top of page

A função vitalizadora do analista e a palavra viva na sala de análise: reflexões a partir de Thomas Ogden [1]

  • 28 de jun.
  • 25 min de leitura

Capítulo 7 do livro "Chuva n'alma: a função vitalizadora do analista", escrito por Fátima Flórido César e Marina F. R. Ribeiro.



A única verdade é que vivo.


Sinceramente, eu vivo.


Quem sou? Bem, isso já é demais.


Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, 1980, p. 50.


O objetivo deste capítulo é discorrer sobre o pensamento de Thomas Ogden no que se refere à compreensão das ideias de vitalidade e de desvitalização no processo analítico, além da linguagem vitalizadora do analista. Essas ideias são aqui articuladas com duas vinhetas clínicas de Fátima Flórido Cesar.


Antes que nos dediquemos diretamente ao tema proposto, é interessante pontuar, a partir da introdução do livro de Ogden, Leituras criativas (2014), como ele se apropria das ideias e das leituras que faz de outros autores da psicanálise, ou mesmo de qualquer leitura. Sua leitura é uma experiência: ele escreve o que vive ao lê-los. Nesse livro em particular, ele propõe uma leitura criativa de obras importantes de Freud, Fairbairn, Isaacs, Winnicott, Loewald, Searles e Bion.


Ogden (2014) afirma que a leitura criativa constitui uma experiência em que se faz algo ativamente com o texto, "tornando o texto nosso, interpretando de modo a acrescentar-lhe algo que não estava ali antes de eu ler" (p. 22). Um pouco mais adiante, ele diz que, quando lê, tenta ser tomado pela obra do escritor: ao ler um texto de Melanie Klein, torna-se kleiniano. Do mesmo modo, ao realizar uma releitura de "O medo do colapso", de Winnicott (1963/1994), como apresentaremos ao final deste capítulo, ele se apresenta winnicottiano e, a partir desse lugar, desenvolve suas próprias ideias sobre o texto mencionado.


Assim, pressupomos que, nas ideias que se seguem, Ogden apresenta-se "bioniano", mas de uma forma tal que, ao mesmo tempo que se mostra fiel às ideias do autor, não tem como objetivo expressar o "que ele realmente queria dizer". "Estou muito mais interessado no que esses autores sabiam, mas não sabiam que sabiam e na riqueza que esses textos expõem sem que seus autores tivessem intenção nem compreensão consciente" (Ogden, 2014, p. 24). Dessa forma, depreendemos das ideias que vamos expor mais adiante um Ogden bioniano, ampliando-as como "extensão" do trabalho de Bion e ressaltando que não saberia dizer exatamente onde termina o raciocínio do autor lido e começa o dele. "Ideias não vêm etiquetadas com o nome do seu proprietário" (Ogden, 2014, p. 26) - afirmativa que, além de ser uma expressão inspirada em Bion (1977/2015), denota sua liberdade de pensamento e seu modo de ler criativamente. Ademais, o que é de um e o que é de outro autor apresenta-se como tarefa impossível de discernir.


Ogden, que fez uma leitura criativa de conceitos seminais das obras de Bion, aconselha que o leitor decida a quem dar crédito por suas inferências:

Ainda que as palavras sobre a página permaneçam as mesmas, o que muda, quando faço uma leitura criativa bem-sucedida, são os significados das palavras e das sentenças, significados que aguardavam o momento de serem descobertos, mas que até então jamais encontraram um leitor que os descobrisse, que fosse modificado por eles, e que mudasse esses significados possíveis no processo de descobri-los. (Ogden, 2014, p. 32)

Fica-nos como proposta a leitura e a escrita como experiência. Ao escrevermos este texto, apostamos que a nossa escrita tenha transcorrido de modo criativo: que tenhamos nos apropriado, ao nosso modo, de Ogden, como este fez com Bion. Esperamos que nosso leitor igualmente se disponibilize a uma leitura criativa, ou seja, não passiva, que seja vivida como uma experiência.


Quando foi a última vez que analista e paciente sentiram a análise com vida? Assim Ogden (2013a) inicia seu texto "Analisando formas de vitalidade e desvitalização", pontuando o sentimento de vitalidade e desvitalização da transferência-contratransferência como medida central para a percepção do que ocorre no processo analítico. O autor destaca a necessidade de liberdade criativa e espontaneidade, de modo a responder ao analisando a partir de suas próprias experiências. Análise viva, linguagem viva constituem contraponto à linguagem morta, a um encontro analítico plastificado por dogmas ou paralisias do par.


Análise viva de modo a possibilitar a vitalização do paciente - na verdade, da dupla analítica. Uma análise viva requer que o analista esteja livre para experimentar, saindo do caminho estagnado das formas prescritas: diversas tentativas devem ocorrer, movidas pela curiosidade que une os participantes na perspectiva ativa e móvel de exercitar-se. A abertura para o inédito, para fora da monotonia, garante o que Ogden destaca como manutenção do experimento: quando os caminhos são imprevisíveis e cambiantes. Busca-se evitar, assim, as paralisias e a condução para lugar nenhum, quando de modo extremamente estéril o conhecimento é transmitido do analista para o paciente. No dizer de Ogden (2013a): "a forma de uma análise não deve ser fixada de antemão" (p. 25).


A escrita deste capítulo me fez lembrar da canção "Fake plastic trees" da banda Radiohead, que me foi apresentada por um paciente adolescente. Havia uma troca que eu julgava viva, enquanto eu apresentava poemas que ele recebia com vigor, ele me oferecia músicas de bandas estrangeiras, dentre as quais se destaca a mencionada. Essa, a meu ver, parecia relacionar-se à sua experiência familiar, aos pais distantes afetivamente, à hipocrisia dominante, à revolta abandonadora por terem descoberto a homossexualidade do filho; enfim, a falsos encontros e simulacros de vida:


A green plastic watering can 
For a fake Chinese rubber plant 
In the fake plastic earth 
That she bought from a rubber man 
In a town full of rubber plans 
To get rid of itself [2]

Árvores de plástico compradas de um homem de borracha, numa cidade de borracha, para livrar-se de si mesmo, fazem-me pensar numa família plastificada. Assim também, muitas vezes, o processo analítico se extravia quando se plastifica, quando as palavras surgem "encapadas", quando analista e paciente giram em redemoinhos, ou se acidentam como carros derrapados, perdendo o rumo do que seria uma análise viva.


Mas o que constitui uma análise viva? De que modo estaremos aptos a acompanhar os movimentos de vitalidade e desvitalização acontecendo na sessão? E como encaminharmos o processo analítico na direção de uma análise viva? São questões cruciais que nos fazem despertar ética e tecnicamente para a maneira de lidarmos com períodos de "banho-maria", "água morna"; enfim, extravios da vitalidade necessária tanto para o encaminhar do encontro quanto para o que Ogden (2013b) assinala como principal objetivo terapêutico:


Acredito que cada forma de psicopatologia representa um tipo específico de limitação da capacidade pessoal de estar plenamente vivo como ser humano. Deste ponto de vista, o objetivo da análise vai muito além da resolução de conflitos intrapsíquicos, da diminuição da sintomatologia, do aumento da subjetividade reflexiva e autocompreensão e do aumento do sentimento da competência pessoal. Ainda que se sentir vivo esteja intimamente entremeado com cada uma das capacidades acima mencionadas, a experiência de se sentir vivo é uma capacidade superior às outras e deve ser considerada como um aspecto da experiência analítica em si mesma. (p. 39)


Auxiliar o paciente na ampliação de sua experiência de se sentir vivo (considerando que alguns nem mesmo alcançam tal capacidade) constitui assim o principal objetivo da análise, não desconsiderando as outras conquistas. Complementando de modo singular tal objetivo, Ogden destaca o trabalho do par analítico para ajudar ovpaciente a tornar-se mais humano do que ele tem sido até então: "é a exigência da espécie humana, tão básica quanto a necessidade de alimento e de ar" (Ogden, 2013b, p. 31), e vai além da sobrevivência. Estar vivo liga-se, portanto, a tornar-se humano e é bem diferente de simplesmente sobreviver. O apreço de Ogden (2013a) pela literatura nos conduz às eloquentes palavras do Fausto de Goethe (1808/1984), que nos aproximam do sentido de estar vivo e da busca de um lugar dentro da experiência humana:

E quero que meu ser mais profundo compartilhe o destino de toda a humanidade, que eu entenda seus altos e baixos, preencha meu coração com todas as suas alegrias e tristezas, e amplie meu ser com o deles e, como eles, sofra naufrágios também. (Goethe, 1808/1984, p. 46)

A capacidade de estar vivo comporta, portanto, a possibilidade da experiência dos vários modos de estar no mundo e de acessar as várias facetas de nosso ser, alegrias e tristezas; inclusive sobreviver, saber submergir e emergir de naufrágios. É o que nos conduz ao pertencimento à espécie humana: ligamos aqui o sentir-se vivo com o experimentar o mais amplamente possível as emoções humanas.


Ogden (2013a) ressalta, entretanto, que faz parte de toda a humanidade a incapacidade de sermos plenamente humanos e, desesperados, fazemos "silenciosos pactos" (p. 32) - na maior parte inconscientes - que seriam soluções patológicas. Deixamos assim, em grande medida, de nos tornar humanos, podendo mergulhar no inumano - substituindo a vida por modos de existir nem humanos, nem vivos. Modos plásticos de viver; eis o cerne da psicopatologia pensada por Ogden. O resultado não é vida, mas imitação da vida e da experiência humana: "uma forma de autolimitação inconsciente da capacidade de vivenciar estar vivo como ser humano" (Ogden, 2013a, p. 33).


Seguindo com Ogden (2013a):

A limitação da capacidade de estar vivo pode se manifestar de inúmeras formas, até mesmo com a constrição da amplitude de sentimentos, pensamentos e sensações corporais, restrição da vida onírica e de reverie, um senso de irrealidade nas relações consigo próprio e com outras pessoas, ou com o comprometimento da capacidade de brincar, de imaginar, de usar símbolos verbais e não verbais ou representar a própria experiência. Não só aceitamos, mas adotamos essas e outras limitações da nossa capacidade de estar vivo, quando a possibilidade de estarmos mais plenamente vivo como ser humano implica uma forma de dor psíquica que tememos não suportar. Ao adotarmos essas formas de desvitalização psíquica, sacrificamos parte de nós mesmos em troca da sobrevivência do todo, mas descobrimos que o todo consumiu grande dose de vitalidade no processo. (pp. 33-34)

Encontros de plástico?


Por que saí de onde estava, se não estava em casa de ninguém?


Samuel Beckett, Novelas e textos para nada, 1958/2006.


Já estamos há alguns anos juntas, Katherine e eu. Patinamos tantas vezes em redemoinhos sem destino: quanto de vivo e quanto de inumano habita nossos encontros? O que a mantém na análise, qual busca a torna assim determinada a prosseguir; enquanto eu, do meu lado, me sinto arrastada por correntezas de desvitalização que acabam desembocando em águas paradas?


Já uma senhora de nos quase 70 anos, preza pelo corpo esguio, com músculos tonificados, apesar das dores que a invadem devido a sequelas de cirurgias nos quadris. Podia ser bela, mas as roupas sempre escuras, a postura, o cabelo sempre muito curto inibem uma possível exuberância que se ocultaria por trás dos olhos azuis e dos traços finos. Uma rigidez esculpida na forma como se apresenta e como se comunica (por meio de excessivas intelectualizações) se contrapõe ao meu estilo mais leve de falas e de recebê-la em roupas coloridas, as quais ela segue com o olhar atento, curiosa frente ao contato com a diferença.


Filha mais velha de sete irmãos, ficara a seu encargo cuidar deles. A mãe, imigrante de país frio, tomara-a como confidente. Entre falas, diz-me palavras da língua materna, modo de chamar a mãe, embora em tom arrogante que oculta desde sempre algo de frágil. Era mãe da mãe, dizia, mas estava tudo certo: as dores no corpo não se transpunham à alma. Tudo fora como tinha de ser. Cuida do marido, este, bastante retraído: a mulher é sua ponte com o mundo. Três filhos, netos e a insistente declaração do insuportável de se sentir insubstituível: por isso tomara remédio para secar o leite e "escapar" de amamentar seus bebês. Defende com veemência o apreço pela independência conquistada desde sempre e a vulnerabilidade diante de se ver diferente.


Encontrara algo em mim, minha existência fazendo eco à sua secreta solidão - mostra prazer em me encontrar -, entretanto, sempre o pormenorizado relato do cotidiano e o excesso de racionalizações me faziam sentir que percorríamos territórios áridos, terras estéreis. Também nós duas fizemos o leite secar?


Procurava alcançá-la, encontrar a palavra viva que pudesse trazê-la para fora desse invólucro que a distanciava das emoções. Buscava um caminho que possibilitasse a ampliação do sentir-se humana para além das queixas e dores rarefeitas. Eu me sentia fracassando e, como se à semelhança de Sheherazade, contava a cada encontro uma história, para que a esperança de um destino fértil não derrocasse, não fosse assassinada, enfim, nesse cenário em que eu experimentava uma imitação da vida.


Até que vai se distanciando, pede um tempo, diz que se sente dependente da análise e que, como sempre me dissera, não gosta de dependência. Não sei o que eu falara, possíveis palavras de plástico; ao mesmo tempo, pressentia que algo de novo se aproximava, escapando do script de anos. Algo a ameaçava, algo me fazia lançar-me ao seu encontro. Falo para ela da importância de continuarmos e completo: "Tem algo delicado aí".


Na verdade, pensara em frágil, mas, seguindo Ogden, como veremos adiante, percebi que fizera essa escolha porque tão importante quanto o conteúdo é a maneira como a linguagem é emitida. A ideia de fragilidade parecia e parece ser seu maior temor - daí falar-lhe de forma cifrada, ou melhor, sutil. A fragilidade é vizinha da delicadeza: alcançar um paciente exige, muitas vezes, um simples "tocar" com palavras que podem ser ouvidas. Aquilo que brota na experiência entre analista e paciente requer cuidados, e um simples "tocar" com palavras sutis pode fazer florescer possibilidades de um vir a ser mais humano e vitalizado.


Após curto silêncio, Katherine me relata que tem gostado de assistir documentários sobre animais. Num desses, o casco de uma tartaruga fora perfurado, e assim ficava à vista seu pulmão. Espontaneamente, num esgar de desconforto e susto, digo: "Que horror!", e também faço caretas. Uma fala viva?


Em seguida, ela diz que a veterinária fizera numa impressora 3D uma prótese para cobrir o buraco no casco. A esperança do cuidado e da cura possível parece emergir, falando por meio dessa fértil narrativa tanto sobre seu drama pessoal quanto sobre a possibilidade de manutenção do vínculo analítico comigo.


Sua comunicação me alcança, pavimentando o caminho de compreensão que eu já vinha tateando: precisa abrigar-se de ameaças de deslizar da casca para o núcleo do ser, este que deve manter-se indecifrável. Sua fragilidade constitui solo instável, algo muito amolecido, passível de se esfacelar se o agarrarmos desastradamente: um susto subjaz a tamanha rigidez - um íntimo frágil e delicado. Muitas vezes faltam-me fábulas, então escorrem águas turvas, paradas e sem vida - parece, então, num extremo de desvitalização vivido pela dupla - que nada acontece.


Depois da sessão, lembro-me de uma paciente de Winnicott (1963/1979, p. 228) que, independente, se tornou, em sonho, extremamente dependente. Sonha que tinha uma tartaruga com o casco mole, de modo que estava desprotegida e podia sofrer. Então, mata a tartaruga para salvá-la do sofrimento intolerável que poderia vitimá-la. Desde sempre esse caso de Winnicott (1963/1979) me impressionou: como conceber a existência de uma tartaruga sem casco? Que impensável! Que algo próximo da agonia primitiva! E que horror o pulmão revelado! Essa transparência aterrorizadora! Essa ameaça de chegar ao núcleo inviolável do ser.


Ficamos assim bem próximas de uma verdade emocional: o mais vulnerável se protege com mil roupagens, cascas e cascos para não ser alcançado. Tocar nela é como esbarrar no pulmão: o respirar que mantém o ser vivo. Após essa sessão, Katherine interrompe a análise, mas, para minha surpresa, retorna dois meses depois.


Penso que a comunicação que se estabeleceu entre nós, fincada num solo de confiabilidade, foi a experiência em que mais nos sentimos vivas e conectadas. Katherine, por meio de seu relato do casco aberto da tartaruga, se aproximara de algo muito verdadeiro: toda a plastificação, a aparente restrição de seus objetivos da análise - "autoconhecimento e ter insights" -, ocultavam o temor de se aproximar de uma experiência emocional muito dolorida, mas que poderia torná-la mais humana.


Quando ela retorna a análise, reconheço que a separação fora necessária. Pensei como Ogden (2013a), que afirma que "uma análise deve ser livre para exercitar-se, para modelar-se e ser modelada de qualquer jeito que os participantes tenham condições de inventar" (p. 25). Essa foi a invenção possível e necessária de Katherine, pois supus um temor de que pudéssemos nos aproximar de um modo fusional, algo ligado às experiências de origem com a mãe. Dependência para ela equivalente a perder-se no outro. O intervalo dado fora um respiro para fora da ameaça de perder as fronteiras e misturar-se a mim. De qualquer modo, acredito que e que experimentamos juntas, anteriormente à sua partida, não desfizera o contato com a verdade e, também, preparou sua volta com maior vitalidade e abertura ao inusitado. Esse foi o resultado criativo de nossa parceria.


Ogden diz, após um estudo extenso da obra de Bion, na introdução de seu livro Reclaiming unlived life (Restaurando vidas ainda não vividas, 2016b), que no centro do processo analítico situa-se a busca da verdade: estar em contato com - intuir - a verdade conecta-se intimamente com o fenômeno da vitalidade da sessão. Um encontro vivo envolve o par analítico numa verdadeira experiência. Para ele, o inconsciente não tem apenas a função de busca de significado, mas de busca da verdade. Essa aproximação da verdade não precisa ser via confronto: a verdade não é para ser apontada, mas Ogden destaca que vive com o paciente até que ele seja capaz de experimentar a verdade por conta própria, expressa de maneira verbal ou não verbal.


Aqui começamos a destacar a importância dada por Ogden (2016b) à linguagem: "A linguagem não é apenas uma cesta em que as ideias são transmitidas: a maneira pela qual a linguagem é usada para declarar uma ideia é inseparável do seu conteúdo" (p. 8),


Continuando, Ogden (2016b, p. 9) pontua a fundamental diferença entre "explicar" e "entender", que servem para destacar princípios fundamentais da prática. A explicação, como diz o autor, objetiva o paciente. Eu poderia ter falado para Katherine: "Percebo uma fragilidade em você". Teria sido desastroso e romperia nosso vinculo de confiança. Nesse caso, o analista estaria falando do paciente, e não com o paciente. Se me comunicasse com Katherine em termos de "explicação", incorreria no grande erro de acirrar sua tendência à intelectualização, ao encastelamento em suas racionalizações, lançando-a cada vez mais longe da experiência emocional e da verdade. Procuro evitar, como adverte Ogden, as leis de causa e efeito ou do tempo sequencial.


Diverso da explicação, o entendimento começa com a experiência do par analítico. Essa fase da compreensão implica uma forma primitiva, um tanto indiferenciada de sentimentos entre paciente e analista e entre mãe e bebê. Destaca-se aqui um paradoxo: a compreensão é uma forma de comunicação muito mais íntima que a explicação, mas, ao se desenvolver, dá paulatinamente lugar à consciência do paciente e do analista de sua separação. Envolvem-se assim unificação e separação simultâneas.


Compreender e não explicar constitui uma tarefa difícil: uma direção técnica como possibilidade de salvaguardar o alcance do paciente e a abertura para a aproximação da verdade emocional, num cenário em que pode despontar a vitalidade necessária para o avançar de uma análise viva - um trabalho constante para um analista que tem em seu horizonte a busca do humano e da vitalidade. Nas palavras de Ogden (2016b):


"Compreender", nesse sentido, é um fenômeno ontológico, uma experiência na qual um aspecto do ser essencial é reconhecido por outra pessoa. Isso pode ser alcançado apenas em um relacionamento em que existe, tanto para o paciente quanto para o analista, um sentimento de profunda confiança. Na ausência de tal confiança, ser compreendido é aterrorizante. (p. 10)

Algo de vitalidade e de humano emergiu no meio de cenários plásticos: uma flor, tal qual aquela de Drummond (1967, p. 140), fertilizou o concreto, furou o tédio, o asfalto ou as ruas de borracha da canção de meu paciente adolescente. Katherine, que saíra de lugar nenhum, outrora despossuída de si mesma, encontrara por ora a casa possível, mesmo que efêmera palafita.


Um analista em busca de sua voz própria


Cultivar o deserto

como um pomar às avessas

então, nada mais

destila; evapora;

onde foi maçã

resta uma fome.

onde foi palavra (potros ou touros contidos)

resta a severa

forma do vazio.


João Cabral de Melo Neto, "Psicologia da composição", 2003, p. 97.


Reconhecemos em Ogden a importância da linguagem como caminho de possibilidade da apreensão e transmissão do sentido da vitalidade e da desvitalização da experiência humana no cenário analítico. Na esperança de que isso já venha se desenhando desde o início de nossa comunicação, pretendemos agora prosseguir na reflexão a respeito da necessidade da palavra viva, como viabilizadora da emergência da vitalidade e da experiência humana compartilhada no encontro terapêutico. Iniciamos com as palavras de Ogden (2013c):


Sugerimos que o analista deva lutar ativamente com a linguagem no empenho de criar ideias e frases e voz própria para pronunciá-las. A luta para transmitir a própria experiência com palavras, e com voz própria, é grande parte do que constitui estar vivo na relação analítica. (p. 202)

Para que a análise seja um acontecimento humano, é preciso que tanto nós mesmos quanto nossos analisandos façamos uso da palavra simples e viva, possível caso emerja a partir de nossa própria voz, de nossas próprias palavras, e não determinada pelos dogmas, prescrições analíticas, filiação a técnicas ou escolas analíticas. Reconhecemos, no entanto, assim como Ogden, que a capacidade de falar simplesmente não é fácil: o simples que significa uma voz que soe espontânea, não "terapêutica", humana (Ogden, 2013a, p. 28), no sentido de abarcar os inúmeros modos de sentir e ser - o transitar entre altos e baixos da emoção humana, beirando precipícios. Como diz Fausto (1808/1984, p. 46), nada que seja humano escapa do risco de naufrágios. É preciso muito treino e experiência - consistindo numa grande conquista, a capacidade de simplesmente falar com nossos analisandos: uma comunicação viva e vitalizadora.


Para apreender em palavras a experiência de estar vivo, é preciso que a palavra esteja viva. Mas o que constitui uma palavra viva? Esta precisa habitar um campo de imprecisão, de não fixidez de significados, de movimento constante, de modo a se apresentar diferentemente no decorrer dos encontros, mostrando-se nova no momento seguinte. Tal qual a vida é cambiante, assim devem transcorrer os encontros terapêuticos, libertos de fixidez e possibilitados por uma linguagem sempre mutável. A linguagem estagnada - tanto do analista como do analisando - perde sua principal tarefa, que é transmitir o sentido da experiência humana viva. É imprescindível para a manutenção da vitalidade no encontro analítico uma linguagem de incertezas e dúvidas, quando só assim estaremos passíveis de habitar um lugar de lucidez, ainda que sempre precária, lusco-fusco capaz, entretanto, de constituir oferta de possível abrigo fértil na precariedade do existir; paradoxalmente, no que não se fecha nem se conclui, no que se sabe pouco.


De modo contrário, sobressai a falta de vitalidade da linguagem analítica: a mais comum é quando o analista se atém com lealdade a vinculos ideológicos, adotando a linguagem de sua escola analítica. Ogden (2013c) afirma:


A linguagem analítica ideológica já não está mais viva, porque decide desde o início a resposta às perguntas que já são conhecidas pelo analista e a função da linguagem reduziu-se a demonstrar esse conhecimento para o analisando. Há uma pobreza na desenvoltura com a "linguagem que vive acima de experimento, da incerteza, da variedade das tentativas" (James, 1884, pp. 44-45). (p. 198)

Nesse tipo de fala teórica, falta a imaginação do analista, que "perdeu sua capacidade de pensamento original e a aptidão de falar com sua própria voz; ele delegou sua mente e seu uso de linguagem a outro (real ou imaginário) e frequentemente não percebe.


Nessas interpretações, a linguagem do analista reflete o fato de ele usar uma voz emprestada e, assim, estar mudo. Esse tipo de comunicação, de tão assustadora, pode levar o analisando a esconder do analista o reconhecimento de que em certo sentido "este perdeu sua mente" (Ogden, 2013c, p. 199).


Ogden contrapõe, portanto, a palavra viva à linguagem morta, à retórica terapêutica seca: "a fala do analista deve ser criação de uma pessoa viva. A fala humana viva é tão difícil de adquirir na linguagem falada do analista quanto na prosa ou no verso escrito" (Ogden, 2013a, pp. 28-29).


Estamos cada vez mais adentrando no pensamento de Ogden sobre a importância da linguagem como meio de trazer ao encontro analista-analisando a vitalidade: o acontecimento de uma experiência humana, assim como o contato com a verdade emocional. "A linguagem não é um pacote em que se embrulham as comunicações, mas o meio pelo qual se traz a vivência à vida no processo de ser dita ou escrita" (Ogden, 2013c, p. 183). Encaminha-nos para o reconhecimento da "vitalidade das palavras (e da vitalidade)" em palavras que acontecem na situação analítica.


Seguindo o que foi falado há pouco: é preciso a salvaguarda da imprecisão, não dar respostas fixas, não chegar (ao significado exato), não saber demais. Estamos no campo do humano, do que está em constante movimento, nós, seres inexatos e imprecisos. Para acessar a experiência de tal cambiante natureza, faz-se necessário o desenvolvimento de uma linguagem que a ela se sobreponha:


O discurso analítico exige do par o desenvolvimento de uma linguagem metafórica adequada à criação de sons e significados que reflitam como é pensar, sentir, e vivenciar fisicamente (em resumo, estar vivo enquanto ente humano na sua capacidade máxima) em um dado momento: o analista, quando cria afirmações metafóricas que constituam interpretações, não deve ser invasivo no intuito de demonstrar destreza com as palavras. (Ogden, 2013c, p. 189).

Em suma, que não ofereçamos interpretações secas, que não saibamos demais. Desse modo, estaremos aptos a desenvolver a capacidade de "criar sentimentos por meio das palavras, no lugar de exibir sentimentos por palavras" (2013c, p. 189). Fica-nos claro que o acontecer no setting analítico em termos de vitalidade e desvitalização exige que nos esquivemos da palavra árida, "desmetaforizada", seca, explicativa, causalista. Como já foi dito, não constitui tarefa simples o trânsito de palavras irrigadoras capazes de criar e captar a experiência humana, que possibilitem o emergir da ampla gama de emoções humanas: isso é vitalidade/vitalização. E, portanto, para Ogden, a linguagem tem importância central na psicanálise; principalmente se temos como objetivo "ajudar o analisando a efetuar mudança psíquica que lhe permita ser mais plenamente humano" (Ogden, 2013c, p. 195).


Analista e analisando estruturam cada um a linguagem (o modo de cada um falar ao outro) com o objetivo de estarem juntos, descrevendo inclusive os medos mais urgentes (a dor psíquica) que impedem o analisando de experimentar o encontro de maneira mais plenamente humana.


Nesse sentido, atravessei com Katherine um momento de extrema fragilidade: uma ansiedade relacionada ao pavor frente à dependência e ao risco de ser invadida. As palavras a mim dirigidas, à semelhança de uma fábula, estavam vivas, próximas de uma verdade muito dolorida, e me convocaram a ir ao seu encontro de um modo que possibilitou a vivência de uma experiência transformadora juntas.


Ela se apresentara a mim com uma rigidez (exposta inclusive no corpo), se sustentando (precariamente, decerto) em suas intelectualizações, suas crenças a seu próprio respeito carregadas de certeza. Por meio delas, criava ilusões de permanência e de fixidez a respeito da experiência do self e de seus objetos internos.


Ogden pontua também a função da linguagem para desarrumar tais crenças e certezas e o fato de que ela adquire seu poder máximo não na oferta de insights, mas ao engendrar possibilidades, "ondas", com o objetivo de criar condições de ajudar analista e analisando a saírem do redemoinho em que estão presos empreitada, assim afirma Ogden, nem sempre totalmente bem-sucedida. Volto a pensar em Katherine, propondo como hipótese que minha curta fala tenha bagunçado seus o relato vivo, encarnado na tartaruga ferida, de suas próprias dores rígidos arranjos internos. O resultado fora disfarçadas na frase que sempre repete: "no final, tudo se ajeita". Foi repetida: poderia comunicar esperança, acredito, porém, que diz da agora em seu retorno que passei a escutar tal fala insistentemente invariabilidade dos finais felizes, da defesa diante da possibilidade de contato com a novela humana, a qual inclui finais infelizes, desastres e naufrágios - estes também parte da experiência humana.


Reconhecemos a estreita ligação entre vitalização e vitalidade com a linguagem viva, com a manutenção da capacidade imaginativa do analista e de sua mente própria, com a criação da própria fala e da própria voz - criação esta vista por Ogden (2013c) como um "ato de liberdade" (p. 202): "Linguagem morta, estereotipada, a fala sendo emitida apenas através de lugares-comuns: é assim que as interpretações perdem a vitalidade, 'pré-embaladas enviadas a ninguém em especial por ninguém em especial" (р. 199).


Assim como falamos de "imitação da vida, assistimos aqui à "imitação da análise" (Ogden, 2013c, p. 201). Uma análise encapada, plastificada, que prioriza a certeza e o conhecimento em oposição ao provisório, ao permanente sentido cambiante; paralisia e fixidez em oposição ao movimento, à mudança, ao que surpreende.


A linguagem viva buscando a restauração de vidas ainda não vividas


A fala com cada paciente é única: com cada paciente num modo diferente, com diferentes tons de voz, diferentes afinações, volume, uma comunicação que para outra pessoa precisaria ser dita de outro modo, pois para cada pessoa precisa ser dita de um jeito diferente, assim adverte Ogden (2016, p. 3). Quando escolho a palavra "delicadeza" para Katherine, talvez para outro paciente falar "fragilidade" seria possível e adequado. Com cada analisando, afirma Ogden, precisamos nos tornar uma pessoa diferente em algum grau, falando de modo diverso com cada um. Conversa verdadeira e íntima caminham pari passu. O ritmo também é diferente para cada um, sendo que o ritmo da conversa analítica é único, divergindo do de qualquer conversa. "E tal conversa é uma criação que somente esse paciente e esse analista (o analista que estou me tornando na análise) poderia trazer à vida dessa maneira particular" (Ogden, 2016b, p. 3, grifos do autor). Os grifos do autor apontam para o ineditismo de cada conversa analítica. Se a análise não se dá para esse paciente em particular, ela se torna genérica e impessoal para ambos os participantes. Esse modo especial da dupla de se encontrar é condição de manutenção de vitalidade no setting analítico; caso contrário, o tédio e a aridez podem dominar o cenário.


Ogden encaminha-nos em seguida para a pergunta: o que ele está fazendo com alguém em análise? E uma importante resposta é dada: cada paciente traz para a análise a sensação de que em um importante sentido "morreu" na infância, ou numa fase posterior, e espera que o analista o auxilie a restaurar "sua vida não vivida". A fonte da morte psíquica é uma série de eventos ocorridos na infância, que envolveram "agonias primitivas" (Winnicott, 1963/1994, p. 72), as quais o paciente não pôde suportar. Ameaçado por tais vivências de terror, o "paciente se ausenta de sua vida", protegendo-se assím de um colapso psíquico e de uma psicose. Paradoxalmente, os eventos aterradores não sendo experimentados, geram um estado psíquico tal que uma "vida não vivida" persiste.


Ogden destaca que todos nós temos aspectos não vividos de nossa vida que foram muito dolorosos de serem experimentados. O "não vivido" permanece como formas de limitações em nossa personalidade. O autor ressalta que estamos sempre envolvidos no trabalho inconsciente de sonhar acordados ou dormindo, sozinhos ou com os outros com o objetivo de integrar os aspectos não vividos de nossas vidas.


Tais ideias tão importantes aqui nos interessam na medida em que nos colocam como tarefa analítica o desenvolvimento de uma linguagem viva que possibilite o trabalho de restauração da vida não vivida do paciente. Ogden (2016a), em seu texto "O medo do colapso e a vida não vivida", a partir de uma reflexão sobre o texto de Winnicott (1963/1994), "O medo do colapso", desenvolveu seu pensamento sobre "a vida não vivida". É próprio do existir humano, como já foi dito aqui, a persistência de porções da vida que ainda não foram vividas e que clamam por integração com o propósito do indivíduo de completar-se - de vir a ser o que é. Fazendo sua própria interpretação do conceito winnicottiano de breakdown, Ogden o remete a uma quebra, a um corte no vínculo mãe-bebê, em que este é lançado a uma condição extrema de desamparo e ameaçado de não existência. O termo breakdown, para Ogden (2016a), refere-se à ruptura do vínculo mãe-bebê, não a um surto psicótico; a psicose constitui uma defesa contra a experiência de ruptura. Quando isolado de sua mãe, o bebê lança mão da defesa psicótica de desintegração como recurso paradoxal para livrar-se da agonia que surge de não conseguir se organizar: ele produz um estado de autoaniquilamento.


Como não tinha constituição psíquica suficiente para experimentar a quebra do vínculo mãe-bebê que ocorreu na infância, o indivíduo vive com medo de um colapso que já aconteceu, mas que ele não experimentou. Ogden (2016a) amplia o pensamento de Winnicott, supondo que o que mobiliza o paciente para encontrar a fonte do medo do breakdown é o sentimento de que partes dele estão em falta e que precisa encontrá-las para tornar-se inteiro: o que resta de sua vida é principalmente uma vida não vivida. Aqui, reconhecemos o que Ogden destaca como uma das mais importantes tarefas da análise: o indivíduo, não tendo experimentado partes do que aconteceu na primeira infância, clama por reivindicar essas partes, de modo a completar-se por meio da integração do máximo possível de sua vida não vivida (não experienciada). Esta é uma necessidade universal: a necessidade de ter a oportunidade de tornar-se a pessoa com o potencial de ser que lhe é próprio. Devemos ressaltar que a hipótese de Winnicott (1963/1994), da qual Ogden partiu, é de que o medo do breakdown é um medo de um colapso que já aconteceu, mas não foi experimentado.


Ampliando o pensamento de Winnicott, Ogden (2016a) destaca que todos nós passamos, em diferentes graus, por breakdowns relevantes no vínculo mãe-bebê e nos defendemos deles por meio da ativação de organizações defensivas psicóticas.


Retornamos aqui à importância da capacidade de estar vivo e sempre, a partir dessa ideia, da necessidade de o analista auxiliar o analisando a sentir-se mais plenamente vivo por meio da integração de aspectos da vida não vivida. Permanecer vivo, em nossas experiências, constitui a base para o começo de um existir pleno. Entretanto, todos nós em alguns momentos perdemos tal capacidade, tornando-nos incapazes de nos sentirmos vivos dentro de nós ou para o mundo que nos cerca. Limitações (da capacidade de sentir alegria, de amar um ou todos os nossos filhos, de sermos generosos, de perdoar alguém) constituem aspectos de nossa vida não vivida e se referem ao que não pudemos ou continuamos incapazes de experienciar. A busca do não vivido é condição universal: o retomar as partes perdidas de nós mesmos.


É relevante destacar o que Ogden (2016a) afirma como um grande objetivo da análise: o analista ajudar o paciente a viver sua vida não vivida na transferência-contratransferência. A mais fundamental reivindicação do paciente se dirige à sua vida não vivida: à procura de aspectos não vividos e não experimentados, no passado e no presente.


Sentir-se vivo pode ser demasiadamente dolorido para pacientes com formas agudas de medo de um breakdown, pois aponta para o quanto de sua vida não puderam viver: a vida lhes foi tirada, o que gera extrema dor.


Ogden (2016a) identifica, como atitude analítica fundamental para ajudar um paciente a experimentar aspectos perdidos de si mesmo, o reconhecimento e a valorização dos caminhos mais sutis e surpreendentes buscados por aquele, com o intuito de experimentar, pela primeira vez, eventos não vividos de seu passado. Um caso dele mesmo é descrito para ilustrar a morte já vivida na infância precoce: no cenário analítico fazem sua aparição tanto a esterilidade de ambas as partes como as inusitadas intervenções do psicanalista no sentido de um reconhecimento dos aspectos mais saudáveis da paciente.


Uma palavra


Palavra prima

Uma palavra só, a crua palavra

Que quer dizer

Tudo

Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva

Que se produz

Palavra com temperatura,

palavra Muda

Feita de lua mais que de vento, palavra


Chico Buarque de Holanda, "Uma palavra", 1997.


Reconheço em minha história com Katherine uma busca por me aproximar com intervenções construídas de um modo o menos estereotipado possível. Talvez o que de mais verdadeiro minha paciente tenha apresentado fora a decisão de interromper (como também o relato a respeito da tartaruga): uma decisão para se proteger momentaneamente do terror que representa sentir-se dependente. Ogden (2013a) nos aconselha (e o demonstra por meio de sua própria experiência clínica) a afinar nossa escuta, olhar e sons da fala para movimentos do paciente que poderiam ser interpretados como adoecimentos, reação terapêutica negativa, resistência etc.


São vários os exemplos clínicos desse autor em que nos é apresentado o atravessamento de momentos de desvitalização até que se alcance ou se recupere a vitalidade momentaneamente perdida pela dupla. Somos aqui remetidos de modo particular à história com Katherine, mas ainda a qualquer atendimento em que emergem ameaçadoras vivências estéreis, desprovidas de mudança e movimento. Uma atenção desatenta aqui requerida, já que, seguindo o pensamento de Ogden (2016a), é condição universal a busca de aspectos da "vida não vivida".


A palavra grávida, inexata, prenhe de (des)caminhos férteis, de atalhos imprevistos, que promove compreensão e não explicação, deve fazer parte do repertório anímico de todo analista, estando este de posse de sua imaginação e liberdade criativa. Mesmo que atravessemos desertos de desvitalização (e isso é certo de acontecer), o retorno aos territórios férteis deve manter-se no horizonte de toda análise que se pretende viva. Para isso, como adverte Ogden, é preciso treino e experiência:


"Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho" (Lispector, 1977/2017, p. 47).

Notas


1 Originalmente publicado na revista Ágora (PPGTP/UFRJ), v. 25, р. 18-26, 2022.


2 Um regador de plástico verde/ Para uma falsa planta de borracha chinesa/ Na terra plástica falsa/ Que ela comprou de um homem de borracha/ Em uma cidade cheia de planos de borracha/ Para se livrar de si. [N.T.].


Referências


Andrade, C. D. (1967). Obra completa. Companhia José Aguillar.


Beckett, S. (2006). Novelas e textos para nada. Assirio & Alvin. (Trabalho original publicado em 1958)


Bion, W. R. (2014). Attention and interpretation. In W. R. Bion, The complete woks of W. R. Bion. Karnac Books. (Trabalho original publicado em 1970)


Bion, W. R. (2015). Domesticando pensamentos selvagens (Luiz Carlos Uchõa Junqueira Filho, Trad.). Karnac. (Trabalho original publicado em 1977)


Bion, W. R. (2019). Capacidade negativa. In W. R. Bion, Capacida-de negativa. O caminho em busca da luz (Aile Stürmer, Trad.). Zagodoni. (Trabalho original publicado em 1977)


Goethe, J. W. (1984). Faust I and II. In S. Atkins (Ed.), Goethe: The Collected Works (S. Atkins, Trad.; Vol. 2). Princeton University Press. (Trabalho originalmente publicado em 1808)


Holanda, C. B. de. (1995). Uma palavra. In Uma palavra. Sony & BMG.


Lispector, C. (1980). Perto do coração selvagem. 9ª ed. Nova Fronteira.


Lispector, C. (2017). A hora da estrela. Rocco. (Trabalho original-mente publicado em 1977)


Melo Neto, J. C. (2003). Psicologia da composição. In J. C. Melo Neto, Obra completa. Nova Aguilar.


Ogden, T. (2013a). Analisando formas de vitalidade e de desvitalização. In T. Ogden, Rêverie e interpretação. Captando algo humano. Escuta.


Ogden, T. (2013b). Sobre a arte da psicanálise. In T. Ogden, Rêverie e interpretação, Captando algo humano. Escuta.


Ogden, T. (2013c). Sobre o uso da linguagem em psicanálise. In T. Ogden, Réverie e interpretação. Captando algo humano. Escuta.


Ogden, T. (2014). Leituras criativas. Ensaios sobre obras analíticas seminais. Escuta.


Ogden, T. (2016a). O medo do colapso e a vida não vivida. In T. Ogden, Livro anual de psicanálise (Vol. XXX, T. 1, pp. 77-93). Escuta.


Ogden, T. (2016b). Reclaiming unlived life: experiences in psychoa-nalysis. Routledge.


Radiohead. (1995). Fake plastic trees. In The bends [CD]. EMI.


Winnicott, D. W. (1979). Dependência no cuidado do lactente, no cuidado da criança e na situação psicanalítica. In D. W. Winnicott, O ambiente e os processos de maturação (pp. 225-233). Artes Médicas. (Trabalho originalmente publicado em 1963)


Winnicott, D. W. (1994). O medo do colapso. In D. W. Winnicott, Explorações psicanalíticas. Artes Médicas. (Trabalho originalmente publicado em 1963).

 
 
 

Comentários


© 2023 by Train of Thoughts. Proudly created with Wix.com

bottom of page