai sendo contida pela mente do bebê por meio de pontos e linhas.
"O ponto não possui dimensão: contém, entretanto, a potencialidade de todas as dimensões. Uma síntese - ou um símbolo - podendo se concretizar de vários modos, o ponto corresponde, na geometria, ao zero na matemática. A linha, como manifestação do ponto, equivale ao número como manifestação do zero" (Lino da Silva, 1988, p.89)".
As linhas formam figuras. Quando uma figura se destaca do fundo, temos um fato selecionado integrando um mundo inicialmente disperso. Tal fato dá sentido a uma situação primeiramente caótica. É preciso tolerar a frustração, o não sentido de fatos dispersos, para que, aos poucos, surja o fato selecionado que pode dar sentido à desorganização.
A mãe "suficientemente boa" pode tolerar a desorganização de seu bebê: ela sustenta essa desorganização dentro de si. A integração somente ocorre a partir do encontro com outra mente - a materna - capaz de tolerar o caos inicial em que se encontra o bebê. Trata-se da capacidade de rêverie da mãe, a qual permite-lhe tolerar o caos, e, muitas vezes, o terror do bebê. Rêverie é a capacidade da mente da mãe em conter a desorganização da mente do bebê e, por meio desse continente, substituir elementos beta por elementos alfa. Ou seja: a mente da mãe exercendo a função alfa em relação aos contidos, elementos beta, da mente do bebê.
É necessária uma mente externa - mãe - que contenha os primeiros elementos beta, projetados via identificação projetiva. Por meio da experiência de ser contido por uma outra mente, a capacidade de ser continente aos seus próprios contidos vai sendo construída na mente do bebê. Esses primeiros elementos alfa constituem a matéria prima dos pensamentos. Como aponta Lino da Silva (1988), os elementos beta e alfa são como átomos, não podemos percebê-los. Percebemos apenas os derivados dos elementos alfa.
Processo semelhante pode ocorrer na sessão de análise. É preciso que o analista tolere mergulhar no inconsciente do analisando e no seu próprio inconsciente, para que surja deste mergulho um fato selecionado que dá sentido aos registros inicialmente dispersos. Precisamos tolerar a ausência de forma do início de uma sessão, transitando continuamente da ausência de forma a forma. Em outras palavras, da posição esquizo-paranóide à depressiva. É nessa infinita transição que a mente se estrutura, num trabalho contínuo que cessa apenas com a morte.
No psiquismo, o sentido se fixa apenas momentaneamente. Estamos sempre nos desenvolvendo, ou deveríamos estar, já que a paralisação dessa complexa engrenagem, mesmo que parcial, é a patologia: "... de modo que a vida mental se mostra um contínuo esforço de re-criação ..." (Lino da Silva, 1988, p.11 ).
A palavra pode ser conquista de uma mente funcionando em um nível muito complexo. Palavras fluidas e errantes são frutos de uma mente capaz de transitar com sucesso nas turbulentas águas EP<->D, em um mundo onde predominam símbolos. As palavras podem ser obstáculos quando perdem sua característica de errância, fixam-se e impossibilitam o pensamento.
O analista navega com sua atenção flutuante nas palavras de seu analisando. Elas evocam imagens, tentam nomeá-las. Imagens e palavras podem surgir concomitante na mente do analista. As palavras são aproximações infinitas e errantes da experiência emocional.
No encontro com seu analisando, o analista oferece sua presença e suas palavras, que são externalizações da sua própria pessoa - as palavras são as pessoas que as pronunciam. As palavras do analista e a tonalidade emocional com que são pronunciadas ecoam no analisando, ampliando a capacidade de pensar sua vida emocional. Nomear o contexto emocional presente na mente do analisando, dar nomes ao colorido emocional do encontro com o analista são, penso eu, a estrutura de um encontro analítico. O nome pode ser uma palavra, mas também pode ser uma expressão facial ou corporal do analista. Pode ser a musicalidade da sua voz.
A sessão analítica e seus derivados
O setting analítico oferece um lugar para que a "conversa" analítica seja tão interessante. Proporciona ao analista um campo privilegiado de observação dos derivados da função alfa, tanto de si próprio como do analisando.
Retomando as idéias já expressas, não podemos perceber o elemento alfa diretamente, mas apenas através de seus derivados.
"O elemento alfa não pode ser captado diretamente durante a vigília, a não ser através dos fenômenos de rêverie e de 'flash onírico'"(Ferro, 1996).
O elemento alfa é a maneira através da qual é pictografada, em tempo real, toda experiência senso-êxtero-proprioceptiva. Cada pictograma emotivosensorial é então colocado em sequência com outros elementos alfa. A seqüência dos elementos alfa é incognoscível, a não ser através do derivado narrativo.
Antonino Ferro nomeia de derivado narrativo a fala do analisando na sessão, mas, também, podemos encontrar outros derivados dos elementos alfa na sessão, tais como: o lúdico (o brincar da criança na sessão); o gráfico (um desenho feito na sessão); o sensorial (tosse, vontade de ir ao banheiro, dor em alguma parte do corpo, etc.); o motor (o analisando sai da sala inesperadamente, cai do divã, chuta a parede, etc.); e o onírico (o sonho relatado na sessão). Porém, o derivado narrativo - a fala do analisando - é o que predominantemente encontramos na análise de adultos, é a "conversa" analítica.
Na fala do analisando, também podemos encontrar um relato de um sonho, ou o analista pode ouvir uma sessão como se essa fosse um relato de sonho. O analista também pode "sonhar" o relato narrativo de seu analisando. Capacidade de sonhar que é a capacidade de rêverie do analista para se oferecer como continente.
A palavra e o sonho
Elia Sharpe (1937) faz analogias entre o sonho, seus mecanismos e a construção poética: "As leis do fraseado poético, desenvolvidas pelos críticos a partir da grande poesia, e as leis de formação onírica, tal como descobertas por Freud, originam-se das mesmas fontes inconscientes e possuem muitos mecanismos em comum... a missão do poeta é comunicar experiência. O seu veículo de comunicação básico é o som e, unido a este, o poder de evocar a imagística..." um poema apela para o ouvido e a vista e torna-se uma tela animada.
Quase sessenta anos depois, a descrição que Ferro (1996) faz dos derivados do elemento alfa, indica uma fonte comum: o funcionamento da mente humana. Ambos, a palavra narrada e o sonho, são derivados dos elementos alfa. É interessante a descrição de Sharpe (1937): a missão do poeta é comunicar uma experiência. Se compararmos com a descrição de Ferro (1996), o elemento alfa é a maneira pela qual é pictografada - pictograma emotivo/sensorial - a experiência senso-êxtero-proprioceptivo, ficamos com a impressão de que os autores estão descrevendo processos semelhantes com recursos teóricos disponíveis dentro da contemporaneidade de cada um.
As palavras evocam imagens, as palavras buscam descrever imagens oníricas. As palavras narradas enriquecem de significados a mente sempre sedenta de sentido.
A Psicanálise sempre esteve ligada às manifestações artísticas. Podemos dizer que tais manifestações são derivados do elemento alfa no mundo. Ao apreciarmos uma obra de arte, essa pode provocar sentimentos, nomeá-los, organizar uma cena psíquica interna de forma jamais imaginada como possível. A palavra narrada também pode ter esse efeito. É uma palavra enraizada, corporificada, no calor de um encontro humano, no calor de uma "conversa" analítica. Por meio dessa complexa "conversa", o analisando apreende qualidades psíquicas, e pode, a partir de tal apreensão, construir um continente psíquico próprio ou ampliá-lo.
O analista pode "sonhar" as palavras de seu analisando.
E afinal, são somente palavras...
Abstract: The most interesting talk two human beings could have is the analytic one. lt is the psychoanalytic tecnique that makes the analytic talk so specific and interesting. The analytic talk is the narrating derivative of the psychoanalytic session. Through this complex talk, the individual being analys~d apprehends psychical qualities and builds his own psychical continent. Palavras-chave: Conversa, palavra, fala, análise, derivado narrativo.
Key-words: Word, talk, speech, psychoanalytic session, narrating derivative.
Bibliografia
ANZIEU, D. Para uma psicolinguística psicanalítica. Breve balanço e questões preliminares. ln: Psicanálise e linguagem - do corpo à fala, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.
FERRO, A. Antonino Ferro em São Paulo. Seminários. Org. Maria Oympia de A. F. França e Marta Petricciani, Acervo Psicanalítico, SBPSP, 1996.
LINO da SILVA, M. E. Pensando o Pensar com W.R. Bion. São Paulo, MG Editores, 1988.
MELTZER, D. Meltzer em São Paulo. Seminários Clínicos. Org. Maria Oympia de A. F. França e Evelise de Souza Marra, Acervo Psicanalítico, SBPSP, 1996.
MELTZER, D. & WILLIAMS, M. H. (1988) A apreensão do belo. Trad. Paulo Cesar Sandler, Rio de Janeiro, Imago, 1995.
SHARPE, E. F. (1937) Análise dos Sonhos: Um Manual Prático para Psicanalistas. Trad. Christiano Monteiro Oiticica, Rio de Janeiro, Imago, 1971.



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