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O tempo atual de David Zimerman e Idete Zimerman Bizzi - Prefácio à 2ª edição

  • há 2 dias
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Prefácio escrito por Marina F. R. Ribeiro para a 2ª edição do livro Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica e Clínica - Abordagem Didática publicado em 2026 pela Artmed.



O que é verdadeiramente atual é aquilo que não se desgasta com o tempo; ao contrário, adquire maior relevância à medida que os anos passam. Nesse sentido, o livro de David E. Zimerman e Idete Zimerman Bizzi configura-se como uma obra de referência, continuamente pertinente para psicanalistas em diferentes etapas de sua trajetória profissional.


A prática clínica psicanalítica exige uma formação constante, na qual se espera do analista ou psicoterapeuta uma expansão contínua de sua função psicanalítica da personalidade [1]. Esse processo implica, entre outros fatores, o estudo sistemático e articulado das diversas teorias que sustentam o pensamento psicanalítico.


Freud (1926/2014) afirmou, há mais de um século, algo que permanece surpreendentemente atual: o tripé fundamental da formação analítica é constituído pela análise pessoal do analista, pela supervisão clínica e pelo estudo teórico. Compreendo que a teoria do psicanalista integra tanto seu repertório consciente quanto seu acervo inconsciente, devendo estar plenamente incorporada - e, em certo sentido, "esquecida" - para que possa operar de modo vivo na clínica. Tal incorporação assemelha-se aos exercicios técnicos de um artista, seja ele músico, pintor, dançarino ou de qualquer outra expressão estética. Um improvisador de jazz, por exemplo, precisa dominar múltiplas técnicas para que, no instante criativo de um arranjo inédito, todo o seu repertório incorporado por anos de prática possa emergir de modo espontâneo. Como observa Clarice Lispector (2020), para ser simples é necessário um árduo trabalho: a leveza de uma bailarina é, em verdade, o resultado de uma intensa força muscular construída pela repetição sistemática de exercícios técnicos. O estudo teórico é a academia do psicanalista.


Os autores seminais da psicanálise tornam-se, ao longo do tempo, objetos internos no acervo inconsciente que cada analista constitui em sua formação e em sua prática clínica contínuas. São presenças que modulam uma sensibilidade clínica única, aquela que permite ao psicanalista a apreensão da realidade psíquica do paciente a cada sessão. Green (1987/2017) escreve que cada analista tem um mito de referência - uma montagem pessoal tecida por múltiplos encontros e influências - a partir do qual organiza sua apreensão dos fenômenos psíquicos na clínica.


O psicanalista é, sobretudo, aquele que está continuamente se tornando analista (Chuster 2024; Ogden, 2005/2013). Esse movimento incessante de vir-a-ser é o que o habilita, no cotidiano da clínica, à apreensão do psíquico. O estudo da teoria psicanalítica, assim como a experiência da análise pessoal, é uma sonda que expande o campo que investiga (Bion, 1970/2014); a psicanálise, nesse sentido, é uma obra aberta, sempre em transformação, que se recria à medida que é pensada e praticada.


Encontrei, no texto de Chuster (2024), um parágrafo que deu forma ao meu pensamento sobre a realidade psíquica:


[..] a nossa frágil organização mental é pouco mais que um instrumento rudimenta para navegar através dos mistérios infinitos desse caleidoscópio, repleto de simetrias, inundado de contrastes entre luz e sombras em que, perplexos, nos coube existir e que chamamos de mundo mental (p. 193).

Os conceitos, como diz Ogden (2024), são metáforas que sustentam o pensamento analítico do psicanalista em seu contínuo tornar-se. Os textos seminais da psicanálise não apenas nos fazem pensar, mas também nos sensibilizam, ampliando em nós a capacidade de observar e acolher os elementos psíquicos que emergem na experiência clínica.


O texto de David E. Zimerman e Idete Zimerman Bizzi é uma verdadeira referência de sofisticação na simplicidade: uma escrita clara, precisa e fluida, capaz de apresentar uma impressionante densidade de informações de maneira metabolizada, fruto de sua notável capacidade de síntese e compreensão. Trata-se de uma obra que acolhe igualmente o leitor iniciante e o profissional experiente, servindo como guia seguro no oceano, por vezes turbulento, das teorias psicanalíticas clássicas às contemporâneas.


Prefaciar este livro é, para mim, uma honra especial. Ele ocupa há anos um lugar cativo em minha estante e tem sido continuamente consultado como fonte de referência e bússola conceitual ao longo da minha trajetória como psicanalista-pesquisadora-orientadora. Recordo as palavras de Thomas Ogden (2013), quando escreve sobre "o que eu não abriria mão", referindo-se aos valores que sustentam o trabalho analítico. Tomando de empréstimo sua expressão, esta obra é uma daquelas de que não abro mão, e que me acompanhou ao longo dos anos de prática e estudo.


Considero que, mesmo quando a teoria parece ausente do pensamento consciente do analista - como de fato deve estar durante o exercício clínico -, ela permanece como matriz psíquica, um campo de sentido, um continente metaforizante que sustenta o pensamento analítico. As teorias refinam a capacidade de observação do psicanalista, funcionando como um diapasão que precisa ser afinado ao longo dos atendimentos e das experiências emocionais vividas diante do sofrimento psíquico. O estudo teórico tem, assim, uma função de aperfeiçamento e expansão do instrumento des trabalho do analista - sua própria mente -, permitindo-lhe reconstituir o tom, a afinação, a precisāo de sua escuta. Trata-se de um exercicio de elaboração conceitual, um treino de hipóteses que prepara o analista para o trabalho clínico, apurando sua sensibilidade para a apreensão dos fenômenos psíquicos [2].


A teoria pode, portanto, exercer uma função de continência para o analista, auxiliando-o a metabolizar as turbulências emocionais inerentes ao trabalho clínico e oferecendo um campo de pensamento que acolhe e transforma as experiências vividas. O estudo teórico, comosistematização e formalização de ideias, converte-se em um espaço de simbolização e elaboração ara o próprio psicanalista, favorecendo o encontro de sentido diante das múltiplas expressões do sofrimento humano.


Na direção da formalização de novas ideias, Idete Zimerman Bizzi propõe uma releitura original das principais concepções de contratransferência desenvolvidas pelos autores de referência, destacando, em cada um deles, o modo como concebem o lugar da subjetividade do analista. nesse enquadre que a autora introduz a noção de subjetividade primária do analista, pensada como uma dimensão subjetiva singular, dotada de traços próprios que não coincidem com os đo paciente e que preservam certa autonomia ante eles. Embora relacionada ao campo da contratransferência, essa noção é tratada como conceito distinto, com estatuto teórico próprio.


A argumentação acompanha a trajetória histórica do movimento psicanalítico, percorrendo os textos de Freud, Ferenczi, Racker, Heimann, Little, dos Barangers e de Bion, e ampliando o debate a partir do fenômeno terciário tal como formulado por Green e Ogden. Nesse percurso, Bizzi chama atenção para nuanças conceituais e diferenças metapsicológicas frequentemente apagadas pela transmissão intergeracional da psicanálise - e cuja recuperação é decisiva para refinarmos a compreensão do trabalho clínico e para as expansőes conceituais na psicanálise.


A noção de subjetividade primária é apresentada como um componente estruturante da dupla analítica: ela emerge da matriz psíquica do analista, ao mesmo tempo que a reconfigura de modo contínuo, participando ativamente da constituição do terceiro analítico. Seus atributos fundamentais - singularidade e alteridade - situam esse constructo no ponto de interseção entre processos intrapsíquicos e dinâmicas intersubjetivas, estas últimas articuladas às modalidades de contratransferência criativa, estrangeira e viciosa.


Ao formular essa proposta, Bizzi inaugura uma linha de investigação especifica sobre a subjetividade do analista e fornece bases consistentes para desenvolvimentos teóricos subsequentes. Trata-se de uma contribuição particularmente original no contexto deste livro, marcada também pelas formas próprias de transmissão da psicanálise - neste caso, a especificidade da transmissão intergeracional que se dá de pai para filha.


Não tive, como Idete, o privilégio de conviver pessoalmente com David E. Zimerman. No entanto, tanto por sua obra quanto pelo testemunho de colegas que dele estiveram próximos, reconheço a centralidade de sua preocupação com a transmissão da psicanálise e com a formação das novas gerações - preocupação essa que também compartilho profundamente.


Em minha prática docente, lecionando no 2º ano da graduação em Psicologia na Universidade de São Paulo (USP), apresento aos alunos o pensamento de Melanie Klein e de Wilfred Bion. Costumo brincar dizendo que "a minha Klein é bioniana", pois a leio a partir das expansões conceituais promovidas por Bion e pela leitura criativa que Thomas Ogden faz de sua obra. Nessa prática, busco fazer com os textos clássicos o que David realiza em seu livro: apresentar ao leitor a expansão entre as concepções fundadoras da psicanálise e as formulações mais recentes, permitindo que cada geração encontre nelas uma forma de ampliar sua função psicanalítica da personalidade, necessária ao exercício clínico.


A entusiástica recepção dos alunos a esse modo de apresentar o pensamento psicanalítico renova, ano após ano, o meu interesse e sustenta minha dedicação à docência. Constato, na Introdução desta obra, que foi igualmente o interesse de alunos que motivou David a empreender este trabalho tão cuidadoso - certamente fruto de inúmeras horas de dedicação. Percebe-se, ao longo do livro, a paixão pela psicanálise que atravessa sua produção, testemunho de uma vida dedicada à sua prática e transmissão.


A presente edição, cuidadosamente revisada e atualizada por Idete Zimerman Bizzi, enriquece ainda mais o que já se consolidou como um compêndio de referência para estudantes, candidatos em formação e psicanalistas em exercício. Destaco, ainda, o rigor ético e conceitual de David, sempre atento a explicitar as fontes teóricas e a assinalar quando suas formulações são autorais - uma contribuição valiosa para o necessário rigor conceitual das pesquisas psicanalíticas.


David Zimerman sublinha o pluralismo e a diversidade de vértices que compõem o campo psicanalítico, convocando-nos a um estudo que não se restrinja a exclusões doutrinárias. Esse posicionamento, que poderia ter sido visto como ousado no início dos anos 2000, resiste ao risco de um ecletismo superficial ou de uma "babelização", como ele próprio escreve, e afirma sua visão da complexidade do campo psicanalítico.


Christopher Bollas (1987/2013) recomenda que os analistas em formação se exponham a múltiplas teorias, pois cada uma delas desperta uma forma particular de sensibilidade clinica. É o mesmo conselho que ofereço aos meus alunos: leiam os textos originais e, também, os comentadores; observem que experiência se produz a partir da leitura. Em última instância, é esse efeito - a transformação subjetiva que os textos provocam - que contribui para a expansão da função psicanalítica da personalidade, conceito introduzido por Bion e, também, referido por David [3].


Essa função diz respeito à capacidade de transformar experiências emocionais ainda brutas em elementos passíveis de representação e simbolização, dando forma e sentido ao que inicialmente é vivido como informe. David lembra que a análise é uma via privilegiada para a obtenção e a ampliação dessa função, tanto no analisando quanto no próprio analista. O estudo teórico, sob essa perspectiva, é um exercício que potencializa e expande a função psicanalítica da personalidade do clínico, tornando-o mais apto a acolher e transformar a dor informe e sem representação em sofrimento psíquico, encontrando um sentido e, dessa forma, podendo ser transformado


Por fim, os autores reconhecem no método psicanalitico o denominador comum capaz de integrar a multiplicidade de expressões que designam a prática analítica. Essa é, afinal, a grande invenção freudiana: ter colocado duas pessoas em uma situação inédita na história (Ogden, 2005/2013). O método analitico favorece a observação refinada dos fenômenos psíquicos e promove a expansão da função psicanalítica da personalidade; uma função humana e que realiza o humano em nós: seres psíquicos em constante transformação.


Uma grande honra prefaciar esta nova edição, atualizada e revisada, do livro de David E. Zimerman - agora enriquecida pela parceria com Idete. Que novas gerações de psicanalistas possam encontrar nestas páginas não apenas conceitos e instrumentos clínicos, mas também a vitalidade de uma profissão que Freud (1925/201 1) chamou de impossível, e que, no entanto, redescobrimos como possível a cada sessão, na singularidade do encontro com nossos pacientes.


Que este livro seja um convite para continuar essa obra sempre inacabada que Freud denomínou psicanálise.


Marina F. R. Ribeiro

Professora Livre-docente do Instituto de Psicologia da USF São Paulo, novembro de 2025


Notas


[1] A função psicanalitica da personalidade é um termo que está na obra de Bion (1962). De forma sucinta, trata-se de uma função metabolizadora da experiência emocional bruta em elementos psiquicos. Para o leitor interessado, remeto ao livro Conversa sonhante: a função psicanalltica da personalidade (Ribeiro, 2025).


[2] Algumas dessas ideias também estão presentes no livro referido na primeira nota.


[3] David E. Zimerman teve um interesse especial pela obra de Bion, um ponto de identificação entre nós. Conheci Idete na organização do livro Por que Ogden (publicado pela editora Zagodoni, em 2023), outra significativa afinidade.


Referências


Bion, W. R.(2014). Attention and interpretation: a scientific approach to insight in psychoanalysis and groups. In W. R Bion, The complete works of W. R. Bion (Vol. 6, pp. 211-330). Karnac. (Obra original publicada em 1970).


Bollas, C. (2013). 0 momento freudiano. Roca. (Obra original publicada em 1987).


Chuster, A. (2024). Linguagem de alcance psicanalitico: a diferença transcendental em W. R. Bion. Blucher.


Freud, S. (2011). Prefácio a juventude desorientada, de August Aichhorn. In S. Freud, Obras completas (Vol. 16, pp. 325- 326). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1925)


Freud, S. (2014). A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial. In S. Freud, Obras completas (Vol. 17, pp. 124-217). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1926).


Green, A. (2017). A loucura privada: psicanálise de casos-limite. Escuta. (Obra original publicada em 1987). Lispector, C. (2020). A hora da estrela. Rocco.


Ogden, T. H. (2013). A arte da psicanálise: Sonhar sonhos não sonhados e gritar gritos não ouvidos. Blucher. (Obra original publicada em 2005).


Ogden, T. H. (2024). Rethinking the concepts of the unconscious and analytic time. International Journal of Psychoanalysis, 105(3), 279-291.


Ribeiro, M. F. R. (2025). Conversa sonhante: a função psicanalitica da personalidade. Blucher.

 
 
 

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