Ascensão social e ruptura de contrato narcísico: a escuta na clínica social como lugar de manutenção de existência
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Artigo publicado na Revista Rumos, Anuário de Psicanálise, em setembro de 2019, com a autoria de Taís de Oliveira Nicoletti [1] e Marina Ferreira da Rosa Ribeiro [2].
Este trabalho é parte integrante de uma pesquisa de mestrado [3], cujo tema foi inspirado em diversos atendimentos de pacientes encaminhados pela rede de atendimento do CEP enquanto dela fiz parte, de 2011 a 2017. Esses pacientes têm, em seu passado recente ou no presente, uma trajetória de ascensão social, o que significa, na maioria dos casos clínicos, migração de seus lugares de origens (periferia de São Paulo, outras cidades ou mesmo outros estados), incremento dos ganhos econômicos e, muitas vezes, acesso ao ensino superior e a novos ambientes de trabalho e de convívio social. Um dos sintomas que pudemos observar nesses indivíduos é que eles parecem sofrer com uma sensação de desencaixe social nos novos lugares por onde circulam. Para tentar elucidar esta questão vamos apresentar o conceito de contrato narcísico, cunhado por Piera Aulagnier em “A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado”, 1975/2001 e abordado por René Kaës em “Um singular plural”, de 2007/2011. Este contrato, segundo Aulagnier, é o que garante ao bebê, antes mesmo dele nascer, um espaço no grupo social a que sua família pertence – espaço este onde a criança poderá desfrutar, aos poucos, de uma forma de existência um pouco mais autônoma do que no lugar mais íntimo da família, do casal parental. Mas, como todo contrato, ele prevê uma contrapartida: que no futuro este indivíduo (o bebê) repetirá e reafirmará o modelo sociocultural herdado do grupo assim como o recebeu, sem mudanças. A quebra deste contrato é algo previsto no processo de constituição de todo sujeito, pois é preciso quebrar com diversos elementos originários para que se possa efetivamente criar elementos novos e próprios a cada subjetividade. Porém, os indivíduos que passam pela ascensão social enfrentam um desafio muito maior, pois em geral o contraste entre os velhos e novos elementos pode ser muito grande, gerando angústias e conflitos internos que se traduzem em dificuldades de se relacionar, solidão e sensação de estar sem um lugar de existência, como quem caiu em um limbo existencial. Já não se encaixam em seu lugar e cultura de origem tal como antes o faziam, sem ainda terem se integrado a suas novas realidades no mundo do trabalho e no convívio social. Como resultado, recebemos na clínica esses indivíduos já sofrendo de grande isolamento e solidão. Apostamos então que eles possam, nas suas análises, encontrar um lugar de manutenção da existência (holding, como postulado por Winnicott) onde a integração do passado e do presente pode acontecer em tempo, proporcionando novos lugares simbólicos esses indivíduos.
O tema da ascensão social ganhou espaço em meu pensamento há muito tempo, desde a época em que trabalhava com pesquisa de mercado em propaganda, ainda longe de atuar na psicanálise e na pesquisa acadêmica. Meu trabalho lá também era o de entender comportamentos, e a “ascensão da classe C”, como amplamente noticiada e celebrada pelo mercado, foi um tema chave durante a primeira década deste século em que vivemos. Isso porque entre 2003 e 2011 houve de fato uma mudança significativa na renda e no poder aquisitivo de grande parte da população brasileira, e a chamada classe C passou a representar 55% das famílias brasileiras, crescendo, em oito anos, dezoito pontos percentuais (PITOL, 2012). Foi fazendo ou assistindo a essas pesquisas que conheci mais profundamente essas pessoas, que se mostravam muito batalhadoras e com uma disposição enorme de fazer valer essa chance de crescimento, dedicando uma enorme parte de seu dia a uma jornada exaustiva de trabalho e estudo.
Vários anos mais tarde, eu já psicanalista e fazendo parte da Rede de Atendimento do CEP, comecei a observar que entre meus pacientes havia vários daqueles indivíduos que realizavam essa travessia sócio-econômica. Porém dessa vez minha posição e olhar eram outros. Então eu pude conhecer uma outra faceta da trajetória, bem diferente da excitação das conquistas e dos projetos de vida – a face tomada por sintomas e sofrimentos. Mas, vejam, nenhum desses pacientes chegou com uma queixa diretamente derivada da ascensão social – a questão social fica em uma espécie de pano de fundo, pois eles trazem também suas questões (narcísicas, edípicas, etc) singulares, que podem estar ou não relacionadas à primeira. Perceber esse sofrimento, escutar essa parte mais obscura relacionada ao movimento de ascensão social foi o ponto de partida para transformar a escuta em minha pesquisa de mestrado. Minha ideia é refazer essa trajetória do ponto de vista metapsicológico, buscando entender o que acontece com o psiquismo desses indivíduos.
Hoje quero falar aqui sobre o aspecto inicial desse caminho, a saída do nosso lugar de origem. Afinal de onde viemos, psiquicamente falando? Sabemos que antes de nascer fomos, na maior parte das vezes, “sonhados” por nossos pais. Mesmo em situações não ideais toda criança é precedida por expectativas, desejos e pensamentos em relação a ela, e não apenas pelos pais. A comunidade onde os pais se inserem tem também um importante papel de garantir um lugar de existência a esse bebê, especialmente quando ele cresce e começa a expandir seus horizontes para além da família nuclear.
O psicanalista de grupo francês René Kaës nos oferece diversas ferramentas teóricas para entendermos o que se passa entre o indivíduo e o ambiente (ou os grupos) a que ele pertence, como nos explica Castanho (2012, p. 41) ao falar da concepção kaesiana de sujeito:
“Tornar-se humano exige sujeitar-se a um grupo humano, e neste processo cria-se um sujeito dividido, tensionado entre ser um fim em si mesmo e um elo em uma cadeia de transmissão psíquica. Toda a estrutura intrapsíquica – com seus processos e formações – pode ser compreendida nesta tensão entre manter a singularidade do sujeito e receber, portar e transmitir uma herança. Em Kaës, o processo de subjetivação nunca cessa, de modo que as relações vinculares mantém um lugar constante de criação de estruturas psíquicas no sujeito...É por tudo isso que Kaës afirmará que o sujeito do inconsciente é o sujeito do vínculo. [...] Só como membro de uma cadeia é que pode se formar um sujeito; só na perpetuação dessa relação na tensão e na divisão interna por ela instaurada é que o sujeito se sustenta.”
Entre os conceitos kaesianos que nos interessam está o de “contrato narcísico”, que ele empresta de Piera Aulagnier (em “A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado”, 1975/2001) para alocar e posicionar o lugar junto ao que ele denomina “Alianças Inconscientes”. Estas últimas são acordos que firmamos sem saber, de forma inconsciente, e que requerem de nós obrigações e sujeições, em troca de benefícios que prometem satisfações. O Contrato Narcísico, segundo Aulagnier (1975/2001), é o que garante ao bebê, antes mesmo dele nascer, um espaço no grupo social a que sua família pertence – espaço este onde a criança poderá desfrutar, aos poucos, de uma forma de existência um pouco mais autônoma do que no lugar mais íntimo da família, do casal parental. Mas, como todo contrato, ele prevê uma contrapartida: que no futuro este indivíduo (o bebê) repetirá e reafirmará o modelo sócio-cultural herdado do grupo assim como o recebeu, sem mudanças. Esse modelo e suas leis são sustentados pelo grupo, inclusive são o que caracterizam o grupo como tal, funcionando como um suporte para a representação que esses sujeitos (do grupo) dão a si mesmos do grupo ideal e do sujeito ideal do grupo. Porém, nele há também o importante movimento de saída do pacto narcísico inicialmente estabelecido (um meio de realização do desejo dos pais) e uma abertura aos vínculos extrafamiliares, ao que está fora, sempre abrindo o horizonte vincular cada vez mais.
Esta ideia nos ajuda a pensar as questões psíquicas que se formam em torno de uma certa fidelidade às identificações, crenças e valores do ambiente de origem daqueles que passam pela ascensão social, e os obstáculos emocionais significativos a serem enfrentados na quebra desta fidelidade absoluta em nome do desenvolvimento de uma substância própria, construída com base em elementos exógenos ao grupo social original. Nas palavras de Kaës, “é preciso também que o Eu se liberte das formações estruturantes e alienantes do grupo para assumir-se como herdeiro de sua história tecida na intersubjetividade” (KAËS, 2007/2011, pg. 28). Ele está falando aqui do objetivo da psicanálise, que deveria possibilitar justamente o desenvolvimento de um indivíduo capaz de integrar aspectos de sua herança com novos valores e crenças adquiridos fora do ambiente onde nasceu e foi criado. Este é o desafio de todos os indivíduos, mas que pode se tornar especialmente difícil quando o contraste entre as realidades do mundo de origem e do mundo atual é significativamente forte, como no caso da mobilidade social.
Exemplifico um conflito com contrato narcísico através de um recorte clínico de um paciente da Rede atendido por mim. Fernando (nome fictício), trinta anos, veio para São Paulo há poucos anos. Seu principal objetivo era fazer faculdade – o que não seria possível em sua cidade natal, que é muito pequena e fica no interior de um estado distante daqui. Conta que desde cedo sabia que queria estudar, se formar no ensino superior. Sua família tem origem simples, sempre viveu com muita dificuldade financeira. Em São Paulo sua chegada não foi fácil, mas contou com o apoio de amigos que também haviam emigrado da mesma região que ele. Conseguiu trabalho e logo que pode matriculou-se em uma faculdade particular. Fernando formou-se há poucos meses, e na sua formatura havia uma lacuna significativa: ninguém de sua família veio para a cerimônia – um momento de reconhecimento pessoal e familiar importante; há um distanciamento da sua família de origem. Quando questiono o motivo de sua família não estar presente, ele simplesmente diz que não conseguiu guardar dinheiro, teve imprevistos. Insisto na investigação sobre a relação de Fernando com sua família, ele traz uma fala longa, pausada e bastante doída:
“Eu sempre me senti muito diferente deles. Sempre gostei de ficar sozinho, tinha um quarto só meu e gostava de ficar lá com a porta fechada, lendo. Eles achavam que eu tava deprimido, mas eu tava bem. E tem a coisa da religião. No Facebook minha família fica só postando coisa sobre Deus e religião...tem outras coisas mais legais pra se postar, sei lá, um almoço de família, por exemplo. Ou alguma coisa que eles leram e gostaram...Eu não gosto [do que eles postam], mas não falo nada. Mas eles não gostam que eu seja ateu, de não ligar pra religião. Por exemplo, uma vez teve uma reunião do perdão, ia ser lá em casa, e minha irmã insistia pra eu participar. Eu falei pra ela: mas você perdoou José? Minha irmã tinha brigado com uma pessoa importante da congregação de lá da região...Ela me diz que não perdoou, mas que é porque ele tratou ela mal. Aí eu falei: mas por que vai ter a reunião do perdão se você não vai perdoar? Tá vendo, não faz sentido”.
Fernando nessa sessão nos conta (e se conta) sobre seu contrato narcísico, que parece estar por um fio deixando nele uma tristeza e solidão não-localizadas. Isso não está claro para ele, talvez pelo fato de manter muitas atitudes defensivas com o objetivo de preservar o contrato. Diz que quando vai à sua cidade ainda toma cerveja no bar em frente de casa descalço e sem camisa, como sempre fez, embora em São Paulo não faça isso. Demonstra imenso respeito e valor pelas pessoas simples, mais pobres, que cruzam sua vida aqui em São Paulo.
Na sua trajetória Fernando mudou muito, conquistou muitas coisas que desejava, a maioria relacionadas a trabalho e a intelectualidade. E é nesse ponto que algo lhe escapa, justamente o ponto onde ficava marcada a maior diferença entre ele e sua família: “tinha um quarto só meu e gostava de ficar lá com a porta fechada, lendo”. Mesmo com todo seu esforço de eliminar diferenças entre o Fernando antigo e o atual, é na intelectualidade e na racionalidade que ele falha. Isso aparece quando ele, ainda tentando eliminar diferenças, projeta nos familiares o que é seu, desejando que eles publicassem nas redes sociais “alguma coisa que eles leram e gostaram...”. Ora, eles naturalmente já fazem isso, mas essa “alguma coisa” é de conteúdo religioso, como ele mesmo disse inicialmente, algo que para ele é inconciliável com seu pensamento racional. Ao final todas essas questões ficam claras quando ele relata o desentendimento que teve com sua irmã anos atrás sobre o evento religioso em sua casa, que ele desmerece pela ausência de coerência racional com as práticas dela no dia a dia.
Desse modo, Fernando coloca-se em uma posição muito difícil, arriscada do ponto de vista emocional. A família não vem à sua formatura. Mas ele também não se sente apropriado de sua nova vida em São Paulo. E esse último sentimento está diretamente relacionado ao dinheiro: em vários momentos Fernando comenta que não teria roupa adequada para sair com pessoas de seu convívio que parecem ter um nível social mais alto. Ele também fica extremamente irritado quando amigos dizem que é “carente, como se eu fosse um pobre coitado”. Embora os amigos tenham usado a palavra “carente” para se referir ao seu estado emocional (o fato de estar há muito tempo sozinho), não podemos deixar de observar o segundo sentido que ela porta (o financeiro), que Fernando inconscientemente ratifica ao usar, ele mesmo, outra expressão contendo o mesmo duplo significado.
Existe um movimento que se repete, mudando apenas alguns elementos: Fernando hoje não se sente confortável nem em São Paulo, onde se sente pobre, nem em sua cidade, onde é lembrado de sua origem religiosa-irracional, o que o deixa com uma sensação de não saber de fato quem ele é.
Nesse sentido é de extrema importância o trabalho que desenvolvem instituições como o CEP ao oferecer atendimento acessível a todos. Para sujeitos da ascensão social como Fernando, o lugar da análise é aquele de sustentação de existência – o que falta no “limbo emocional” em que se encontram. Algo que encontramos na noção de holding (WINNICOTT, 1975).
Notas
[1] Mestre em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
[2] Profa. Dra. do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
[3] Este trabalho é parte integrante da pesquisa de mestrado de Taís de O. Nicoletti, iniciada em 2017 sob o título “Conflitos Psíquicos na Ascensão Social” sob a orientação da Profa. Dra Marina F. da R. Ribeiro.
Referências
Aulagnier, P. (2001/1975) The Violence of Interpretation: From pictogram to statement. Filadélfia, EUA: Taylor & Francis Inc. (2001/1975)
Castanho, P. C. G. (2012) Um modelo psicanalítico para pensar e fazer grupos em instituições. 341 p., (Tese de Doutorado), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Kaës, R. (2011) Um Singular Plural: A psicanálise à prova do grupo. São Paulo: Edições Loyola Jesuítas
Pitol, P. (2012) A Ascensão da Classe “C” e os Investimentos de Private Equity no Brasil: Evidências da Relação em Negócios no Setor de Educação Superior. 114 p., (Dissertação de Mestrado), Fundação Getúlio Vargas, São Paulo.
Winnicott, D. W. (1982/1945). Desenvolvimento emocional primitivo. In D. W. Winnicott. Textos selecionados da pediatria à psicanálise (pp. 247-268). Rio de Janeiro: Francisco Alves.



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